28 de junho de 2011

Lúbrica....poema de Cesário Verde

 
















Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.


Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!


Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!


Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:


Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.


Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.


As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…


Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!


Cesário Verde

15 de junho de 2011

O Objecto....poema de Ary dos Santos















Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.


Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.


E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.


E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão


Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.



Ary dos Santos

10 de junho de 2011

Mudam-se os Tempos...Mudam-se as Vontades..... LUIS VAZ DE CAMÕES












Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.


Luís de Camões