10 de setembro de 2008

SAUDADE DA PROSA poema de Manuel António Pina







Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.

E se regressava
oelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


MANUEL ANTÓNIO PINA

29 de julho de 2008

SÓ poema de José Maria Lopes de Araújo








Ai, se eu pudesse evadir-me
De mim mesmo,
Desta prisão
Que me põe grades, no coração ...
Se eu pudesse partir, correr,
Caminhar sem norte,
Correr , a esmo ,
Na floresta dos meus sonhos ,
E colher rosas orvalhadas
E alvas hortênsias
Nas bermas das estradas ...


Mas correr, cantando
Hinos de louvor à vida ,
Pelo odor
Que se emana da natureza
Pelo bem da Humanidade,
Pela pétala caída ...
Pela beleza
Da flor
Que nos enche a alma e o olhar
De alacridade
E cor ! ...


E continuo a viver ,
Encarcerado ,
Mesmo dentro de mim ...
Esmaga-me o silêncio
Das coisas, das pessoas ...
E a labareda da loucura
Continua crescendo, no incêndio
Da floresta dos meus sonhos !


Ai, se eu pudesse evadir-me
Das grades do meu coração ...
Não mais sofreria,
Como sofro ... Não ! Não !


Agora, já tudo é cinza ...
Já tudo é pó ..
E recomeço a sentir-me, no mundo,
Isolado...Só...Muito só...
Cada vez mais só ! ....


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

8 de julho de 2008

" VAZIO.... " de Isabel Valente





Vida que é vivida, vazia de afectos, palavras, carinhos, não pode ser vida, para ser vivida ,apenas sozinhos.

Se a vida nos dá :

Diálogo dos silêncios.
Solidão de mãos dadas,
É vida vazia, apenas vivida, mesmo acompanhada.

São cacos colados, corações partidos,
Sentimentos castrados,
Sonhos proibidos.
São vidas sem cor,
Sem gestos de amor
Apenas fachada,
É vida de quem, amar pouco sabe, ou apenas nada!

Viver, por viver, apenas num mundo, feito fantasia, mil vezes sofrer, a ter que morrer um pouco cada dia.


Isabel Valente

3 de julho de 2008

NOSTALGIA


(Foto da autoria de Ricardo Chaves )


O texto abaixo é uma transcrição do publicado no blog do RICARDO CHAVES

aqui:
  • RCHAVES






  • Porque me fez recuar à ilha de S.Maria de outros tempos, e porque felizmente ainda hoje é possivel ás nossas crianças (da ilha), viverem um pouco assim, " em liberdade ",aqui deixo este texto que me deu imenso gosto ler, que tenho e tenho outro tanto em partilhar
    .




    Nascidos antes de 1986;

    De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque:

    -As nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos.

    -Não tínhamos frascos de medicamento com tampas “à prova de crianças”, os fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.

    -Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.

    -Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e “airbags” - viajar à frente era um bónus.

    -Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem.

    -Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora.

    -Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.

    -Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.

    -Saía-mos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.

    -Não tínhamos “Play Station”, “X Box”. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, “home cinema”, telemóveis, computadores, DVD, “Chat” na internet.

    -Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos à rua, jogávamos ao elástico e à barra e à bola até doía, caíamos das árvores, cortava-mo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Haviam lutas com punhos mas sem sermos processados.

    -Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.

    -Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola, não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.

    -Criávamos jogos com paus e bolas.

    -Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, eles estavam do lado da lei.


    Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
    Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.

    Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.

    És um deles? Parabéns!

    Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, “para nosso bem”.

    Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós.

    Isto meus amigos é surpreendentemente medonho… e talvez ponha um sorriso nos vossos lábios:

    A maioria dos estudantes que estão nas universidades hoje nasceram em 1986…chamam-se jovens.

    Nunca ouviram “we are the world” e “uptown girl” conhecem de Westlife e não Billy Joel.

    Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname.

    A SIDA sempre existiu. Os CD’s sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco.

    Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia “Deus da dança”.

    Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie são filmes do ano passado.

    Não conseguem imaginar a vida sem computadores.

    Não acreditam que houve televisão a preto e branco.

    Agora vamos ver se estamos a ficar velhos:

    1. Entendes o que está escrito acima e sorris;
    2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada;
    3. Os teus amigos estão casados ou a casar;
    4. Surpreende-te ver crianças tão à vontade com computadores;
    5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis;
    6. Lembras-te da Gabriela (a primeira vez);
    7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos;


    SIM. ESTÁS A FICAR VELHO, heheheh.
    …mas tivemos uma infância do caraças!!!

    Pois tivemos.




    Desconheço o AUTOR

    ... que certamente é da minha ilha S.Maria-Açores

    22 de junho de 2008

    ELOGIO AO AMOR de Miguel Esteves Cardoso




    Ou de como eu costumo dizer:

    - O Amor é como o Chocolate, não tem de fazer sentido.

    Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la.
    Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha.

    O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
    Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

    O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
    Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
    Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
    Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
    Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
    Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama.
    Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
    Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

    O amor passou a ser passível de ser combinado.
    Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
    O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
    A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
    O amor tornou-se uma questão prática.
    O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
    Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
    Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.






    Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

    Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

    O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
    Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

    Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.
    Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.

    Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
    É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.

    Tanto faz.
    É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
    A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

    O amor puro é uma condição.
    Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.

    Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma.
    É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
    A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
    A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.

    Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
    O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
    E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

    Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
    sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

    Não se pode ceder. Não se pode resistir.

    A vida é uma coisa, o amor é outra.
    A vida dura a Vida inteira, o amor não.

    Só um minuto de amor pode durar a vida inteira.
    E valê-la também."



    Miguel Esteves Cardoso

    12 de junho de 2008

    * INTERROGAÇÃO * poema de José Maria Lopes de Araújo





    Não tentes afastar-me do meu rumo,
    Que eu bem sei o que quero e onde vou...
    Não lembres o passado porque é fumo
    Duma chama que, há muito, se apagou !


    Da labareda ardente só ficou
    A cinza da quimera e nada mais ...
    Do meu passado tudo se queimou ...
    E apenas restam meus doridos ais !


    E deixem-me ficar, assim sozinho,
    Com todo o sofrimento, no caminho
    Que me há-de confundir ao Redentor ...


    E pensar, meditar profundamente :
    - Por que motivos alimenta a gente
    Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    do Livro " Outono da Vida "

    5 de junho de 2008

    O Teu Corpo poema de ÂNGELO GOMES






    Deixa-me acordar, sorrir, esbracejar
    Em cada alvorada de sonos inquietos
    Pensamentos lentos, lista de afectos
    Tua voz sentir, acto de inventar

    Desenho o teu corpo enquanto desperto
    De suave tecido em mãos de ternura
    Que beijo e rebeijo com tanta doçura
    E amo e possuo como se estivesses perto

    Que venham sóis, chuvas ou tormentas
    Que toquem os sinos abordando rebates
    Que caiam ferros, pedras, alicates
    Que as bocas estejam secas e sedentas

    Oh... como adoro o teu corpo de frescura
    Razão das razões... toque de magia
    Que invade o meu, deixando nostalgia
    Saudade intensa, retrospectiva pura

    Corpos colados, invasão das mentes
    Selados em lençóis ou calmas areias
    Torcendo, mexendo, como centopeias
    Acabando molhados, sôfregos, ardentes

    Adoro o teu corpo de sonho e desejo...
    Suporte de um todo que vejo e revejo.



