9 de Julho de 2009

* ALMA MINHA GENTIL QUE PARTISTE * Luis Vaz de Camões




Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luis Camões

3 de Julho de 2009

Não sei Nada....poema de Ilda Silva Lisboa




NÃO SEI NADA


Não sei se chore se ria, desta vida de amargura;
Rir talvez faça um dia, choro em qualquer altura.

Não sei se escreva se pense, no que será melhor para mim;
Escrever talvez compense, pensar seria sem fim.

Não sei se pare ou caminhe, sobre o traço que me impus;
Se caminhar talvez definhe, parar também não seduz.

Não sei se fale se grite, tudo o que me vai na alma;
Falar talvez agite, gritar talvez traga calma.

Não sei se vença a doença, ou por ela me deixe vencer;
Sinto que me falta crença e tenho pouco a perder.

Não sei se sofra se morra, sinto não haver opção;
Se para o abismo corra, ou me encerre em prisão.

Já não sei se trave a tempo, ou da falésia resvale;
Só saberei no momento em que a brisa do mar me cale.

Nunca soube o que fazer, sempre andei à deriva;
Eu só queria enfim morrer, os outros querem que viva
.


Ilda Silva Lisboa
19/5/2009

1 de Julho de 2009

Que noite serena !.....Àlvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa




Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

29 de Junho de 2009

Entrar em Ti...
de RUI RESSURREIÇÃO



Ao meu amigo e poeta RUI RESSURREIÇÃO que hoje está de parabéns.

Desejando um dia feliz, que se repita pelos restantes 364 dias do ano, deixo um beijo com muita amizade e carinho, e votos de felicidades.


PARABÉNS RUI, publico aqui um dos teus poemas





Por vezes é difícil entender a tua maneira de ser
conhecer o teu interior
a tua dor
o que te move por amor.
Que fazes tu no monte das ilusões
essas sensações de sair fora de ti
para longínquos universos
para outras paragens
em busca de novas miragens
em que te iludes com os conceitos da mente
que te engana
que te chama para um território escorregadio
frio e lamacento
em que nas suas conexões
receberás encontrões
e perderás o rumo da tua vida
afundando-te nos lagos cerebrais
e sentindo falta de todos os teus ais
duma alma desencontrada
com a tua mais alta morada
a do amor.


Rui Ressurreição

26 de Junho de 2009

Cântico VI de Cecília Meireles





Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecília Meireles

24 de Junho de 2009

Temporais..... poema de Ilda Silva Lisboa




Trovoada sim, trovoada não,
Trovejas dentro de mim.
No silêncio dos trovões e na escuridão dos clarões
invade-me um frio nordestino,
rebelião vespertina que esgota o ar dos pulmões.



Tempestade sim, tempestade não,
cintilam as estrelas;
Muitas daquelas que apontei até os dedos cravejar.


São temporais de ida e volta
que o são para não mais voltar.



Ilda Silva Lisboa

21/2/2009

21 de Junho de 2009

Em Silêncio de VERA SOUSA SILVA




Deixa-me amar-te assim... em silêncio...

Não me peças palavras que não sei pronunciar, nem gestos que nunca fiz. Não sei tanto do que queria e quero tanto do que não sei.
Olhas-me e perco o norte. Fico muda e desvio o olhar. Não é por não te amar, mas sim por esse amor ser grande demais. Mas em silêncio...
Seria tão fácil dizer que te amo e perder-te. Seria tão simples dançar ao som da ilusão e entregar-me completa, plácida, serena, e acrescentar apenas as letras que faltam quando não digo “Amo-te”!
Não me peças para ser o que não sou, nem para me transformar subitamente em mulher, porque sou apenas menina.
Queria crescer nos teus braços fortes e esconder-me atrás do teu tronco másculo. Mas abraço-te... em silêncio.
Desejo o suave toque acetinado dos teus lábios nos meus e imagino como será um beijo de verdade. Anseio por ele e sonho-o.. em silêncio.
Aproveito-me do que tenho de melhor e sonho... Nos meus sonhos eu sou tua e tu... Tu, meu amor, pertences-me! Todos os dias nos amamos intensamente e somos apenas um do outro! Todos os segundos das minhas noites são aproveitados ao máximo e vividos energicamente, ardentemente, gloriosamente... Chega a manhã e a realidade!
Não me peças palavras que não sei dizer e deixa-me! Deixa-me amar-te assim... em silêncio...


