30 de maio de 2007

* OFICÍO DO AMOR * de Joan Salvat - Papasseit - Do Livro * ROSA DO MUNDO *

OFÍCIO DE AMOR


Se conheces o prazer, não escatimes o beijo
Pois o prazer de amar não comporta medida.
Deixa-te beijar e beija tu depois,
Que nos lábios sempre é onde o amor perdura.

Não beijes, não, como o escravo e o crente,
Mas como o viandante à fonte oferecida.
Deixa-te beijar – ardente sacrifício –
Quanto mais queima mais fiel é o beijo.

Que terias feito se tu morresses antes,
Sem mais fruto do que a aragem no rosto?
Deixa-te beijar, e no peito, nas mãos
- amante ou amada – a taça muito alta.

Quando beijes, bebe, o copo sare o medo:
Beija no pescoço, o sítio mais formoso.
Deixa-te beijar,
E se ainda te apetece
Beija de novo, pois a vida é contada.



Tradução de : JOSÉ BENTO


Catalunha


JOAN SALVAT – PAPASSEIT
(1894-1924)

28 de maio de 2007

POEMAS DE AMOR do Livro " A Rosa do Mundo "


ELE :


Quando embriagada pelo doce vinho
viu os arranhões de amor
que ela mesma me infligira
partiu ofuscada pelo ciúme
Tomando-a pela franja do seu sari
detive-a ... Como esquecê-la
quando me disse : “ Deixa-me,deixa-me! ”
olhando para trás
os olhos cheios de lágrimas
os lábios tremendo de despeito



O POETA :


Os amantes
arrastados pela torrente do seu amor
e contidos pelo dique
das pessoas mais velhas da casa
estão ainda juntos
mas não podem satisfazer os seus desejos
Imóveis como se tivessem sido pintados
bebem o néctar da paixão
com que os brindam os negros lótus dos seus olhos


ELA A UMA AMIGA:

Quando o meu amante se deitou a meu lado
por si só se desprendeu o meu cinto
e mal suspenso da cintura
o vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
pois mal senti o contacto do seu corpo
de tudo me esqueci:
de quem era ele
de quem era eu
de como foi o nosso prazer


ELE :


Esmagados contra o meu peito
os seus seios estremecem. Entre as suas coxas
flui a seiva doce do amor...
“ Não, outra vez não... Deixa-me descansar...”
E aos sussurros sucedem-se
as súplicas e às súplicas os suspiros
e aos suspiros o silêncio...
Terá adormecido? Estará a agonizar?
Ou serei eu que estou a sonhar?




Tradução Jorge Sousa Braga

do livro “ ROSA DO MUNDO – 2001 Poemas para o Futuro

Índia

AMARU ( sec. VII)

27 de maio de 2007

Vinicius de Moraes * SONETO DO AMOR TOTAL *






SONETO DO AMOR TOTAL



Amo-te tanto, meu amor... não cante,
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante,
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade,
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude,
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente,
Hei de morrer de amar mais do que pude



Vinicius de Moraes

13 de maio de 2007

SIDONIO BETTENCOURT " MÚSICA CELESTIAL "






O vento consome-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos.
É o ciclone a enraizar invernias cuspido das latitudes as muitas sinfonias.
O berço.
O arpão no rasgo das rotas caça o maestro dono da ilha.
Da casa.
Leva o tecto do mar.
O bafo das cagarras.
O desafino.
Levamos nos olhos o transporte.
A carícia
das mãos no corpo da rocha.
A baleeira no canal à deriva.
O vento consome-se com.
Some-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos.
O esqueleto do mar rocha abaixo sem estaleiro.
O que vai ser disto?
Outra vez o rumo a destriur o leme e o cardume no colo do xaile.
Outra vez outra voz a promessa adiada.





Sidónio Bettencourt

Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

6 de maio de 2007

MÃE do poeta JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO





A minha Mãe


É ela quem me afaga com carinho,
Nos felizes momentos de ventura!
É ela quem me fala de mansinho,
Nas horas de tristeza e de amargura!

E, junto dela, quanta vez, sonhando,
Na minha infância alegre acalentei
Tanta ilusão que o tempo foi gastando…
Sonhos de amor que nunca mais sonhei!

Ter mãe é ter na vida amparo e crença,
E rumo e fé!
É ver uma alvorada,
Rompendo mansa a treva negra e densa
Da noite da nossa alma torturada! …



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JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

do Livro " Noite de Alma "

3 de maio de 2007

NATÁLIA PAIVA poema " Criança "






Criança ...
De encantadora inocência
Olhar lindo,
Repleto de ternura,
Se me olhas assim,
Eu choro!
Abraça-me!
Rodeia-me com teus bracinhos trémulos,
Tão fortes na tua candura...
Afaga-me!
Deixa-me penetrar em teu mundo;
Deixa-me aquecer meu coração arrefecido
Pequenina,
Como és grande para mim!
Em meu regaço,
Não sou eu que te afago,
Que te acarinho,
Que te rodeio de amor,
Não permitindo que o teu mundo
Seja perturbado pelos grandes ! ...
Por um minuto, deixa-me pensar
Que serás sempre criança ;
Que não terás de deixar
O teu mundo pequenino
Para trilhar
O ignoto turbilhão da vida ! ...
Pequenina, afaga-me!
Porque de nós dois, sou a grande
Embora criança também.
Aperto-te contra mim,
Tão pequenina em meus braços;
Tão pequenina, que te embalo
E aperto-te muito...muito !
Mas gritas ...
Magoei-te ! Vês ?
Sou grande ! Sou egoista !
Apertei-te e tu choras-te.
Eu choro ainda ...
E afinal pequenita,
A criança ... sou eu !



De Natália Paiva - Ilha de S. Maria - Açores

Do Livro de ADRIANO FERREIRA " As Musas da Minha Terra "