28 de abril de 2004

" ONDAS " poema de Mitó Carreiro

Em espuma envolvidas,
um dançar
morno e dolente,
as ondas enrolam,
batidas,
as vidas de tanta agente.
Em barcos,
segredos
e medos
embarcam pela madrugada.
Nos rostos,
curtidos de sol e de sal
vai escrita
a luta da vida.
E no horizonte,
onde a ténue luz
do amanhecer ,
acasala, fogosa,
com o mar,
num amar
delirante,
os barcos rasgam mar adiante,
em busca de pão,
arrancando às ondas
seus filhos paridos,
em loucos bramidos.
Na costa,
alheias
à luta do mar alto
as ondas vêm beijar
pés descalços
que aguardam
em sobressalto
o regresso dos barcos.
Numa cadência infinita,
como em longa procissão,
abraçam esperanças
que brincam à beira de água
como crianças
e depois,
umas atrás das outras,
eternamente em cadeia,
as ondas deixam o mar
para vir morrer na areia.



Mitó Carreiro