30 de julho de 2004

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO " Inquietude "

INQUIETUDE

Que julgas tu? Que pensas de ti mesmo,
Se és átomo que segue para o nada?
A vida é esta triste caminhada
Que fazemos, em vão, sem norte, a esmo!

Que pensas tu da vida, se o amanhã
É tão incerto, como o próprio vento?
Surja embora a ventura, num momento,
Se apaga como a estrela da manhã!

Tão pouco vale o mundo de paixões
Que se geram de loucas fantasias...
Tudo se esfuma e esvai, nos breves dias,
A que se prendem nossas ilusões!

Abre os teus braços, abre, e beija e abraça
Os pobres que encontrares no caminho,
Que ficarão mais ricos de carinho,
Mais cheios de ventura, Amor e Graça!....

Vamos lutando pela vida fora...
Abre os teus braços, abre e vem comigo,
Fazer de cada Ser um novo amigo
E dar a cada norte nova aurora.

Estende as tuas mãos aos que, a teu lado
Caminham, sem destino e sem esperança...
Que o desespero, quanto mais avança,
Mais agiganta a mágoa do passado!

A vida é isto apenas. Tudo o mais
Não passará de sonhos, de ilusões...
Olha o terror, no ferro das prisões...
Olha a amargura e a dor nos hospitais!

E aquele que ali vai, braços em cruz,
Sobre o peito, deitado num caixão,
Também sentiu vibrar o coração,
Por tantas podridões! Jesus, Jesus,

Se a vida que nos deste tem por fim
Ser vivida com a mística beleza,
Por que razão a vestes de tristeza?
Porque nos deixas Tu viver assim?...


José Maria Lopes de Araújo do livro “ Remos Partidos “

20 de julho de 2004

VICTORINO NEMÉSIO - Poemas

A Concha

A minha casa é concha.Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés,a sonhos e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda,vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro,e escadarias
Frágeis,cobertas de hera,on bronze falso!
Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva,aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

_______________________________________________________________


O recorte de um cão,na areia,ao luar,
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso,o fio da noite!
-E amar,esperar desta maneira!

Numa cidade deserta
(Talvez outra,ou Nínive)
Encontrei um anel,uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi em vão,
E até nem sei se esse osso tivem




VICTORINO NEMÉSIO

15 de julho de 2004

Principe " Em maresia "

Enrolados num beijo,
Surdo e doce,
Ficamos parados,
Pregados,
Imóveis....
O tempo pára.
Nada existe,
E só o nosso amor,
Subsiste.

Para a semana,
Presta atençao ao mar...
Vai á praia,
Escuta o vento,
Numa brisa de maresia.

Vais sentir um beijo,
Salgado...
O meu.

Como,
Uma vaga que lambe,
A areia fina da praia
Numa noite de luar...
Sob um céu estrelado...

Ao longe,
Ouve o sussurrar do mar
E dois corpos nus
Se envolvem
Em maresia
Atirando pedras no mar.

Em cada rosto que se vai criar,
Vejo o teu rosto formar,
E tu voltando
Pra eu te amar.



Principe

13 de julho de 2004

PRINCIPE " Principio e Fim "

A tua ausência,
Ainda que,
Por breves instantes,
Assalta a minha saudade.

Nas nuvens,
Que veem daí,
Escrevem teu nome.

As ondas ,
Na praia ,
Sussurram o teu nome.

No mar...
Os golfinhos,
Falam- me de ti,

Apaixonados
Pela tua doçura
Pela tua sensualidade,
Por ti.

Que bom seria sentir ,
O calor do teu colo,
A doçura do teu embalo,
O aconchego do teu peito.

No Início....
És a minha musa inspiradora .

No fim...
Anseio que sejas...
O meu porto de abrigo.

Que uma vaga serena te embale
Princesa!


