29 de novembro de 2005

SAUDADE FALA PORTUGUÊS

SAUDADE FALA PORTUGUÊS



Quando vejo retratos, quando sinto cheiros...

Eu tenho saudades de tudo que marcou a minha vida .
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou vir a ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo,
lembrando do passado e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro, que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei,
de quem disse que viria e nem apareceu;
de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram
e de quem não me despedi direito;
daqueles que não tiveram como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre;
de coisas que eu tive e de outras que não tive mas quis muito ter;
de coisas que nem sei que existiram mas que se soubesse,
decerto gostaria de experimentar;

Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente,
como só os cães são capazes de fazer,
dos livros que li e que me fizeram viajar,
dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade;

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que,
não sei aonde,
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é
e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em
japonês, em russo, em italiano, em inglês,
mas que minha saudade,
por eu ter nascido brasileira,
só fala português embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente,
quando estamos desesperados, para contar dinheiro, fazer amor e declarar
sentimentos fortes,
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples "I miss you",
ou seja lá como possamos traduzir saudade
em outra língua, nunca terá a mesma força
e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima, correctamente,
a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra para usar
todas as vezes em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor do que um sinal vital
quando se quer falar de vida e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis, de que amamos muito do
que tivemos e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

Sentir saudade, é sinal de que se está vivo!


Maria Eugênia - Doce Deleite

27 de novembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA Poemas do Livro " MAR BRANCO "

À MULHER DESTRUÍDA ...

Em cada mulher destruída
há um universo a nascer ...

Tu

Que recebes resignada
em silêncio
e aceitas
toda a ignomínia excretada
desta urbe iluminada
que te procura
na esquina
da vida errante ...
para te possuir
da noite ... à madrugada!

Tu

Que transformas as trevas
em vil clarão boreal
todo o Eros
que te envolve
e que cobres
frustrada
a frustração sensual
do ego que renasce
na escuridão
da noite longa
da tua alma
violada

Tu

Que deslizas velozmente
sem norte
e bamboleias
tens em ti mesma
gerada

- Em gestação constante
a força da criação
o gene virgem -

instante
que destruirá
para sempre
a tua sorte
danada

Tu

Ó universo vaginal
que pariste
para criar vida
porque te afundas
perdida ...
para prazer
do homem solto.

Tu

Ó ente - matriz, ó mãe
ó sentidos, ó corpo, ó noite,
ó prazer, ó morte instante
dos Outros
que te procuram

- servo cio -

porque não voas
mais alto
da terra verme

Liberta-te
desse mundo envolvente

Liberta
O mundo da noite
escreve nas tuas
brancas asas
o amor de toda a gente

...e voa até ao Nascente !!


Fernando Monteiro
Março/81

24 de novembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA do Livro " MAR BRANCO "


Do Féretro que Levo na Vida,
ao Ovni da minha Esperança.
A Ti ó Hélida, dorida:


Numa noite calada,
dos meus sonhos distantes,

Teci teu corpo...
na miragem do meu nenúfar.

Poisei tímido,
no teu gineceu errante,

E vibrante ...


Derramei em êxtase,
na minha Hélida, dorida,
abatida e sem esperança,

... o último espasmo do meu corpo...

Já caía o amanhecer!




Fernando Monteiro


Fev/81

22 de novembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA do Livro " MAR BRANCO "

NO TEU CORPO QUENTE

Regressei ao horizonte
no teu corpo quente

Penetrei o meu ser
no teu ser ansioso

És o tudo ... sou o tudo ...
És o nada, também

Toquei no teto - universo ...
e encontrei-me em ti

Já posso partir
para o horizonte

Para o meu gene perdido
que sou eu

Tive o tudo
tenho o nada

Sou o só .... o regressado


Vivo suspenso no teu corpo quente
Vivo suspenso no teu corpo quente
Vivo suspenso no teu corpo quente



Fernando Monteiro
Dez/80

20 de novembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA Poemas do Livro " MAR BRANCO "

Fotografia de Ana Loura


QUERO SER EU,MESMO O NADA !

Quero viver
Quero ser eu
Quero ser
o que vai vir da nascente
Quero viver
para me atingir no tempo
Quero ser eu
mesmo o nada, o eu ausente.

Quero plasmar
o meu querer a esmo
E viver
Nas asas de mim mesmo !



FERNANDO MONTEIRO

11 de novembro de 2005

VITOR CINTRA poema * DEDICAÇÃO *

DEDICAÇÃO

Pediste que te abrisse o coração,
Até que desvendasse alguns segredos,
Mas ao contar-te a vida e seus enredos,
Deixei-me dominar p’la emoção.

Falei-te de vivências do passado,
De mágoas, alegrias, dissabores,
Falei-te até de causas e valores,
E vi-me a revivê-los a teu lado.

E foi ao mergulhar em outras eras,
Que fiz extravasar os sentimentos,
Angústia e despertar de sofrimentos;

Comigo estavas tu, como quiseras,
Tentando descobrir esse meu mundo,
Num gesto, sem igual, de amor profundo.




Vítor Cintra “ Contrastes “

3 de novembro de 2005

Do Poeta JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO


SAUDADE


Há tanto que não ouço a voz da fonte,
Naquele canto triste e prolongado,
Ecoar pelas ravinas do valado,
Perder-se nas distâncias do horizonte ! …


Há quanto já não vejo aquele monte,
Donde a minha infância, descuidado,
Via espalhar-se o Sol, em tom doirado,
Nas águas do ribeiro, além da ponte ! …


Veste de luto a minha mocidade
A roxa e melancólica saudade
Desse ditoso tempo em que vivia …


Ai, tão distante que me sinto agora
De tudo que sinto e vi outrora,
Quando era alegre e a vida me sorria …



  • José Maria Lopes de Araujo