    ÂNGELO GOMES


    Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
    Código do texto: T232095

    25 de maio de 2008

    TARDE...poema de Espínola Mendonça




    Partiste no explendor da mocidade,
    E esperei que voltasses novamente.
    Escrevias dizendo: _Brevemente..._,
    E esperei uma longa eternidade.

    Anos depois tu voltas, finalmente;
    E a mim mesmo pergunto se é verdade.
    Porque sinto mais viva esta saudade
    Do que no tempo em que estiveste ausente

    Em vez d'essa alegria tão sonhada,
    Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada.
    E cada qual de nós ficou mais triste.

    Adivinhaste... e eu adivinhei:
    Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_
    E eu só te sei dizer: _Porque partiste?


    Espínola de Mendonça
    ( 1891-1944 )

    28 de abril de 2008

    APETECE-ME poema de Ângelo Gomes






    APETECE-ME, beber na tua boca, o veneno que mata os meus desejos
    Presos nas amarras do pensamento,
    Que nem o vento
    Soube levar a paragens longínquas…

    APETECE-ME. Mordiscar os dedos dos teus cabelos,
    Que nem torturados,
    Confessam pecados……………

    APETECE-ME, atravessar os rios do teu corpo,
    Que nem leito preguiçoso,
    Bebendo gota a gota em descarada timidez,
    o suor da tua nudez……..

    APETECE-ME, arrancar pedaços de ti,
    que nem pétalas de pálidas flores,
    que por amores
    têm apenas a maldade
    de encobrir a falsa virgindade……….

    APETECE-ME, rasgar as tuas entranhas
    E roubar-te o grito do prazer,
    Que nem loucuras tamanhas
    Fizeram orgasmos assim,
    E por fim,

    APETECE-ME, violar o teu abraço,
    Para no meu cansaço
    Saborear o mel
    Que escorre da tua pele,

    Arrepiado….
    Saciado…….
    APETECE-TE????
    Diz…..
    APETECE-ME, sim……
    APETECE-ME SER FELIZ……….




    Ângelo Gomes

    16 de abril de 2008

    O TEU OLHAR poema de Ângelo Gomes





    Que é feito do olhar que me tirava das trevas?
    Que é feito da doçura que me curava tédios?
    Que é feito dos prédios alicerçados em ti….
    Que é feito de mim… que é feito do sorriso,
    Do cristal, das margens do rio que chora e não ri?

    Que falta me fazem os teus olhos de seda !…
    Que nostalgia, que vácuo, que varanda sem horizontes...
    Que fontes secas, que vida sem forma nem conteúdo !...
    Que Entrudo de máscaras que disfarçam as mágoas….
    Que fráguas, que colinas íngremes, que montes !...

    O teu olhar !... a suavidade cremosa das tuas palavras …
    Que travas … que lavas como quem descobre pepitas de ouro …
    Que colocas a soro na convalescença dos tempos !....
    O teu olhar !... a tua intensa vontade de viver …
    Que é feito da generosidade que te eleva como ser?



    Ângelo Gomes

    3 de abril de 2008

    DESDE QUE EU O VI... poema da Alemanha , de Albert Von Chamisso

    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar;
    Só a ele vejo,
    Olha pra onde olhar;
    Com a sua imagem
    Sonho em pleno dia,
    Vem das trevas, sobe,
    Clara de harmonia.
    Sem ele tudo é
    Sem luz e sem cor,
    Já não me apetece
    Coas irmãs brincar;
    Agora só quero
    No quarto chorar;
    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar.




    Trad: João Barrento

    30 de março de 2008

    * Como Eu Te Amo * poema de Elizabeth Barrett Browning

    Amo-te quanto em largo, alto e profundo
    Minh’alma alcança quando, transportada,
    Sente, alongando os olhos deste mundo,
    Os fins do Ser, a Graça entressonhada.


    Amo-te em cada dia, hora e segundo:
    À luz do sol, na noite sossegada.
    E é tão pura a paixão de que me inundo
    Quanto o pudor dos que não pedem nada.

    Amo-te com o doer da velhas penas;
    Com sorrisos, com lágrimas de prece,
    E a fé da minha infância, ingénua e forte.

    Amo-te até nas coisas mais pequenas.
    Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
    Ainda mais te amarei depois da morte.




    Elizabeth Barrett Browning

    8 de março de 2008

    * Indelével Saudade * poema de EUCLIDES CAVACO







    Eu choro nos meus versos a saudade
    Que é dos ausentes a eterna companheira
    Como parte do seu ser que sempre há-de
    Ser uma angústia que alimenta a vida inteira.



    Deixei chorar minha caneta de amargura
    Porque sentiu do seu poeta a emoção
    Viu que as palavras nada tinham de loucura
    Eram ditadas dum plangente coração...



    E a caneta vai chorando em cada dia
    Da minha mão sentindo a fragilidade
    Porque ela entende dum ausente a agonia!...



    São os meus versos portadores dessa ansiedade
    Feita palavra...É filha da nostalgia
    À qual nós demos o nome de Saudade !...




    Euclides Cavaco

    * FIVE O'CLOCK TEAR * poema de EMANUEL FÉLIX







    Coisa tão triste aqui esta mulher
    com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
    com seus olhos voando devagar sobre a mesa
    para pousar no talher
    Coisa mais triste o seu vaivém macio
    p'ra não amachucar uma invisível flora
    que cresce na penumbra
    dos velhos corredores desta casa onde mora

    Que triste o seu entrar de novo nesta sala
    que triste a sua chávena
    e o gesto de pegá-la

    E que triste e que triste a cadeira amarela
    de onde se ergue um sossego um sossego infinito
    que é apenas de vê-la
    e por isso esquisito

    E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
    seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
    o álbum a mesinha as manchas dos retratos

    E que infinitamente triste triste
    o selo do silêncio
    do silêncio colado ao papel das paredes
    da sala digo cela
    em que comigo a vedes

    Mas que infinitamente ainda mais triste triste
    a chávena pousada
    e o olhar confortando uma flor já esquecida
    do sol
    do ar
    lá de fora
    (da vida)
    numa jarra parada


    EMANUEL FÉLIX

    (in "A Palavra O Açoite", 1977)

    20 de fevereiro de 2008

    EM BUSCA DO AMOR de Florbela Espanca




    O meu Destino disse-me a chorar:
    " Pela estrada da Vida vai andando,
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amor, que hás-de encontrar. "

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando...
    E noite e dia, à chuva e ao luar,
    Fui sempre caminhando e perguntando ...

    Mesmo a um velho eu perguntei : " Velhinho,
    Viste o Amor acaso em teu caminho ? "
    E o velho estremeceu...olhou ...e riu...

    Agora pela escada, já cansados,
    Voltam todos pra trás desanimados ...
    E eu paro a murmurar : " Ninguém o viu"! ..."