PRINCIPE

23 de junho de 2004

VITOR CINTRA " Renúncia "

RENÚNCIA


Num instante, cruzado o olhar,
Um desejo sublime surgia.
Eras tu! Era a vida a chegar!
E contigo um fulgor de alegria.

O destino, por mero capricho,
Ao manter-nos distantes, sabia
Transformar sentimentos em lixo
E a beleza de amar, sem valia.

Em momentos difíceis da vida,
Confundimos amor com carência,
Descobrindo já tarde, querida,
O dilema de ter consciência.

O destino traiu-nos, amor;
Acenou-nos de longe e fugiu,
Sem recatos, vergonha, pudor,
Como um sonho que é belo mas frio.


Vitor Cintra " Momentos"

9 de junho de 2004

Voando...Sempre a Voar ...poema de ....FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA

VOANDO...SEMPRE A VOAR

Quem me suspense da dor
no ar vazio
envolvido
de ternura
e de amor
a tanta altura do mar?

Quem estou sendo
afinal
se consigo suspender-me

no sempre tempo
perdido
voando...sempre a voar?

Voando sempre a voar
Da minha mente
fiz asas
do meu corpo
o dia zero
que nunca mais
quis parar !

Então quem sou afinal
se consegui
suspender-me
naquele tempo perdido
voando
sempre a voar
até ao mundo abraçar?

_ Consegui meter nos meus sonhos
o todo
em tempo limite
do nada ao infinito
e voando, voei voei
até minh'alma prenhar
para o vazio
de amor encher....

DEZ.80

16 de maio de 2004

* Para Quê? * poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO " Porquê? "

PARA QUÊ?

Saí de mim em busca de ventura,
Daquele bem que em vão idealizei
Minha esperança fez-se mais escura
Quando sem nada, nada, a mim voltei.

De tudo que me inquieta e me tortura
Do quanto eu cegamente acreditei,
Apenas se mantém impune e pura
Esta paixão que sempre te doei!

E pergunto a mim mesmo para quê
Se tenta crer no quanto se não vê,
Se dentro em nós não arde, não aquece,

A labareda ardente de um amor
Capaz de transformar a própria dor
Em alegria que jamais perece?!

Lopes de Araújo " Horas Contadas

11 de maio de 2004

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO poema " FIM "

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro!



Mário de Sá-Carneiro

8 de maio de 2004

ANTÓNIO ALEIXO - " Quadras "

De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.


A comerçar pelo «urso»
De Coimbra, a estudantada,
Só quando se acaba o curso,
Sabe que não sabe nada.


Alheio ao significado,
Diz o povo, e com razão,
Quando ouve um grande aldrabão:
_ Dava um bom advogado.


Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!


Foste beijar o menino,
Quando, afinal eu vi bem
Que beijaste o pequenino
Porque gostavas da mãe.


Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei,
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.


Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.


Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.


António Aleixo

28 de abril de 2004

" ONDAS " poema de Mitó Carreiro

Em espuma envolvidas,
um dançar
morno e dolente,
as ondas enrolam,
batidas,
as vidas de tanta agente.
Em barcos,
segredos
e medos
embarcam pela madrugada.
Nos rostos,
curtidos de sol e de sal
vai escrita
a luta da vida.
E no horizonte,
onde a ténue luz
do amanhecer ,
acasala, fogosa,
com o mar,
num amar
delirante,
os barcos rasgam mar adiante,
em busca de pão,
arrancando às ondas
seus filhos paridos,
em loucos bramidos.
Na costa,
alheias
à luta do mar alto
as ondas vêm beijar
pés descalços
que aguardam
em sobressalto
o regresso dos barcos.
Numa cadência infinita,
como em longa procissão,
abraçam esperanças
que brincam à beira de água
como crianças
e depois,
umas atrás das outras,
eternamente em cadeia,
as ondas deixam o mar
para vir morrer na areia.



Mitó Carreiro

19 de março de 2004

José Maria Lopes de Araújo - Poema " Remos Partidos "

Na crista das ondas, voguei
Na barca da minha vida...
Tinha largos horizontes,
Mesmo de esperança perdida....

