31 de dezembro de 2008

O QUE NÃO SE RECORDA poema de Luis Rosales ( Espanha)





O QUE NÃO SE RECORDA


Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.

Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.

Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.

O silêncio
pôde mais que o esforço.

Anoitecia

para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.



LUIS ROSALES

28 de dezembro de 2008

* TUDO É FOI * poema de António Gedeão




Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


ANTÓNIO GEDEÃO

22 de dezembro de 2008

Alma Minha Gentil Que Partiste " LUIS DE CAMÕES "





Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões

18 de dezembro de 2008

" DESPERTAR " poema de Vitor Cintra







Ânsia de amor, quando assalta,
Faz com que o sonho esquecido
Ganhe, de novo, sentido,
Como a essência, que exalta.

Ímpeto, de maré alta,
Arte, de leito escondido,
Dom, de sabor proibido,
Fogo, paixão, que ressalta.

Perda, carência, dor, falta,
Sombra, dum tempo perdido,
Chama, prazer reprimido;

Onda de choque, ribalta,
Corpos, vertigem, gemido,
Frémito desinibido.


VITOR CINTRA
do livro " MURMÚRIOS "

16 de dezembro de 2008

Quando se Gosta de Alguém de
* AMÁLIA RODRIGUES *




Quando se gosta d'alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo que é que se sente

Quando se gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior agente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto.

AMÁLIA RODRIGUES

5 de dezembro de 2008

ÚLTIMO SONETO poema de Mário de Sá-Carneiro




ÚLTIMO SONETO


Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes - e vieste ...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que mordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste...Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava? ...


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO