22 de junho de 2008

ELOGIO AO AMOR de Miguel Esteves Cardoso




Ou de como eu costumo dizer:

- O Amor é como o Chocolate, não tem de fazer sentido.

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la.
Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha.

O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama.
Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

O amor passou a ser passível de ser combinado.
Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.






Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.
Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.

Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.

Tanto faz.
É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

O amor puro é uma condição.
Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.

Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma.
É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.

Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.

Só um minuto de amor pode durar a vida inteira.
E valê-la também."



Miguel Esteves Cardoso

12 de junho de 2008

* INTERROGAÇÃO * poema de José Maria Lopes de Araújo





Não tentes afastar-me do meu rumo,
Que eu bem sei o que quero e onde vou...
Não lembres o passado porque é fumo
Duma chama que, há muito, se apagou !


Da labareda ardente só ficou
A cinza da quimera e nada mais ...
Do meu passado tudo se queimou ...
E apenas restam meus doridos ais !


E deixem-me ficar, assim sozinho,
Com todo o sofrimento, no caminho
Que me há-de confundir ao Redentor ...


E pensar, meditar profundamente :
- Por que motivos alimenta a gente
Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

do Livro " Outono da Vida "

5 de junho de 2008

O Teu Corpo poema de ÂNGELO GOMES






Deixa-me acordar, sorrir, esbracejar
Em cada alvorada de sonos inquietos
Pensamentos lentos, lista de afectos
Tua voz sentir, acto de inventar

Desenho o teu corpo enquanto desperto
De suave tecido em mãos de ternura
Que beijo e rebeijo com tanta doçura
E amo e possuo como se estivesses perto

Que venham sóis, chuvas ou tormentas
Que toquem os sinos abordando rebates
Que caiam ferros, pedras, alicates
Que as bocas estejam secas e sedentas

Oh... como adoro o teu corpo de frescura
Razão das razões... toque de magia
Que invade o meu, deixando nostalgia
Saudade intensa, retrospectiva pura

Corpos colados, invasão das mentes
Selados em lençóis ou calmas areias
Torcendo, mexendo, como centopeias
Acabando molhados, sôfregos, ardentes

Adoro o teu corpo de sonho e desejo...
Suporte de um todo que vejo e revejo.



ÂNGELO GOMES


Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
Código do texto: T232095