30 de maio de 2010

Como Eu Não Possou..... de Mário de Sá Carneiro





















Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.



Mário de Sá-Carneiro

29 de maio de 2010

Noções.....de CECÍLIA MEIRELES



















(Pintura da artista Margarida Cepêda)

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Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...



Cecília Meireles

26 de maio de 2010

Existir é Ser Possível Haver Ser....de ÁLVARO DE CAMPOS













(Pintura de MARGARIDA CEPÊDA)


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!


Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!


Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?


Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.


Álvaro de Campos, in "Poemas"


Heterónimo de Fernando Pessoa

24 de maio de 2010

Oração das Mulheres Resolvidas....de JULIO MACHADO VAZ



















Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo, que a fonte nunca seque, e que a nossa sogra nunca se chame Esperança, porque Esperança é a última que morre...

Que os nossos homens nunca morram viúvos, e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos,e os feios se tiver tempo...

Deus...

Eu vos peço sabedoria para entender um homem, amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos, porque Deus, se eu pedir força, eu bato-lhe até matá-lo.

Um brinde...

Aos que temos, aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram, aos trouxas que nos perderam, e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!

Que sempre sobre, que nunca nos falte, e que a gente dê conta de todos!

Amén.


22 de maio de 2010

Como é por Dentro Outra Pessoa de... FERNANDO PESSOA















Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa, 1934

20 de maio de 2010

Epígrafe....poema de Eugénio de Castro
























(Foto de Antonimus)

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som  de água ou de bronze e uma sombra que passa...


EUGÉNIO DE CASTRO

14 de maio de 2010

O Pássaro Cativo...poema de Olavo Bilac



















“Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar!
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...”



Olavo Bilac

Brilho de Sol Tal ......... poema de L.G.


Oh brisa salgada que vens das profundezas do mar,
Meus lábios te esperam sedentos,
A minha boca permanece amarrada...
Nos meus olhos não há olhar.

Oh como passa gelado o vento da distância,
Passa calado,
Cala um lamento,
Disfarça importância.
Cada vaga ao chegar, trás em si uma mensagem;
Carta que afaga,
Afago ao luar,
Frases de coragem

Mas de manhã, cada raio do sol nascente,
É como um gomo de romã,
Um boquet de flores de Maio,
Um abraço que se sente...
E não há nuvens que ocultem o brilho de um sol tal
Nem há esquemas que resultem,
Nem armadilhas no trilho,
Nem ameaça fatal

À medida que o sol se ergue
E os seus raios me aquecem
Meu sangue quase ferve
Com momentos que não esquecem

Luis Gabriel

8 de maio de 2010

OS TEUS OLHOS....poema de Ângelo Gomes


















De avelã, de seda, de cristal, os teus olhos…
Lírios do campo que espelham emoções
Exultando palpitares de corações
Distribuindo raios de luz aos molhos!...

Quando te ergues os teus passos enobrecem
A tua face desenha o sorriso de quem canta
Olhos de pérola que me agasalham como manta
Que se estende sobre as almas que padecem!...


Quisera eu dizer-te tanta coisa que não posso…
E então, rio e choro por dentro e de mim troço
Impotente para travar as amarguras…


Olha para mim… irradia o que de melhor ostentas
Mesmo que calques o trilho das tormentas
Sorri… dá-me um pedaço de ti enquanto duras.


Ângelo Gomes

5 de maio de 2010

Á Procura de Deus...poema de Cahit Sitki Taranci



















Sei, de errar nunca mais paro,
O passo torto me leva;
Na macieira as mãos agarro;
Tenho avós Adão e Eva.

Nem uma, nem duas vezes,
Mas todas tenho pecado.
Bem sabes, Senhor, só Tu és
Quem está sempre do meu lado.

Olha às lágrimas que verto,
É que eu mentir não posso,
Ao sol ponho o que vai dentro;
Inferno é-me o remorso.

Nem de noite sou luzeiro,
Nem borboleta de dia.
Como eu de verdadeiro
Teu rosto, Senhor, queria.

Não é vã a reza que digo,
Ninguém sabe meu desgosto;
Será amigo ou inimigo
Quem na água lhe dança o rosto?

É o mar sem fronteira alguma;
Vaga cruel, barco furado.
Ai os montes, ai a bruma
Onde se perde o veado!

Meu dia é sofrer infindo;
Noites - árido deserto.
Cada astro que vai caindo
É um ai que me arranca o peito.

Tenho ferida que não sara;
Meu braço - asa quebrada.
A mocidade voara.
Como então não dei por nada?

Não fosses Tu, em vão chora
Quem por outro Amor anseia;
Livra, Deus, Teu escravo agora
Da noite que o rodeia.


Cahit Sitki Taranci
1910-1956

2 de maio de 2010

As Janelas do Meu Quarto.....António Gedeão




















Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.


Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.


Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.


Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.


Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.


Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.


E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.


E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.


E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.


Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.


Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.

ANTÓNIO GEDEÃO

Conforto.... Poema de L.G.















Os arrependimentos fizeram-se para se sentirem,
as dívidas para se contraírem,
os gostos para se gozarem,
as penas e os desgostos para se cumprirem.

Os pecados fizeram-se para se cometerem,
a vergonha para se passar,
os frutos para se colher
e o amor para se amar.

A loucura para se fazer,
a ternura para se dar
e a paixão para se sentir.

Mas de todas as verdades a que maior verdade encerra
brota do fundo da terra e tem a ver com a vida
e essa não se renega;

Fez-se mesmo para ser vivida.


Autoria de Luis  Gabriel


A Todas as mães, um feliz Dia!