27 de janeiro de 2010
SONETO LXXXVIII....de ...William Shakespeare
SONETO LXXXVIII
Quando me tratas mal e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.
William Shakespeare
22 de janeiro de 2010
" O Beijo Mata o Desejo " ....de António Aleixo
MOTE
«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»
GLOSAS
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.
Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.
E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.
Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!
António Aleixo
14 de janeiro de 2010
AMOR SÁDICO .... poema de JULIO HERRERA Y REISSIG
Já não te amava, sem que meu desejo
fugisse á sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e contudo o beijo
de uma repulsa nos uniu um instante...
Acre prazer tornou-me seu possesso,
crispou-me a face, mudou meu semblante.
Já não te amava e turbei-me, não obstante,
qual uma virgem entre um bosque espesso.
E já perdida para sempre, ao ver-te
amanhecer sob o eterno luto,
- mudo o amor, o coração inerte -,
atroz, esquivo, rigoroso, hirsuto...
Jamais vivi como naquela morte,
jamais te amei como num tal minuto !
Trad: José Bento
11 de janeiro de 2010
OPÇÕES.... poema de ....Vitor Cintra
Parabéns poeta e amigo, VITOR CINTRA, hoje em aniversário.
Por respeito dos meus filhos
É muito mais importante
Que a postura triunfante
De quem vence a qualquer preço.
Cruzar a vida sem guilhos
Que me firam a memória,
É já, por si, 'ma vitória
Além da qual nada peço.
A memória de quem parte
Permanece na lembrança
De quem recebe, d'herança,
Um nome que foi honrado.
Mas a honra não é arte,
É, tão só, dom do destino,
Que se aceita por divino,
Ou rejeita por pesado.
Vitor Cintra
8 de janeiro de 2010
O SOL E A LUA............. de Sílvana Duboc
Quando o SOL e a LUA se encontraram pela primeira vez, se apaixonaram perdidamente
e a partir daí começaram a viver um grande amor.
Acontece que o mundo ainda não existia e no dia que Deus resolveu criá-lo, deu-lhes então o toque final... o brilho !
Ficou decidido também que o SOL iluminaria o dia e que a LUA iluminaria a noite, sendo assim,
seriam obrigados a viverem separados.
Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam.
A LUA foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado,
ela foi se tornando solitária.
O SOL por sua vez havia ganhado um título de nobreza "ASTRO REI", mas isso também não o fez feliz.
Deus então chamou-os e explicou-lhes:
Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio.
Você LUA, iluminará as noites frias e quentes, encantará os enamorados e será diversas vezes motivo de poesias.
Quanto a você SOL, sustentará esse título porque será o mais importante dos astros,
iluminará a terra durante o dia, fornecerá calor para o ser humano e a sua simples presença fará as pessoas mais felizes.
A LUA entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio, já o SOL ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-se abater pois teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus.
No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a ELE:
Senhor, ajude a LUA por favor, ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão,
E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela.
A LUA sempre que está muito triste recorre as estrelas que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem.
Hoje eles vivem assim... separados, o SOL finge que é feliz, a LUA não consegue esconder que é triste.
O SOL ainda esquenta de paixão pela LUA e ela ainda vive na escuridão da saudade.
Dizem que a ordem de Deus era que a LUA deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso, porque ela é mulher, e uma mulher tem fases.
Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz é minguante e quando minguante, nem sequer
é possível ver o seu brilho.
LUA e SOL seguem seu destino, ele solitário mas forte, ela acompanhada das estrelas, mas fraca.
Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível.
Vez por outra alguns deles vão até ela e voltam sempre sozinhos, nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até a terra, nenhum deles realmente conseguiu conquistá-la, por mais que achem que sim.
Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível, nem mesmo o da LUA e o do SOL, e foi aí então que ele criou o eclipse.
Hoje SOL e LUA vivem da espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer.
Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o SOL encobriu a LUA é porque ele deitou-se sobre ela e começaram a se amar e é ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse. Importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande que aconselha-se não olhar para o céu nesse momento, seus olhos podem cegar de ver tanto amor.
