12 de agosto de 2010

Ausência....VINICIUS DE MORAES


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

30 de julho de 2010

As Escadas de São Bento.... poema de Manuela Bulcão




















Rugas na cara
Cigarro esvoaçante ar cansado
Minissaia apertada de feridas
Corpo de traste
Sorriso desfeito pela pancada e felatio


Mulher objecto
Arranhada pela sede de sexo dos homens
Criança perdida
Lupanário ao ar livre sobre o céu do Porto


Vitima ou criminosa?
Acaso ou simples fome para matar?
Vicio ou escravidão?
Perguntas e mais perguntas…
Vejo aí nas escadarias de São Bento
Passo e olho
Fico presa no hábito mundano de ignorar
E sigo atrasada nos meus afazeres e papeis
Bastava uma palavra para a salvar?


Manuela Bulcão

20 de julho de 2010

Poesia da Felicidade........FERNANDO PESSOA



















Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
 
FERNANDO PESSOA

15 de julho de 2010

Preguiça.... poema de Manuela Bulcão


















Olho para o céu nocturno
A escuridão lembra a tua pele
Chocolate de leite


Vislumbra a camada de nuvens
Os fios de cabelo grisalho
Rasgam o castanho da minha íris


Saboreio o sal do mar
Emersa na escuridão do teu olhar
Coisa estranha e rara


E,
Rendo-me à preguiça da imaginação
Presa na lentidão matinal de esperar pela tua chamada
Continuo assim enrolada,
Nos lençóis…




Manuela Bulcão

9 de julho de 2010

Obessão do Mar Oceano...poema de MÁRIO QUINTANA











Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.




Mário Quintana

30 de junho de 2010

Ilhas Encantadas---- poema de MANUELA BULCÃO
















(Fotografia de Ana Loura)

Açores paisagem única, visão imaculada
Fontes da vida, Águas puras inócuas
Água translúcida, pura fonte da vida
Vegetação única da natureza, intocável terra orvalhada
Arquipélago
Ilhas encantadas, meus olhos brotam lágrimas perpétuas
A saudade, do cheiro a maresia é escrava do meu lamento
Jardins à beira mar plantados, pérolas do oceano.
Açores minhas ilhas meus amores
Sou filha do nada
Filha encantada, filha rejeitada, filha mal amada
Sou tudo, sou nada, serei idolatrada
Amante insular
Um dia serei amada, PRINCESA ENCANTADA




Manuela Bulcão
(Poetisa Açoreana)

24 de junho de 2010

Adeus/Não-Adeus ...poema de MANUELA BULCÃO





















Qual o significado desta pequena palavra?
Entrada na inexistência pura da saudade
Tanto a proferi nesta existência
Somos companheiros do pesar
Amantes furiosos das ondas de uma mera tempestade


Não me queria despedir de ti eternamente
Sinto-me frágil na tua presença distante
Do outro lado do oceano estás
Num quarto sonolento estou prostrada


Nunca te direi ADEUS, meu amor !
Tatuaste-me e acariciaste esta fera
Agora mergulho o meu corpo cansado na escuridão
Sempre a pensar na tua essência que desconheço…
Um NÃO-ADEUS para ti!






Manuela Bulcão

(Poetisa Açoreana)

20 de junho de 2010

Serradura......poema de Mário Sá Carneiro






















(Pintura de Margarida Cepêda )


A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.


E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.


Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.


Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:


Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.



Folhetim da "capital";
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...


O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...


Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...


Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:


O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "viva a alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...


Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.






Mário de Sá-Carneiro

16 de junho de 2010

Lágrimas Ocultas ...Florbela Espanca


















Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

14 de junho de 2010

Modinha...poema de " CECÍLIA MEIRELES "

















Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixeia-as,
Junto com as minhas cantigas,
Desenhadas nas areias.


Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!


O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.






Cecília Meireles

10 de junho de 2010

Horizonte....poema de Fernando Pessoa






















O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha


O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.






Fernando Pessoa

7 de junho de 2010

Reinvenção ....de CECÍLIA MEIRELES




















(Foto de Antonimus)

A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.




Cecília Meireles

3 de junho de 2010

Não Sei Quantas Almas Tenho...... de ...Fernando Pessoa



















Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma
.Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <>
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

30 de maio de 2010

Como Eu Não Possou..... de Mário de Sá Carneiro





















Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.



Mário de Sá-Carneiro

29 de maio de 2010

Noções.....de CECÍLIA MEIRELES



















(Pintura da artista Margarida Cepêda)

...................................


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...



