27 de outubro de 2007

A RECUSA DAS IMAGENS EVIDENTES poema de NATÁLIA CORREIA


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lirios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia

23 de outubro de 2007

ÀS MÃES poema de Vitor Cintra

ÀS MÃES


A mãe é, p'ra cada um,
O maior ser de excepção,
Com lugar no coração,
Mais sagrado que nenhum.

A mãe, é por mil razões,
O padrão do Universo,
Mesmo quando controverso
Seu saber e decisões.

São angústias que supera,
Desencantos, até vícios,
P'lo carinho que nos tem.

Desde o ventre, que nos gera,
Não se poupa a sacrifícios,
Porque mãe, é sempre Mãe.


VITOR CINTRA

do livro " ECOS "

AMOR FILIAL de José Maria Lopes de Araújo


AMOR FILIAL




É sempre ditosa e feliz
Toda a mãe que um filho tem
E que viver a vida quis
Só para amar sua mãe...


Ainda que, um dia, a parca
O arranque do seu lar;
Na alma da mãe fica a marca
Dum amor que não tem par!


Mãe, se é grande a tua dor
Que se envolve em negro véu ...
É bem maior o amor
Das filhas que tens no Céu !


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
do livro " Labaredas "

5 de outubro de 2007

TU ? ... Poema de José Maria Lopes de Araújo





Tu,
E a outra,
E mais a outra,
E quantas conheci,
São todas iguais:
- Mulheres …. Só mulheres,
Simples, vulgares, banais,
E nada, nada mais ! …


Só por amar-te,
Tanto e tanto,
É que eu quisera dar-te
- Louco sonhador –
Um lar de encanto
E arte,
E poesia,
E amor! …



Mas, tu,
Que nunca sofreste,
Que nunca amaste,
Que nunca sentiste a dor,
E não choraste,
E não conheceste o amor …


Quem sabe, se és aquela que passou
Há pouco, de mim perto, e que me olhou
Como quem compreende o que padeço?


- Sei lá! Sei lá ! – Que me importa, lá saber!
Apenas sei que há tanto ando a sofrer,
Por ti, mulher que adoro e não conheço !...


José Maria Lopes de Araújo

1 de outubro de 2007

BEIJO poema de Manuel Altolaguirre "Espanha"




BEIJO




Que só estavas por dentro !



Quando surgi em teus lábios,

um rubro túnel de sangue

triste e escuro mergulhava

até ao fim da tua alma.


Quando penetrou meu beijo,

seu calor, sua luz davam

sobressaltos e tremores

à tua carne surpreendida.


Desde esse instante os caminhos

que levam à tua alma

mão queres que estejam desertos.


Quantas flechas, peixes, pássaros

Quantas carícias e beijos !



Tradução de : José Bento