25 de Novembro de 2004

Primeiro Encontro

“ A vida é de facto feita de momentos, que a marcam e a definem que a temperam e agitam, que lhe dão cor e direcção” .


Esperava, de pé, na calçada do passeio, na beira da marginal, duma cidade à beira mar.
Nas suas costas o oceano, na sua frente um estádio de futebol.
Esperava por alguém que havia conhecido na net...

Um encontro igual a muitos outros milhões que diáriamente acontecem por esse mundo, das mais variadas formas, envolvendo pessoas tão diferentes e tão diversas que jamais aconteceriam duma forma convencional.

Era alta, esbelta, cabelo curto alourado de menina de colégio dos anos 60...ou 70, camisola de gola alta branca, com um casaco de cabedal por cima...calças de lycra azuis.

Foi ali que os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.
Atravessou decidida a estrada ao meu encontro.

Trazia nos olhos um brilhozinho estranho, no rosto um sorriso aberto e trocista a que a covinha na face dava relevo.
Na voz clara e bem timbrada, um nervosismo dissimulado na saudação "Olá ...".
No andar, um ar lascivo de fêmea envolto na inocência maravilhosa de menina.
Ela é isto mesmo, no carácter, na forma de sentir a vida, na forma de a analisar, na forma de a viver.
É uma mulher vibrante. É uma menina inocente.

Saí do carro ao seu encontro... o nosso primeiro contacto aconteceu ali mesmo, de pé, encostados à porta do carro.
Um aperto de mão, a dela tremia ligeiramente, a minha não sei...um beijo na face.
Saíram palavras nervosas, momentâneas, pela necessidade nata de falar, de dar som ao encontro.
Acho que estávamos ambos nervosos e ambos também tentando mostrar a maior naturalidade do mundo.

Eu já havia conhecido outras mulheres da net... encontros formais, daqueles que a gente sabe no primeiro instante que será o primeiro e o último, que só se alongam um pouco por delicadeza.

Neste caso a sensação, o impacto, foi outro, acho que ambos tivemos a sensação e a certeza que seria o primeiro entre muitos ao longo do tempo.

Deu a volta ao carro e entrou. Sentou-se e olhou-me séria.
Não entendi o olhar e pensei que estivesse a estudar-me, a pensar se teria ou não feito mal ao entrar no carro.
Parecia tranquila ao mesmo tempo,como se já me conhecesse há muito tempo.
Eu tinha nas minhas mãos uma flor em cristal que lhe havia trazido. Desembrulhei nervoso e dei-lha.
Pegou-lhe com as mãos, dedos longos e finos de mulher e olhou-a muito séria e o brilhozinho nos olhos acentuou-se.
Levantou os olhos para mim, parecia emocionada, mas pensei que esse olhar poderia igualmente ser de desilusão.
Disse-me: - “É linda ...sabes, o ramo de flores do meu casamento era de tulipas”.
Soube nesse momento que aquela flor feita em cristal era uma tulipa, vermelha.
Não percebia muito de flores, dos seus nomes. Só sabia do cheiro delas e de cores.
Gostei de ouvir aquilo, mas pensei igualmente que poderia estar a tentar ser delicada.
Ficámos calados e sérios por momentos e um beijo rolou...na boca...em silêncio, cuidadoso, delicado, nervoso.
Na rua, na frente do carro, uma senhora fina com um cão pela trela "copiava " a cena com um ar severo de reprovação, ou inveja.