Bem, mas na terra também existe sol e lua, e portanto existe eclipse, mas essa era a única parte da história que você já sabia, não era?
Autora : Silvana Duboc
6 de janeiro de 2010
Soneto 35----- de William Shakespeare
~ Soneto 35 ~
Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;
Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço
Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,D
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.
William Shakespeare
31 de dezembro de 2009
Insinceridade....pema de Vasco Graça Moura
Quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco
Nem o cheiro a maresia
rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés
A vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio
Sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada
Por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.
Vasco Graça Moura
"Antologia dos Sessenta Anos"
18 de dezembro de 2009
Natal...... poema de.... José Maria Lopes de Araújo
NATAL
III
Volta Menino, volta …
Volta ao meu coração ,
Com a Paz, com a Alegria
Que em meu peito havia então !
É que eles esqueceram
Que vieste a este Mundo,
Sofrer torturas e dores,
Não pela riqueza dos nobres,
Mas pela miséria dos pobres
E pelos mais pecadores!
Volta Menino, volta,
Volta ao meu coração,
Com a chama de alegria,
Com a paz do Teu Perdão!
JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
12 de dezembro de 2009
Sem Deus, Sem Vós e Sem Mim.... de Jorge Manrique ( Espanha 1440-1479)
Sou quem livre me senti,
eu quem pudera olvidar-vos,
eu sou o que por amar-vos
estou, desde que vos vi,
sem Deus, sem vós e sem mim.
Sem Deus porque a vós adoro,
sem vós, pois não me quereis;
sem mim, pois se diz em coro
que me tendes e tereis.
Por isso triste, nasci,
pois poderia olvidar-vos
eu sou o que por amar-vos
estou, desde que vos vi,
sem Deus, sem vós e sem mim.
Tradução de : José Bento
do Livro " A Rosa dos Ventos "
4 de dezembro de 2009
A Essência da Mulher.... poema de.... Ciro di Verbena
Toda mulher esconde dentro da alma,
Um lago azul, tranqüilo e transparente
E sob as águas de aparente calma
Guarda um vulcão de lava incandescente!...
Às vezes, uma luz se nos acalma
Nascendo-lhe do olhar, triste e carente,
E ao transformar-se em dor, nos causa trauma
Qual lava de um vulcão queimando a gente!
Toda mulher é a essência da beleza,
Tem a voracidade da tigresa
No fogo da paixão quando na cama!
É desse lago de águas cristalinas
Que a essência da mulher, luz que fascina,
Vem saciar a sede de quem ama!
CIRO DI VERBENA
23 de novembro de 2009
Inconstância..... poema de ....Florbela Espanca
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Florbela Espanca
22 de novembro de 2009
Chico Xavier
Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO, mesmo eu sabendo que as rosas não falam.
Que eu não perca o OPTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre.
Que eu não perca a vontade de VIVER, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa...
Que eu não perca a vontade de ter grandes AMIGOS, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas...
Que eu não perca a vontade de AJUDAR as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda.
Que eu não perca o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia.
Que eu não perca a VONTADE de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento por mim...
Que eu não perca a LUZ e o BRILHO no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo, escurecerão meus olhos...
Que eu não perca a GARRA, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos.
Que eu não perca a RAZÃO, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas.
Que eu não perca o sentimento de JUSTIÇA, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu.
Que eu não perca o meu forte ABRAÇO, mesmo sabendo que um dia meus braços estarão fracos...
Que eu não perca a BELEZA e a ALEGRIA de ver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...
Que eu não perca o AMOR por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia.
Que eu não perca a vontade de doar este enorme AMOR que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado.
Que eu não perca a vontade de ser GRANDE, mesmo sabendo que o mundo é pequeno... E acima de tudo...
Que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente, que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois.... a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor!