Vera Sousa Silva

13 de Junho de 2009

Brilho de Sol Tal poema de Ilda Silva Lisboa




BRILHO DE SOL TAL


Oh brisa salgada que vens das profundezas do mar,
Meus lábios te esperam sedentos,
A minha boca permanece amarrada...
Nos meus olhos não há olhar.


Oh como passa gelado o vento da distância,
Passa calado,
Cala um lamento,
Disfarça importância.


Cada vaga ao chegar, trás em si uma mensagem;
Carta que afaga,
Afago ao luar,
Frases de coragem


Mas de manhã, cada raio do sol nascente,
É como um gomo de romã,
Um boquet de flores de Maio,
Um abraço que se sente...


E não há nuvens que ocultem o brilho de um sol tal
Nem há esquemas que resultem,
Nem armadilhas no trilho,
Nem ameaça fatal


À medida que o sol se ergue
E os seus raios me aquecem
Meu sangue quase ferve
Com momentos que não esquecem




Ilda Silva Lisboa

9 de Junho de 2009

Tempo..... poema de Isabel Valente



Eu quero agarrar o tempo,
Que corre veloz e não se cansa.
Mas o tempo, tem todo o tempo,
Corre, corre, atrás do vento,
Numa corrida sem esperança.

Queria contar os grãos de areia
Que tenho na palma da mão.
E neste querer impossível,
Espalha o vento invisível,
O tempo que me resta, pelo chão.

Assim, é para cada um, a sorte...
Que se trás no destino, ao nascer,
Por muito que tente, lute e se esforce,
Ore e implore, para que a sorte volte,
Esta não muda, só por se querer.



2009.06.08
Isabel Valente

8 de Junho de 2009

CANÇÃO...poema de Eugenio Florit ( Cuba)




Eco de um sonho que na noite busco
torcendo o frio gris do pensamento.
É tarde já para olhar estrelas
e tenho frio.

Talvez não saiba quando irei olhar-te.
preso à alma de tua grata lembrança
que está a gritar-me lá do sonho
um nome tépido.


Um nome que há-de ser como são as rosas,
doce e fragrante prémio para os lábios;
mais sereno que minha amargura
sem esperança.

Assim verei, na orla destes mares,
para alegrar minhas altas gaivotas,
umas letras unidas ao reflexo
do seu olhar.


Trad: José Bento.


do Livro " Rosa do Mundo "

6 de Junho de 2009

Esperança..... poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO




Se eu conseguisse viver este dia,
O dia que hoje passa,
Como se fosse o último da minha vida...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me aniquila a Graça,
Que me enegrece a alma
E enluta o coração...


Ai, se eu pudesse suster
Os passos incertos,
No caminho errado,
Do meu viver !
E ao passado não voltar,
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar ! ...


Se conseguisse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que teima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ...


Se eu pudesse evadir-me
Deste negro cárcere,
Desta dura e fria prisão
Onde, há muito, vivo
Abandonado,
Cativo,
Nos braços da solidão...


Se eu conseguisse viver
Só dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim ...


Isolado, neste mundo,
Onde a amargura se esconde,
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde ...
- Do horizonte ? Do céu? Do mar?
... Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa,
Não se cansa de esperar! ...



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

do livro " Outono da Vida "

1 de Junho de 2009

MENINO DE ROSTO SUJO....peoma de José Maria Lopes de Araújo






A ti, menino de ninguém

Sem norte era teu caminho,
Jornada de mágoa e dor ...
Tinhas sede de carinho ...
Trazias fome de amor !

