30 de maio de 2011

A Nossa Casa...poema de José Maria Lopes de Araújo



















Há-de ser pequenina a nossa casa,
Tão pequenina que não entre a dor …
Nela haverá somente o nosso amor ,
Tão amplo como o voo duma asas ! …
E no lar há-de haver sempre uma brasa,
Para aquecer os pobres do Senhor,
Que hão-de sentir carinho, amparo, amor,
Na santa pequenez da nossa casa ! …

Só tu e eu … eu e tu … e mais ninguém …
E teremos a ventura de quem tem
Na vida o bem maior que pode haver ! …
Mas, esse bem será maior ainda,
Quando esperarmos, numa ânsia infinda,
O filho que depois há-de nascer ! …

José Maria Lopes de Araújo

22 de maio de 2011

Poema Sobre a Vida .... Charles Chaplin
















A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?


Charles Chaplin

9 de maio de 2011

O Que Há .... poema de Álvaro de Campos




















O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem se quer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo.
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente – :
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvidas quem ame o infinito,
Há sem dúvidas quem deseje o impossível,
Há sem dúvidas quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos
(09-10-1934)

2 de maio de 2011

Nega-me Tua Alma...poema de Fernando Campanella



















Nega-me tua alma –
Esta minha alma mesma
Que me furtas -
E é o degredo irremediável
que, em troca, me concedes.
Nega – me tua chama
Que tremula no delírio dos deuses,
Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos,
Nega-me, nega-me tua espuma
Que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)
E é sem minhas fontes que me deixas,
Sem meu ar extasiado.
Nega-me teu mar, tua tempestade,
O sonho e a fantasia,
E me deixas a seco ,ao sal amargo
De cada dia.
Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo
Que a felicidade, embora utopia das sombras,
É também certa luz incidente
Que só de teu olhar
meus olhos como bênção recebem.


Fernando Campanella

29 de abril de 2011

Geração à Rasca Foi a Minha...... (Desconheço o Autor)



Geração à rasca foi a minha. Foi uma geração que viveu num país vazio de gente por causa da emigração e da guerra colonial, onde era proibido ser diferente ou pensar que todos deveriam ter acesso à saúde, ao ensino e à segurança social.

Uma Geração de opiniões censuradas a lápis azul. De mulheres com poucos direitos, mas de homens cheios deles. De grávidas sem assistência e de crianças analfabetas. A mortalidade infantil era de 44,9%. Hoje é de 3,6%.

Que viveu numa terra em que o casamento era para toda a vida, o divórcio proibido, as uniões de facto eram pecado e filhos sem casar uma desonra.
Hoje, o conceito de família mudou. Há casados, recasados, em união de facto, casais homossexuais, monoparentais, sem filhos por opção, mães solteiras porque sim, pais biológicos, etc.

A mulher era, perante a lei, inferior. A sociedade subjugava-a ao marido, o chefe de família, que tinha o direito de não autorizar a sua saída do país e que podia, sem permissão, ler-lhe a correspondência.

Os televisores daquele tempo eram a preto e branco, uns autênticos caixotes, em que se colocava um filtro colorido, no sentido de obter melhores imagens, mas apenas se conseguia transformar os locutores em "Zombies" desfocados.
Hoje, existem plasmas, LCD ou Tv com LEDs, que custam uma pipa de massa.
Na rádio ouviam-se apenas 3 estações,  a oficial Emissora Nacional, a católica Rádio Renascença e o inovador Rádio Clube Português. Não tínhamos os Gato Fedorento, só ouvíamos Os Parodiantes de Lisboa, os humoristas da época.
Havia serões para trabalhadores todos os sábados, na Emissora Nacional, agora há o Toni Carreira e o filho que enchem pavilhões quase todos os meses. A Lady Gaga vem cantar a Portugal e o Pavilhão Atlântico fica a abarrotar. Os U2, deram um concerto em Coimbra em 2010, e UM ANO antes os bilhetes esgotaram.

