30 de dezembro de 2005

SIDÓNIO BETTENCOURT do Livro " Deserto de Todas as Chuvas "


DA NOITE DE NATAL


Gelada rua em que deste vida à saudade.

Nem as pedras da casa onde despimos a família deserta e o desassossego das nossas consumições espalhadas nas poças de água e mágoa, levadas pelo vento oeste.

Nem as folhas secas em São Francisco, caindo uma a uma, entre os barcos do peixe que o Inverno varou, medrosos e recolhidos no abraço da cruz.


Há luzes no cruzeiro, cintilantes. Fazem lembrar faróis da América.
Aquela que nos repartiu a urgência do regresso.

E assim ficamos à espera na pequenez do compromisso.

Na ânsia de te encontrar, perdi o sabor do rosto.

Está escura a noite e pesarosos os sinos que me chamam no teu regaço. Para o abrigo da tua manta cor de anjo e de mistério.

A missa do galo é na Silveira. Este ano é assim.
Longe das nossas promessas.
Longe dos nossos pecados.

Inventaram um novo roteiro para recolhermos mais cedo na madrugada do menino.

Cada um com o seu menino.

Nem aqui, tão perto, o nosso beijar entre a manjedoura desfeita, a terra suada no mar revolto.

O meu menino, levado para dentro do calor da ilha negra, mais cedo que as manhãs de neblina baleeira.

Tão puro e tão breve.

O meu menino:
Há quanto tempo não te sinto as mãos no degelo do corpo?

E agora há um rasgo de solidão amarga, persistente e duradoira.

Chorar é matar a sede, e hoje estou com muita sede.

Tanta noite sem ti , e logo esta, de lembranças.




SIDÓNIO BETTENCOURT

do livro “ Deserto de Todas as Chuvas “

19 de dezembro de 2005

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO Poema * Natal Que Volta *

NATAL QUE NÃO VOLTA...


Antigamente,
Quando a vida me sorria,
No tempo em que brincava,
E alegremente
Corria
E saltava…
Nesse tempo em que solteiro de ilusões
Acreditava
Nas fadas
E nos Papões…
Enfim,
Antigamente,
A vida para mim
Era bem diferente! …


*****

O Meu Jesus
Trazia-me sempre um presente…
Um lindo brinquedo
Que eu pedia
Muito em segredo! …
… E recebia-o contente ! …

*******

Como outrora,
Eu quisera
Agora –
- Doce quimera –
- De novo encontrar
Não um brinquedo lindo
Que me pudesse encantar…
Mas, um pouco de beleza
E um pouco de alegria
Que viessem aliviar
Esta funda tristeza …
A minha melancolia …


******

E de manhã de manhãzinha,
Devagar, pé-ante-pé,
Eu corri à chaminé! …
E o meu sapato,
Nessa manhã ainda escura,
Nessa manhã de frio
E esmaecida,
Lá estava, nu , vazio,
Como anda vazia e nua
De ventura
A minha vida ! …


*******

E a minha alma sismadora,
E triste,
Triste e sonhadora,
Acalentou essa esperança
Dos meus tempos de criança,
Dos meus tempos de bebé;
Ir encontrar a ventura
Num sapato, à chaminé!!!...



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
do livro
" Cinzas Quentes "

16 de dezembro de 2005

SIDÓNIO BETTENCOURT do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

DESPEDIDA

Fria a tarde e distante da beira praia num soluço de olhar fugidio entre o mar, céu e a nudez a fervilhar.
Fria tarde esta, que não te sente os lábios e o fogo do teu corpo, quando te deixo sem regresso.
Fria solidão, quando os teus braços se soltam do murmúrio.
Fria e triste monotonia, e o Outono sem o brilho dos teus olhos, nos cabelos revoltos e revoltados, destes dedos que acendo.
Ventre de dança, no corpo que animas e onde revejo os lugares escondidos do desejo.
Quando agora partir, só tu me deixas ficar, e na boca cair uma lágrima de sede a cantar Bethânia, rolando no eco da minha voz, desafinada e rouca " Onde Estará o Meu Amor?"
O amor.
Sim, o amor.
Quem o conforta, quem o aquece, quem o derrete?
Fria tarde de tristeza funda.