Depois, a brisa soprava....
E a barca, lenta, seguia....
Vagarosa navegava,
E incerta, lá ia, lá ia,
E nas ondas balançava...
Mesmo de remos partidos,
Ao sabor do mar corria...

E assim, lá foi seguindo,
E os anos foram passando....
Noites de luar sorrindo,
Noites de Inverno chorando!...

E a barca da vida lá ia,
Lentamente navegando...
Quebrado o leme, rota a vela,
Remos partidos.....lá ia ela,
Baloiçando, baloiçando,
Levando a minha alegria!

Vida sem norte e sem rumo!
Sem forças para navegar,
Trago meus remos partidos,
Ando à deriva no mar,
Num mar de sonhos perdidos
Que jamais pude encontrar!...

Trago meus remos partidos,
E mais não posso avançar.
E por isso ando cantando,
Com vontade de chorar!

Remos partidos
São meus poemas....
Poemas caídos,
Na crista das vagas,
Vogando sozinhos,
Perdidos no mar!....

16 de março de 2004

Bluebird - Esta noite

Esta noite
Vou ser pássaro,
Vou voar
Todo teu corpo,
Minhas asas são de aço
Tua pele de ferro e fogo
Por isso vê


( que pena só ser em sonhos)

Esta noite vou ser vento…
E pousar no teu cabelo
Vou ser mais que o pensamento
Tu a força ,só segredo


(Seras sempre o meu mais lindo sonho)

Bluebird

2001.02.01

13 de março de 2004

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO - Poema " Desalento"

DESALENTO

Deixem-me caminhar, sem rumo certo,
E sem o norte que eu, em vão, busquei!...
Deixem-me só, que só, vivo mais perto
Do Bem que loucamente abandonei!

Não quero ouvir lamentos. Meu deserto
De mágoa e de tormento eu o criei...
Ergui barreiras, em caminho aberto,
E o próprio chão, que percorri, manchei....

Que importa seja a dor do meu arrimo,
Se, só com ela, atingirei o cimo
Do Gólgota que Deus me destinou!

Não me condenem! Deixem-me viver,
Entregue à minha mágoa, ao meu sofrer,
Que eu vivo bem assim, tal como sou!....

11 de março de 2004

Fernando Monteiro da Câmara Pereira - Poema " Á Mulher de Branco "

Á MULHER DE BRANCO

Mulher – sonho
de casaco branco…
que passas veloz,
altiva
no ecran da minha vida
o teu corpo,
a tua imagem
restam sempre em mim presente!

Mulher-desejo
de casaco branco…
que fazes brotar de amor
p’lo tempo do além fora
como em tempo
o sol nascente
me fez nascer outrora!

Mulher – distante
de casaco branco…
que passas em sonho,
triste
no meu corpo todo ardente
não fujas tão de repente
da minha alma
sempre só!

Mulher-fumo
de casaco branco…
pára em mim
toda a nascente
seja longo o teu percurso
faz brotar
o teu amor
no delta do meu poente!

Mulher – nada
De casaco branco…
Que rasgas o meu horizonte
Sem de mim ter feito eco
Não fujas
Lá para o distante
Não deixes meu ser ausente…

Oh instante angustiado
Ficarei sozinho na dor
Por te ter querido amar
Em meu longo sonho distante!

Ficarei sozinho na dor
Em sonho, desejo e fumo…

Mar.81

29 de fevereiro de 2004

KALINAS - " Porque Gosto de Ti"

Porque gosto de ti?
Porquê?
Porque te quero e te desejo!
Muito…!
Porque, te ofereço flores,
Porque, te transformo numa flor…
Perfumada e bela,
Cheia de cores,
Porque, és a flor mais bonita
Deste meu jardim,
A mais bela e vistosa,
A mais virtuosa…
A que me dá mais prazer,
Aquela que quero cheirar
E olhar…
Roçar nas tuas pétalas
Deixar o meu pólen,
Nos teus estigmas,
Polinizar-te,
Com o meu sémen
Criar…
Viver…
E depois morrer!