As Docas eram para estivadores, e o Cais do Sodré para marujos. Hoje são para o JET 7, que consome diariamente grandes quantidades de bebidas, e não só...
O Bairro Alto, era para a malta ir às meninas, e para os boémios. Éramos a geração das tascas, do vinho tinto, das casas do fado e das boites de fama duvidosa. Discotecas eram lojas que vendiam discos, como a Valentim de Carvalho, a Vadeca ou a Sasseti.

As Redes Sociais chamavam-se Aerogramas, cartas que na nossa juventude enviávamos lá da guerra aos pais, noivas, namoradas, madrinhas de guerra, ou amigos que estavam por cá.
Agora vivem na Internet, da socialização do Facebook, de SMS e E-Mails cheios de "k" e vazios de conteúdo.

As viagens Low-Cost na nossa Geração eram feitas em Fiat 600, ou então nas viagens para as antigas colónias para combater o "inimigo".

Quem não se lembra dos celebres Niassa, do Timor, do Quanza, do Índia entre outros, tenebrosos navios em que, quando embarcávamos, só tínhamos uma certeza... ...a viagem de ida.

 
Quer a viagem fosse para Angola, Moçambique ou Guiné, esses eram os nossos cruzeiros.
Ginásios? Só nas coletividades. Os SPAS chamavam-se Termas e só serviam doentes.
Coca-Cola e Pepsi, eram proibidas, o "Botas", como era conhecido o Salazar, não nos deixava beber esses líquidos. Bebíamos, laranjada, gasosa e pirolito.

Recordo que na minha geração o País, tal como as fotografias, era a preto e branco.
A minha geração sim, viveu à rasca. Quantas vezes o meu almoço era uma peça de fruta (quando havia), e a sopa que davam na escola. E, ao jantar, uma lata de conserva com umas batatas cozidas, dava para 5 pessoas.
Na escola, quando terminei o 7ºano do Liceu, recebi um beijo dos meus pais, o que me agradou imenso, pois não tinham mais nada para me dar. Hoje vão comemorar os fins dos cursos, para fora do país, em grupos organizados, para comemorar, tudo pago pelos paizinhos..
Têm brutos carros, Ipad’s, Iphones,PC’s, …. E tudo em quantidade. Pago pela geração que hoje tem a culpa de tudo!!!
Tiram cursos só para ter diploma. Só querem trabalhar começando por cima.
Afinal qual é a geração à rasca?

  

Desconheço o autor


16 de abril de 2011

Se as minhas mãos pudessem desfolhar....Garcia Lorca


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então alguma vez? 

Que culpa tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!



Garcia Lorca

5 de abril de 2011

poema de Luiz Alfredo
















Naquele tempo
eu acreditava no amor
Deus era a própria natureza
o colibri a flor
tinha namorada
e lhe mandava uma margarida
e um poema de pura paixão
comia chocolates de amêndoas
nas tardes quentes de P.V
assistia o balé das andorinhas
tomando tacacá com murupi
caminhava feliz
mesmo com toda a ditadura
tinha cabelos compridos
desenhava cogumelos coloridos
com lápis de cera
e borboletas com hidrocores
depois as libertava na minha
imaginação

fumava meu cigarro industrial livremente
comia meu cachorro-quente alienado
com refrigerante artificial açucarado
andava pela estrada de ferro madeira-mamoré
curtia o pôr do sol no madeira
dançava com os botos encantados
encarnados pela água amarela


hoje não tenho mais namorada
apenas um mal me quer despetalado
afogado espetado no vaso
decaído pro lado da sombra
as andorinhas e os botos foram extintos
o Deus natureza foi morto na universidade
a democracia restringiu quase tudo
a madeira-mamoré e o pôr do sol no cai n’ água
foram apagados pelas hidrelétricas
e o amor se tornou um conceito inútil.


Luiz Alfredo.