De rosto sujo, menino ...
Como é negro o teu destino !

A lágrima que rolava
No teu rosto macerado,
Amargamente falava
De um tormentoso passado ...

Um passado curto ainda
Tão tristemente marcado ...
A este mundo, tua vinda
Foi o fruto do pecado !

Dum pecado que persiste
A marcar a tua vida ...
Uma esperança tão triste
Feita de esperança perdida !

Como é negro o teu destino !
De olhos molhados, menino ...

É que não ter o calor
De mãe, de pai ou de alguém,
É viver-se sem amor ,
Sem carinho de ninguém !

No rosto sujo teus olhos
Que trazem tanta amargura,
Mostram bem teu mar de escolhos,
Menino órfão de ventura !

De olhos molhados, menino ...
Como é triste o teu destino !





****************

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

do livro " Outono da Vida "

29 de Maio de 2009

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA - do livro " MAR BRANCO "





NO TEU CORPO QUENTE


Regressei ao horizonte
no teu corpo quente

Penetrei o meu ser
no teu ser ansioso

És o tudo…sou o tudo…
És o nada, também

Toquei no teto-universo…
e encontrei-me em ti

Já posso partir
para o horizonte

Para o meu gene perdido
Que sou eu

Tive o tudo
tenho o nada
Sou só …. o regressado

Vivo suspenso do teu corpo quente
Vivo suspenso no teu corpo quente
Vivo suspenso no teu corpo quente.



Fernando Monteiro da Câmara Pereira - Dez.1980

(Um açoriano nascido Mariense )

27 de Maio de 2009

* Quero Acabar Entre Rosas ... * poema de Álvaro de Campos




Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas febrilmente sobre a colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!



Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

26 de Maio de 2009

* Femina * de Soares Feitosa




Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.

Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.


Não lavei o corpo
pois tinha os rastos
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.


Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.


Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.



SOARES FEITOSA

25 de Maio de 2009

Desperta, Amor....poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO





DESPERTA, AMOR


São teus meus versos, versos que escrevi,
À luz da Lua, em noites estivais,
A reviver as horas que vivi …
Sonhos de amor que não voltaram mais.

Rolaram meses, anos, na voragem
Do tempo que já tudo destroçou …
Somente, emoldurada, a tua imagem,
Dentro em minha alma, estática, ficou!

Por que não vens, mulher, por que não vens
Dizer-me que me queres tanto, enfim,
Como então me querias, se ainda tens
O coração a palpitar por mim?

Por que motivo tentas esconder,
No olhar furtivo, o amor que te atormenta?
Não turves a alegria de viver,
Que, assim, da própria vida se afugenta?

E dá-me as tuas mãos, as mãos que, um dia,
Afagaram meu rosto, ternamente …
Desperta, amor, que a vida é agonia
Dos céleres minutos do presente! …




José Maria Lopes de Araújo

do livro

REMOS PARTIDOS

21 de Maio de 2009

CADA COISA ....poema de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)







Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.


À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.


À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,


E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —


Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem


Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.


E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos


Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


ÁLVARO DE CAMPOS ( Fernando Pessoa )

19 de Maio de 2009

SINTO poema de Vitor Cintra








Sinto crescer a vontade
De perceber se o que dizes,
Entre risadas felizes,
É ou não é a verdade,
Ou só disfarça deslizes.

Sinto crescer o desejo
De te cingir nos meus braços,
P'ra te prender com abraços,
E arrancar-te num beijo
Todos os teus embraraços.

Sinto crescer a ideia
De que, bem mais do que mostras,
São bem reais as propostas
Duma visão que incendeia
Esse viver, de que gostas.