Deixou-me intranquilo e tenso. Falámos, dizendo nada. Acho que esperando que o raio da mulher saísse dali...mas ela não saía.
Ficámos algum tempo, esperando não sei o quê; talvez que a mulher saísse, o que ela não fez.
Decidimos finalmente sair dali. O hotel não era alternativa por razões óbvias. Fomos embora sem destino nem direcção até que apareceu um parque de estacionamento onde entramos.
Comprei o bilhete ao que ela se opôs, achava que não era necessário.
Entrámos no parque. Paramos na sombra dum enorme paredão. Olhamos, não havia ninguém por ali. Aproveitamos e beijamo-nos de novo. Desta vez um beijo mais longo, descontraído, intenso.
Minhas mãos mexeram, no corpo, na pele, nos seios por cima da roupa. Tiraram a medida e gostaram. O prazer do toque excitou-me. Não aquela excitação primária do macho conquistando a fêmea, mas aquele tipo de sensação que funciona no corpo, na mente, na alma, como uma onda de ar morno num dia frio de inverno.
Não como se estivesse a explorar, mas sim como se estivesse a levar ao íntimo desta mulher um pouco do meu íntimo. Não como se estivesse a roubar, mas sim como se estivesse a oferecer.
Intímamente comecei a ficar tranquilo, deslumbrado, estupefacto com a entrega incondicional desta mulher que mal me conhecia.
Não entendia muito bem a situação nem fiz grande esforço para a entender.
Estava bem, feliz, tranquilo e sentia-a na mesma situação.
Minhas mãos ficaram mais ousadas, atrevidas, possessivas.
Procuraram a pele por debaixo da roupa.
Era lisa, macia, suave, quente.
Subiram.
Encontraram os seio, duros, belos. Nem grandes nem pequenos.
A minha medida. Das minhas mãos, do meu cérebro, do meu sonho.
Resistiu muito pouco ou nada.
Seu corpo respondeu ao meu toque. Deixou-se " banhar "pela onda que a arrastava para a profundeza do sentir, do gostar, da felicidade, da vida.
Ficámos ali algum tempo... saboreando o gosto da pele, o prazer da vida como ela se projecta na nossa frente.

Saímos do carro encostados. Perguntei-lhe o que procurava da vida, o que queria dela.
A resposta chegou depois de pensar um pouco..."Viver...sómente viver"...Entendi muito bem o desejo implícito na resposta: de ter acesso ao que nunca tivera, de procurar viver o que nunca vivera...de procurar sentir...o que nunca sentira.Saimos dali sem destino nem direcção,por entre carros que regressavam a casa,ao encontro da noite que corria vertiginosamente ao nosso encontro,brincando,falando,mexendo,quando o trânsito ficava retido,até que chegamos a outra praia já noite.

...E vivemos,sentimos tivemos acesso a tudo isso nas traseiras dum quiosque à beira mar, na noite escura e ventosa...na mesa dum restaurante junto a uma lareira apagada numa conversa amena e calma... na noite de chuva miudinha...no quarto do hotel onde a menina foi mulher e a mulher foi menina.

Deixei-a sózinha nessa noite e hoje sei, que quando a deixei ela já era uma pessoa importantíssima na minha vida...o principio do hoje havia começado nessas horas em que estivemos juntos e marcaram definitivamente o curso de nossas vidas.

Foi um momento,daqueles ficam na mente,na alma,na pele,para sempre. Foi um entre muitos que aconteceram ao longo dum ano, porventura mais intensos, porventura mais angustiados, porventura mais dramáticos.

Vivi...vivemos...pedaços de vida,pedaços de tempo,que decerto marcaram uma imagem que ficou como referência,pelo menos numa caminhada... Na Minha.

Aventura? Leviandade? Insensatez? Loucura?...não sei. Mas vida, sei que foi.Certamente...no mais alto nivel fisico,emocional,espiritual...


Autor Anónimo

24 de Novembro de 2004

Antoine de Saint Exupéry

Cada um que passa em nossa vida passa sózinho...
Porque cada pessoa é única para nós,
e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida passa sózinho,
mas não vai só...
Levam um pouco de nós mesmos
e nos deixam um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito,
mas não há os que não levam nada.
Há os que deixam muito,
mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da vida...
A prova tremenda de que cada um é importante
e que ninguém se aproxima do outro por acaso...


Saint Exupery

20 de Novembro de 2004

Fernando Pessoa " Liberdade "

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.


O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.


O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...




Fernando Pessoa

12 de Novembro de 2004

Florbela Espanca " O Meu Desejo "

O MEU DESEJO



Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...


Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, amor, devagarinho,
Até a Morte me levar consigo.