27 de março de 2011

Ausência....poema de José Carlos Moutinho















Ouço a minha voz no silencio do meu desejo,
Que clama, ansiosa tua presença...
Quero sentir a doçura de teu beijo,
Não suporto mais tua ausência.


Simbiose de sonhos e ilusões,
Turbilhão de sentimentos...
Momentos de muitas emoções,
Neste mundo louco de sofrimentos.


Estranhos caminhos se cruzam,
por vielas enviesadas de tristeza...
Quiçá, com o tempo se reduzam,
A felicidade virá, tenho a certeza.


Ideias e consciências trocadas,
Mistério insondável,humano...
Situações complexas, baralhadas
inexoráveis neste mundo profano.


Ah coração louco, inquieto,
Trazes minha alma em desassossego...
Tão somente quero afecto,
alguém que me abrace, sem medo.




JOSÉ CARLOS MOUTINHO

20 de março de 2011

Estigma...Ary dos Santos














Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.




Ary dos Santos

11 de março de 2011

Timidez....poema de Maria Alberta Menére
















O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.

Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:
Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo sem medo.

Maria Alberta Menére

6 de março de 2011

Nesse Gesto de Carinho..... poema de Vitor Cintra
















Nesse gesto de carinho,
que irradia
um perfume a rosmaninho,
que inebria,
há um corpo de mulher,
que me abraça,
e um desejo que, ao crescer,
me embaraça.

Há um rosto que eu afago, com ternura,
e uns labios que me beijam, com doçura.

E no fogo que, entre os corpos, se acendeu,
há um mundo de mistérios, todo meu.

VITOR CINTRA

17 de fevereiro de 2011

Pode Ser...Amizade...... de Albert Einstein


Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.


Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.


Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.


Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.

Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

15 de fevereiro de 2011

Segredo...poema de Miguel Torga





















Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar

Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga

9 de fevereiro de 2011

Letra de Um Hino,,,poema de Manuel Alegre

 















É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

Manuel Alegre

31 de janeiro de 2011

Hei-de ..... Maria José Fraqueza



















Hei-de... ser muito forte como o vento
Hei-de... ser muito forte como o mar!
Hei-de... extrair o mal do pensamento
Hei-de... ter novas forças para Lutar!

Hei-de... suportar este meu lamento
Hei-de... ter só sorrisos para te dar
Hei-de... tornar mais belo o sentimento
Hei-de... ter coração para te amar!

Hei-de... manter no peito esta grandeza
Hei-de... deter a mágoa, a agonia...
Hei-de... dar-te o meu mundo de pureza
Hei-de... compor para ti minha poesia!

Hei-de...chegar talvez à eternidade?
Hei-de... ter sempre o meu dom divinal
Hei-de... ser um Luzeiro da Verdade
Hei-de... combater fortemente o Mal!

Hei-de... ser o farrapo que tu pisas?
Hei-de... ter maior força de vontade
Hei-de... dar-te o conforto que precisas
Hei-de... ser teu brasão de liberdade!

Hei-de... ser real musa de florais
Hei-de... desabrochar tal como a flor
Hei-de... beber em fontes naturais
Hei-de sorver o aroma deste amor!

Hei-de ... ser teu refúgio na dor
Hei-de... ser sempre a tua companhia
Hei-de... cantar bem alto em teu louvor
Hei-de... somente amar-te POESIA!

MARIA JOSÉ FRAQUEZA

20 de janeiro de 2011

Súplica.....poema de Miguel Torga















Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
 
MIGUEL TORGA

13 de janeiro de 2011

Outra Margem...Maria Rosa Colaço




















E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

Maria Rosa Colaço
(poema musicado pelos Trovante no álbum «Baile no Bosque», 1981)

4 de janeiro de 2011

À Descoberta do Amor ... de Mahatma Gandhi



















Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive á sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.