VITOR CINTRA

Do Livro " Pedaços do Meu Sentir"

Á venda nas livrarias

CREPUSCULO de Ilda Silva Lisboa





CREPÚSCULO


Ao crepúsculo do dia que termina
Sucede, inevitavelmente, a alvorada,
Mostrando que a noite não existe.
Um clarão que surge e alucina,
Que oxalá não tenha medo de nada
E que a todos os infortúnios resiste.

Ao sol que se põe de um lado,
Outro lhe aparece oposto,
Como se dois sóis tivesse o mundo.
O que se põe está cansado,
Mas guarda para si o gosto.
O que aparece é fecundo.

O que se põe está doente,
Mergulha na noite densa,
Parte sem esperança, enfim!
O que desponta reluzente,
Cheio de vontade imensa,
Não vendo do outro o seu fim.


Ilda Silva Lisboa

18 de Maio de 2009

AMOR QUE MORRE poema de FLORBELA ESPANCA





O nosso amor morreu... Quem o diria?
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De que outro amor impossível que há-de vir!

FLORBELA ESPANCA

A RUA DOS CATAVENTOS de Mário Quintana




Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!



Mario Quintana

17 de Maio de 2009

O AMOR poema de FERNANDO PESSOA



O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..


Fernando Pessoa

15 de Maio de 2009

Mas...... de Ilda Silva Lisboa




Mas...
o pensamento sangra
lágrima escondida
e o coração sempre lembra imenso.
Assim, a beleza da história julgada perdida,
permanece na sala, com aroma intenso.



Ilda Silva Lisboa

" PEDAÇOS DO MEU SENTIR "
lançamento do livro de
VITOR CINTRA



No próximo dia 16 de Maio, às 19,00 horas, no Auditório - Campo Grande nº 56, em Lisboa - será a apresentação deste novo livro de poemas, publicado sob a chancela da editora «Temas Originais, Lda».
O livro, em cuja capa se reproduz uma tela da pintora Alvani Borges, tem Prefácio do poeta António Paiva e será apresentado pelo poeta Xavier Zarco.

14 de Maio de 2009

O QUE HÁ ...de Álvaro de Campos



O que há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...




Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

12 de Maio de 2009

DOR DA SOLIDÃO de Antonio Manoel Abreu Sardenberg





Não existe dor maior
Que a dor da solidão...
É dor cruel e perversa
Que não aceita conversa
E nem mesmo explicação!
É dor do só, do sozinho,
É carência de carinho,
Seu sintoma é a paixão.


E essa dor tão doída
Que tanto maltrata a gente
Chega assim tão de repente
Sem sequer bater na porta.
Para ela pouco importa
Se está matando o doente,
Se a "Inês é quase morta".


É uma dor que aniquila,
Que castiga, que maltrata,
É mais forte que a tequila
Mais ardente que a cachaça.
É pior que a dor que tomba,
Mais cruel que a dor que mata.



Antonio Manoel Abreu Sardenberg

11 de Maio de 2009

NO MEIO DO MAR poema de " Fernando Monteiro da Câmara Pereira "





Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!

Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.

…………………………….

Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!



Fernando Monteiro da Câmara Pereira

S.Maria - Açores

SIMULTANEIDADE de Mário Quintana





- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.


Mario Quintana

7 de Maio de 2009

Ai de Quem Ama ....poema de Vinicius de Moraes





Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida

Amar é triste
O que é que existe?
O amor

Ama, canta
Sofre tanta
Tanta saudade
Do seu carinho
Quanta saudade

Amar sozinho
Ai de quem ama
Vive dizendo
Adeus, adeus

Vinícius de Moraes

3 de Maio de 2009

SUPER MÃE ! da minha filha SARA




SUPER MÃE!


A minha super mãe:

É super gira,
Super Confidente
Super honesta
Super brincalhona,
Uma mãe Galinha!!
E o mais importante :

UMA SUPER MÃE!



***********************************

Hoje, já sou mãe e também avó....são essas duas crianças as pessoas que mais amo no mundo.