Cecília Meireles

26 de maio de 2010

Existir é Ser Possível Haver Ser....de ÁLVARO DE CAMPOS













(Pintura de MARGARIDA CEPÊDA)


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!


Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!


Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?


Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.


Álvaro de Campos, in "Poemas"


Heterónimo de Fernando Pessoa

24 de maio de 2010

Oração das Mulheres Resolvidas....de JULIO MACHADO VAZ



















Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo, que a fonte nunca seque, e que a nossa sogra nunca se chame Esperança, porque Esperança é a última que morre...

Que os nossos homens nunca morram viúvos, e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos,e os feios se tiver tempo...

Deus...

Eu vos peço sabedoria para entender um homem, amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos, porque Deus, se eu pedir força, eu bato-lhe até matá-lo.

Um brinde...

Aos que temos, aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram, aos trouxas que nos perderam, e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!

Que sempre sobre, que nunca nos falte, e que a gente dê conta de todos!

Amén.


22 de maio de 2010

Como é por Dentro Outra Pessoa de... FERNANDO PESSOA















Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa, 1934

20 de maio de 2010

Epígrafe....poema de Eugénio de Castro
























(Foto de Antonimus)

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som  de água ou de bronze e uma sombra que passa...


EUGÉNIO DE CASTRO

14 de maio de 2010

O Pássaro Cativo...poema de Olavo Bilac



















“Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar!
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...”



Olavo Bilac

Brilho de Sol Tal ......... poema de L.G.


Oh brisa salgada que vens das profundezas do mar,
Meus lábios te esperam sedentos,
A minha boca permanece amarrada...
Nos meus olhos não há olhar.

Oh como passa gelado o vento da distância,
Passa calado,
Cala um lamento,
Disfarça importância.
Cada vaga ao chegar, trás em si uma mensagem;
Carta que afaga,
Afago ao luar,
Frases de coragem

Mas de manhã, cada raio do sol nascente,
É como um gomo de romã,
Um boquet de flores de Maio,
Um abraço que se sente...
E não há nuvens que ocultem o brilho de um sol tal
Nem há esquemas que resultem,
Nem armadilhas no trilho,
Nem ameaça fatal

À medida que o sol se ergue
E os seus raios me aquecem
Meu sangue quase ferve
Com momentos que não esquecem

Luis Gabriel

8 de maio de 2010

OS TEUS OLHOS....poema de Ângelo Gomes


















De avelã, de seda, de cristal, os teus olhos…
Lírios do campo que espelham emoções
Exultando palpitares de corações
Distribuindo raios de luz aos molhos!...

Quando te ergues os teus passos enobrecem
A tua face desenha o sorriso de quem canta
Olhos de pérola que me agasalham como manta
Que se estende sobre as almas que padecem!...


Quisera eu dizer-te tanta coisa que não posso…
E então, rio e choro por dentro e de mim troço
Impotente para travar as amarguras…


Olha para mim… irradia o que de melhor ostentas
Mesmo que calques o trilho das tormentas
Sorri… dá-me um pedaço de ti enquanto duras.


Ângelo Gomes

5 de maio de 2010

Á Procura de Deus...poema de Cahit Sitki Taranci



















Sei, de errar nunca mais paro,
O passo torto me leva;
Na macieira as mãos agarro;
Tenho avós Adão e Eva.

Nem uma, nem duas vezes,
Mas todas tenho pecado.
Bem sabes, Senhor, só Tu és
Quem está sempre do meu lado.

Olha às lágrimas que verto,
É que eu mentir não posso,
Ao sol ponho o que vai dentro;
Inferno é-me o remorso.

Nem de noite sou luzeiro,
Nem borboleta de dia.
Como eu de verdadeiro
Teu rosto, Senhor, queria.

Não é vã a reza que digo,
Ninguém sabe meu desgosto;
Será amigo ou inimigo
Quem na água lhe dança o rosto?

É o mar sem fronteira alguma;
Vaga cruel, barco furado.
Ai os montes, ai a bruma
Onde se perde o veado!

Meu dia é sofrer infindo;
Noites - árido deserto.
Cada astro que vai caindo
É um ai que me arranca o peito.

Tenho ferida que não sara;
Meu braço - asa quebrada.
A mocidade voara.
Como então não dei por nada?

Não fosses Tu, em vão chora
Quem por outro Amor anseia;
Livra, Deus, Teu escravo agora
Da noite que o rodeia.


Cahit Sitki Taranci
1910-1956

2 de maio de 2010

As Janelas do Meu Quarto.....António Gedeão




















Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.


Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.


Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.


Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.


Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.


Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.


E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.


E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.


E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.


Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.


Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.

ANTÓNIO GEDEÃO

Conforto.... Poema de L.G.















Os arrependimentos fizeram-se para se sentirem,
as dívidas para se contraírem,
os gostos para se gozarem,
as penas e os desgostos para se cumprirem.

Os pecados fizeram-se para se cometerem,
a vergonha para se passar,
os frutos para se colher
e o amor para se amar.

A loucura para se fazer,
a ternura para se dar
e a paixão para se sentir.

Mas de todas as verdades a que maior verdade encerra
brota do fundo da terra e tem a ver com a vida
e essa não se renega;

Fez-se mesmo para ser vivida.


Autoria de Luis  Gabriel


A Todas as mães, um feliz Dia!


22 de abril de 2010

Soneto Martelado de JOSÉ BLANC DE PORTUGAL













A tarde, e por de mais calma,
Afogou-me o que ficara da partida
Tudo que inventara, essa mentira querida
Que ficara fazendo as vezes da alma.
Passa e segue a triste gente calada
E o correio e a luz quebrada no muro
Trazem a tarde, recortando duro
O perfil triste e morno desta minha estrada.
E choca e vem de mim até ao céu polido
Liso e puro e sempre igual estendido
Sobre mim e a rua desolada,
Uma ilusão que nada tem de alada
E é feita de aço puro e diamantes:
Não querer tornar-me no que era dantes.


José Blanc de Portugal

12 de abril de 2010

Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos




















Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...




Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
 
ÁLVARO DE CAMPOS

2 de abril de 2010

Pecado Original .......SIDÓNIO BETTENCOURT



As pedras.os corpos.as asas.
Sonhos perdidos na ânsia de tocar o longe e ficar estátua de voz rouca.
É sempre o grito que nos une.
Este permanente apelo de liberdade em cântico.
Vozes multiplicadas de verdade sentida.transparente e dorida.
Por isso havemos de cantar alto. onde a onda anda ou lá no alto da montanha.
Mãos nas mãos. olhos nos Olhos.



Sidónio Bettencourt

24 de março de 2010

O Afecto das Palavras de DANIEL GONÇALVES















Se precisares de mim estou sob o teu ventre
trazendo da terra a água para o teu coração

quero que respires como a nossa ameixieira
e como ela te ergas sobre o rosto da manhã

quero que ouças o meu sangue dentro de ti
como um relógio marcando o pulso da sede

e que nesse sopro de música saibas o amor
e nem uma palavra te atravesse a respiração.


DANIEL GONÇALVES
do livro " O Afecto das Palavras "

18 de março de 2010

Aqueles Que Me Têm Muito Amor....FLORBELA ESPANCA
















Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.


E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!






Florbela Espanca

17 de março de 2010

" A VIDA " poema de JOÃO DE DEUS















A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;


A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!


A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:


Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

JOÃO DE DEUS

6 de março de 2010

"AO SAL" poema de Fernando Campanella

















Nega-me tua alma –
Esta minha alma mesma
Que me furtas -
E é o degredo irremediável
que, em troca, me concedes.
Nega – me tua chama
Que tremula no delírio dos deuses,
Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos,
Nega-me, nega-me tua espuma
Que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)
E é sem minhas fontes que me deixas,
Sem meu ar extasiado.
Nega-me teu mar, tua tempestade,
O sonho e a fantasia,
E me deixas a seco ,ao sal amargo
De cada dia.
Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo
Que a felicidade, embora utopia das sombras,
É também certa luz incidente
Que só de teu olhar
meus olhos como bênção recebem.




Fernando Campanella

1 de março de 2010

Leio o amor no livro.... NUNO JÚDICE














Leio o amor no livro

da tua pele;demoro-me em cada
sílaba,no sulco macio
das vogais,num breve obstáculo
de consoantes,em que os meus dedos
penetram,até chegarem
ao fundo dos sentidos.Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam,como corpos,no abraço
de cada frase.E chego ao fim
para voltar ao princípio,decorando
o que já sei,e é sempre novo
quando o leio na tua pele.






Nuno Júdice

24 de fevereiro de 2010

"O Amor tem Asas de Ouro" poema de NATÁLIA CORREIA














Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,


Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén.






Natália Correia

22 de fevereiro de 2010

Nos olhos de Isa....poema de JOAQUIM PESSOA


















Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite
Acende fogueiras.


Os meus olhos param. Nos olhos de Isa.


Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada
E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar
E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde.
Nos olhos de Isa.


Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas,
Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra.
Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel
Onde as abelhas constroem a tarde
Desesperadamente.
Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão.