    FLORBELA ESPANCA

    8 de fevereiro de 2008

    * SONETO * poema der E.E.Cummings (E.U.A)





    Não será sempre assim... Quando não for,
    Quando teus lábios forem de outro; quando
    No rosto de outro o teu suspiro brando
    Soprar; quando em silêncio, ou no maior

    Delírio de plavras desvairando,
    Ao teu peito o estreitares com fervor;
    Quando, um dia, em frieza e desamor
    Tua afeição por mim se for trocando:

    Se tal acontecer, fala-me. Irei
    Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
    " Goza a ventura que já gozei".

    Depois, desviando os olhos, de improviso,
    Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
    Cantar no meu perdido paraíso.


    Tradução de : Manuel Bandeira

    Livro: Rosa do Mundo

    4 de fevereiro de 2008

    * Á Cara Metade * poema de ADRIANO FERREIRA





    É na paz do teu olhar, cheio de amor:
    No arroubo da sua luz, que me ilumina:
    No seu fulgor ingénuo de menina,
    Onde embate meu ego, com fragor!

    É nesse mar imenso de ternura;
    No amplexo envolvente da sua calma,
    Onde se espalha a pureza da tua alma
    E onde mergulha a minha e se depura!

    Quando, um dia, decrépito, no fim,
    Já muito perto da última viagem,
    Rezarei para estares junto a mim.

    E no meu leito de morte, moribundo,
    Gravarei, nas pupilas, tua imagem
    -Meu doce guia, lá no outro mundo.



    ADRIANO FERREIRA

    Poeta da ilha de S.Maria - Açores

    27 de janeiro de 2008

    Fernando Pessoa

    Tenho tanto sentimento
    Que é frequente persuadir-me
    De que sou sentimental,
    Mas reconheço, ao medir-me,
    Que tudo isso é pensamento,
    Que não senti afinal.

    Temos, todos que vivemos,
    Uma vida que é vivida
    E outra vida que é pensada,
    E a única vida que temos
    É essa que é dividida
    Entre a verdadeira e a errada.

    Qual porém é verdadeira
    E qual errada, ninguém
    Nos saberá explicar;
    E vivemos de maneira
    Que a vida que a gente tem
    É a que tem que pensar.

    12 de janeiro de 2008

    * BRUMAS * Poema de Vitor Cintra





    Nas brumas dos meus silêncios
    Nascem visões encantadas,
    Com ninfas, bruxas e fadas,
    Sonhos de amor, sempre densos.

    Nas brumas dos meus silêncios,
    Onde os mistérios são nada,
    Surgem paixões exaltadas,
    Feitas desejos, imensos.

    Nascem lembranças, eivadas
    De sensações adiadas
    E cheiros breves, intensos,

    Sem ilusões ansiadas,
    Em desespero, guardadas
    Nas brumas dos meus silêncios.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    7 de janeiro de 2008

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"





    Montei minhas asas brancas
    e corri
    para ti
    à velocidade do amor
    ...fugias louca
    rubra
    informe
    mais célebre
    mais célebre ainda
    mas num amplexo
    parido
    na furia
    do meu desejo
    absorvi
    teu corpo
    espuma ...

    Desapareceste
    de meus braços
    teu cheiro teu som
    teu eco se desfez no horizonte
    em pó em vento em nada

    Derrotado
    Inerte



    Fernando Monteiro

    Do livro " Mar Branco "


    Ilha de S.Maria - Açores

    2 de janeiro de 2008

    " NÓS "
    poema de VITOR CINTRA




    P'ra todos nós o segredo
    Duma vivência serena,
    Vem de mão dado co'o medo;
    Que torna a vida pequena,
    Atroz.

    Quantos de nós fomos reis
    Duma utopia sem par?
    Quantos ditámos as leis
    Num reino de imaginar? ...
    Sem voz! ...

    Quantos de nós fomos pajens
    Dalgum senhor que há nos sonhos?
    Quantos fizemos viagens
    Rasgando mundos medonhos? ...
    Mas sós! ...

    Quantos de nós, por desejo
    De desvendar o mistério,
    Fomos perdendo o ensejo
    De ver aquilo que é sério,
    Em nós? ...




    Vitor Cintra


    do Livro " Murmúrios "

    20 de dezembro de 2007

    ** RESPEITO **poema de VITOR CINTRA









    Pelas beiras dos caminhos
    Sabe Deus quantos velhinhos
    Andarão neste Natal,
    Sem que o mundo à sua frente
    Lhes prometa que o presente
    Não será sempre o normal.

    Quando o hoje é semelhante
    Ao passado, já distante,
    Como o ontem foi igual,
    O futuro não existe
    Num presente, que é tão triste,
    Sem prever melhor final.

    O saber de muitos povos
    Determina que os mais novos
    Reconheçam no idoso,
    Na velhice, ter direito
    A viver com mais respeito
    E uns anos de repouso.

    Mas serão tão atrasados
    Esses povos, apontados
    Como gente mais selvagem?...
    Ou será que o ocidente,
    Se tornou tão indif'rente,
    Que resusa aprendizagem? ...


    VITOR CINTRA
    " Relances "

    12 de dezembro de 2007

    * TEUS LÁBIOS * poema de VITOR CINTRA





    Teus lábios carnudos,
    Macios, veludo,
    Poemas de cor,
    Ainda que mudos
    Revelam, em tudo,
    Desejos, ardor;

    Em tempos tristonhos,
    Por falta, suponho,
    Das juras de amor,
    Teus lábios risonhos,
    Despertam o sonho,
    São beijos de flor.




    VITOR CINTRA

    do livro " Murmúrios "

    11 de dezembro de 2007

    " DIZEM "
    Poema de Israel do poeta Hathan Zakh ( n.1930)


    Aquele que tropeçou, tropeçou
    dizem
    que aquele que traiu traiu
    dizem
    que aquele que está só está só
    dizem
    que aquele que esqueceu esqueceu
    dizem
    que aquele que não está contigo
    dizem que se foi embora
    dizem que esqueceu



    Tradução de : CECÍLIA MEIRELES

    10 de dezembro de 2007

    SIDÓNIO BETTENCOURT poema " RESIGNAÇÃO "






    O tédio esta manhã, a ilha descoberta trazendo o mesmo cheiro amargo.
    a atmosfera sem pintura.o navio.o mar ao largo. o voo da gaivota sem ternura

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    O vulcão em banho de broa. o amor apertado na lança. cantarei contigo sempre à toa do lado azul da esperança.

    Lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    raiz em envelope fechado. sagrado, feito emoção. isto não tem fim, não... no meio o mar, o grito. a balada. a força da razão

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor,

    tudo aceite.


    Sidónio Bettencourt

    Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

    8 de dezembro de 2007

    HORAS RUBRAS poema de Florbela Espanca








    Horas profundas, lentas e caladas,

    Feitas de beijos sensuais e ardentes,

    De noites de volúpia, noites quentes

    Onde há risos de virgens desmaiadas ...


    Ouço as olaias rindo desgrenhadas...

    Tombam astros em fogo, astros dementes.

    E do luar os beijos languescentes

    São pedaços de prata pelas estradas ...


