3 de junho de 2012
Não Direi...poema de José Saramago
Não direi :
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago
6 de maio de 2012
Poema " MÃE " do Poeta José Maria Lopes de Araújo


M Ã E
Minha mãe, minha mãe, quanta saudade
Me ronda, nesta hora de tristeza,
Na gelidez da minha soledade,
Tão cheia de amargura e de incerteza!
Há tantos anos já que tu partiste …
Hoje, é um velho o teu bebé de outrora.
Já nada é do que deixaste e viste
Pois sempre que te lembra, sofre e chora.
Hoje, que o tempo marca aquele dia
Que só lembrá-lo ainda me angustia
Me fere e me atormenta de cansaço,
Ai, minha mãe talvez em breve, esteja
Junto de ti, e queira Deus que seja
Para adormecer de novo no teu regaço ! …
José Maria Lopes de Araújo
do livro " Horas Contadas "
4 de maio de 2012
Felicidade...poema de Fernando Pessoa
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
| Fernando Pessoa |
28 de abril de 2012
A Simplicidade de Existir...Herman Hesse
Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo (...).
O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
Herman Hesse
25 de abril de 2012
Examina a Tua Consciência...... Isabel Cabral
Por vezes, somos tão indiferentes ao sofrimento alheio. Fingimos que não vemos, que não é nada connosco. Acontece que por vezes, a dor
também nos bate à porta, essa mesma dor, igual àquela que optámos por disfarçar
não ter visto, mesmo ali ao lado, no nosso amigo, nosso irmão, nosso conhecido.
Nessa altura, o que
esperamos receber?
É dando que se recebe.
HUMANIDADE, deve existir em cada um de nós, seres racionais,
diferente dos animais, mas quantas vezes bem piores.
Quando eu pedir, numa palavra, num gesto ou olhar, que me
apoies, espero que entendas, porque esse gesto, palavra ou olhar, pode ser o
espelho onde verás o teu próprio reflexo, qualquer dia.
Quem não tem para dar, uma palavra, um sorriso ou afecto, é
tão ou mais pobre do que um mendigo.
O teu umbigo não é certamente, o centro do universo.
Examina a tua consciência.
Isabel Cabral
23 de abril de 2012
Há Coisas Bonitas na Vida .... Letícia Thompson
Há coisas bonitas na vida.
Bonitas são as coisas vindas do interior, as palavras simples, sinceras e significativas.
Bonito é o sorriso que vem de dentro, o brilho dos olhos...
Bonito é o dia de sol depois da noite chuvosa ou as noites enluaradas de verão em que todos saem de casa.
Bonito é procurar estrelas no céu e dar de presente ao amigo, amiga, namorado...
Bonito é achar a poesia do vento, das flores e das crianças.
Bonito é chorar quando se sentir vontade e deixar que as lágrimas rolem sem vergonha ou medo de crítica.
Bonito é gostar da vida e viver do sonho.
Bonito é ser realista sem ser cruel, é acreditar na beleza de todas as coisas.
Bonito é a gente continuar sendo gente em quaisquer situacões.
Bonito é você ser você.
Bonitas são as coisas vindas do interior, as palavras simples, sinceras e significativas.
Bonito é o sorriso que vem de dentro, o brilho dos olhos...
Bonito é o dia de sol depois da noite chuvosa ou as noites enluaradas de verão em que todos saem de casa.
Bonito é procurar estrelas no céu e dar de presente ao amigo, amiga, namorado...
Bonito é achar a poesia do vento, das flores e das crianças.
Bonito é chorar quando se sentir vontade e deixar que as lágrimas rolem sem vergonha ou medo de crítica.
Bonito é gostar da vida e viver do sonho.
Bonito é ser realista sem ser cruel, é acreditar na beleza de todas as coisas.
Bonito é a gente continuar sendo gente em quaisquer situacões.
Bonito é você ser você.
Letícia Thompson
20 de abril de 2012
Amor Incondicional de Silvana Duboc
Tantos tipos de amor tenho visto por aí.