CHICO XAVIER
19 de novembro de 2009
Soneto da Fidelidade....de Vinicius de Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
VINICIUS DE MORAES
13 de novembro de 2009
ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA....poema de ....FERNANDO PESSOA
9 de novembro de 2009
HINO DA PRIMEIRA CARTA AOS CORINTIOS.......... São Paulo ( Século I)
Se eu falasse as línguas dos homens e até as dos anjos, mas não tivesse amor
seria bronze que soa ou címbalo que tine.
Se tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e todos os saberes, se a minha fé fosse a ponto de mover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria.
Se repartisse pelos pobres tudo quanto tenho, e meu corpo entregasse ás labaredas mas não tivesse amor, nada ganharia.
O amor paciente, repleto de bondade, o amor que desconhece inveja e não ostenta orgulho, o amor sem vaidade, que descura o próprio interesse, e não se irrita e não suspeita mal, o amor que não colhe alegria da injustiça, mas se alegra com a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acabará:
há um tempo em que vacilam as profecias, as línguas emudecem e o saber desaparece
porque só em parte conhecemos e só em parte profetizamos, mas quando chega a perfeição
os limites apagam-se.
Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, pensava como criança:
quando me tornei homem abandonei as coisas de criança.
Agora vemos para um espelho, e de maneira obscura, o que depois veremos face a face.
Agora conheço apenas uma parte, mas então conhecerei conforme também sou conhecido.
Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos.
Agora o maior de todos é o amor.
*****
Tradução de : José Tolentino Mendonça
do livro * Rosa do Mundo *
5 de novembro de 2009
* Tive Um Coração, Perdi-o *....poema de AMÁLIA RODRIGUES
Tive um coração, perdi-o
Ai quem mo dera encontrar,Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar.
Quem me dera ir embora,
Ir embora sem voltar,
A morte que me namora
Já me pode vir buscar.
Tive um coração, perdi-o
Ainda o vou encontrar,
Preso no lodo do rio,
Ou afogado no mar.
AMÁLIA RODRIGUES
do livro " Amália, Fados, Poemas e Flores "
1 de novembro de 2009
A Folha de Salgueiro...... poema de António Feijó
Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
- Amo-a porque uma folha melindrosa
deixou cair nas águas, distraída.
Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel, no lago de cristal.
E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova Primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
E esse nome...era o meu!
António Feijó
do Livro * ROSA DO MUNDO *
27 de outubro de 2009
AÇORES..... poema de VITOR CINTRA
Nove ilhas de beleza deslumbrante,
Surgidas do profundo mar imenso,
Que o mundo conheceu porque o Infante
Tornou o nevoeiro menos denso.
Encostas de mosaicos verdejantes
Elevam-se, rumando ao infinito.
Hortênsias, feitas sebes, são constantes,
Tornando o colorido mais bonito.
Ali, onde gigantes residiram,
Os cumes das montanhas que explodiram,
Tornados em lagoas de beleza,
Relembram, aos herdeiros dos atlantes,
Que até já os primeiros navegantes
Sabiam respeitar a natureza.
VITOR CINTRA
do livro " Entre o Longe e o Distante "
25 de outubro de 2009
NO MEIO DO MAR poema de " JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO "
Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!
Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.
…………………………….
Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!
JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
24 de outubro de 2009
Sim, Sei Bem ....poema de FERNANDO PESSOA
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
FERNANDO PESSOA
22 de outubro de 2009
O Sonho...poema de....SEBASTIÃO DA GAMA
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
SEBASTIÃO DA GAMA
20 de outubro de 2009
URGENTEMENTE.....poema de....EUGÉNIO DE ANDRADE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.
EUGENIO DE ANDRADE
16 de outubro de 2009
No Meio o Mundo....poema de ...VITORINO NEMÉSIO
Com medo de o perder nomeio o mundo
Seus quantos e qualidades, seus objectos
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos
Nomeei as coisas e fiquei contente
Prendi a frase ao texto do universo
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.
VITORINO NEMÉSIO
12 de outubro de 2009
Um Poema.....de MIGUEL TORGA
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
MIGUEL TORGA
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
MIGUEL TORGA
11 de outubro de 2009
Amélia dos Olhos Doces...poema de ...JOAQUIM PESSOA