    Os meus lábios são brancos como lagos...

    Os meus braços são leves como afagos,

    Vestiu-os o luar de sedas puras ...


    Sou chama e neve branca e misteriosa...

    E sou, talvez, na noite voluptuosa,

    Ó meu Poeta, o beijo que procuras !



    Florbela Espanca

    4 de dezembro de 2007

    CEGUEIRA DA AMOR de Meleagro (sec.II-I a.C)





    Um caso singular
    mas sempre verdadeiro:
    se poiso em ti o olhar
    -abranjo o mundo inteiro ! ...

    Porém, ó fado torvo e prepotente,
    porém, ó sorte perra e negredada,
    se tu não vens, e passa toda a gente,
    Cego de repente
    - Já não vejo nada! ...



    Trad:Augusto Gil

    30 de novembro de 2007

    O BEIJO poema da Grécia- Poeta anónimo

    Um rapaz beijou-me ontem à tarde
    E o seu beijo era um vinho perfumado
    Tão longamente bebi nesses lábios o vinho do amor
    que ainda agora me sinto embriagado.


    Trad: Jorge Sousa Braga

    24 de novembro de 2007

    Daniel Gonçalves do livro
    * O AFECTO DAS PALAVRAS *

    Se precisares de mim estou sob o teu ventre
    trazendo da terra a água para o teu coração

    quero que respires como a nossa ameixieira
    e como ela te ergas sobre o rosto da manhã

    quero que ouças o meu sangue dentro de ti
    como um relógio marcando o pulso da sede

    e que nesse sopro de música saibas o amor
    e nem uma palavra te atravesse a respiração



    DANIEL GONÇALVES
    ilha de S. Maria - Açores

    22 de novembro de 2007

    Coisas de Chat

    Recebido por e-mail



    Oi, quer teclar?
    Podemos tentar...
    De onde você é? Quantos anos? O que faz? Do que gosta?
    Nossa... quanta pergunta!
    Tudo bem, eu exagerei, acho que lhe assustei.
    Aí eu conversei com ele... um dia, dois dias... um ano...
    Um verão... um outono...
    Era pela manhã no começo... depois viramos tudo pro avesso
    Era de tarde... de noite... de madrugada,
    Não tinha mais hora marcada.
    Eu corria pro computador e quando não o encontrava...
    Ai que dor!
    Eu gostava das suas palavras...
    Até daquela risada que eu não podia ouvir,
    Mas que o meu coração podia sentir.
    Oieeeeee... tava te esperando!!!
    Oi amor... eu tava trabalhando
    Escrevi uma coisinha pra você, quer ver?
    Claro, pode mandar, eu sei que vou gostar.
    " Quando amanhece o dia e você não vem,
    O meu sol não brilha e eu choro pela falta da sua companhia."
    Ah... que lindo... tô aqui lhe sentindo!
    Como o amor virtual... não tem igual
    A gente diz tudo que pensa, tudo que precisa,
    Tudo que é permitido e até o que é proibido.
    Ele é bonito, ela é maravilhosa,
    Ele é sensual, ela é gostosa.
    Ele é inteligente, ela tem um jeitinho carente
    Ele é alegre, ela é ciumenta, ele anima, ela movimenta.
    Amor... eu tô com saudade
    Eu também, tô até com vontade...
    Hum...então vamu lá... tô pronta pra começar!
    Era sexo virtual toda hora
    E era gostoso... virava uma história.
    Era fantasia misturada com alegria
    Mas também rolava amor...
    E quando acabava, restava um gostinho de dor.
    É que não tinha em seguida o aconchego
    Nem o cigarro...
    Clicava-se num botão
    E apagava-se a emoção.
    Mas amanhecia o dia... e de novo,
    Nos fazíamos companhia.
    É, esse danado de amor virtual viciiiiia!
    A gente fica dependente daquele carinho
    Daquele ninho
    Daquele amor eletrônico
    Daquele carinho astronômico.
    Oi Amor!
    Oi meu bem...
    Hummmm...
    O que você tem? Tô sentindo uma tristezazinha...
    É ... tô na minha
    Vontade de lhe tocar... de lhe ver e de lhe beijar
    ...E nessa hora era uma chateação.
    Porque eu o tinha, mas ele não era meu,
    Eu era dele, mas ele não me tinha...
    Ô coisa complicadinha.
    Era um amor virtual, mas era real...
    Todo dia de manhã o meu sorriso se iluminava
    Antes de tomar café eu já conectava
    E quando puxava meus mails
    Nem queria saber de quem veio
    Ia direto na listinha do correio
    Procurando o seu e-mail...
    Até que saltava aos meus olhos
    *sempreseu@hotmail.com*
    Meu amor, hoje vou demorar a aparecer,
    Tô com trabalho até morrer...
    Mas prometo... não vou lhe esquecer.
    Daquelas palavras eu me alimentava
    Eu as comia, eu as bebia, eu as sonhava.
    Escrevia um, dois, três... dez mails por dia
    Era uma agonia.
    O assunto não terminava
    Mas se eu quisesse dava pra resumir
    E em bem poucas palavras...
    Eu o amava!
    A gente tinha uma afinidade
    Uma sintonia, um amor tão grande.
    Uma eterna energia...
    Fazíamos planos... vivíamos de sonhos.
    Tinha hora que parecia
    Que tudo ia ser verdade... que bobagem.
    Um dia ele me falou:
    Lindinha, tenho tanto medo de perder o seu amor
    De você se afastar
    De me fazer perceber que tudo acabou...
    Eu respondi:
    Benzinho, não tem mais solução
    Sem você não vivo mais,
    Portanto pode ficar em paz, não vou me afastar... com isso pode contar.
    Era tão bom saber que ele tinha essa preocupação,
    Porque eu todo dia pensava:Ai meu Deus, e se ele arruma uma namorada?
    Minha vida estaria acabada!
    Bonequinha, esse fim de semana vou viajar, uns amigos vou encontrar
    Ah, eu queria estar lá...
    Adoraria lhe levar!
    Aí nesse fim de semana eu ficava amargurada
    Até chorava...Uma saudade, uma solidão
    Um medo... uma insatisfação...
    Navegava em sites de poesias
    Fazia umas rimas e sofria.
    Entrava em sites de horóscopos
    Mapa astral, anjos e o escambal
    Tudo pra ver se aquela nossa relação era normal.
    E quando finalmente chegava segunda-feira
    Eu esquecia toda aquela besteira.
    Amorzinhoooooooooooo!!!!!
    Que saudade... nem valeu a pena a viagem,
    Longe de você é desse jeito...
    Nada fica perfeito.
    Aí nesse dia comecei a pensar...
    Que coisa estranha...
    Onde nessa história é o meu lugar?
    Pois se vivemos sempre longe
    Se nem nos conhecemos...
    Por quê tanto sofremos?
    Acho que ele pensou igual,
    Começamos a nos afastar
    Sem nada dizer
    Sem nada reclamar
    sempre seu...
    Acabou sendo uma ilusão que morreu...
    Mas ainda hoje eu me lembro dele
    Com saudade... com carinho e com amizade.
    É , foi assim... ele passou por mim
    E eu fui atrás... e foi bom demais.
    E você? Já viveu isso? Ou não?
    Fala a verdade... abre seu coração!