Amores fracos, desnutridos de coragem; amores fortes, que atravessam
muitas barreiras, mas que em certo momento tropeçam numa
pequena pedra, caem e não conseguem mais se levantar.
De tantos e todos os tipos de amor que conheci, houve um
que jamais esquecerei: o amor incondicional, aquele que
existe apesar de, e que atravessa qualquer tipo de
tempestade, tropeça em muitos obstáculos e mesmo assim
não deixa de existir; não altera a sua rota, não diminui
a sua dimensão, não perde o seu peso, não permite que o
seu brilho seja ofuscado.
Só ama incondicionalmente quem é possuidor de uma alma
grande, e esse tipo de alma normalmente é acompanhada de
um espírito de luz.
Amar assim é não viver subjugado a "mas..." e
"poréns...", é não ter critérios para doar esse amor, é
não exigir troca e abrir mão de reciprocidade.
Quando se ama incondicionalmente tem um espaço dentro do
cérebro que fica reservado em definitivo para que nas
vinte e quatro horas do dia o pensamento não se afaste
do objeto desse amor. Já no coração, não existe um
espaço designado para guardá-lo, porque ele é todo esse
amor, vivenciado e sentido enquanto ele bater.
Amor incondicional não tem orgulho de nenhuma espécie.
Não se envaidece de sua capacidade, nem de sua força,
não tem necessidade de alardear a sua existência, nem
demonstrar o seu imenso universo, ele é simplesmente um
amor humilde, puro e despretensioso e justo por isso se
torna grandioso.
Corações que vivem esse tipo de amor, são generosos,
eternos, mesmo depois que param de bater, são sublimes e
por isso conseguem guardar dentro deles tanta ternura.
Amor incondicional não faz de conta que é, não se obriga
a desistir de si mesmo, não precisa viver de fantasias,
nem andar travestido de ilusões para prosseguir o seu
caminho. Esse amor do qual estou falando é por si só
inteiro, não agoniza e muitas vezes inexiste aos olhos
dos outros, mas quem ama incondicionalmente, sabe a
receita exata de como vivê-lo sem dores.
Felizes daqueles que despertam essa maneira de amar em
alguém, esses sim, têm motivos de sobra para se orgulhar
por terem conseguido atingir de forma tão especial um
coração carregado do mais puro dos sentimentos.
Amor se torna incondicional quando ele já se acomodou
dentro do peito, já se conformou com a estrada que terá
que percorrer e já não há mais possibilidade de derrapar
em nenhuma curva desse caminho, nem ser atropelado por
qualquer dúvida. É quando também, o que ficou para trás
já não importa e o que está por vir não vai mudar nada.
O amor incondicional é aquele que doa o melhor de si,
mesmo que esteja recebendo o pior de alguém, porque ele
não depende de ser querido, nem de ser aceito e não
esmorece se for ignorado.
Esse amor é daqueles amores que no passado já sangraram
muito, latejaram, abriram enormes feridas, mas que ainda
assim não deixaram marcas nem cicatrizes, porque a
partir daí, resplandeceram e passaram a viver em eterno
estado de graça até o instante que se eternizaram.
Há quem diga que o amor incondicional é masoquista, isso
não é verdade, esse tipo de amor é o inútil. O amor
inútil sim, alimenta-se de sofrimento, resiste a tudo
com esperanças de alcançar o seu objetivo, que já ficou
bem claro, não será conquistado. O amor inútil é aquele
que já foi embora mas saiu tão mansamente que nem deixou
que percebessem sua partida, ao contrário do
incondicional, que se instalou dentro de alguém e não
pretende procurar a saída.
O amor incondicional não corre atrás de sonhos
impossíveis, não precisa disso. Ele já é maduro, há
muito deixou de ser adolescente, e envelhecer também não
está nos seus planos, porque o amor que se torna velho,
é um amor cansado, desgastado, exaurido. Já o
incondicional é e sempre será, ativo, independente,
coerente, auto-suficiente, porque se reserva o direito
de ser solitário e ainda assim completo e realizado,
porque reside nele a certeza de sua inocência, pureza e
sinceridade.