Amélia dos Olhos Doces
quem é que te trouxe
grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca.
Na pele e na roupa
perfumes de França.
Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.
Amélia dos Olhos Doces
quem dera que fosses
apenas mulher.
Amélia dos Olhos Doces
se ao menos tivesses
direito a viver!
Amélia gaivota
amante ou poeta.
Rosa de café.
Amélia gaiata
do Bairro da Lata.
Do Cais do Sodré.
Tens um nome de navio.
Teu corpo é um rio
onde a sede corre.
Olhos Doces. Quem diria
que o amor nascia
onde Amélia morre?
Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.
Joaquim Pessoa
10 de outubro de 2009
HOJE----------- Lançamento do Novo Livro do Poeta VITOR CINTRA " ENTRE O LONGE E O DISTANTE "

a ideia ganhou força e vai mesmo acontecer.
Porque não é possível convidar pessoalmente todos os amigos do poeta VITOR CINTRA, deixo-vos aqui o convite.

****************
LOUCOS ......poema de VITOR CINTRA

Não são muitos, nem são poucos,
Os poetas, bem seguros,
Encerrados entre muros
Sob o rótulo de loucos.
São apenas os bastantes
P'ra provar que a poesia
É temida, e não devia,
Tanto ou mais do que era dantes.
Porque abordam quaisquer temas,
Nas estrofes dos poemas,
Incomodam co'as verdades.
É por isso que os poetas
São, por formas indirectas,
Reprimidos entre grades.
VITOR CINTRA
do livro " RELANCES "
9 de outubro de 2009
A SOLIDÃO DE UM HOMEM NA SUA CASA ...poema de Alexandre Dale

Aquele homem estava em sua casa,
a comer bolachas com manteiga
e a beber leite frio.
A certo momento,
deu-lhe para reparar em todas as coisas
que o rodeavam.
Havia meias de mulher
numa corda esticada por cima da sua
cabeça, loiça suja sobre a
mesa, fruta de verão a
apodrecer
— e até, algures, um
gato.
Havia muitas coisas, sem dúvida,
mas aquelas três ou quatro bastavam-lhe
para que se sentisse um estranho
naquele lugar — ou ele mesmo,
mas noutro lugar. Era como
se estivesse ali pela primeira vez.
e daí sentiu
que podia estar a ser
como se fosse um homem
de qualquer parte do mundo:
um homem com as suas
questões habituais,
os seus problemas típicos,
as suas esperanças,
os seus receios.
Um homem sozinho — porque
membro de toda e qualquer família,
pai de todos os filhos, amante ou
companheiro de todas as mulheres,
sangue,
avô,
amizade,
semelhante.
E então aquele homem pensou:
agora
vou-me deitar ao lado da minha
mulher, que dorme hoje na
falta de mim — eu, talvez perdido
na obscura noite das minhas obsessões
— e, no entanto,
parece-me que tudo isto
está cada vez mais estranho.
Quer dizer: não sei que mulher é essa.
Não a conheço.
Pensando bem, nem sequer das suas feições
me consigo lembrar.
todavia, sei que está lá.
Desejo-a.
Através dela, cavalheiros,
aprendi que todas as mulheres desejam sentir,
cada vez que fazem amor,
o incómodo ou dúbio prazer
de estarem a ser violadas.
E então o homem escreve,
e sente-se só, na sua casa,
e não sabe o que há-de fazer.
Fuma.
Escreve mais um pouco.
Talvez escreva isto.
Talvez escreva:
"sei muito bem do que estou a falar".
Mas a verdade é que é muito difícil
falar-se da solidão de um homem
na sua própria casa.
Sei muito bem
do que estou a falar.
ALEXANDRE DALE
3 de outubro de 2009
Não Posso Adiar.... A.RAMOS ROSA

Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio
Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
A.RAMOS ROSA
1 de outubro de 2009
Amor Combate ....poema de JOAQUIM PESSOA
Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.
Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:
O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.
O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.
Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.
JOAQUIM PESSOA
30 de setembro de 2009
Eu sei, Não te conheço Mas existes....poema de JOAQUIM PESSOA

Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo..
JOAQUIM PESSOA
Viver Sempre Também Cansa....poema de JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis
meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.
"E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA
29 de setembro de 2009
Poente ...VITOR CINTRA

A tarde finda,
Num pôr-de-sol
Que brilha ainda.
A alma,
Onde a saudade impera,
Desespera.
Presente,
Um rol
De marcas e sinais,
Dos quais
A nostalgia
Se evidencia,
Se sente.
Na tarde calma,
Enquanto o sol se perde
Num mar, que ferve,
Avermelhando o céu,
Aumenta a dor
Do amor,
Que se perdeu.
Vitor Cintra
25 de setembro de 2009
ESPERO poema de Sophia de Mello Breyner Andersen
21 de setembro de 2009
Conforto.... Poema de LG
Os arrependimentos fizeram-se para se sentirem,
as dívidas para se contraírem,
os gostos para se gozarem,
as penas e os desgostos para se cumprirem.
Os pecados fizeram-se para se cometerem,
a vergonha para se passar,
os frutos para se colher
e o amor para se amar.
A loucura para se fazer,
a ternura para se dar
e a paixão para se sentir.
Mas de todas as verdades a que maior verdade encerra
brota do fundo da terra e tem a ver com a vida
e essa não se renega;
Fez-se mesmo para ser vivida.
Autoria de LG
20 de setembro de 2009
COMO UMA ILHA,SOZINHA de Pedro Abrunhosa