Fui mãe pela primeira vez aos 18 anos, uma criança ainda, hoje essa filha tem 32 anos e já é mãe.
Curiosamente nunca se lembra que tem mãe e quando se lembra é pela negativa.

Voltei a ser mãe aos 26 anos de um rapaz que hoje tem 24 anos.
Por vezes esquece-se de que tem mãe.

Quando o esquecimento dos filhos é apenas nos momentos em que não precisam do nosso apoio, até é bom porque crescem.

O pior é quando a lembrança vai no sentido de nos maltratarem e desrespeitarem, é uma dor muito pior, comparada à dor do parto, porque é uma dor que atinge um orgão chamado coração, que sangra de forma invisível.

Esses maus tratos alguns até são físicos, verbais e até psicológicos.

Mas porque os pais nunca vêm os filhos com defeitos ou como maus,qualquer desculpa inventam para eles mesmos "pais " justificarem esta ou aquela atitude, porque no fundo os pais perdoam sempre.
Graças a Deus e felizmente que a maioria das pessoas que possam ler isto, não vão entender, isso é um bom sinal, sinal de que desconhecem esta realidade, nem sabem o quanto são felizes por isso.

Infelizmente os valores da sociedade estão deturpados, e ser bons pais ou boas mães é fazer-lhes todas as vontades, dar-lhes o que podemos, temos ou não temos, e mesmo assim depois do capricho satisfeitos, vão existir mais e mais cobranças e exigências..... e nós culpabilizamos a sociedade, porque é mais fácil do que reconhecer que na verdade somos maus pais sim, mas porque não soubemos impor respeito, tanto pelos pais, como pelas pessoas mais velhas, pelo modo de se comportarem socialmente, enfim.... por não termos cumprido a nossa parte de lhes transmitir que todos juntos é que formamos a sociedade e que ha uma palavra que é muito importante ter sempre presente, respeito uns pelos outros em especial pela familia.



.....

JESUS CRISTO....

"Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali O crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda. Contudo Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes". (Lc 23.33).


A Todas as Mães esquecidas, um beijo muito grande e um abraço envolvente onde caibam todas as mães maltratadas por todo o mundo, desta que é mãe mas que antes de ser mãe foi filha também.

29 de Abril de 2009

O Encanto de Teus Olhos... de poema de CIRO DI VERBENA






O encanto de teus olhos verdes, claros,
Brilhantes astros sempre reluzentes,
É tudo o que há de mais valioso e caro
Que eu posso vislumbrar à minha frente!

E encanta-me esse brilho intenso e raro,
Invadindo minha alma, mansamente,
Toda vez que ao acaso me deparo,
Com esse teu olhar triste e carente!

Teu olhar tem a essência do carinho;
Convida os corações aventureiros
A sorver desse encanto o puro vinho...

E esse olhar é um abismo traiçoeiro;
Cada vez que te encontro em meu caminho
Nesse olhar eu mergulho, corpo inteiro!...


Ciro Di Verbena

26 de Abril de 2009

ALMA PERDIDA de Florbela Espanca




Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Florbela Espanca

24 de Abril de 2009

Arrependimento....poema de Josias da Silva




Se uma angústia voraz me desespera
E me perco nos caminhos onde ando,
Imploro teu carinho sempre e quando
O amor faz em meu corpo primavera!

E grito de paixão, mesmo calando,
Pois meu silêncio é a forma mais sincera
Com que posso mostrar quanto eu quisera
Viver de amor... Sem mais penar cantando!

Sinto esvair em mim a juventude;
E tudo o que eu desejo na velhice
É moldar meus defeitos na virtude,

Sem mais arrepender-me da tolice
Pelos amores todos que não pude
Viver... (Ou que, por timidez, não disse!)




