30 de setembro de 2008

EU NÃO SEI AO CERTO ... poema de Jaime Sabines ( México )




EU NÃO SEI AO CERTO...


Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficar sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio.
Como a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então que sabem tudo.
Vêem-se nus e sabe, tudo.

( Eu não sei ao certo. Suponho-o )



JAIME SABINES

25 de setembro de 2008

CANÇÃO poema de ANTÓNIO BOTTO

CANÇÃO


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo : - a luz do dia!
-Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede a e vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo o que possa ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!



ANTÓNIO BOTTO

19 de setembro de 2008

NÃO GOSTO




Não gosto de meias palavras.

Prefiro o silêncio aos gritos ensurdecedores das pessoas com quem tenho de falar e que não me dizem nada.

Não gosto de engolir palavras que não mereço, nem de desculpas esfarrapadas.

Não gosto de pessoas que só querem o que não têm e quando têm o que querem, não sabem do que gostam.

Não gosto de ouvir, talvez, não sei, sei lá, depois vê-se, tem paciência.

Não gosto que me peçam desculpa.

Não gosto que me prometam e não cumpram, de encontros desmarcados e de esperas infinitas.

Não gosto de gritos, de confusões, de gestos teatrais e dramatismos.

Não gosto de intrigas e de histórias mal contadas, não gosto de meias verdades.

Não gosto de palavras sem sentido e de falar por falar.

Não gosto que falem comigo e não me olhem nos olhos.

Não gosto de palavras arrastadas e de segredos mal guardados.

Não gosto de pessoas que andam de nariz empinado e se acham melhores que os outros.

Que pensam que sabem tudo e que falam com arrogância, que têm um ar de gozo, mas que choram por dentro.

Não gosto de perder tempo, prefiro gastá-lo com o que mais gosto.

Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de sorrisos amarelos.

Não gosto de pessoas que falam mansinho ao chefe e levantam a voz à mulher da limpeza.

Não gosto de pessoas que sabem que não têm razão e ainda assim não o admitem.

Não gosto de não poder acreditar nas outras pessoas nem de voltar atrás na palavra e ainda menos que voltem atrás comigo.

Não gosto de pessoas que não olham a meios para atingir os seus fins.

Não gosto de quem não gosta de um animal.

Não gosto de pessoas que só vêm o seu lado e que esquecem todos os outros.

Não gosto quando não dizem que gostam de mim, quando o sentem na realidade.

Não gosto de ter saudades daquilo que gosto.

Não gosto que se esqueçam dos meus anos, nem de mim, mas principalmente não gosto que quando esquecida, não me guardem num lugar do coração.

( Desconheço o Autor

13 de setembro de 2008

Filha de Um Amor Proibido - Isabel Valente




Os jovens de hoje não sabem que, na minha geração, haviam
crianças nascidas fora do casamento, e em cujo registo pessoal
constava o nome da Mãe, tendo por pai, um “ Pai Incógnito”.
Estas crianças, eram estigmatizados como, os filhos do pecado,
da vergonha, os filhos da outra.

Eram os filhos fora do casamento, os bastardos.
É que o registo obrigatório com nome de pai é recente, e eu já
sou "Cota".

Para a nova geração onde todos à nascença são registados com o
nome de mãe e de um pai, verdadeiro ou não, não lhes é fácil
entender o que é viver com o facto diário de ser filha de” pai
incógnito”.

Tendo eu passado por essa experiência, não me é difícil
explicar o que é ser filha de Pai Incógnito.
Hoje na maioria das Repartições Públicas todas achamos uma
grande maçada, ter de preencher formulários, para mim, passou
a ser, uma bênção.

Em alguns desses formulários tinha de mencionar o nome de Mãe
e de Pai, então lá vinha o tormento ---Pai Incógnito --- .
Isto era dito em voz baixa, tentando que ninguém ouvisse, na
maioria dos casos não resultava, por esse mesmo motivo, era
obrigada a repetir mais alto, sendo motivo para que toda a
plateia se virasse para ver quem era a santa alminha que era
fruto de tamanho pecado, e mais, ser confrontada com olhares
de censura indirecta, em alguns casos estampado um leve
sorriso de superioridade, e talvez que, se eu lhes lesse o
pensamento…estaria lá bem patente “ aquela é filha da mãe”.
O mesmo acontecia na escola, sempre que a professora me
perguntava o nome dos meus pais, eu respondia o nome da minha
mãe, ela, pensando que eu não tinha entendido que o pretendido
era nome dos PAIS, lá eu era obrigada, envergonhadamente a
dizer “Pai Incógnito “

Ser filha de Pai Incógnito no meu caso, era doloroso,
porquanto não me conformava em conhecer o meu PAI e ser
reconhecida por ele, e esse facto não ser aceite pela própria
sociedade .

A censura ao mesmo tempo recai , naquele homem que traiu a
esposa, e que nem se envergonha do seu próprio pecado, quando
se proclama pai .

A filha de Pai Incógnito, cuja responsabilidade de estar
vivendo esse “ horror “ era o pecado dos progenitores , o
Pecado de um Amor Proibido……sendo eu portanto, a filha de um
amor proibido.

Ser filha de Pai Incógnito, é também sentir nos nossos meios
irmãos esse rancor, porque somos a vergonha que manchou o seio
da sua família, a mágoa com que a mãe deles acorda e adormece.

Outra mesma frente de retracção, se verifica nos outros meios
irmãos, os filhos do novo casamento da mãe, esses sim, filhos
de um pai e de uma mãe, que têm na família um patinho feio,
que lhes lembra não a traição da mãe, mas o pecado dela.
Isso que atrás descrevi é a minha experiência, sentida na pele
de criança.

Hoje a sociedade mudou, existem filhos de pais assumidos que
nunca viram a cara dos seus filhos, nunca pegaram neles ao
colo, nunca lhes deram tão pouco, um pouco de carinho…..ou
mesmo, um pedaço de pão.

Meu Pai, Homem de bem, homem culto e com uma visão fora da sua
época, nunca precisou de Instituições que o obrigassem a
reconhecer as suas obrigações de Pai , no sentido amplo da
palavra, soube ultrapassar todos os obstáculos, próprios da
época afirmando aos amigos e família sem nenhum tipo de
preconceito: ” Esta é a minha filha”.

Felizmente foram ultrapassadas essas Imposições de uma
sociedade fascista, falsa e preconceituosa.
Hoje só quero mesmo é relembrar o homem que adorei, que adoro
e a quem chamei Pai, sem que por isso tenha de exibir o BI….a
minha homenagem a ele , meu PAI.

A minha homenagem à minha MÃE, que foi marginalizada, apontada
pela sociedade, que viveu esse amor, pagando caro o seu
“pecado” .

Benditos sejam os dois, que pecaram para que eu
existisse, e hoje esteja aqui falando para a nova geração
sobre a minha experiência de ser filha de Pai Incógnito.


O nome dessa grande Mulher, minha MÃE é ELVIRA, nome dado também á minha neta.

O nome do HOMEM, mais PAI e corajoso que alguma vez conheci e do qual me orgulho é
JOÃO.


10 de setembro de 2008

SAUDADE DA PROSA poema de Manuel António Pina







Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.

E se regressava
oelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


MANUEL ANTÓNIO PINA