Tu és todos os livros,
Todos os mares,
Todos os rios,
Todos os lugares.
Todos os dias,
Todo o pensamento,
Todas as horas
O teu corpo no vento.
Tu és todos os sábados,
Todas as manhãs,
Toda a palavra
Ancorada nas mãos.
Tu és todos os lábios,
Todas as certezas,
Todos os beijos
Desejos, princesa.
Como uma ilha,
Sozinha...
Prende-me em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra
Como fogo na mão,
Como vou esquecer-te,
Como vou eu perder-te,
Se me prendes em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra,
Como fogo na mão,
Como vou eu lembrar-te
Se a metade que parte
É a metade que tens.
Tu és todas as noites
Em todos os quartos,
Todos os ventos
Em todos os barcos.
Todos os dias
Em toda a cidade,
Ruas que choram
Mulheres de verdade.
Tu és só o começo
De todos os fins,
Por isso eu te peço
Fica perto de mim.
Tu és todos os sons
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.
Como uma ilha,
Sozinha...
PEDRO ABRUNHOSA
18 de setembro de 2009
SOU UM EVADIDO poema de Fernando Pessoa
15 de setembro de 2009
Se Tanto Me Dói que as Coisas Passem.....poema de Sophia de Mello Breyner Andersem
5 de setembro de 2009
OS AMIGOS poema de Eugénio de Andrade
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
EUGÉNIO DE ANDRADE
"Coração do Dia"
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
EUGÉNIO DE ANDRADE
"Coração do Dia"
2 de setembro de 2009
SELO DOURADO

Recebi do Blog "
o que me deixou muito honrada, daí que faço questão de o passar a outros blogs, conforme me indicou a minha querida Méi@, autora do dito blog.
Assim, nomeio alguns dos blogs , ja que não posso nomear TODOS.
Obrigada MÉI@.
31 de agosto de 2009
INTIMIDADE poema de VITOR CINTRA

Teu corpo, poema ardente.
Frenética rima de ais,
Aurora, pedindo mais,
Com louco vigor, fremente.
Teu rosto, sorriso aberto,
Teu rosto, sorriso aberto,
Promessa, sonho, desejo,
Tornando-se a cada beijo
Tão quente, quanto tão certo.
E o dia feito uma hora,
E o dia feito uma hora,
Por entre os ais e os gemidos,
Festim, sem par, dos sentidos.
Mas, quando te vais embora,
Mas, quando te vais embora,
Só fica o teu cheiro, intenso,
Enchendo o vazio imenso
VITOR CINTRA
Do novo livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "
À venda nas livrarias, consulte:
22 de agosto de 2009
POEMA de Sophia de Mello Breyner Anderson

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
Sophia de Mello Breyner Andresen
19 de agosto de 2009
JEITO DE SER poema de Gracinda Medeiros
JEITO DE SER
Abraço o mundo
com olhos
de sentir
e de tocar
enquanto
as mãos
ficam livres
para o fazer
e para o distribuir.
Vejo a vida
com braços
de acolher
e de libertar
enquanto
os pés
seguem trilhas
de perder
e de encontrar.
E assim,
abraçando tudo que vejo,
posso sentir tudo que faço,
acolher tudo que encontro
e libertar tudo que perco
Gracinda Medeiros
14 de agosto de 2009
AMOR e SONO poema de Algernon Charles Swinburne

Deitado a dormir entre os afagos da noite
Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito,
Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
De pele macia e escura,
o pescoço nu para ser mordido,
*
Transparente de mais para corar,
tão quente para ser branca,
Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram -
Nem sei bem o quê, excepto uma palavra -Deleite.
*
E a face dela era toda mel na minha boca,
E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
Os braços longos e lentos,
as mãos quentes de fogo,
*
As ancas frementes,
o cabelo a cheirar a Sul,
os pés leves luzentes,
as coxas esplêndidas e dóceis
E as pálpebras fulgentes
com o desejo da minha alma.
Charles SwinburneLondres, 1837
Trad. Helena Barras
do livro * Rosa dos Ventos *
13 de agosto de 2009
Aperta-me Junto de Ti....poema de Rui Ressurreição

