31 de outubro de 2008

" A Dor Que Dói Mais " de MARTHA MEDEIROS





Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.


MARTHA MEDEIROS

MARTHA MEDEIROS

30 de outubro de 2008

Não Sei Nada...... poema de LG















Pergunto a mim próprio se existo,

ou se apenas resisto às mais doces tempestades;
poço de mentiras e verdades
em que teimosamente insisto.

Pergunto a mim mesmo se valho,
ou se apenas resvalo em delícias planas;
simples desflorador de camas,
ou singela gota de orvalho..


Pergunto a mim próprio se penso,
ou se só lanço a confusão;
se é líquida resignação,
ou os meus próprios medos venço..


Pergunto a mim mesmo se lido,
ou mergulho na preguiça;
se lidero a justiça,
ou se por ela fui vencido..


Pergunto a mim próprio se vivo
tal como a vida se imagina,
se antevê ou se alucina,
ou sou dela apenas cativo..


Pergunto, por fim, a mim próprio,
se perguntar a mim mesmo sei,
ou se, pelo contrário, herdei
o dom de ser um ser impróprio.


.


Poema de Luis Gabriel

21 de outubro de 2008

OCIDENTE-ORIENTE poema de Adonis ( 'Ali Ahmad Sa'Id)

Era algo que se estendia no túnel da História,
Algo enfeitado e minado
Levando seu menino de nafta envenenado,
Por venenoso mercador cantado;
Era um Oriente - criança que pede,
Grita " Socorro !"
E o Ocidente, seu senhor nunca errado -
Mudado está agora este mapa;
O Universo em chamas,
Oriente - Ocidente : um só
Túmulo
Em cinza os tem juntado ...

15 de outubro de 2008

" Já um Pouco de Vento se Demorara " poema de VITORINO NEMÉSIO






Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casa mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove



VITORINO NEMÉSIO

10 de outubro de 2008

AMIÚDE poema de Raul de Carvalho






AMIÚDE

No vale dos afectos
ninguém está seguro:
Mingua a lembrança,
Esquece-se o rosto,
Retorna-se ao eu,
Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a
presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo -

E apenas as pequenas ilusões
- um café, o cigarro, a limonada -
imitam dois corações unidos ...



Raul de Carvalho

5 de outubro de 2008

O BANHO DOS POBRES poema de Tonino Guerra ( Itália )




O BANHO DOS POBRES


Os pobres da minha terra
tomam banho no rio
e estão de molho na água
um dia inteiro.
Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
Voltam quando é noite
Encontram outra vez as velhas casas
com as cabeças dos gatos aos janelos
e toda a água nos cântaros represa.