3 de junho de 2019

Cosmocópula de NATÁLIA CORREIA



Cosmocópula

I

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras

II

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.

Natália Correia

31 de agosto de 2018

Soneto Insustentável...... Paulo Ramalho



SONETO INSUSTENTÁVEL

(Anoiteço entre os tambores
da grande noite mágica
embalado por mil temores

enquanto à luz da lua trágica
os mortos libertam seus odores,
os anjos morrem em África.)

Um soneto insustentável:
eu ao contrário em cada verso,
eu, recordação indelével,
perdido numa picada sem regresso.

Todo o passado é maleável
e a memória purga seu excesso
mas de mim, criança instável,
lembro a dor, o fundo abcesso.



Paulo Ramalho, "Exorcismo dos Anjos"
Foto: Guiné-Bissau, Julho de 1974

30 de junho de 2018

Os versos que te fiz ...Florbela Espanca


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas,meu Amor,eu não tos digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz

Amo-te tanto!E nunca te beijei...
E nesse beijo,Amor,que eu não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!



Florbela Espanca

12 de fevereiro de 2018

O Meu Orgulho.....Florbela Espanca


O Meu Orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera 
Não me lembrar! Em tardes dolorosas 
Lembro-me que fui a Primavera 
Que em muros velhos faz nascer as rosas! 

As minhas mãos outrora carinhosas 
Pairavam como pombas... Quem soubera 
Porque tudo passou e foi quimera, 
E porque os muros velhos não dão rosas! 

O que eu mais amo é que mais me esquece... 
E eu sonho: "Quem olvida não merece..." 
E já não fico tão abandonada! 

Sinto que valho mais, mais pobrezinha: 
Que também é orgulho ser sozinha, 
E também é nobreza não ter nada! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

17 de outubro de 2017

Minha Namorada...... Vinicius de Moraes


























 Se você quer ser minha namorada
 Ah, que linda namorada Você poderia ser Se quiser ser somente minha Exactamente essa coisinha Essa coisa toda minha Que ninguém mais pode ser Você tem que me fazer um juramento De só ter um pensamento Ser só minha até morrer E também de não perder esse jeitinho De falar devagarinho Essas histórias de você E de repente me fazer muito carinho E chorar bem de mansinho Sem ninguém saber por quê Porém, se mais do que minha namorada Você quer ser minha amada Minha amada, mas amada pra valer Aquela amada pelo amor predestinada Sem a qual a vida é nada Sem a qual se quer morrer Você tem que vir comigo em meu caminho E talvez o meu caminho seja triste pra você Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos Os seus braços o meu ninho No silêncio de depois E você tem que ser a estrela derradeira Minha amiga e companheira No infinito de nós dois 



2 de outubro de 2017

Semi Tudo



Na noite  clara e calma...
Numa varanda distante, 
Passeava-se ...
Um corpo, 
Semi- nu, 
Semi -homem, 
Semi -anjo...

Do alto, a lua  o beijava...

Ao longe....
Na varanda de um jardim,
Por entre o escuro das folhas, 
Outro vulto observava, 
Com o olhar  afagava
Aquele corpo
Semi nu, 
Semi anjo, 
Semi seu 


Imaria

1 Out 2017

8 de junho de 2017

Lua Adversa...Cecília Meireles



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 


Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 



E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 



Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 



Cecília Meireles

27 de maio de 2017

A Dança ...Pablo Neruda



Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Pablo Neruda

23 de março de 2017

Um dia....poema de LG




Um avião descola e sempre dá
Coração que fica e outro que voa,
Corações que geram vida á toa,
Repousando na lembrança dum sofá

Um que parte, outro que fica, então,

Saboreando "amiga  colorida",
Bebendo um gole da gerada vida,
Lembrando o toque doce da sua  mão.

Possibilidade do impossível?

Fruto da imaginação invencível?
Junco castanho que jamais florirá?

Ou apenas são vidas encontradas

No desencontro de caixas fechadas?
Um avião descola, outro virá!

... Um dia !


L.G







15 de fevereiro de 2017

A Vida poema de Florbela Espanca



A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés d'alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 

Todos somos no mundo "Pedro Sem", 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo donde vem! 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida... 

Amar-te a vida inteira eu não podia... 
A gente esquece sempre o bem dum dia. 
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... 