Aperta-me junto de ti,
Quero o teu calor, o teu amor.
Este sentimento de pertença,
Este divino laço de ternura,
Que nos ligará, para toda a eternidade.
Continuarei a ser quem sou, eu mesmo,
Aberto à vida, aberto ao mundo,
Transparente ao meu destino,
Com a música dentro do meu ser,
A me fazer viver, no mais alto dos céus.
Olha-me nos olhos
Que vês dentro de mim?
Gostas de mim? Do meu ser?
Sinto que queres a minha companhia,
Para junto vivermos em alegria,
Descobrir o oceano do amor,
Mesmo dentro da nossa dor,
Percorrendo esse caminho, menos percorrido,
Nas esferas do nosso destino.
Quero pular e saltar,
Amar sem limites...
Sem fronteiras ou barreiras,
Acreditar no teu amor,
No teu calor...
Que evapora os meus desejos,
Condensando num ponto de eternidade,
Um grito de alma,
Que chama por socorro,
Dentro dos seus mistérios...
Dentro de seu labirinto...
De vida, da sua alma querida !
RUI RESSURREIÇÃO
11 de agosto de 2009
AMARRAS...poema de Rui Ressurreição

Já não sei o que sou,
Já não sei para onde vou.
Estas amarras que me prendem,
a um destino sem amor...
Em que me roubam o meu interior,
Em que me afagam o ego,
E matam o meu ser.
Eu deixo,
E eu sinto;
Carências...
Existências, por viver...
Tristeza,
Solidão,
Ingratidão.
Aqui estou eu a chorar,
Sem amar,
Sem viver,
Mas com vontade de morrer!
RUI RESSURREIÇÃO
9 de agosto de 2009
QUEM ÉS?... poema de Ângelo Gomes

És o sonho que se vislumbra ao longe
O mosteiro secreto onde habita o monge
A árida planície que é dura... que é mole,
Conforme as chuvas te fustiguem ou não...
És o som das palavras que me dão vida
O trautear da canção de urânio enriquecida...
Quem és tu? Serás a lua? Serás o sol?
Ou serás um enclave no meu coração?
Ângelo Gomes
5 de agosto de 2009
O CASAMENTO poema de Willem Elsschot ( Bélgica)
.jpg)
Quando ele descobriu como a névoa do tempo
nos olhos da mulher faúlhas apagara,
as faces submergira, a testa lhe sulcara,
afastou o olhar, tomado de tormento.
Maldisse em furor e a barba arrancaria,
co'os olhos a mediu, mas nada pra excitar,
e essa infância ele viu em danação mudar,
enquanto o olhava ela, cavalo que morria.
Mas morrer não morreu, e bem ele tentou
sugar o imo à ossada que firme a sustentava.
Não mais ela falou, queixar-se não ousava,
tremia que era um dó, mas curada ficou.
Pensou: dou cabo dela e puxo fogo à casa.
Arranco o estrado fungo que os pés me entorpeceu.
E como quem por vaus e por fogo correu
alhures acharei o amor que tanto abrasa.
Mas matar não matou, porque entre sonho e agir
atravessam-se leis e mais triviais questões,
e até melancolia, pra a qual faltam razões,
e que à noite acomete, quando se vai dormir.
Os miúdos cresceram, com os anos a correr,
e viram que o sujeito a quem chamavam pai
quieto ao pé do lume e sem dizer um ai
punha um ar tenebroso e horrendo de se ver.
Willem Elsschot
3 de agosto de 2009
" Desejo " poema de Sérgio Jockimann

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".
Sérgio Jockymann
1 de agosto de 2009
Memória poema de Cecília Meireles
Dedico á minha MÃE, onde quer que esteja, hoje dia do seu aniversário.
COM SAUDADES

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços
- por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.
CECÍLIA MEIRELES
COM SAUDADES

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços
- por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.
CECÍLIA MEIRELES
28 de julho de 2009
A BOCA poema de Umberto Saba ( Itália )
24 de julho de 2009
Eu Não Sou de Ninguém.... poema de FLORBELA ESPANCA

Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!
Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...
Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
Florbela Espanca
22 de julho de 2009
Poema de Ângelo de Lima

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado,
Pára e fica, e demora-se um momento.
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado,
Pára e fica, e demora-se um momento.
Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, e se demora.
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...
Ângelo de Lima
13 de julho de 2009
A Mulher Que Passa poema de Vinicius de Moraes

A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
Vinícius de Moraes
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