Mahatma Gandhi

25 de dezembro de 2010

Talvez seja o Nada
















Sinto-me a acordar do sonho, do levitar sobre a realidade.
Acordar para ver, que a vida é feita em tons de cinzento e sentir que a solidão é a constante companheira.
Que a vida passa, no dia a dia vazio, apenas repleto de nada ou de muita incerteza
Não não existe calor humano, presença, carinho, palavras, afectos, gestos.
A angústia, tristeza, solidão, o aperto na garganta, a dor no peito, transformaram-se em problemas crónicos.
Tudo é vago, tudo é incerto.
Não se conjuga no presente, o querer, desejar, ansear, sonhar, amar.
A incerteza é uma certeza, aliada do talvez.
Talvez vá...talvez fique....talvez possa... talvez venha, e no fundo o talvez é a certeza do nada.
Apenas assisto ao passar da vida como se fosse um sonho, um filme ou uma miragem.
Não me vejo, sou apenas sombra de mim mesma, o segundo plano, a terceira hipótese, a quarta opção, e na quinta, não existo e o que sinto, não conta para nada.
Sinto que a ingenuidade, a crença o sentimento, o sonho, a entrega e o pensamento, são apenas defeitos.
Os momentos difícieis passo-os acompanhada comigo mesma, e as palavras de conforto, não as escuto no silêncio.
Sinto a degradação do sentimento, dentro de mim.
Sinto que não vivo, apenas sobrevivo, sem sonhos, esperanças objectivos.
O futuro não existe.

 Sou o nada !

Imscv

19.03.2010

5 de dezembro de 2010

Os Ombros Suportam o Mundo .... de Carlos Drumond de Andrade




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drumond de Andrade

3 de dezembro de 2010

O tempo do amor

Quem não procura viver um amor...
Um grande amor?

Busca-se, encontra-se ou conquista-se.

O tempo transmuta o sentimento,

Antes :  amor-paixão, amor-desejo, amor-loucura, amor-plenitude.

Depois: amor-comodismo, amor-sociedade, amor-amizade


Amor Ultra_Passado!

Quando o amor vem, já chega com tempo determinado.


Imsc

26 de novembro de 2010

Não Sei Se Eras Tu....poema de Fernando Cardoso











Não sei se eras tu…
Naquele dia, naquela hora

E naquele sítio

Onde nos encontrávamos outrora.

Mas aquele ser,

Esbelto e esguio,

Olhou-me e sorriu

Com tal emoção

Como se me conhecesse

De outra encarnação.


Não sei se eras tu…

Aquele ser de luz

Que não falou

E se evolou

Entre a multidão,

Lesta e sem fim,

E que teima habitar

Dentro de mim…

FERNANDO CARDOSO

18 de novembro de 2010

Amo-te Muito, Muito! poema de "JOÃO DE DEUS "

















Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De cor-de-rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idem, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro;

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

João de Deus


12 de novembro de 2010

O Dinheiro ... poema de JOÃO DE DEUS


















O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,

Tlim!

Papo.


E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:

Tlim!

Pronta.


Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...


Tlim!


Ora...


Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!

(Tlim!)

Pois não!




João de Deus









1 de novembro de 2010

AMÉRICO SILVA " Amar Como Eu Sei "

Republico este poema por ser sempre actual




AMAR  Como eu sei...

Amar não se inventa, não nasce, não morre,
Faz parte do sangue que corre apressado,
É o fogo suave, que aquece a vida
É o luar de Agosto, é a chuva de Outono.

É a flor que desponta, é a folha que cai,
É um brilho nos olhos, um sorriso nos lábios
É o beijo que deslumbra, é o medo que angustía
É uma chegada desejada, uma partida desolada.

É um caminhar lado a lado, num vulcão adormecido,
É um beijo inesperado, numa viagem sem destino,
É uma paragem inesperada, entre hortênsias e hortelã
É uma caricia fugidia, numa estrada molhada.

É um caminhar à tôa, na noite acolhedora,
À procura do nada, no silêncio da alma,
No escuro protector duma montanha distante.
É a ousadia de sentir, o prazer de encontrar.