JOSIAS DA SILVA

22 de Abril de 2009

SOLITÁRIO NUM CAMINHO ESCURO de " Rui Ressurreição "




solitário num caminho escuro
perguntei ao vento
por que a minha vida era frágil e leve
e por que eu estava na corda bamba
dançando ao sabor das marés
...
avistei o mar
e gritei no firmamento
por que sofria angústias e temores
dores e remorsos de não ter feito
sabendo que tinha tudo dentro de mim
...
quem sou eu neste mundo?
neste oceano profundo que me engole
e me devora as entranhas
num festival de sensações de afogamento
em mágoas e choros
de encontro à luz duma vida sem carinho
nem esperança
nem vislumbre de dias melhores
dentro do meu ser
dentro do meu viver
...
eu bato a todas as portas
eu abro a minha mente e a minha alma
eu procuro
eu negoceio com o destino
por entre cartas jogadas por baixo da mesa
com rasteiras implacáveis
dos vendilhões dos templos modernos
desta loucura de correrias e devaneios
pelas avenidas da falsidade
mas...
mas eu quero resistir a este devorador de ideias
e acariciador de almas desoladas
em poços de amargura
que já não têm salvação
a não ser com a gratidão interior
ao criador do nosso mundo
em tudo o que há de mais profundo...


poema original de

RUI RESSURREIÇÃO
DIA 27.07.2008,ÀS 4:38.

20 de Abril de 2009

Porque Escondes a Noite no teu Ventre? de JOAQUIM PESSOA






Porque escondes a noite no teu ventre?

Nesse país de sombra onde se calam as palavras.

Aí, no escuro lago onde estremece a flor da amendoeira

E onde vão morrer todos os cisnes.



Eu desvendo a tua dor, o teu mistério

De caminhares assim calada e triste,

Quando viajo em ti com as mãos nuas e o coração louco

No mais fundo de ti, onde só tu existes.



Oh, eu percorro as tuas coxas devagar

Dobrando-as lentamente contra o peito

E penetro em delírio a tua noite

Esporeando éguas no teu sangue.

De onde me chegam estas palavras?



Joaquim Pessoa

17 de Abril de 2009

RAIOS DE LUZ poema de Rui Ressurreição




Rios de luz...

uma cruz que vou deixar para trás

um cabaz de soluções,

para os corações, frios e duros

que vão ficar puros e limpos de traumas

e assim caminhar pela vida de cabeça erguida,

na procura da felicidade



poema original de RUI RESSURREIÇÃO

DIA 25.09.2008,ÀS 15:21

15 de Abril de 2009

POEMA de Rui Ressurreição







Água...

Mar...

Pôr-do-sol.

Duas almas

ao encontro

de si mesmas,

numa pureza

de embalar emoções...

rios de sensações

que correm pelos

subterrâneos da mente,

que contente,

avança sem medo,

apenas em segredo,

ondula na suavidade do

teu coração,

que com gratidão,

amanhece todos os dias,

com alegria

e energia,

para se renovar

na sua forma de amar.



POEMA ORIGINAL DE RUI RESSURREIÇÃO

7 DE FEVEREIRO 2009,1:35

14 de Abril de 2009

DA DISCRIÇÃO de Mário Quintana





Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

Mario Quintana

12 de Abril de 2009

Gozo IX de Maria Teresa Horta




GOZO IX


Ondula mansamente a tua lingua
de saliva tirando
toda a roupa...


já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.


Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?


Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!


Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!




Maria Teresa Horta

11 de Abril de 2009

A SECRETA VIAGEM de David Mourão_Ferreira






No barco sem ninguém ,anónimo e vazio,

ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...

Como podem só os dois governar um navio?

Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...

Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...

Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,

nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...

Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,

se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.

O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.

-Desfeitos num rochedo ou salvos na ensseada,

a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!



David Mourão_Ferreira

10 de Abril de 2009

EU TE AMO... NÃO DIZ TUDO!...Arnaldo Jabor






Você sabe que é amado(a) porque lhe disseram isso?

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,

Que zela pela sua felicidade,
Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,

Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas,
E que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás,

É ver como ele(a) fica triste quando você está triste,
E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

Sente-se amado aquele que não vê transformada a mágoa em munição na hora da discussão.

