30 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO poema ** AMOR **

AMOR

No vasto mar, no céu ou na montanha,
Na serra ou no planalto adormecido,
Eu vejo-o a vaguear tonto e perdido,
O louco amor ….essa figura estranha !

Amor, irmão da noite ….amor tristeza,
Amor escuridão …tédio …pavor …
Nostálgica visão de sonhador …
Amor inquieto e feito de incerteza !

Amor em labareda … Amor em chama…
Amor que aquece a alma regelada …
Que chora e ri, e canta, e geme , e clama
Em vão! … Amor que é tudo ! Amor que é nada ! …

Quando sofro, alivio a minha dor,
Chorando; e quanto é bom chorar assim …
Com lágrimas dizendo, como em mim,
Crepita e arde o fogo dum Amor !


José Maria Lopes de Araújo
do livro de poemas “ Noite de Alma “

28 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARÚJO poema ** Paisagem **

PAISAGEM


Trinados de passarinhos,
Sombras frescas, perfumadas,
Pastagens, fontes e ninhos
E nascentes encantadas!

Por solitários caminhos,
Em alegres madrugadas,
Trabalhadores e velhinhos
Passam com suas enxadas.

Na aldeia, só finda a vida
Quando o sino duma ermida
Dobrando toca Trindades.

Quando vai o sol morrendo
E vem a noite descendo
Num crescendo de saudades!



José Maria Lopes de Araújo
" Noite de Alma "

25 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARÚJO poema " Outono da Vida "

OUTONO DA VIDA

No doloroso rescaldo das labaredas
Que queimaram meus sonhos, minhas esperanças,
Vem a misteriosa voz do longe
Gritar mensagens íntimas, poemas singulares,
Em cantares do meu sentir...
Presidiário do Mar,
Meu desumano carcereiro,
Sentindo-me cada vez mais só,
Abafado no silêncio esmagador
Desta insular solidão,
Da minha amarga dor,
Saí de mim próprio, em louca evasão...

Queria gritar, bem alto,
De modo que todo mundo ouvisse,
O verbo amar ... o verbo amar,
Em noites de luar,
Ou manhãs de frio vendaval.

Que loucura a minha ...
Quero receber as gotas de mágoa
Das horas distantes do meu viver ...

Estou no Outono da vida ...
Quando as folhas ressequidas rodopiam
E a brisa chora como violino gemebundo ! ...

Há palavras que não entendo
Na minha solidão:
O ontem, o hoje, o amanhã
E aquilo que vive, cá dentro,
Cá dentro, no coração ...
O silêncio das coisas,
O sal das lágrimas,
Os sorrisos tristes,
As esperanças diluídas ,
As chuvas, que são tormentos,
Batendo nas janelas,
Caindo dos beirais,
Em dolorosos momentos ! ...
Canto louco ... Canto louco ...
Pensamento ... Pensamento
Aonde vais? ... Aonde vais ?


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO do Livro " Outono da Vida "

24 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARÚJO ** Ilha de Santa Maria **

ILHA DE SANTA MARIA

Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar ?!...
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar !

Tenho saudades de ti,
Dos teus vales, dos teus montes ...
Foi por ti que me perdi,
Ouvindo o canto das fontes ...

... E dos grilos, ao luar,
Nas noites quentes de estio,
Da brisa que vem do mar,
No Inverno , cinzento e frio.

Se, na tua soledade,
Te debruças sobre o mar,
Mais cresce em mim a saudade
De te ver e te abraçar ! ...

Ó minha Santa Maria,
Ilha tão abandonada ...
Rainha fizeram-te um dia ...
Hoje, escrava, não tens nada ! ...

Onde estão as velas brancas
Dos teus moinhos de vento,
Que a brisa punha a girar,
Em constante movimento ?

E o moleiro já cansado,
Subindo a colina, tinha
No velho rosto, enrugado,
Sulcos fundos de farinha ! ...

E na tarde, quando o sino
Dobrava, ao longe, Trindades,
Marcava no meu destino,
Um destino de saudades ! ...

Tuas santas tradições,
Em Maio, mês de Maria,
No Terço e nas orações
Que, nas aldeias. de dia,

O povo ia rezando
Mesmo ao sair das igrejas,
Para casa, caminhando ...
Bendita, bendita sejas,

Santa Maria, ilha Santa ...
Que tudo e tudo aceitas,
Mesmo de esperanças perdidas ...
Mesmo de esperanças desfeitas ! ...

Ilha de Santa Maria !
Ó minha terra adoptiva !
Nunca mais te esquecerei,
Por muito e muito que viva.

. . . . . . . . . . . . . . .

Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar ?
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar ! ...


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO do livro " Remos Partidos " 1983

23 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO " Tempo...Idade...Distância "



TEMPO….IDADE … . DISTÂNCIA




Tempo? Não! …
Para o amor
O tempo não vale …
O tempo só conta na dor,
O tempo só conta no mal! …
Para amar
O tempo não sabe contar !




Idade? – Não! …
Para amar não há idade …
Nunca envelhece o coração
Que amar ! …
Que o amor não sabe contar ! …




Distância? – Não ! …
Para amar não há distância,
Nem tempo, nem idade …
Que idade, tempo e distância,
Tudo transforma a saudade !




Distância ? – Não ! …
Galga tudo o pensamento;
De tal maneira
Que num momento
Corre o mundo,
E até vive a vida inteira
Num segundo!