É o primeiro olhar, sorriso,  abraço, beijo....
O primeiro pulsar inquieto, a primeira angustia
A primeira dúvida, a primeira incerteza,
Sentir que o vento não se agarra, que a vida não se pára.

É um encontro com um tesouro que não sabemos guardar
É o brilho da luz dum cigarro, numa varanda escura,
Numa noite de vento, de medo..., de Setembro.
Um beijo apressado, num parque iluminado, num adeus repentino.

Amar é um fogo adormecido, escondido nas cinzas,
Que a brisa leve do destino, às vezes põe a descoberto,
Que o vendaval da paixão, ás vezes arrasa sem pensar,
Para se erguer de novo, e acender mais uma vez.

Amar é isso...um fogo adormecido,que sempre se reacende.
Uma chama apagada que se torna uma luz,
Que apaga e se acende ...
Que morre e ressuscita...
Para reviver eternamente na alma de quem sente.


Em Setembro 2003...Outubro 2010, amar será sempre assim.

Américo Silva

18 Set 04

21 de outubro de 2010

" Poema da Vida " de José Maria Lopes de Araújo





















Perguntas-me o que é a vida!
A Vida, meu amor,
É Amor
E ódio e talvez Morte …
E é semente de Bem que germina Ventura …
Vida é isto … E mais do que isto:
É Cristo
Na imagem do nosso semelhante;
É Amor … É Bem! …


O mar, no seu bramir
Constante,
Grita
Vida, vida que vem
Das suas entranhas,
No pão do marinheiro,
No pão do pescador.


Vida é o adeus
Na hora da partida …
É a angústia
De não poder
Estender
A mão,
Quando outras mãos,
Em gesto aflito
Suplicam ajuda …


Vida
É fome em tugúrios …
É esplendor
Em palácios …
Vida
É o grito sufocado
Que o ódio atiça …
O grito atormentado
Dos que clamam, em vão,
Piedade, amor e justiça! …


Vida,
Meu Amor,
É todo este Mundo
De podridão e de beleza,
Onde se confundem,
Em abismo profundo,
O Ódio e o Amor,
A Paz e a Dor,
A Alegria e a Tristeza! …


Vida é o sorriso enganador,
A soberba revoltante,
A mentira da verdade
Que se jura a cada instante …


Vida
É o negrume do cárcere
Onde se mirram,
Impiedosamente,
Os mais são ideais,
Quando se extingue
A luz da Justiça, do Bem


E da Verdade! …


É a dor daqueles pais
Que choram a perda dos filhos
Que, um dia, abalaram
E nunca mais,
Nunca Mais voltaram …


Vida
É a infância abandonada …
É o “ fruto do amor sem casamento “ …
É o grito sem eco …
É esse Nada
Que é Tudo, um Tudo
Todo feito de prazer e de tormento!


Para quê, pois viver,
Fugindo ao sofrimento
E entregue às vãs delícias da ventura,
Se a vida,
Oh! Meu amor,
É isto,
Este confuso misto
De dor e de prazer,
De gozo
E de amargura ! …


Vida é o rubro da forja …
É o canto do malho,
No ferro retorcido …
É o gemido
Do arado com que a corja
Vai rasgando a terra,
Embriagada de suor!

A corja que nos doa, generosamente,
A mais bela lição de Amor e de Verdade!
De Sol a Sol curvada, com sacrifício e humildade …
E sacrifício é sangue
A redimir a própria Humanidade!
Vida é isto …
Esta amálgama constante de sentimentos …
E sei lá que mais …
Perguntas-me o que é a ávida!
Que mais te posso dizer?
… É a chama misteriosa,
Clarão que, em breve, se apaga;
Chama que ilumina e arde …
E, se a tentamos reacender,
É tarde … Sempre tarde! …

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

11 de outubro de 2010

Palavras e Silêncios ....de Fernando Pessoa
















É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo
 
Fernando Pessoa

30 de setembro de 2010

Um Dia....Mário Quintana




















...Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer ...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana

21 de setembro de 2010

O Sexo Comanda a Vida....de Pedro Barroso


Os jogos começam cedo
no descobrir colectivo
no gesto subentendido
no procurar sem saber



Tanta falta, tão escondida
tanta mentira mentida
tanta busca de aprender
e a vontade a mandar,
e os adultos a não querer



e as coisas a acontecer...