Sidónio Bettencourt
"Deserto de Todas as Chuvas "

10 de dezembro de 2005

SIDÓNIO BETTENCOURT do livro * Deserto de Todas as Chuvas *

CARTA REGISTADA



…Havia o infinito e o mar sobre nós, com sol nublado, e dei-te uma pedra negra que rolou do coração, para dentro do ano novo.
Estavas de óculos cor-de-pedra, sentada no ano velho, como se eu tivesse regressado das lavadias brancas, com o teu véu cansado de noiva.
Havia namorados que namoravam, e nós no percurso, sem nos vermos, a olhar um para o outro.
Sabias a doce de mel salgado, e eu, a sal de abelha.
Dizia amor e tu amora, silvestre.
E a terra fria da mornaça de Janeiro, prescrevia o sonho a lacre de sangue fino e frio e pingos de coração, breve e magoado.
Preenchemos então o desejo, que bebi dos teus silêncios.
Deixaste-me tocar, nas tuas mãos secretas, leves e sem anéis brancos, ainda puras de tanto dar e receber.
As tuas mãos de concha, dos filhos a crescerem.
As tuas mãos esguias, das notas soltas do piano triste e adormecido.
As tuas mãos quentes, dos recantos íntimos do nosso corpo, em sabor e desvario.
As tuas mãos, que fizeram o calor do colo frio, da nossa dor no canal.
As tuas, e as minhas mãos.
Feridas.
Tomámos então, com estrangeiros, como amigos estrangeiros, um café chique da cidade em hotel da noite, das noites que gostaria de viver intensamente contigo,
e dei-te uma pedra da cor dos teus olhos pretos, do mar que me deixas, branco de mais de tantas ondas, para poder cantar outra vida …



SIDÓNIO BETTENCOURT do Livro " Deserto de Todas as Chuvas "

Poeta da Ilha do Pico - Açores

7 de dezembro de 2005

OCEANO

Fecho os olhos e ainda te vejo,
Como esquecer aquele momento,
Em que teu corpo, visitou minhas entranhas,
Tua consciência, encontrou minha essência,
Teu suor, se misturou em minha saliva,
Meu coração, em tuas mãos.

Como esquecer,
Cada palavra dita,
Cada gesto, de carinho ardente.
Teu olhar fitando, o meu enxergar.
Teu beijo, seduzindo minha boca.
Teu querer,
Dominando, o meu ser.

Na vida,
Mergulhamos nas emoções, e sentimentos,
E com eles, partimos em grandes empreitadas.
E é isso, que nos faz gente,
Seres de alma, espírito e coração.

Com você, aprendi a estar e ser plena,
Com coragem suficiente, para mostrar a minha parte mais fraca,
Que dela dependo, que dela também preciso.

Como é preciso extravasar
Todo esse amor que muitas vezes, ficamos contendo,

Amor calado.

Nada é mais quente,
Que um abraço envolvido por carícias.
Nada é mais profundo, que um beijo apaixonado.
Nada é tão doce quanto o sorriso de teu rosto,
Nada é tão pleno quanto a forma que me senti amada.

Prazer,,,
Pra ser…
Pra ser eterno.

Prazer…
Pra ter,
Pra ter você…
Pra ter você sempre aqui.

E junto afundarmos,
Nas águas desse nosso oceano de amor e desejo
Onde cada onda de energia que vejo,
É pura sublimação de nossos corpos unidos,
É impulsar de artérias, numa deliciosa dança,
E isso tudo, não se pede, apenas transmuta.

Agora com sono, vou dormir minha fisicalidade
Projectar, meu melhor astral

Amanhã, estarei mais rica de vida,
Amanhã, serei mais consciência, essência e amor.

Até amanhã…

Amor.



Desconheço o autor

5 de dezembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA do Livro " MAR BRANCO "

AO MAR DO NORTE, MEU MAR BRANCO…

Oh mar branco
Do norte fundo

Envolve minha alma inteira
Enrola-me na tua espuma
Inquieta e fugidia…

Na onda de lua em praia
Leva-me para além
Do fundo azul
Minha nocturna
Vivência
Que me invadiu de tormenta!

Faz regressar minha esperança
Naquela bruma de renda
Dilui-me toda a saudade
Em conchas
De fogo vivo
Nas chamas
Do teu cadinho…
Oh mar branco
Enche a minh’alma

Oh onda
De vento deserto
Marulha na areia quente
Ecoa meu sofrimento
Constante no turbilhão …

No meu corpo dolente
Sofro a vazante
Da tua ausência
Em cada instante …

Oh vento
Do mar do norte
Regressa cindindo amor
Na minha nascente dia primeiro
Meu corpo em chama
Entrou ….

E nunca mais quis sair!



FERNANDO MONTEIRO
Poeta da Ilha de S.Maria - Açores

Mar/81

2 de dezembro de 2005

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA do Livro " MAR BRANCO "

VOANDO…SEMPRE A VOAR


Quem me suspende da dor
No ar vazio
Envolvido
De ternura
E de amor
A tanta altura do mar?

Quem estou sendo
Afinal
Se consigo suspender-me

No sempre tempo
Perdido
Voando… sempre a voar?

Voando sempre a voar:

Da minha mente
Fiz asas
Do meu corpo
O dia zero
Que nunca mais
Quis parar!

Então quem sou afinal
Se consegui
Suspender-me
Naquele tempo perdido
Voando
Sempre a voar
Até ao mundo abraçar?

- Consegui meter nos meus sonhos
O todo
Em tempo limite
Do nada ao infinito
E voando, voei voei
Até minh’alma emprenhar
Para o vazio
De amor encher …



Fernando Monteiro