Distância? – Não! …
Não há distância para amar,
Que o amor não sabe contar ! …




José Maria Lopes de Araújo " Cinzas Quentes "

22 de janeiro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO * Amargo Anseio * do Livro " Noite de Alma " Publicado em 1964

O meu Agradecimento ao filho do Poeta " LOPES DE ARAÚJO ",que amávelmente me ofereceu alguns livros, edições esgotadas, e que reconhecidamente aqui agradeço.

O poema abaixo , foi publicado no seu primeiro livro " NOITE DE ALMA " no ano de 1964.

O Poeta José Maria Lopes de Araújo, completaria no próximo dia 25 de Janeiro o seu 86º. aniversário.

Tratando-se de uma pessoa a quem dedico enorme admiração, tanto como poeta como pela obra feita em vida , em prol dos desfavorecidos meus conterrâneos ,tendo desenvolvido um meritório trabalho na " Sopa do Pobre " ,tal como o efectuado na área da Cultura, da Poesia entre outros.

Foi enorme a sua dedicação a esta ilha à qual dedicou uma importante parte da sua vida tendo-lhe chamado " A MINHA TERRA ADOPTIVA ".

Lembro do excelente Professor que foi.

Na área da cultura, levou à cena algumas importantes peças de Teatro Revista músicado , da quais destaco " ESTÁS-TE CONSOLANDO" por neste ano que decorre, se comemorar o seu 50º aniversário.

Na Estação de Rádio desta Ilha " Clube Asas do Atlântico " local onde colaborei, e onde o Poeta deu o seu valioso contributo, tanto como Administrador bem como animador Cultural nos " Diálogos Radiofónicos ", foram muitas as vezes que me deliciei a ouvir as bobines gravadas com as peças de Teatro Revista representadas na nossa velha casa de Cinema do Aeroporto de S.Maria, bem como o "Teatro Radiofónico " bem ao estilo dos Parodiantes de Lisboa, entre outras variantes.

Espero que a Estação Emissora do Clube Asas do Atlântico, volte de novo a nos presentear agora, altura do aniversário do Poeta, e ao mesmo tempo pela comemoração do 50º. aniversário da Peça de Revista " ESTAS-TE CONSOLANDO " com a emissão radiofónica dessas gravações.

O Poeta JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO a tudo se entregou com grande paixão pela minha ilha e pelos Marienses.


Por todos os momentos de prazer que me proporciona ao ler os seus poemas, pelos momentos inesquecíveis que passei ouvindo os seus " Diálogos " e pela saudade que deixou em todos nós ilhéus da ilha de S.Maria- AÇORES , aqui deixarei diáriamente alguns poemas, numa modesta lembrança de aniversário ao Humanista, Poeta , Animador Cultural e Professor JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO.

Fica a saudade e a eterna lembrança.

Isabel

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AMARGO ANSEIO


É meu talvez ... Quem sabe se é o meu,
O amor que tu na terra procuraste?
O sonho doce e lindo que sonhaste,
Na vida que a tua alma não viveu?


Trarei em mim o vento que varreu
As brancas ilusões que alimentaste?
Sei lá ... mulher, se sou quem desejaste...
Quem sabe, amor, quem sabe se sou eu?


Almas irmãs na negra desventura,
Vivendo a mesma noite, longa, escura,
Trilhando a mesma senda de poetas ! ...


Quem olha a nossa dor ? Quem compreende
Este amargor que o mundo não entende,
Constante anseio de intangíveis metas?! ...



José Maria Lopes de Araújo
" NOITE DE ALMA "

14 de janeiro de 2005

JOSÉ RÉGIO " Cântico Negro "

** Cântico Negro **


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

11 de janeiro de 2005

VITOR CINTRA - " Crescer "


CRESCER

Ontem mesmo fui criança;
Fiz a ‘scola,
Joguei bola;
É bem viva esta lembrança.
E, num sonho deslumbrante,
O futuro
Vi seguro,
Quis ser homem, um gigante.

Ao tornar-me adolescente
Tive esp’rança
Na mudança;
Do futuro fiz presente,
Vi a vida muito cedo;
Vivi longe,
Como monge;
Fiz a guerra e tive medo.

Só então fiquei adulto;
Noutro mundo,
Mais fecundo,
Fiz-me um homem, não um vulto.
Vivi sempre a liberdade
Com respeito,
P’lo direito.
Só não tive mocidade.



Vitor Cintra

4 de janeiro de 2005

VITOR CINTRA poema " Dói "

DÓI

Quero-te tanto que dói !
Mas, nesta dor miudinha,
Profunda, doce, daninha,
Há um encanto d’esperança.
Nela tu és, por lembrança
Dos tempos da mocidade,
O mito da f’licidade,
Que o meu desejo destrói.

Por cada mulher que vejo,
Sinto ternura e desejo.
E todas as que conheço
Acho bonitas, confesso.
Mas sinto, porque te quero,
A dor do meu desespero.

Aquelas, com quem cruzei,
Só possui, nunca usei.
Não fiz batota com elas,
Nem fiz promessas balelas.
Dei, nessas posses, carinho.
Não quis vivê-las sózinho.

Mas esta dor, que corrói
A mente, como a vontade,
Resulta da intensidade
Do teu fascínio. Enquanto
Minha alma cede ao encanto,
Meu corpo grita bem alto,
Sentidos em sobressalto:
Quero-te tanto que dói.


Vitor Cintra - “ Contrastes “