JOAQUIM PESSOA

18 de fevereiro de 2010

No Meio do Mar....poema de José Maria Lopes de Araújo
















NO MEIO DO MAR

I

Fugiu a terra do meu olhar
E longe, sempre longe,
Só há bruma, céu e mar …

A brisa passa cantando,
O vento corre a chorar …
Escondem-se além estrelas
Nesta noite sem luar …
……………………………………….

…. E o mar cola-se ao céu,
Nesses horizontes distantes,
Longínquos, cinzentos e tristes …


José Maria Lopes de Araújo

12 de fevereiro de 2010

Contrariedades.......de Cesário Verde




















Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.


Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.


Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.


Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.


A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.


Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.


Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.


Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.


Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.


A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...



E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!


Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?


Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...


E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!


Cesário Verde

11 de fevereiro de 2010

Teu Coração, Meu Destino..................Marcolino Machado



















Nasci do sopro de um vento no pedestal
Das coxilhas verdejantes, esculpido.
Puro e inocente, disse o poeta na pia batismal,
Que ao mundo vim, de um destino, seguido.


Só com o céu, estrelas, mar e floresta,
Flores tanto plantei.
E rosas te dei,
Os filhos em botão de jasmim.
Se foram e deixaram a mim.

De ti meu caminho se perdeu,
Minhas mãos com cheiro de terra e chão.
E sem nada, do que Deus me deu,
Quero o infinito horizonte, sempre em vão.


... No eterno bater de teu coração.



Marcolino Machado

9 de fevereiro de 2010

Rapariga Seduzida....poema de HEDYLOS (Grécia )















Embalou-me - eu era tão inocente -
Com vinho e palavras de amor
e todas as juras. Ao acordar
qual não foi a minha surpresa


A seda que cobria os meus seios e o ventre
desapareceram e com ela a minha pureza


Deusa lembra-te que estávamos sós
e ele era forte - e eu tão indefesa.




Hedylos

7 de fevereiro de 2010

Universo....de Marcolino Machado



O UNIVERSO ...


Invocamos sentimentos e encontros de alma.

Procuramos como um andarilho da luz, andando sem nunca parar.

 

O que buscamos?

Queremos nos aproximar, fazer a terra chegar perto de nós?! Não! Isso não nos é permitido.
 A natureza tem sua mão e sabe seu desiderato.

Resta-nos o silêncio das longas estradas desertas e sem vozes

Olhando todos os eclipses que acontecem em nossas vidas !


 

Marcolino Machado


Ilha................ Marcolino Machado


ILHA....

E os olhos sempre estendidos no horizonte à procura do tudo.
Mas, nada.

Sempre o mesmo mar e as mesmas ondas.
Seu barulho, um mistério, como vozes de antepassados que querem falar novamente.

E, a ilha somos nós...

O que carregamos na alma.


Marcolino Machado




6 de fevereiro de 2010


E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.

Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.





Miguel Sousa Tavares

4 de fevereiro de 2010

Súplica ...... de Miguel Torga




















Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.



Miguel Torga

3 de fevereiro de 2010

Barriga é Barriga...... ARNALDO JABOUR


Barriga é barriga, peito é peito e tudo mais.

Confesso que tive agradável surpresa ao ver Chico Anísio no programa do Jô, dizendo que o exercício físico é o primeiro passo para a morte. Depois de chamar a atenção para o fato de que raramente se conhece um atleta que tenha chegado aos 80 anos e citar personalidades longevas que nunca fizeram ginástica ou exercício - entre elas o jurista e jornalista Barbosa Lima Sobrinho - mas chegou à idade centenária, o humorista arrematou com um exemplo da fauna: A tartaruga com toda aquela lerdeza, vive 300 anos. Você conhece algum coelho que tenha vivido 15 anos?

Gostaria de contribuir com outro exemplo, o de Dorival Caymmi. O letrista compositor e intérprete baiano eram conhecidos como pai da preguiça. Passava 4/5 do dia deitado numa rede, bebendo, fumando e mastigando. Autêntico marcha - lenta, levava 10 segundos para percorrer um espaço de três metros. Pois mesmo assim e sem jamais ter feito exercício físico viveu 90 anos.

Conclusão: Esteira, caminhada, aeróbica, musculação, academia? Sai dessa enquanto você ainda tem saúde.... E viva o sedentarismo ocioso! Não fique chateado se você passar a vida inteira gordo. Você terá toda a eternidade para ser só osso!


Então: NÃO FAÇA MAIS DIETA! Afinal, a baleia bebe só água, só come peixe, faz natação o dia inteiro, e é GORDA! O elefante só come verduras e é GORDOOOOOOOOO!

