3 de maio de 2017

Só.... sempre só....IsaC
















Quando ela saiu da estação do metro, no Oriente, em Lisboa, chovia torrencialmente.

Por azar tinha-se esquecido de levar o chapéu de chuva, e por isso levantou o casaco comprido até  lhe cobrir a cabeça, no intuito de não molhar o cabelo. Deveria estar minimamente apresentável quando entrasse na sala de audiências do tribunal.

O relógio marcava as nove horas da manhã, a temperatura estava baixa e corria um  vento frio. Ao mesmo tempo, tinha  as mãos geladas, entorpecidas.

Percorreu aquele quilómetro de distância a pé, com a água da chuva a bater-lhe no rosto.
Mal via as pessoas ou os carros que passavam ao seu lado.

Sentia-se ausente de si mesma, como se  levitasse e do alto  via-se vivendo aquele momento, atormentada, percorrendo aquela estrada que a levaria até ao fim de um percurso de quarenta anos de luta de muito trabalho e sobretudo de muitas desilusões.

Pela sua memória, passavam dispares frames de um filme, aquele que tinha sido a sua  vida, em especial nos últimos dez anos, quando optou por viver em Lisboa e quando pôs fim a um longo casamento nem sempre feliz e nem sempre infeliz.

Uma vida de altos e baixos cujo desfecho ia ser decidido naquela manhã no Tribunal, cujo desfecho final seria entregar o fruto do trabalho de décadas daquele que tinha sido o seu projecto de vida.

Estas lembranças e outras,  atropelavam-se dentro de si.
Essa era a causa porque naquele dia percorria um caminho gélido e solitário que lhe causava  angústia e aquele  aperto que lhe subia do peito à garganta.
Sentia o desgosto e a desilusão de ver destruídos os sonhos de uma vida de sacrifícios a que deliberadamente se tinha dedicado, para futuro dos seus  filhos.

Os pingos da chuva misturavam-se com as lágrimas que  caiam  em torrente pelo seu rosto cansado, de modo a ninguém perceber o seu desgosto.

Pensou que o tempo, Deus, ou São Pedro, estariam solidários com ela naquele dia tão cinzento, como a cor da sua alma.

E ela só... sempre só, numa solidão poucas vezes acompanhada.

IsaC

1 comentário:

  1. Belo texto! Parabéns! Aliás, a página é formidável.
    Abraço,
    Maria Luiza

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