27 de outubro de 2009

AÇORES..... poema de VITOR CINTRA
















Nove ilhas de beleza deslumbrante,
Surgidas do profundo mar imenso,
Que o mundo conheceu porque o Infante
Tornou o nevoeiro menos denso.

Encostas de mosaicos verdejantes
Elevam-se, rumando ao infinito.
Hortênsias, feitas sebes, são constantes,
Tornando o colorido mais bonito.

Ali, onde gigantes residiram,
Os cumes das montanhas que explodiram,
Tornados em lagoas de beleza,

Relembram, aos herdeiros dos atlantes,
Que até já os primeiros navegantes
Sabiam respeitar a natureza.


VITOR CINTRA

do livro " Entre o Longe e o Distante "

25 de outubro de 2009

NO MEIO DO MAR poema de " JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO "
















Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!

Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.

…………………………….

Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

24 de outubro de 2009

Sim, Sei Bem ....poema de FERNANDO PESSOA




















Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


FERNANDO PESSOA

22 de outubro de 2009

O Sonho...poema de....SEBASTIÃO DA GAMA

















Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

SEBASTIÃO DA GAMA

20 de outubro de 2009

URGENTEMENTE.....poema de....EUGÉNIO DE ANDRADE




É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

EUGENIO DE ANDRADE

16 de outubro de 2009

No Meio o Mundo....poema de ...VITORINO NEMÉSIO














Com medo de o perder nomeio o mundo
Seus quantos e qualidades, seus objectos
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos


Nomeei as coisas e fiquei contente
Prendi a frase ao texto do universo
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso. 



VITORINO NEMÉSIO

12 de outubro de 2009

Um Poema.....de MIGUEL TORGA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

MIGUEL TORGA

11 de outubro de 2009

Amélia dos Olhos Doces...poema de ...JOAQUIM PESSOA




Amélia dos Olhos Doces
quem é que te trouxe
grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca.
Na pele e na roupa
perfumes de França.

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Amélia dos Olhos Doces
quem dera que fosses
apenas mulher.
Amélia dos Olhos Doces
se ao menos tivesses
direito a viver!

Amélia gaivota
amante ou poeta.
Rosa de café.
Amélia gaiata
do Bairro da Lata.
Do Cais do Sodré.

Tens um nome de navio.
Teu corpo é um rio
onde a sede corre.
Olhos Doces. Quem diria
que o amor nascia
onde Amélia morre?

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Joaquim Pessoa

10 de outubro de 2009

HOJE----------- Lançamento do Novo Livro do Poeta VITOR CINTRA " ENTRE O LONGE E O DISTANTE "



Apresentação em simultâneo
a ideia ganhou força e vai mesmo acontecer.
Porque não é possível convidar pessoalmente todos os amigos do poeta VITOR CINTRA, deixo-vos aqui o convite.


ENTRE O LONGE E O DISTANTE





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LOUCOS ......poema de VITOR CINTRA





Não são muitos, nem são poucos,
Os poetas, bem seguros,
Encerrados entre muros
Sob o rótulo de loucos.

São apenas os bastantes
P'ra provar que a poesia
É temida, e não devia,
Tanto ou mais do que era dantes.

Porque abordam quaisquer temas,
Nas estrofes dos poemas,
Incomodam co'as verdades.

É por isso que os poetas
São, por formas indirectas,
Reprimidos entre grades.


VITOR CINTRA

do livro " RELANCES "

9 de outubro de 2009

A SOLIDÃO DE UM HOMEM NA SUA CASA ...poema de Alexandre Dale






Aquele homem estava em sua casa,
a comer bolachas com manteiga
e a beber leite frio.
A certo momento,
deu-lhe para reparar em todas as coisas
que o rodeavam.
Havia meias de mulher
numa corda esticada por cima da sua
cabeça, loiça suja sobre a
mesa, fruta de verão a
apodrecer
— e até, algures, um
gato.

Havia muitas coisas, sem dúvida,
mas aquelas três ou quatro bastavam-lhe
para que se sentisse um estranho
naquele lugar — ou ele mesmo,
mas noutro lugar. Era como
se estivesse ali pela primeira vez.
e daí sentiu
que podia estar a ser
como se fosse um homem
de qualquer parte do mundo:
um homem com as suas
questões habituais,
os seus problemas típicos,
as suas esperanças,
os seus receios.
Um homem sozinho — porque
membro de toda e qualquer família,
pai de todos os filhos, amante ou
companheiro de todas as mulheres,
sangue,
avô,
amizade,
semelhante.

E então aquele homem pensou:
agora
vou-me deitar ao lado da minha
mulher, que dorme hoje na
falta de mim — eu, talvez perdido
na obscura noite das minhas obsessões
— e, no entanto,
parece-me que tudo isto
está cada vez mais estranho.
Quer dizer: não sei que mulher é essa.
Não a conheço.
Pensando bem, nem sequer das suas feições
me consigo lembrar.
todavia, sei que está lá.
Desejo-a.
Através dela, cavalheiros,
aprendi que todas as mulheres desejam sentir,
cada vez que fazem amor,
o incómodo ou dúbio prazer
de estarem a ser violadas.

E então o homem escreve,
e sente-se só, na sua casa,
e não sabe o que há-de fazer.

Fuma.

Escreve mais um pouco.
Talvez escreva isto.
Talvez escreva:
"sei muito bem do que estou a falar".

Mas a verdade é que é muito difícil
falar-se da solidão de um homem
na sua própria casa.
Sei muito bem
do que estou a falar.


ALEXANDRE DALE

3 de outubro de 2009

Não Posso Adiar.... A.RAMOS ROSA





Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

A.RAMOS ROSA

1 de outubro de 2009

Amor Combate ....poema de JOAQUIM PESSOA


Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.


JOAQUIM PESSOA