    Recebido por E-mail

    20 de novembro de 2007

    ENTRE SER E PERECER poema de * Ahmad Chamlu* do Livro Rosa do Mundo

    Entre ser e perecer recitávamos uma fábula,
    Tão leve ao vento como uma pluma-parábola;
    No seu sentido jazia todo o nosso viver.
    Voaram com ele a pluma e a fábula.


    Trad: Kurt Scharf

    14 de novembro de 2007

    SELO DE AMOR poema de GUEVARA ( séc.XV)




    Aquelas noites penosas
    meditando em bem amar-vos,
    com palavras dolorosas
    eu jurei nunca deixar-vos:
    estando neste dulçor
    de agradável pensamento,
    eu não tendo mal de amor
    selei este vencimento.
    Eu selei em vós vencer-me,
    não me vencer por errores,
    e selei, selei perder-me
    por vossos lindos amores:
    e selei obras iguais
    ao meu viver,
    e selei que nunca mais,
    nem dos males, me arrepender.
    E selei sempre seguir-vos,
    pelo não, não ser queixoso,
    e selei, meu bem, servir-vos,
    de bom grado, o mais gracioso:
    e selei a morte e a vida
    sendo contente e loução,
    selei que a minha ferida
    merecesse a vossa mão.
    E selei suplícios faltos
    do peso que não venceu,
    e selei suspiros altos
    para o vosso servo eu:
    e selei triste tormento,
    tormento que me atormenta
    e selei viver contento
    se de tudo sois contenta.


    Tradução de José Bento

    7 de novembro de 2007

    LÁGRIMA DE PRETA poema de António Gedeão






    Encontrei uma preta
    que estava a chorar,
    pedi-lhe uma lágrima para a analisar.


    Recolhi a lágrima
    com todo o cuidado
    num tubo de ensaio
    bem esterilizado.

    Olhei-a de um lado,
    do outro e de frente:
    tinha um ar de gota
    muito transparente.


    Mandei vir os ácidos,
    as bases e os sais,
    as drogas usadas
    em casos que tais.

    Ensaiei a frio,
    experimentei ao lume,
    de todas as vezes
    deu-me o que é costume:
    nem sinais de negro,
    nem vestígios de ódio.

    Água (quase tudo)
    e cloreto de sódio.




    António Gedeão

    3 de novembro de 2007

    SUPREMO ENLEIO poema de Florbela Espanca





    Quanta mulher no teu passado, quanta!
    Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
    Se delas veio o sonho que conforta,
    A sua vinda foi três vezes santa!


    Erva do chão que a mão de Deus levanta,
    Folhas murchas de rojo à tua porta...
    Quando eu for uma pobre coisa morta,
    Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!


    Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
    Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
    Masmo na boca da que for mais linda!


    E quando a derradeira, enfim, vier,
    Nesse corpo vibrante de mulher
    Será o meu que hás-de encontrar ainda ...



    FLORBELA ESPANCA

    27 de outubro de 2007

    A RECUSA DAS IMAGENS EVIDENTES poema de NATÁLIA CORREIA


    Há noites que são feitas dos meus braços
    E um silêncio comum às violetas.
    E há sete luas que são sete traços
    De sete noites que nunca foram feitas.

    Há noites que levamos à cintura
    Como um cinto de grandes borboletas.
    E um risco a sangue na nossa carne escura
    Duma espada à bainha dum cometa.

    Há noites que nos deixam para trás
    Enrolados no nosso desencanto
    E cisnes brancos que só são iguais
    À mais longínqua onda do seu canto.

    Há noites que nos levam para onde
    O fantasma de nós fica mais perto;
    E é sempre a nossa voz que nos responde
    E só o nosso nome estava certo.

    Há noites que são lirios e são feras
    E a nossa exactidão de rosa vil
    Reconcilia no frio das esferas
    Os astros que se olham de perfil.


    Natália Correia

    23 de outubro de 2007

    ÀS MÃES poema de Vitor Cintra

    ÀS MÃES


    A mãe é, p'ra cada um,
    O maior ser de excepção,
    Com lugar no coração,
    Mais sagrado que nenhum.

    A mãe, é por mil razões,
    O padrão do Universo,
    Mesmo quando controverso
    Seu saber e decisões.

    São angústias que supera,
    Desencantos, até vícios,
    P'lo carinho que nos tem.

    Desde o ventre, que nos gera,
    Não se poupa a sacrifícios,
    Porque mãe, é sempre Mãe.


    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    AMOR FILIAL de José Maria Lopes de Araújo


    AMOR FILIAL




    É sempre ditosa e feliz
    Toda a mãe que um filho tem
    E que viver a vida quis
    Só para amar sua mãe...


    Ainda que, um dia, a parca
    O arranque do seu lar;
    Na alma da mãe fica a marca
    Dum amor que não tem par!


    Mãe, se é grande a tua dor
    Que se envolve em negro véu ...
    É bem maior o amor
    Das filhas que tens no Céu !


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
    do livro " Labaredas "

    5 de outubro de 2007

    TU ? ... Poema de José Maria Lopes de Araújo





    Tu,
    E a outra,
    E mais a outra,
    E quantas conheci,
    São todas iguais:
    - Mulheres …. Só mulheres,
    Simples, vulgares, banais,
    E nada, nada mais ! …


    Só por amar-te,
    Tanto e tanto,
    É que eu quisera dar-te
    - Louco sonhador –
    Um lar de encanto
    E arte,
    E poesia,
    E amor! …



    Mas, tu,
    Que nunca sofreste,
    Que nunca amaste,
    Que nunca sentiste a dor,
    E não choraste,
    E não conheceste o amor …


    Quem sabe, se és aquela que passou
    Há pouco, de mim perto, e que me olhou
    Como quem compreende o que padeço?


    - Sei lá! Sei lá ! – Que me importa, lá saber!
    Apenas sei que há tanto ando a sofrer,
    Por ti, mulher que adoro e não conheço !...


    José Maria Lopes de Araújo

    1 de outubro de 2007

    BEIJO poema de Manuel Altolaguirre "Espanha"




    BEIJO




    Que só estavas por dentro !



    Quando surgi em teus lábios,

    um rubro túnel de sangue

    triste e escuro mergulhava

    até ao fim da tua alma.


    Quando penetrou meu beijo,

    seu calor, sua luz davam

    sobressaltos e tremores

    à tua carne surpreendida.


    Desde esse instante os caminhos

    que levam à tua alma

    mão queres que estejam desertos.


    Quantas flechas, peixes, pássaros

    Quantas carícias e beijos !



    Tradução de : José Bento




    25 de setembro de 2007

    Poemas oriundos da INDIA do Livro * Rosa do Mundo *







    Esta mesma lua ilumina a minha amada
    O vento acariciou já o seu rosto
    A lua impregnou-se da sua beleza
    e o vento do seu perfume.