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é,
Sem inventar um personagem para a relação,
Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
Quem não levanta a voz, mas fala;
Quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!




Arnaldo Jabor

9 de Abril de 2009

* JOELHO * de Maria Teresa Horta





Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


Maria Teresa Horta

7 de Abril de 2009

* ILHA * de David Mourão- Ferreira




Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

5 de Abril de 2009

... de Bob Marley




Os ventos que as vezes tiram
algo que amamos, são os
mesmos que trazem algo que
aprendemos a amar...
Por isso não devemos chorar
pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi
dado.Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai
para sempre...


Bob Marley

* Poema Sobre a Recusa * de MariaTeresa Horta







Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.



Maria Teresa Horta


*******************


Love of my life, you hurt me,
You broken my heart, now you leave me.

Love of my life cant you see,
Bring it back bring it back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

Love of my life dont leave me,
Youve stolen my love now desert me,

Love of my life cant you see,
Bring it back bring it back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

You will remember when this is blown over,
And everythings all by the way,
When I grow older,
I will be there by your side,
To remind how I still love you
I still love you.

Hurry back hurry back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

Love of my life,
Love of my life.

2 de Abril de 2009

OS DEGRAUS .....de Mário Quintana




Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...


*****************


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


Mário Quintana

31 de Março de 2009

Nem Tudo é Fácil...CECICILA MEIRELES




Nem tudo é fácil

É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!

Cecília Meireles

Você Não Me Ensinou a te Esquecer de Bruno Mattoa/Odair José





VOZ DE " CAETANO VELOSO "

Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando me encontrar

E nesse desepero em que me vejo
já cheguei a tal ponto
de me trocar diversas vezes por você
só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
e te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar

30 de Março de 2009

SONETO DO CATIVO de David Mourão-Ferreira






Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamnete preso!


David Mourão-Ferreira

29 de Março de 2009

* Retrato em Branco e Preto * de CHICO BUARQUE





Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração


Chico Buarque

28 de Março de 2009

" Como Roubar Um Coração " de Luis Fernando Verissimo







Para se roubar um coração é preciso que seja
com muita habilidade,
tem que ser vagarosamente, disfarçadamente,
não se chega com ímpeto,
não se alcança o coração de alguém com pressa.

Tem que se aproximar com meias palavras,
suavemente, apoderar-se dele
aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que
percebam que ele será
roubado, na verdade, teremos que
furtá-lo, docemente.

Conquistar um coração de verdade dá
trabalho, requer paciência, é
como se fosse tecer uma colcha de retalhos,
aplicar uma renda em um
vestido, tratar de um jardim,
cuidar de uma criança.

É necessário que seja com destreza,
com vontade, com encanto,
carinho e sinceridade.

Para se conquistar um coração definitivamente
tem que ter garra e
esperteza, mas não falo dessa esperteza que
todos conhecem, falo da
esperteza de sentimentos, daquela que existe
guardada na alma em
todos os momentos.

Quando se deseja realmente conquistar um
coração, é preciso que antes
já tenhamos conseguido conquistar o nosso,
é preciso que ele já tenha
sido explorado nos mínimos detalhes, que
já se tenha conseguido
conhecer cada cantinho, entender cada espaço
preenchido e aceitar
cada espaço vago.

...e então, quando finalmente esse coração
for conquistado, quando
tivermos nos apoderado dele, vai existir
uma parte de alguém que
seguirá connosco.
Uma metade de alguém que
será guiada por nós e o
nosso coração passará a bater por
conta desse outro coração.

Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com
certeza haverá instantes,
milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e
sabe por quê?
Faltará a metade dele que
ainda não está junto de nós.

Até que um dia, cansado de estar dividido
ao meio, esse coração
chamará a sua outra parte e alguém por
vontade própria sem que
precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará
a metade que faltava.

