30 de junho de 2010

Ilhas Encantadas---- poema de MANUELA BULCÃO
















(Fotografia de Ana Loura)

Açores paisagem única, visão imaculada
Fontes da vida, Águas puras inócuas
Água translúcida, pura fonte da vida
Vegetação única da natureza, intocável terra orvalhada
Arquipélago
Ilhas encantadas, meus olhos brotam lágrimas perpétuas
A saudade, do cheiro a maresia é escrava do meu lamento
Jardins à beira mar plantados, pérolas do oceano.
Açores minhas ilhas meus amores
Sou filha do nada
Filha encantada, filha rejeitada, filha mal amada
Sou tudo, sou nada, serei idolatrada
Amante insular
Um dia serei amada, PRINCESA ENCANTADA




Manuela Bulcão
(Poetisa Açoreana)

24 de junho de 2010

Adeus/Não-Adeus ...poema de MANUELA BULCÃO





















Qual o significado desta pequena palavra?
Entrada na inexistência pura da saudade
Tanto a proferi nesta existência
Somos companheiros do pesar
Amantes furiosos das ondas de uma mera tempestade


Não me queria despedir de ti eternamente
Sinto-me frágil na tua presença distante
Do outro lado do oceano estás
Num quarto sonolento estou prostrada


Nunca te direi ADEUS, meu amor !
Tatuaste-me e acariciaste esta fera
Agora mergulho o meu corpo cansado na escuridão
Sempre a pensar na tua essência que desconheço…
Um NÃO-ADEUS para ti!






Manuela Bulcão

(Poetisa Açoreana)

20 de junho de 2010

Serradura......poema de Mário Sá Carneiro






















(Pintura de Margarida Cepêda )


A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.


E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.


Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.


Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:


Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.



Folhetim da "capital";
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...


O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...


Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...


Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:


O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "viva a alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...


Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.






Mário de Sá-Carneiro

16 de junho de 2010

Lágrimas Ocultas ...Florbela Espanca


















Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

14 de junho de 2010

Modinha...poema de " CECÍLIA MEIRELES "

















Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixeia-as,
Junto com as minhas cantigas,
Desenhadas nas areias.


Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!


O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.






Cecília Meireles

10 de junho de 2010

Horizonte....poema de Fernando Pessoa






















O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha


O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.






Fernando Pessoa

7 de junho de 2010

Reinvenção ....de CECÍLIA MEIRELES




















(Foto de Antonimus)

A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.




Cecília Meireles

3 de junho de 2010

Não Sei Quantas Almas Tenho...... de ...Fernando Pessoa



















Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma
.Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <>
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa