20 de dezembro de 2007

** RESPEITO **poema de VITOR CINTRA









Pelas beiras dos caminhos
Sabe Deus quantos velhinhos
Andarão neste Natal,
Sem que o mundo à sua frente
Lhes prometa que o presente
Não será sempre o normal.

Quando o hoje é semelhante
Ao passado, já distante,
Como o ontem foi igual,
O futuro não existe
Num presente, que é tão triste,
Sem prever melhor final.

O saber de muitos povos
Determina que os mais novos
Reconheçam no idoso,
Na velhice, ter direito
A viver com mais respeito
E uns anos de repouso.

Mas serão tão atrasados
Esses povos, apontados
Como gente mais selvagem?...
Ou será que o ocidente,
Se tornou tão indif'rente,
Que resusa aprendizagem? ...


VITOR CINTRA
" Relances "

12 de dezembro de 2007

* TEUS LÁBIOS * poema de VITOR CINTRA





Teus lábios carnudos,
Macios, veludo,
Poemas de cor,
Ainda que mudos
Revelam, em tudo,
Desejos, ardor;

Em tempos tristonhos,
Por falta, suponho,
Das juras de amor,
Teus lábios risonhos,
Despertam o sonho,
São beijos de flor.




VITOR CINTRA

do livro " Murmúrios "

11 de dezembro de 2007

" DIZEM "
Poema de Israel do poeta Hathan Zakh ( n.1930)


Aquele que tropeçou, tropeçou
dizem
que aquele que traiu traiu
dizem
que aquele que está só está só
dizem
que aquele que esqueceu esqueceu
dizem
que aquele que não está contigo
dizem que se foi embora
dizem que esqueceu



Tradução de : CECÍLIA MEIRELES

10 de dezembro de 2007

SIDÓNIO BETTENCOURT poema " RESIGNAÇÃO "






O tédio esta manhã, a ilha descoberta trazendo o mesmo cheiro amargo.
a atmosfera sem pintura.o navio.o mar ao largo. o voo da gaivota sem ternura

lá vão
a carroça, a bilha do leite,
o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

O vulcão em banho de broa. o amor apertado na lança. cantarei contigo sempre à toa do lado azul da esperança.

Lá vão
a carroça, a bilha do leite,
o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

raiz em envelope fechado. sagrado, feito emoção. isto não tem fim, não... no meio o mar, o grito. a balada. a força da razão

lá vão
a carroça, a bilha do leite,
o cão, a missa, o vapor,

tudo aceite.


Sidónio Bettencourt

Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

8 de dezembro de 2007

HORAS RUBRAS poema de Florbela Espanca








Horas profundas, lentas e caladas,

Feitas de beijos sensuais e ardentes,

De noites de volúpia, noites quentes

Onde há risos de virgens desmaiadas ...


Ouço as olaias rindo desgrenhadas...

Tombam astros em fogo, astros dementes.

E do luar os beijos languescentes

São pedaços de prata pelas estradas ...


Os meus lábios são brancos como lagos...

Os meus braços são leves como afagos,

Vestiu-os o luar de sedas puras ...


Sou chama e neve branca e misteriosa...

E sou, talvez, na noite voluptuosa,

Ó meu Poeta, o beijo que procuras !



Florbela Espanca

4 de dezembro de 2007

CEGUEIRA DA AMOR de Meleagro (sec.II-I a.C)





Um caso singular
mas sempre verdadeiro:
se poiso em ti o olhar
-abranjo o mundo inteiro ! ...

Porém, ó fado torvo e prepotente,
porém, ó sorte perra e negredada,
se tu não vens, e passa toda a gente,
Cego de repente
- Já não vejo nada! ...



Trad:Augusto Gil