12 de fevereiro de 2017

Eu não existo sem você....Vinicius de Moraes




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você


12 de dezembro de 2016

As minhocas ..... poema de Mário Fragoso


(Pintura de Margarida Cepeda)


As Minhocas

Pensa as cicatrizes 
Como elas chegam e restam
Moventes e imutáveis 

Grãozinhos de areia na água das tuas vertentes
E de sal no teu olhar

Verás que não só existem fendas
Para espalhar o infinito
entre uma parede e outra
Nas ruinas
Sem nunca deixar alastrar
Nem a cor da cal branca
Nem as pedras das janelas 
Seladas

O bicho não pode escapar…
Eles disseram-te
Sem pensar
Que só há humanidade em ti
Apertada na sua extravagância
E que as serpentes não são mais nada
Que minhocas venenosas

Mas…
Tu sentes-lhes os dentes
Vês
A suas peles e as suas escamas deslizarem
Perfumando-te o corpo
Com vestígios de criança que não soube fugir
Devorada pela mulher que nunca deu à luz

As minhocas predicaram-te um futuro luminoso
No nevoeiro das lembranças
E no torpor da saudade
Mas tu, guardas escondido debaixo da língua 
A intimidade da ferida
Como um mergulho 
Fora da água 
Onde elas te querem afogar

E essa cal, esse branco venceu-te
Uma vez
Sendo mais que o suficiente
Para o peso dos teus passos cavar no chão
O sulco absurdo onde tremem ossos sem carne

Agora, as ruínas pesam sobre o amanhã
E as sombras que engoliste
Borboletam nas beiras dum trilho demasiado largo
Brincando aos fantasmas
Perante a palidez da tez
Dos espelhos

As minhocas e a cabeça….
Duo improvável
Como sem querer
Deixam atrás de ti o rasto dos espectros
Esfarrapados
Que pintam de negro as tuas vertigens

Não esqueças que as grades
Onde elas te fecham
Se cortam 
Unhas voltadas para dentro

Pensa as cicatrizes
Porque eu não soube ….
Pensá-las.

Mário Fragoso

31 de outubro de 2016

Poema em Linha Recta .... Fernando Pessoa







Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de HOTEL,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa

25 de outubro de 2016

TU TENS UM MEDO de Cecília Meireles





Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.



Cecília Meireles


19 de outubro de 2016

Sonho. Não sei quem sou....Fernando Pessoa






Sonho. Não Sei quem Sou

Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
             Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
             Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contêm. 
Dorme inconsciente de alheios corações, 
             Coração de ninguém. 


Fernando Pessoa

30 de janeiro de 2016



O grande poeta VICTOR CINTRA deixou-nos.
Fica o seu legado de poemas que permanecerão através dos tempos.
Partiu o amigo. Até um dia




Sinto crescer a vontade
De perceber se o que dizes,
Entre risadas felizes,
É ou não é a verdade,
Ou só disfarça deslizes.

Sinto crescer o desejo
De te cingir nos meus braços,
P'ra te prender com abraços,
E arrancar-te num beijo
Todos os teus embaraços.

Sinto crescer a ideia
De que, bem mais do que mostras,
São bem reais as propostas
Duma visão que incendeia
Esse viver, de que gostas.





VITOR CINTRA

18 de outubro de 2015


Deixo a brisa de leste banhar-me a face
A primavera resplandece de norte a sul
Com dez mil tons de vermelho
e dez mil tons de azul.

Chu Hsi (B China  Sé. IX)

4 de julho de 2015

Doce Tormento




Se eu fosse colibri, voando de flor em flor
deixaria na tua boca, o néctar do meu amor.

Sei que cheiro a jasmim e danço como uma flor
quando o vento me embala, nos braços do teu amor

Tenho na boca o riso, da papoila rubra em flor
Que te murmuro ao ouvido, sonetos do meu amor

Imaria



22 de abril de 2015

Dança do Vento de Afonso Lopes Vieira








O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia. 
Baila, baila e rodopia 
E tudo baila em redor. 
E diz às flores, bailando: 
- Bailai comigo, bailai! 
E elas, curvadas, arfando, 
Começam, débeis, bailando. 
E suas folhas, tombando, 
Uma se esfolha, outra cai. 
E o vento as deixa, abalando, 
- E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor. 
E diz às altas ramadas: 
Bailai comigo, bailai! 
E elas sentem-se agarradas 
Bailam no ar desgrenhadas, 
Bailam com ele assustadas, 
Já cansadas, suspirando; 
E o vento as deixa, abalando, 
E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 
E diz às folhas caídas: 
Bailai comigo, bailai! 
No quieto chão remexidas, 
As folhas, por ele erguidas, 
Pobres velhas ressequidas 
E pendidas como um ai, 
Bailam, doidas e chorando, 
E o vento as deixa abalando 
- E lá vai! 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 
E diz às ondas que rolam: 
- Bailai comigo, bailai! 
e as ondas no ar se empolam, 
Em seus braços nus o enrolam, 
E batalham, 
E seus cabelos se espalham 
Nas mãos do vento, flutuando 
E o vento as deixa, abalando, 
E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 

9 de março de 2015

Dorme Enquanto Eu Velo...

Dorme enquanto eu velo... 
Deixa-me sonhar... 
Nada em mim é risonho. 
Quero-te para sonho, 
Não para te amar. 

A tua carne calma 
É fria em meu querer. 
Os meus desejos são cansaços. 
Nem quero ter nos braços 
Meu sonho do teu ser. 

Dorme, dorme, dorme, 
Vaga em teu sorrir... 
Sonho-te tão atento 
Que o sonho é encantamento 
E eu sonho sem sentir. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"