29 de junho de 2009

Entrar em Ti...
de RUI RESSURREIÇÃO

Por vezes é difícil entender a tua maneira de ser
conhecer o teu interior
a tua dor
o que te move por amor.
Que fazes tu no monte das ilusões
essas sensações de sair fora de ti
para longínquos universos
para outras paragens
em busca de novas miragens
em que te iludes com os conceitos da mente
que te engana
que te chama para um território escorregadio
frio e lamacento
em que nas suas conexões
receberás encontrões
e perderás o rumo da tua vida
afundando-te nos lagos cerebrais
e sentindo falta de todos os teus ais
duma alma desencontrada
com a tua mais alta morada
a do amor.


Rui Ressurreição

26 de junho de 2009

Cântico VI de Cecília Meireles





Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecília Meireles

21 de junho de 2009

Em Silêncio de VERA SOUSA SILVA




Deixa-me amar-te assim... em silêncio...

Não me peças palavras que não sei pronunciar, nem gestos que nunca fiz. Não sei tanto do que queria e quero tanto do que não sei.
Olhas-me e perco o norte. Fico muda e desvio o olhar. Não é por não te amar, mas sim por esse amor ser grande demais. Mas em silêncio...
Seria tão fácil dizer que te amo e perder-te. Seria tão simples dançar ao som da ilusão e entregar-me completa, plácida, serena, e acrescentar apenas as letras que faltam quando não digo “Amo-te”!
Não me peças para ser o que não sou, nem para me transformar subitamente em mulher, porque sou apenas menina.
Queria crescer nos teus braços fortes e esconder-me atrás do teu tronco másculo. Mas abraço-te... em silêncio.
Desejo o suave toque acetinado dos teus lábios nos meus e imagino como será um beijo de verdade. Anseio por ele e sonho-o.. em silêncio.
Aproveito-me do que tenho de melhor e sonho... Nos meus sonhos eu sou tua e tu... Tu, meu amor, pertences-me! Todos os dias nos amamos intensamente e somos apenas um do outro! Todos os segundos das minhas noites são aproveitados ao máximo e vividos energicamente, ardentemente, gloriosamente... Chega a manhã e a realidade!
Não me peças palavras que não sei dizer e deixa-me! Deixa-me amar-te assim... em silêncio...


Vera Sousa Silva

9 de junho de 2009

Tempo..... poema de Isabel C.



Eu quero agarrar o tempo,
Que corre veloz e não cansa.
Mas o tempo, tem todo o tempo,
Corre, corre, atrás do vento,
Numa corrida sem esperança.

Queria contar os grãos de areia,
Que tenho na palma da mão.
E neste querer impossível,
Espalha o vento invisível,
O tempo que me resta, pelo chão.

Assim, é para cada um, a sorte...
Que se trás no destino, ao nascer,
Por muito que tente, lute e se esforce,
Ore e implore, para que a sorte volte,
Esta não muda, só por se querer.



2009.06.08
Isabel C.

8 de junho de 2009

CANÇÃO...poema de Eugenio Florit ( Cuba)

Eco de um sonho que na noite busco
torcendo o frio gris do pensamento.
É tarde já para olhar estrelas
e tenho frio.

Talvez não saiba quando irei olhar-te.
preso à alma de tua grata lembrança
que está a gritar-me lá do sonho
um nome tépido.


Um nome que há-de ser como são as rosas,
doce e fragrante prémio para os lábios;
mais sereno que minha amargura
sem esperança.

Assim verei, na orla destes mares,
para alegrar minhas altas gaivotas,
umas letras unidas ao reflexo
do seu olhar.


Trad: José Bento.


do Livro " Rosa do Mundo "

6 de junho de 2009

Esperança..... poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

Se eu conseguisse viver este dia,
O dia que hoje passa,
Como se fosse o último da minha vida...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me aniquila a Graça,
Que me enegrece a alma
E enluta o coração...


Ai, se eu pudesse suster
Os passos incertos,
No caminho errado,
Do meu viver !
E ao passado não voltar,
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar ! ...


Se conseguisse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que teima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ...


Se eu pudesse evadir-me
Deste negro cárcere,
Desta dura e fria prisão
Onde, há muito, vivo
Abandonado,
Cativo,
Nos braços da solidão...


Se eu conseguisse viver
Só dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim ...


Isolado, neste mundo,
Onde a amargura se esconde,
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde ...
- Do horizonte ? Do céu? Do mar?
... Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa,
Não se cansa de esperar! ...



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

do livro " Outono da Vida "

1 de junho de 2009

MENINO DE ROSTO SUJO....poema de José Maria Lopes de Araújo

A ti, menino de ninguém


Sem norte era teu caminho,
Jornada de mágoa e dor ...
Tinhas sede de carinho ...
Trazias fome de amor !


De rosto sujo, menino ...
Como é negro o teu destino !


A lágrima que rolava
No teu rosto macerado,
Amargamente falava
De um tormentoso passado ...


Um passado curto ainda
Tão tristemente marcado ...
A este mundo, tua vinda
Foi o fruto do pecado !


Dum pecado que persiste
A marcar a tua vida ...
Uma esperança tão triste
Feita de esperança perdida !


Como é negro o teu destino !
De olhos molhados, menino ...


É que não ter o calor
De mãe, de pai ou de alguém,
É viver-se sem amor ,
Sem carinho de ninguém !


No rosto sujo teus olhos
Que trazem tanta amargura,
Mostram bem teu mar de escolhos,
Menino órfão de ventura !


De olhos molhados, menino ...
Como é triste o teu destino !






JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO


do livro " Outono da Vida "