VIVA A BATATA FRITA E O CHOPP! Você, menina bonita, tem pneus? Lógico, todo avião tem!

E nunca se esqueçam: “Se caminhar fosse saudável, o carteiro seria imortal”.

ARNALDO JABOUR

27 de janeiro de 2010

SONETO LXXXVIII....de ...William Shakespeare





















SONETO LXXXVIII




Quando me tratas mal e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.


Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.


Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,


Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.






William Shakespeare

22 de janeiro de 2010

" O Beijo Mata o Desejo " ....de António Aleixo



















MOTE
«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»




GLOSAS

Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.


Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.


E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.


Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!


António Aleixo

14 de janeiro de 2010

AMOR SÁDICO .... poema de JULIO HERRERA Y REISSIG





















Já não te amava, sem que meu desejo
fugisse á sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e contudo o beijo
de uma repulsa nos uniu um instante...


Acre prazer tornou-me seu possesso,
crispou-me a face, mudou meu semblante.
Já não te amava e turbei-me, não obstante,
qual uma virgem entre um bosque espesso.


E já perdida para sempre, ao ver-te
amanhecer sob o eterno luto,
- mudo o amor, o coração inerte -,


atroz, esquivo, rigoroso, hirsuto...
Jamais vivi como naquela morte,
jamais te amei como num tal minuto !


Trad: José Bento







11 de janeiro de 2010

OPÇÕES.... poema de ....Vitor Cintra

Parabéns poeta e amigo, VITOR CINTRA, hoje em aniversário.





Por respeito dos meus filhos
É muito mais importante
Que a postura triunfante
De quem vence a qualquer preço.

Cruzar a vida sem guilhos
Que me firam a memória,
É já, por si, 'ma vitória
Além da qual nada peço.

A memória de quem parte
Permanece na lembrança
De quem recebe, d'herança,
Um nome que foi honrado.

Mas a honra não é arte,
É, tão só, dom do destino,
Que se aceita por divino,
Ou rejeita por pesado.


Vitor Cintra


8 de janeiro de 2010

O SOL E A LUA............. de Sílvana Duboc


















Quando o SOL e a LUA se encontraram pela primeira vez, se apaixonaram perdidamente
e a partir daí começaram a viver um grande amor.


Acontece que o mundo ainda não existia e no dia que Deus resolveu criá-lo, deu-lhes então o toque final... o brilho !

Ficou decidido também que o SOL iluminaria o dia e que a LUA iluminaria a noite, sendo assim,
seriam obrigados a viverem separados.

Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam.

A LUA foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado,
ela foi se tornando solitária.

O SOL por sua vez havia ganhado um título de nobreza "ASTRO REI", mas isso também não o fez feliz.

Deus então chamou-os e explicou-lhes:
Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio.

Você LUA, iluminará as noites frias e quentes, encantará os enamorados e será diversas vezes motivo de poesias.

Quanto a você SOL, sustentará esse título porque será o mais importante dos astros,
iluminará a terra durante o dia, fornecerá calor para o ser humano e a sua simples presença fará as pessoas mais felizes.

A LUA entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio, já o SOL ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-se abater pois teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus.

No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a ELE:
Senhor, ajude a LUA por favor, ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão,

E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela.

A LUA sempre que está muito triste recorre as estrelas que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem.

Hoje eles vivem assim... separados, o SOL finge que é feliz, a LUA não consegue esconder que é triste.

O SOL ainda esquenta de paixão pela LUA e ela ainda vive na escuridão da saudade.

Dizem que a ordem de Deus era que a LUA deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso, porque ela é mulher, e uma mulher tem fases.
Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz é minguante e quando minguante, nem sequer
é possível ver o seu brilho.

LUA e SOL seguem seu destino, ele solitário mas forte, ela acompanhada das estrelas, mas fraca.
Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível.

Vez por outra alguns deles vão até ela e voltam sempre sozinhos, nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até a terra, nenhum deles realmente conseguiu conquistá-la, por mais que achem que sim.
Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível, nem mesmo o da LUA e o do SOL, e foi aí então que ele criou o eclipse.

Hoje SOL e LUA vivem da espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer.

Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o SOL encobriu a LUA é porque ele deitou-se sobre ela e começaram a se amar e é ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse. Importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande que aconselha-se não olhar para o céu nesse momento, seus olhos podem cegar de ver tanto amor.

Bem, mas na terra também existe sol e lua, e portanto existe eclipse, mas essa era a única parte da história que você já sabia, não era?



Autora : Silvana Duboc