28 de fevereiro de 2007

Emigrantes de Ontem e de Hoje

Transcrevo texto opinião do blog que habitualmente visito

  • RESISTIR


  • Um texto que nos faz parar e reflectir .

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    A Região mais triste de Portugal (linguagem pouco cuidada)





    Sónia, que nasceu em 1977, é muito doente. Com o marido e os filhos emigraram ilegalmente para o Canadá em 2000 ou 2001. Em busca do sonho. Do sonho de quase tudo. Pobres, filhos de pobres deixaram os Açores para fugir a uma miséria que as autoridades regionais vergonhosamente ignoram e a sociedade civil finge ser conversa de académicos ou estatísticas de gente que não concorda com a mediocridade do governo açoriano.
    A miséria destes açorianos honrados não é diferente da miséria de muitos outros. Miséria absoluta, quero dizer, envergonhada, com a falta de oportunidades, que respira e se alimenta à sombra da inevitabilidade do velho destino açoriano das classes sociais, favores e temores a Deus. Miséria, digo ainda, que se auto-sustenta de geração em geração e tolera quase tudo: corrupção, financiamentos partidários por bandidos, mau uso dos dinheiros públicos, obséquios do Estado a canalhas, pedófilos em liberdade, ladrões, patifes, legisladores castrados, comunicação social servil, procuradores e juízes de direito a jeito e polícias coniventes.
    Carlos é pedreiro. Em algumas províncias canadianas um pedreiro pode ganhar 100.000.00 dollars por ano. Com facilidade, em poucos anos, foi possível construir uma vida com suor e saudade, mas sem ser preciso ser do partido, ou amigo de alguém, ou baixar as calças à dignidade ou votar no PS ou PSD ou aquilo que todos percebem. Uma Autonomia de filhos e enteados, de sucesso e de filhos da puta, dirão outros.
    Poucos ajudam pessoas como Sónia ou Carlos. Apenas as comunidades de emigrantes açorianos ou a Igreja Católica, a quem tenho de prestar homenagem na forma como ajudam os emigrante ilegais. Não a Igreja Católica que fornica com o governo açoriano mas a igreja que acredita na dignidade da pessoa humana.
    Carlos e Sónia não têm escolaridade. Não falam muito bem. Não são jogadores de futebol. Não atraem votos. Não fodem por dinheiro. Não se vendem. Vão pouco a festas. Não gerem os milhões das transferências do orçamento do Estado. Vestem modestamente. Não influenciam ninguém. São gente modesta. Apenas trabalham e tratam da família e de procurar um futuro melhor para os filhos. Futuro que lhes foi negado na sua terra. E a Sónia, que nasceu em 1977, cresceu à sombra do sucesso da Autonomia política legislativa; mas não consta que saiba cantar o hino regional. Pois.
    Como são ilegais, Carlos, Sónia e os filhos foram deportados. Pois. Um dos filhos, com 11 meses, nascido no Canadá, não tinha qualquer identificação e foi impedido de sair de Toronto. E foi aqui que ficaram vivos para o mundo. Nasceram para o estrelado da miséria, para a agonia da humilhação. Mas eu sei. Apesar de nunca os ter visto, vi milhares e milhares como eles: gente decente da região mais triste de Portugal.

    JOSÉ ANDRADE " Estrada da Vida "






    E no silêncio da noite
    Se perdem as passadas
    Largas e pesadas
    E fortes... mas inseguras.
    O relógio
    Em contratempo
    Marca o Tempo.
    Um tempo que passa
    A cada passo
    E que não volta nunca.
    Talvez por isso se ouvem ainda
    Passadas na estrada.
    Nesta curta estrada
    A percorrer
    Sem correr
    Mas a crer
    Que cada passo que nela passa
    Passará para a Eternidade !


    José Andrade
    S.Miguel - Açores


    Do livro " SEMENTE "

    24 de fevereiro de 2007

    SIDÓNIO BETTENCOURT " Confidência "









    Nunca tive pátria, outro rio, outra casa, outra rua, nunca tive outra terra, outro mar, outra mãe, outra mulher, nunca tive





    Outra coisa qualquer ...




















    Sidónio Bettencourt






    Do Livro " Deserto de Todas as Chuvas "








    12 de fevereiro de 2007

    Poema de " Bruno Valter Garcia Ferreira "




    Quis Deus que ao sol nascente te voltasses
    E do cimo dos cumes tão altivos
    Do mar, em forte abraço, ali tombasses
    Preso de meigos beijos e cativos;

    E que de verde parra te adornasses
    E fossem tantos mais os teus motivos,
    Que gigantesco teatro aparentasses
    Quer a estranhos, quer a teus nativos.

    S.Lourenço - ó minha linda baía -
    Nas luarentas noites de estio,
    Tudo e todos envolves em magia.

    Sobem no ar cantigas de alegria;
    Cantam cagarros em estranho cio
    Mas tudo tem um quê de nostalgia !



    Poema do Dr. Bruno Ferreira

    Um Mariense ,residente da ilha Terceira- Açores

    Do Livro de ADRIANO FERREIRA " As Musas da Minha Terra "

    7 de fevereiro de 2007

    SIDÓNIO BETTENCOURT " Reencontros "





















    Não sei se te encontrarás algum dia e se me vires não digas palavra.

    Saberei dizer-te no olhar o que me escondeste dos olhos e da voz calada sentirás o poema da partida.

    Se disseres chegada guardarei nas mãos todo o tempo de dar.

    Esperei todos os dias pela claridade, mas amanhã de manhã não voltou.



    E a noite se fez dia e madrugada outra melodia e eu sem nada.


    Sidónio Bettencourt

    ilha do Pico - Açores

    Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "


    4 de fevereiro de 2007

    JOSE ANDRADE poema " Ivone "


    Na vida de um homem há sempre uma mulher


    Tu és o sonho real
    Que sonhei sonhar
    Numa infinita realidade.
    És pensamento que penso
    Ao pensar na vida que vivo
    E que vou viver.
    Tu és aquilo que sou
    E que nunca antes havia sido.
    És o futuro presente
    Que justifica o passado meu
    Tu és simplesmente tudo
    Neste mundo que é teu.


    Set/83







    JOSÉ ANDRADE



    S.Miguel - Açores


    Do livro " Semente "






    TITO MAGALHÃES , Ilha de S. Maria - Poema " Manuscrito "





    ... E Deus criou o homem
    Senhor de todos os gestos
    Houve murmúrio de dedos
    Requiem para um Paraíso
    E abrimos as mãos em flor
    Qual sinfonia oponível
    Eram pétalas d'espanto
    Sobre o jardim Natureza
    E assim aprendemos
    A conter os desejos
    Na carícia de um fruto
    E a sentir os prazeres
    Do redondo vocábulo
    Que primeiro gritámos
    Que depois gememos
    E por fim dissemos
    Vezes sem conta
    Até que o cantámos
    Em louvor do milagre
    Que então surgiu...
    E quisemos gravá-lo
    Como um pensamento
    Que a pedra guardasse
    E nessa memória
    De riscos cravados
    Na mais dura terra
    Irrompe o poema
    De uma linguagem
    Já com sentimento



    Poema de Tito Magalhães- Ilha de S. Maria - Açores

    Do livro de ADRIANO FERREIRA " As Musas da Minha Terra "