Depois, vem o corpo e manda;



vem a sorte e o acaso
mais a vida convivida
que nos ensina sabores
preferências e valores
coisas que vão dar azo
a uma culpa indefinida...



Paixões, ímpetos, calores,
amores breves no recreio
aventuras sem ter freio



- E o sexo comanda a vida



E desculpa-me Gedeão
homem maior, professor,



há momentos em que creio
que mais que o sonho e o valor
mais que o talento ou a dor
mais que a vida acontecida
mais mesmo que o próprio amor
mérito, glória ou louvor.



Tem dias, secretos dias
tem horas, secretas horas
momentos acres, desejos.



Em que nos vem um ardor
uma razão cá de dentro
mais forte que o pensamento



Soprando mais do que o vento
na montanha mais subida.



Nesses momentos sabemos,
neste modo em que vivemos,



que o sexo comanda a vida...



Não que não sonhe a justiça
sonho perfeito de mim;



Não que não busque valores
exegeses superiores.



Mas olhando à minha volta
o desejo que anda à solta
mais a raiva fratricida
não posso deixar de ver.



Na cupidez, nos negócios
nas promoções,
no valor
que faz subir e descer
esta bolsa do viver.

Nem certeza, nem verdade
nem riqueza garantida



Ai amigos! Ai cidade!



- O sexo comanda a vida.



Essa menina bonita
que rebenta de esplendor,



no rolar lento das ancas
no lamber sábio da boca
vai ter muito mais valor.



Que o valor que nada vale
dessa outra,
assustada,
sabedora das matérias
competente e aplicada



Mas borbulhenta, feiosa,
sem graça, quase fanhosa
vinte valores no trabalho
mas negativa no jeito
sem lábios,
quase sem peito...



- Que lugar vai ter?
Que saída?



- Cientista, tradutora?



- Excelente investigadora?



Ai, desculpa-me, Gedeão
que injustiça tão sofrida
não há respeito sequer
é difícil ser mulher!



- Mas o sexo comanda a vida.



Mas cara amiga,
te digo



Se o jovem executivo
que te é apresentado
alto, composto, perfeito
elegante, bem vestido
encadernado a preceito



Apertar a tua mão
de um jeito mais que estudado
e te sorrir num bailado
e te falar no ouvido.



É mais que certo e sabido
perante um cantor de fado
não há norma na medida
nem recato nem respeito
nem olhar bem comportado



- Tu sentes calor no peito!...

- O sexo comanda a vida...

E se pensam que a razão
a busca da tal subida
é a riqueza,
o dinheiro
ter carros, poder, fortuna
e a vida favorecida...



A mim, dá-me a sensação
que o sucesso financeiro
é só uma contribuição.



- Apenas mais um caminho
para servir na corrida
acessória à sedução.



Pois desculpa-me Gedeão
mais que o sonho a que presida,
por desgoverno, paixão
loucura fútil, pressão,
por estupidez animal...



Ditadura visual
ou pecado venial
da tal utopia querida
nada sobrou,
nem moral.

- O sexo comanda a vida!





PEDRO BARROSO

16 de setembro de 2010

A Lágrima....Guerra Junqueiro

















Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.


Sôbre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,


A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.


Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrêla.


Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.


- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.


"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.


"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"


E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.



***


Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.


E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!


"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.


***


Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.


Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.


E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,


Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!


"Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,


"E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.


***


Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:


"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.


"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.


"Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...

"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...


"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...


***


E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,
Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...


GUERRA JUNQUEIRO
25 de Março de 1888.