    Quem ama de verdade pouco lhe basta
    para suportar a separação...
    Que ela e eu respiremos o mesmo ar
    E que os nossos pés pisem o mesmo chão.




    Tradução de Jorge Sousa Braga

    20 de setembro de 2007

    GOSTO DE GENTE ASSIM autoria de Arthur de Tavola






    Gosto de gente com a cabeça no lugar,
    de conteúdo interno,
    idealismo nos olhos e
    dois pés no chão da realidade



    Gosto de gente que ri
    chora,
    se emociona com uma simples carta,
    um telefonema,
    uma canção suave,
    um bom filme,
    um bom livro,
    um gesto de carinho,
    um abraço,
    um afago.


    Gente que ama e curte saudades,
    gosta de amigos,
    cultiva flores,
    ama os animais,
    admira paisagens,
    poesia e escuta.


    Gente que tem tempo
    para sorrir bondade,
    semear perdão,
    repartir ternuras,
    compartilhar vivências
    e dar espaço
    para as emoções dentro de si,
    emoções que fluem
    naturalmente de dentro
    do seu ser!


    Gente que gosta de
    fazer coisas que gosta,
    sem fugir de compromissos
    difíceis e inadiáveis,
    por mais desgastantes que sejam.


    Gente que colhe
    orienta,
    se entende,
    aconselha,
    busca a verdade
    e quer sempre aprender,
    mesmo que seja de uma criança,
    de um pobre,
    de um analfabeto.




    Gente de coração desarmado,
    sem ódio e preconceitos baratos,
    com muito amor dentro de si.




    Gente que erra e reconhece,
    cai e se levanta,
    apanha e assimila os golpes,
    tirando lições dos erros
    e fazendo redentora
    suas lágrimas e sofrimentos.




    Gosto muito de gente assim...
    E desconfio que é deste
    tipo de gente que
    Deus também gosta!


    Arthur de Tavola

    19 de setembro de 2007

    " Encanto de Amor " de Atharva-Veda

    Encanto de Amor

    Como a liana enlaça a árvore, enlaça-me também, sê a minha amante e não te afastes de mim!

    Como a águia ao levantar voo bate no chão com as asas, bato no teu coração: sê a minha amante e não te afastes de mim!

    Como o sol cinge no mesmo dia o céu e a terra, cinjo o teu coração: sê a minha amante e não te afastes de mim !



    Tradução de: Maria Jorge Vilar de Figueiredo

    15 de setembro de 2007

    VONTADE DE UM ABRAÇO poema da autoria de Macedo Junior TROVADOR.PR





    Dá um abraço?
    Macedo Junior (TrovadorPR)





    De repente deu vontade de um abraço...
    Uma vontade de entrelaço, de proximidade...
    de amizade... sei lá...


    Talvez um aconchego amigo e meigo,
    que enfatize a vida e amenize as dores...
    Que fale sobre os amores,
    seja afetuoso e ao mesmo tempo forte.


    Deu vontade, de poder ter saudade de um abraço.
    Um abraço que eternize o tempo
    e preencha todo espaço...
    Mas que faça lembrar do carinho,
    que surge, devagarinho,
    da magia da união dos corpos,

    das auras... sei lá.


    Lembrar do calor das mãos,
    acariciando as costas a dizer:
    - Estou aqui!


    Lembrar do enlaçar dos braços,
    envolventes e seguros,

    afirmando: - Estou com você!.


    Lembrar da transfusão de forças,
    ou até da suavidade do momento... sei lá...


    Então,pensei em como chamar esse abraço:
    abraço poesia, abraço força,abraço união,

    abraço suavidade,abraço consolo e compreensão,
    abraço segurança e justiça, abraço verdade,
    abraço cumplicidade?


    Mas o que importa é a magia deste abraço!
    A fusão de energias, que harmoniza,
    integra o todo e se traduz no cosmos,
    no tempo e no espaço...


    Só sei que agora deu vontade desse abraço.
    Um abraço que desate os nós,
    transformando-os em envolventes laços.


    Que sirva de colo, afastando toda e qualquer angústia.
    Que desperte a lágrima de alegria,
    e acalme o coração...


    Um abraço que traduza a amizade,
    o amor e a emoção....


    E para um abraço assim ,
    Só consegui pensar em você!

    Nessa sua energia,
    nessa sua sensibilidade,
    que sabe entender o por quê,
    dessa minha vontade.


    Pois então:


    Dá logo este abraço!

    Poema da autoria do Poeta MACEDO JUNIOR ( TrovadorPR)


    ---------------------------------------------------------------------------

    Este Poema foi publicado neste blog em 2005.
    Alguns dos comentários, vêm desde essa altura.

    Relembro o meu querido amigo Fernando do Blog " FRATERNIDADE " que já não se encontra entre nós.

    Nessa altura, publiquei o poema desconhecendo a sua autoria.
    Após o alerta , volto a republica-lo, e a dar o devido mérito ao seu autor
    MACEDO JUNIOR (TrovadorPR)




    8 de setembro de 2007

    Não Posso Adiar o Amor poema de" António Ramos Rosa "



    Não posso adiar o amor para outro século
    não posso
    Ainda que o grito sufoque na garganta
    ainda que o ódio estale e crepite e arda
    sob montanhas cinzentas

    Não posso adiar este abraço
    que é uma arma de dois gumes
    amor e ódio

    Não posso adiar
    ainda que a noite pese séculos sobre as costas
    e a aurora imprecisa demore
    não posso adiar para outro século a minha vida
    nem o meu amor
    nem o meu grito de libertação

    Não posso adiar o coração.


    ANTÓNIO RAMOS ROSA
    do Livro " Rosa do Mundo *

    4 de setembro de 2007

    do Livro * Rosa do Mundo *

    Amor, não sei quem diria
    amarga a tua doçura:
    o teu sabor delicia
    como o da fruta madura.
    Casa onde a alegria habita,
    fora mil vezes bendita,
    contigo, exulto!
    Quero-te assim, qual tu és:
    meu coração, a teus pés,
    rende-te culto.


    Tradução de Luiz Cardim

    Reino Unido -(Poeta Anónimo )

    Séc. XVI

    29 de agosto de 2007

    O MEU DESEJO poema de Florbela Espanca




    Vejo-te só a ti no azul dos céus,
    Olhando a nuvem de oiro que flutua...
    Ó minha perfeição que criou Deus
    E que num dia lindo me fez sua!

    Nos vultos que diviso pela rua,
    Que cruzam os seus passos com os meus...
    Minha boca tem fome só da tua!
    Meus olhos têm sede só dos teus!

    Sombra da tua sombra, doce e calma,
    Sou a grande quimera da tua alma
    E, sem viver, ando a viver contigo...

    Deixa-me andar assim no teu caminho
    Por toda a vida, Amor, devagarinho,
    Até a Morte me levar consigo ...



    Florbela Espanca

    26 de agosto de 2007

    Almada Negreiros " MÃE "



    Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


    Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede ! Eu prometo saber viajar .

    Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

    Mãe!Ata as tuas mãos ás minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.


    Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


    Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade !



    Almada Negreiros

    (1893-1970)


    Do Livro " ROSA DO MUNDO "

    23 de agosto de 2007

    CANTO DE AMOR DE UM JOVEM do livro * A ROSA DO MUNDO *

    Cada vez que como, como a dor do teu amor.
    Cada vez que tenho sono, sonho com o teu amor.
    Cada vez que estou em casa deitado de costas,
    estou deitado sobre a dor do teu amor.
    Cada vez que ando, ponho o pé sobre a dor do teu amor.




    Poema da América do Norte, Kwakiudes

    Versão : Herberto Helder

    14 de agosto de 2007

    BEL poema de " Luís Veiga Leitão "








    Hálito de terra depois da chuva:

    cálida ternura

    aflorando

    do lábio


    Teu corpo

    leveza que pesa

    um sabor sábio

    secreto

    da Natureza


    Por isso os bichos te amam

    em suas falas naturais:

    os felinos

    os caprinos

    e os poetas - bichos marginais





    Luís Veiga Leitão

    " Biografia "Poema de PEDRO HOMEM DE MELO











    Com lírios nas mãos de neve,


    Subi ao último andar,


    A haver farda, era tão leve


    Que fui subindo a cantar!


    E fui subindo, subindo...


    Só parei no patamar,


    Abri as portas e janelas


    Para poder respirar.


    Tudo o que se via delas


    Tinha a cor do meu olhar.


    Da varanda me inclinei,


    Para medir-lhe o tamanho.


    Ai! dos vassalos de El-Rei


    Aos quais El-Rei fica estranho!


    Lá do alto, cá em baixo, o rio


    Transformara-se em regato.


    Reparei que, debruçadas,


    Sobre o seu leito vazio,


    Faias, apontando espadas,


    Lhe exigiam um retrato.


    Soprou, de súbito, o vento!


    Varreu a noite a direito,


    Rindo... Que risada fria!


    Entanto o solar, ao vento,


    Erecto fazendo peito,


    Resistia, resistia...


    Mas, das brechas do telhado,


    Água, sôfrega, escorrera.


    E o torreão do solar


    - Ameias de pedra ou cera?


    Era um pássaro assustado


    Sem asas para voar.











    Pedro Homem de Mello


    (1904-1984)

    2 de agosto de 2007

    CANÇÃO poema de Madagascar do Livro * Rosa do Mundo *








    És uma fruta dourada, uma banana madura.
    Se uma borboleta te roça, eu não me afasto de ti.
    - Todo aquele que morre por amor de sua amada
    é um pequeno caimão que a própria mãe devora,
    e que regressa ao ventre de que tem toda a ciência.



    Versão : Herberto Helder






    26 de julho de 2007

    Tarde de Mais... FLORBELA ESPANCA






    Quando chegaste enfim, para te ver
    Abriu-se a noite em mágico luar;
    E para o som de teus passos conhecer
    Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...



    Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
    Viu-se nessa hora o que não pode ser:
    Em plena noite, a noite iluminar
    E as pedras do caminho florescer!



    Beijando a areia de oiro dos desertos
    Procurara-te em vão! Braços abertos,
    Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!



    E há cem anos que eu era nova e linda!...
    E a minha boca morta grita ainda:
    Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...



    Florbela Espanca

    22 de julho de 2007

    JOSÉ ANDRADE " Uma Ilha é Um Barco "









    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Que estremece ardentemente
    Nas tempestades da vida.

    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Na espera desesperante
    De um destino esquecido.

    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Onde o Mundo Moderno
    Descansa, fatigado.

    Uma ilha é um barco
    Somente
    Mas um barco celeste
    Que com o mundo equilibra
    O sentido da vida
    E a vida sentida.

    Uma ilha é um barco
    Uma ilha é um mundo.





    Jun/83

    José Andrade

    P. Delgada - Ilha de S.Miguel - Açores

    Do livro " Semente "

    14 de julho de 2007

    A NOSSA CASA poema de Florbela Espanca






    A nossa casa, Amor, a nossa casa!
    Onde está ela, Amor, que não a vejo?
    Na minha doida fantasia em brasa
    Constrói-a, num instante, o meu desejo!


    Onde está ela, Amor, a nossa casa,
    O bem que neste mundo mais invejo?
    O brando ninho aonde o nosso beijo
    Será mais puro e doce que uma asa?

    Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
    Andamos de mãos dadas, nos caminhos
    Duma terra de rosas, num jardim,


    Num país de ilusão que nunca vi...
    E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
    E tu, ó meu Amor, dentro de mim...



    Florbela Espanca

    8 de julho de 2007

    LAMENTO AMOROSO Poema oriundo da Amazónia do Livro * Rosa do Mundo *






    Não quero mulher que tenha
    muito delgadas as pernas,
    como venenosas serpes,
    de medo que elas me apertem.

    Não quero mulher que tenha
    muito comprido o cabelo,
    um molho de ervas espesso
    onde acaso eu me perca.

    Quando sem vida me veres,
    sobre o meu corpo não choraes;
    deixa que a águia ao ver-me
    seja a única que me chore.

    Quando sem vida me veres,
    deita-me á floresta negra:
    o tatu há-de vir ver
    a cova onde meter-me


    Versão : Herberto Helder

    4 de julho de 2007

    AS PUTAS DA AVENIDA poema de Fernando Assis Pacheco





    Eu vi gelar as putas da Avenida
    ao griso de Janeiro e tive pena
    do que elas chamam em jargão a vida
    com um requebro triste de açucena.


    Vi-as às duas e às três falando
    como se fala antes de entrar em cena
    o gesto já compondo à voz de mando
    do director fatal que lhes ordena.


    Essa pose de flor recém- cortada
    que para as mais batidas não é nada
    senão fingirem lírios de Lorena


    Mas a todas o griso ia aturdindo
    e eu que do trabalho vinha vindo
    calçando as luvas senti pena.



    Do Livro * Rosa do Mundo *



    27 de junho de 2007

    AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS do livro * Rosa do Mundo *




    AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS



    Guarda para ti esse beijo
    Menina virgem dos dentes brancos!
    Nesse teu beijo eu gosto não acho
    Longe de mim guarda teus lábios.


    Mais doce que o mel um beijo eu tive
    Do mulher casada que o deu por amor.
    Até que se acabem o mundo e os dias
    Beijo de gosto só esse terei; esse não outro.


    Até que a veja tal como é em sua pessoa
    Por obra e por graça do filho de Deus
    Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
    Pois que o seu beijo é como é, foi e será.



    Poema Cultura celta ( irlandês)

    Séc. XVI/XVI

    Poeta ANÓNIMO



    Tradução de José Domingos Morais

    26 de junho de 2007

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " D.IV"






    Se sou
    o poeta
    perdido
    no nada
    poderei parar
    o tempo perdido
    e o tempo
    que vem
    como se pára
    o vento
    como se pára
    o universo-deus

    Porque o poeta
    é o infinito
    onde a gota de água... calada
    assume a dimensão
    dum universo

    Se sou
    o poeta do nada
    poderei sonharãté ao intangivel
    e ver
    o universo
    aos pés do Nada

    Se sou
    o poeta que sofre
    então meterei
    o universo
    na gota de água ...
    da manhã da esperança




    Março 1981


    Fernando Monteiro

    do Livro " Mar Branco "

    24 de junho de 2007

    *A DOR DA SEPARAÇÂO * Poema de Maruyama Kaoru - Japão





    Pousada numa âncora, uma gaivota pia,
    De súbito, sem uma palavra, a âncora desliza,
    Surpreendida, a gaivota levanta voo,

    Em breve, a âncora empalidece na água, afundando-se.
    E o que a gaivota sente torna-se um grito bravio, triste,

    Perdido no vento.



