30 de setembro de 2010

Um Dia....Mário Quintana




















...Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer ...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana

21 de setembro de 2010

O Sexo Comanda a Vida....de Pedro Barroso


Os jogos começam cedo
no descobrir colectivo
no gesto subentendido
no procurar sem saber



Tanta falta, tão escondida
tanta mentira mentida
tanta busca de aprender
e a vontade a mandar,
e os adultos a não querer



e as coisas a acontecer...



Depois, vem o corpo e manda;



vem a sorte e o acaso
mais a vida convivida
que nos ensina sabores
preferências e valores
coisas que vão dar azo
a uma culpa indefinida...



Paixões, ímpetos, calores,
amores breves no recreio
aventuras sem ter freio



- E o sexo comanda a vida



E desculpa-me Gedeão
homem maior, professor,



há momentos em que creio
que mais que o sonho e o valor
mais que o talento ou a dor
mais que a vida acontecida
mais mesmo que o próprio amor
mérito, glória ou louvor.



Tem dias, secretos dias
tem horas, secretas horas
momentos acres, desejos.



Em que nos vem um ardor
uma razão cá de dentro
mais forte que o pensamento



Soprando mais do que o vento
na montanha mais subida.



Nesses momentos sabemos,
neste modo em que vivemos,



que o sexo comanda a vida...



Não que não sonhe a justiça
sonho perfeito de mim;



Não que não busque valores
exegeses superiores.



Mas olhando à minha volta
o desejo que anda à solta
mais a raiva fratricida
não posso deixar de ver.



Na cupidez, nos negócios
nas promoções,
no valor
que faz subir e descer
esta bolsa do viver.

Nem certeza, nem verdade
nem riqueza garantida



Ai amigos! Ai cidade!



- O sexo comanda a vida.



Essa menina bonita
que rebenta de esplendor,



no rolar lento das ancas
no lamber sábio da boca
vai ter muito mais valor.



Que o valor que nada vale
dessa outra,
assustada,
sabedora das matérias
competente e aplicada



Mas borbulhenta, feiosa,
sem graça, quase fanhosa
vinte valores no trabalho
mas negativa no jeito
sem lábios,
quase sem peito...



- Que lugar vai ter?
Que saída?



- Cientista, tradutora?



- Excelente investigadora?



Ai, desculpa-me, Gedeão
que injustiça tão sofrida
não há respeito sequer
é difícil ser mulher!



- Mas o sexo comanda a vida.



Mas cara amiga,
te digo



Se o jovem executivo
que te é apresentado
alto, composto, perfeito
elegante, bem vestido
encadernado a preceito



Apertar a tua mão
de um jeito mais que estudado
e te sorrir num bailado
e te falar no ouvido.



É mais que certo e sabido
perante um cantor de fado
não há norma na medida
nem recato nem respeito
nem olhar bem comportado



- Tu sentes calor no peito!...

- O sexo comanda a vida...

E se pensam que a razão
a busca da tal subida
é a riqueza,
o dinheiro
ter carros, poder, fortuna
e a vida favorecida...



A mim, dá-me a sensação
que o sucesso financeiro
é só uma contribuição.



- Apenas mais um caminho
para servir na corrida
acessória à sedução.



Pois desculpa-me Gedeão
mais que o sonho a que presida,
por desgoverno, paixão
loucura fútil, pressão,
por estupidez animal...



Ditadura visual
ou pecado venial
da tal utopia querida
nada sobrou,
nem moral.

- O sexo comanda a vida!





PEDRO BARROSO

16 de setembro de 2010

A Lágrima....Guerra Junqueiro

















Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.


Sôbre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,


A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.


Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrêla.


Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.


- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.


"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.


"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"


E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.



***


Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.


E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!


"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.


***


Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.


Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.


E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,


Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!


"Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,


"E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.


***


Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:


"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.


"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.


"Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...

"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...


"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...


***


E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,
Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...


GUERRA JUNQUEIRO
25 de Março de 1888.