26 de julho de 2007

Tarde de Mais... FLORBELA ESPANCA






Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...



Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!



Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!



E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...



Florbela Espanca

22 de julho de 2007

JOSÉ ANDRADE " Uma Ilha é Um Barco "









Uma ilha é um barco
Ancorado
Que estremece ardentemente
Nas tempestades da vida.

Uma ilha é um barco
Ancorado
Na espera desesperante
De um destino esquecido.

Uma ilha é um barco
Ancorado
Onde o Mundo Moderno
Descansa, fatigado.

Uma ilha é um barco
Somente
Mas um barco celeste
Que com o mundo equilibra
O sentido da vida
E a vida sentida.

Uma ilha é um barco
Uma ilha é um mundo.





Jun/83

José Andrade

P. Delgada - Ilha de S.Miguel - Açores

Do livro " Semente "

14 de julho de 2007

A NOSSA CASA poema de Florbela Espanca






A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!


Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,


Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...



Florbela Espanca

8 de julho de 2007

LAMENTO AMOROSO Poema oriundo da Amazónia do Livro * Rosa do Mundo *






Não quero mulher que tenha
muito delgadas as pernas,
como venenosas serpes,
de medo que elas me apertem.

Não quero mulher que tenha
muito comprido o cabelo,
um molho de ervas espesso
onde acaso eu me perca.

Quando sem vida me veres,
sobre o meu corpo não choraes;
deixa que a águia ao ver-me
seja a única que me chore.

Quando sem vida me veres,
deita-me á floresta negra:
o tatu há-de vir ver
a cova onde meter-me


Versão : Herberto Helder

4 de julho de 2007

AS PUTAS DA AVENIDA poema de Fernando Assis Pacheco





Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena.


Vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena.


Essa pose de flor recém- cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios de Lorena


Mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti pena.



Do Livro * Rosa do Mundo *