    Tradução de:

    José Alberto Oliveira

    Do Livro * ROSA DO MUNDO *

    20 de junho de 2007

    * RECINTO * poema de Carlos Pellicer - México



    Onde porei o ouvido que não escute
    minha voz a chamar-te?
    E onde não escutar este silêncio
    que te afasta lentamente triste?

    Eu caminho as horas presenciadas
    em nós por nós os dois.
    Sei desse fruto maduro das vozes
    em campos de Setembro.

    Sei da noite esbelta e já tão nua
    em que os nossos corpos eram um.
    Sei do silêncio perante a gente obscura,
    de calar este amor que é de outro modo.

    Enquanto chove a ausência liberto
    a escravidão de carne e a alma só
    no ar suspende sua águia amorosa
    que as nuvens pacíficas igualam.


    Tradução de : José Bento


    do Livro * ROSA DO MUNDO *


    16 de junho de 2007

    * NÃO CHORO... * poema de José Gomes Ferreira do Livro " ROSA DO MUNDO "



    A dor não me pertence.


    Vive fora de mim, na natureza,
    livre como a electricidade.

    Carrega os céus de sombra,
    entra nas plantas,

    desfaz as flores...

    Corre nas veias do ar,
    atrai nos abismos,

    curva os pinheiros...


    E em certos momentos de penumbra

    iguala-me à paisagem,

    surge nos meus olhos

    presa a um pássaro a morrer

    no céu indiferente.


    Mas não choro. Não vale a pena!
    A dor não é humana.



    José Gomes Ferreira

    13 de junho de 2007

    António Botto " CANÇÃO " do Livro * ROSA DO MUNDO *





    CANÇÃO



    Se fosses luz serias a mais bela
    De quantas há no mundo : - a luz do dia !
    - Bendito seja o teu sorriso
    Que desata a inspiração
    Da minha fantasia !

    Se fosses flor serias o perfume
    Concentrado e divino que perturba
    O sentir de quem nasce para amar !
    - Se desejo o teu corpo é porque tenho
    Dentro de mim
    A sede e a vibração de te beijar!
    Se fosses água - música da terra,
    Serias água pura e sempre calma!
    - Mas de tudo o que possas ser na vida,
    Só quero, meu amor, que sejas alma !



    ANTÓNIO BOTTO
    (1897-1959)

    10 de junho de 2007

    HORAS RUBRAS de Florbela Espanca - do Livro * ROSA DO MUNDO *




    HORAS RUBRAS


    Horas profundas, lentas e caladas,
    Feitas de beijos, sensuais e ardentes,
    De noites de volúpia, noites quentes
    Onde há risos de virgens desmaiadas…

    Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
    Tombam astros em fogo, astros dementes.
    E do luar os beijos languescentes
    São pedaços de prata pelas estradas…

    Os meus lábios são brancos como lagos…
    Os meus braços são leves como afagos,
    Vestiu-os o luar de sedas puras …

    Sou chama e neve branca e misteriosa…
    E sou, talvez na noite voluptuosa,
    Ó meu Poeta, o beijo que procuras !


    Florbela Espanca
    (1894-1930)

    6 de junho de 2007

    * A PALAVRA IMPOSSÍVEL * poema de Adolfo Casais Monteiro

    Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
    A vida que não se troca por palavras.
    Deram-mo para eu guardar dentro de mim
    As vozes que só em mim são verdadeiras.
    Deram-mo para eu guardar dentro de mim
    A impossível palavra verdade.


    Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
    Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
    Para eu guardar dentro de mim,
    Para eu ignorar dentro de mim
    A única palavra sem disfarce -
    A palavra que nunca se profere.




    ADOLFO CASAIS MONTEIRO


    do Livro * Rosa do Mundo *
    2001 Poemas para o Futuro

    4 de junho de 2007

    A MINHA AMANTE TEM AS VIRTUDES DA ÁGUA do Poeta Francês * VICTOR SEGALEN * - Do Livro " ROSA DO MUNDO " 2001 poemas





    A MINHA AMANTE TEM

    AS VIRTUDES DA ÁGUA




    A minha amante tem as virtudes da água : um sorriso claro, os gestos fluentes, uma voz pura que canta gota a gota. - E por vezes, - sem querer – um fogo passa pelo meu olhar, sabe como ateá-lo estremecendo : água tirada sobre as brasas .

    Minha água viva, ei-la derramada, toda, sobre a terra! Foge-me, desliza; - e tenho sede , e corro atrás dela.

    Com minhas mãos formo uma taça. Com minhas duas mãos embriagado estanco-a, estreito-a, levo-a aos lábios :

    E trago uma mão cheia de lama.




    Tradução de Filipe Jarro


    França

    VICTOR SEGALEN
    (1878-1919)

    3 de junho de 2007

    Poema de JOÃO DE DEUS * A VIDA * (Excerto)







    A VIDA

    (Excerto)


    A vida é o dia de hoje,
    A vida é ai que mal soa,
    A vida é sombra que foge,
    A vida é nuvem que voa;
    A vida é sonho tão leve
    Que se desfaz como a neve
    E como o fumo se esvai:
    A vida dura um momento,
    Mais leve que o pensamento,
    A vida leva-a o vento,
    A vida é folha que cai!

    A vida é flor na corrente,
    A vida é sopro suave,
    A vida é estrela cadente,
    Voa mais leve que a ave;
    Nuvem que o vento nos ares,
    Onda que o vento nos mares,
    Uma após outra lançou,
    A vida - pena caída
    Da asa de ave ferida -
    De vale em vale impelida
    A vida o vento a levou





    JOÃO DE DEUS
    (1830-1896)






    Do livro * ROSA DO MUNDO *


    2001 Poemas para o Futuro




    1 de junho de 2007

    * OS AMANTES APARTADOS * de Isobel, Condessa de Argyll








    OS AMANTES APARTADOS



    Eu sei de um jovem que é meu desejo.
    Oh Rei dos Reis ! Fazei que ele venha sem mais demora.
    Eu só o quero bem enlaçado contra o meu seio
    Com o seu corpo bem apoiado na minha pele.

    Se a vida fosse como eu a quero
    Longe de mim e eu longe dele nunca seríamos.
    Sinais não vejo da sua chegada
    E ele não sabe como eu o quero e é meu desejo.

    No mundo não há maior tristeza que nós os dois
    Pois o seu barco voga e navega longe de casa
    No seu caminho do oriente; minha morada é ocidente.
    Eu o desejo e ele me quer e a vida é desejos vãos.



    Tradução de José Domingos Morais

    Do Livro * ROSA DO MUNDO *