Existe um encontro marcado entre o amor incondicional, a
glória e o esplendor em algum canto do mundo, em algum
instante da vida ou em algum momento após a morte, mas
ele não conta os dias para isso, nem sequer consulta o
relógio, embora para ele, o momento desse encontro seja
a grande magia da sua existência.
Amor incondicional é de uma elegância imensurável, de
uma postura invejável e de uma personalidade única.
Felizes daqueles que são merecedores de serem amados
incondicionalmente e mais felizes ainda, aqueles que se
permitem amar assim, porque são eles os grandes heróis
da vida.
Infelizes daqueles que não conseguem perceber quando
despertam esse tipo de amor, que não têm a sensibilidade
de o sentír ao seu redor e valorizá-lo independente do
que podem oferecer a ele.
Amar incondicionalmente é uma arte.
Ser amado assim, um presente divino.
SILVANA DUBOC
15 de abril de 2012
Bons Amigos...Machado de Assis
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
MACHADO DE ASSIS
14 de abril de 2012
O Tempo..... W.
O tempo é muito lento, para os que esperam.Muito rápido, para os que tem medo.Muito longo, para os que lamentam.Muito curto, para os que festejam.Mas para os que amam, o tempo é eterno.W. Shakespeare
9 de abril de 2012
Ah! Se Eu Pudesse
Ah ! Se eu pudesse
Todas as flores de todos os jardins eu colheria para você
E todas as estrelas do céu estariam em suas mãos
Ah! Se eu pudesse
Toda a alegria possível e imaginária eu daria para você
Para você se sentir realmente feliz
Para ver você com o coração em paz
A cantar a esperança, a viver com os olhos brilhando de
felicidade
Ah! Se eu pudesse
Mais uma manhã de sol em sua vida eu iria pôr
Mais um momento de luz e mais um momento de amor.
Ah! Se eu pudesse
Ser a sua vida, ser o sonho dos seus passos
Ser a luz que ilumina seus passos
Ser quem você ama.
Ah! Se eu pudesse
Eu iria ao infinito e do infinito gritar
Gritar que o belo é ter você
É saber que você está junto de mim
Gritar que o importante é sentir você
É olhar em seus olhos
É sentir o amor correr nas veias
Descansar no coração.
Ah! Se eu pudesse
Se eu pudesse ser poeta neste momento
Um verso iria para você escrever
Iria pôr no papel o que no pensamento e no
coração existe por você.
Ah! Se eu pudesse
Andar por onde você anda
Ser aquele que você quer
Ah! Se eu pudesse
Beijaria seus lábios, doce de mel,
seus lábios de mulher
Ah! Se eu pudesse
Se eu pudesse de mãos dadas caminhar com você
Pela rua, pelo parque, pelo campo, pela estrada
Eu seria mais esperança, seria um pouco de mim
Para ser um pouco mais de amor,
para ser um pouco de você
para viver dentro de você
Ah! Se eu pudesse
Até minha vida eu daria para você
Ah! Se eu pudesse
Não queria nunca, nunca lhe perder.
Ah! Se Eu Pudesse...
Desconheço o Autor
2 de abril de 2012
Adeus poema de EUGÉNIO DE ANDRADE
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
EUGÉNIO DE ANDRADE
21 de março de 2012
Crepuscular..... Camilo Pessanha
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.
As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados,
Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
_ Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.
As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
_ É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.
CAMILO PESSANHA
19 de março de 2012
Dia do Pai...
Querido Pai,
Apesar de eu ter crescido e tu partido, continuo no íntimo a ser aquela criança, que guarda o velho relógio despertador, que um dia trouxeste para casa, para que a mãe acordasse de 3 em 3 horas para alimentar a tua menina.
Hoje é o teu dia, mas, ambos sabemos que todos os dias me lembro de ti e, tenho-te presente no meu coração.
Sinto tantas saudades tuas.
Sente um beijo meu.
Imaria
8 de março de 2012
Palavras para a minha Mãe...José Luis Peixoto
Mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão
1 de março de 2012
Ode ao Gato - José Jorge Letria
Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
JOSÉ JORGE LETRIA
16 de fevereiro de 2012
Uma Paixão...Pablo Neruda
Em minha pátria há um monte.