KALINAS

21 de fevereiro de 2004

KALINAS * Alucinação*

Dançando,
Rodopiamos pelo salão antigo.
Revestido a ébano,
Candelabros de velas acesas,
Exalam perfume,
E nos embriagam.

Enquanto rodopiamos,
Rocei a minha perna na tua,
Enquanto me inebriava,
Com o nosso odor.

Cheiramo-nos;
Roçamos nossos ventres,
Desinquietos.

Sentimos;
Em suor,
Aquele percurso
Que ondeia nossos corpos.

Roçamos nossos ventres,
Excitados,
Molhados,
Desejosos de paixão.

Olhei de novo o salão,

Fiquei a dançar sozinho.
Agarrado ao vácuo…
Em depressão,
Que não arde,
Nem queima
Só arde com a paixão
Da tua entrega.
Com a passagem,
Do meu desejo,
No teu desejo.


Kalinas

16 de fevereiro de 2004

* RETORNO *JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

Longe, lá longe no horizonte
O Sol surgiu ardente, claro e quente,
Enquanto iam chamando, toda a gente
O mar calmo, a nascente e até a fonte.

Nos planaltos, e desde o vale ao monte,
Sopra uma aragem leve, leve e quente,
A acariciar os rostos, docemente,
Como a brisa, ao longo duma ponte.

Não há grilos cantando, nos caminhos,
E o alegre chilrear dos passarinhos
Calou-se nas ravinas dos valados…

A noite desce lenta, e hora a hora
Volta o silêncio que é mais triste agora
E me leva ao tormento do passado!


José Maria Lopes de Araújo

13 de fevereiro de 2004

LAMENTO - desconheço o autor

Lamento que o abraço
Não passasse de duas linhas;
Lamento que o encontro
Não tivesse acontecido;
Lamento dizer que lamento
E lamento o sucedido;
Lamento...

Lamento que o "Barco"
Tomasse outro rumo, por força do destino;
Lamento que as asas do tempo
O tivessem deixado voar;
Lamento que a distância aumentasse
Com a ausência do azul do mar;
Lamento...

Lamento...
Que a distância de mim;
Lamento...
Lamento o FIM.

8 de fevereiro de 2004

FERNANDO SABINO - Poema " De Tudo Ficaram Três Coisas "

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!



FERNANDO SABINO
do livro

"Encontro Marcado"


NOTA: Fica a correcção do verdadeiro autor deste belo poema " FERNANDO SABINO "

29 de janeiro de 2004

AÇORES.... poema de ...VITOR CINTRA do Livro " Relances "

** AÇORES **

Nove ilhas de beleza deslumbrante,
Surgidas do profundo mar imenso,
Que o mundo conheceu porque o Infante
Tornou o nevoeiro menos denso.

Encostas de mosaicos verdejantes
Elevam-se, rumando ao infinito,
Hortênsias, feitas sebe, são constantes,
Tornando o colorido mais bonito.

Ali, onde gigantes residiram,
Os cumes das montanhas que explodiram,
Tornados em lagoas de beleza,

Relembram aos herdeiros dos atlantes
Que até já os primeiros navegantes
Sabiam respeitar a Natureza.



(Vítor Cintra, em RELANCES)

15 de janeiro de 2004

BLUEBIRD " BERÇO DE PÉTALAS "

** Poema para uma Concha **


Em um berço de pétalas,
me fizeste deitar
E entre carícias apaixonadas
E o perfume das violetas,
Conheci o amor,
E enquanto brincavas comigo e as flores,
Com tanta graça e sensulidade,
Descobri que és a mulher...
Que fugiu dos meus sonhos,
E se tornou realidade

...Quem me dera !!



Bluebird