Em minha pátria há um monte.
Corre em minha pátria um rio.
Vem comigo.
A noite sobe ao monte.
A fome desce o rio.
Vem comigo.
Quem são os que padecem?
Não sei, sei que são meus:
Vem comigo.
Não sei, porém me chamam
e me dizem: "Sofremos".
Vem comigo.
E me dizem: "Teu povo,
teu povo deserdado,
entre o monte e o rio,
com fome e com dores,
não quer lutar sozinho,
te está esperando, amigo."
Oh tu, a que amo,
pequena, grão vermelho
de trigo,
a luta será dura,
a vida será dura,
mas tu virás comigo.
PABLO NERUDA
Vem comigo.
A noite sobe ao monte.
A fome desce o rio.
Vem comigo.
Quem são os que padecem?
Não sei, sei que são meus:
Vem comigo.
Não sei, porém me chamam
e me dizem: "Sofremos".
Vem comigo.
E me dizem: "Teu povo,
teu povo deserdado,
entre o monte e o rio,
com fome e com dores,
não quer lutar sozinho,
te está esperando, amigo."
Oh tu, a que amo,
pequena, grão vermelho
de trigo,
a luta será dura,
a vida será dura,
mas tu virás comigo.
PABLO NERUDA
22 de janeiro de 2012
Os Amantes Sem Dinheiro.....de Eugénio de Andrade
EUGÉNIO DE ANDRADETinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
7 de janeiro de 2012
O Sorriso .... Eugénio de Andrade
O sorriso
Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
18 de dezembro de 2011
Poema de Natal... Vinicius de Moraes
Poema de Natal
Vinicius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
4 de dezembro de 2011
Embora os Meus Olhos Sejam...António Aleixo
Embora os meus olhos sejamAntónio Aleixo
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo
Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério
Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
21 de novembro de 2011
Tempos....poema de Pedro du Bois
Avesso ao calendário traço
no espaço o tempo onde me distraio:
sei do amanhecer que me acorda
do meio dia que me alimenta
da tarde propícia à tormenta
da noite em que me desoriento
revisito o tempo na capa
da magia e me refugio
em mim mesmo
mantenho o som do rádio
e me delicio em estáticas: olhos
fechados
imagino a cena na tela
despegada.
Pedro Du Bois
12 de novembro de 2011
31 de outubro de 2011
O Amor é uma Companhia .....Alberto Caeiro
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro
12 de outubro de 2011
O sol nas noites e o luar nos dias...................Natália Correia
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natalia Correia
9 de outubro de 2011
| "Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor. Às vezes, é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar nem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar." A companhia certa é aquela que sabe aquecer-nos a alma antes de sequer tocar-nos no corpo. Autor: Margarida Rebelo Pinto |
3 de outubro de 2011
Ilhas de Bruma.... José Ferreira
"Ainda sinto os pés no terreiro,
Que os meus avós bailavam o pézinho
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos.
Por isso é que sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra
Se no falar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
E no coração a ardência das caldeiras.
Por isso é que sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra
Trago o roxo a saudade esta amargura
E só o vento me ecoa na lonjura
Mas trago o mar imenso no meu peito
E tanto verde a indicar-me a esperança.
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras.
O mar imenso me enche a alma,
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.
Por isso é que sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra"
JOSÉ FERREIRA
1 de outubro de 2011
O AMOR
O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará.
24 de setembro de 2011
A Sofreguidão de Um Instante..... poema de José Jorge Letria
Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
José Jorge Letria
16 de setembro de 2011
Meu Amor...poema de Florbela Espanca
De ti somente um nome sei, amor.
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!
Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce uma paixão assim tão inquietante!
Meu doido coração triste e amante
Como tu buscas o ideal na dor!
Isto era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...
Paixão ardente, louca isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!
Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce uma paixão assim tão inquietante!
Meu doido coração triste e amante
Como tu buscas o ideal na dor!
Isto era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...
Paixão ardente, louca isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!
FLORBELA ESPANCA
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