... e é assim que se rouba um coração,
fácil não? Pois é, nós só
precisaremos roubar uma metade, a outra virá
na nossa mão e ficará
detectado um roubo então!

E é só por isso que encontramos tantas pessoas
pela vida a fora que
dizem que nunca mais conseguiram amar
alguém......é simples.......é
porque elas não possuem mais coração,
eles foram roubados, arrancados
do seu peito, e somente com um grande amor
ela terá um novo coração,
afinal de contas, corações são para
serem divididos, e com certeza
esse grande amor repartirá o dele com você!!!!



(Luís Fernando Veríssimo)

25 de Março de 2009

Soneto da Separação de VINICIUS DE MORAES




De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



VINICIUS DE MORAES

23 de Março de 2009

Ah! .....poema de Cacaso





Ah se pelo menos o pensamento
não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração
não tivesse memória!
Como seria menos linda
e mais suave minha história!


(Cacaso)

20 de Março de 2009

BOB Marley






As Vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!

Bob Marley

16 de Março de 2009

EU poema de FLORBELA ESPANCA





Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
*
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
*
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
*
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


FLORBELA ESPANCA

13 de Março de 2009

CANÇÃO de Cecília Meireles




Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.



Cecília Meireles

7 de Março de 2009

CONTO DE FADAS de Florbela Espanca









Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."




Florbela Espanca

1 de Março de 2009

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " Um Silêncio Absoluto "



Escuto

Escuto o silêncio
um silêncio absoluto

Sinto

sinto o pendular
da inteligência do meu génio louco

Escuto

escuto o eclodir
da potência no meu primeiro géne

Sinto

sinto rasgar-se em cizão
o espasmo do meu pai primitivo

Sinto

Sinto a dinâmica primária
do alvorecer do dia-calor



FERNANDO MONTEIRO

do livro " Mar Branco "


Poeta da minha Ilha . S.Maria-Açores

28 de Fevereiro de 2009

TIMIDEZ de Cecilia Meireles




Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.



Cecília Meireles

27 de Fevereiro de 2009

" E POR VEZES " poema de David Mourão-Ferreira




E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão - Ferreira

NÃO POSSO ADIAR O AMOR de António Ramos Rosa







Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufocante na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora imprecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração



ANTÓNIO RAMOS ROSA

25 de Fevereiro de 2009

ESPELHO LOUCO
poema de Szabó Lfirinc ( Hungria )





Sucedem coisas novas sem cessar,
e já estas fora delas. Faço a barba,
e lembro-me de ti: lágrima larga,
e paro: dos meus fins metade, par
foste dos actos livres; oxalá
tivesses sido mais! Vivo, prossigo
dia de trabalho, e vão comigo,
plo caminho, lembrança doce, ávida
falta... Mas que valem lágrimas e
caminho, querida, na solidão?
Realidade, presente, estão aí!
Só teu espelho te guarda, eu, a alma,
espelho que solta as imagens, um tão
louco espelho, que crê bater-te palmas !



Tradução de : Ernesto Rodrigues
do Livro ROSA DO MUNDO

21 de Fevereiro de 2009

CERTEZAS de Mário Quintana







Certezas


Não quero alguém que morra de amor por mim...

Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...

Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...

Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...

Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como SIM.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.

Mario Quintana

13 de Fevereiro de 2009

* MUDE * de Edson Marques






Mas comece devagar, porque a direção
é mais importante que a velocidade.
Mude de caminho, ande por outras ruas,
observando os lugares por onde você passa.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Descubra novos horizontes.

Não faça do hábito um estilo de vida.

Ame a novidade.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
Busque novos amigos, tente novos amores.
Faça novas relações.
Experimente a gostosura da surpresa.
Troque esse monte de medo por um pouco de vida.
Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.

Mude.
Dê uma chance ao inesperado.
Abrace a gostosura da Surpresa.

Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.

Lembre-se de que a Vida é uma só,
e decida-se por arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso,
mais digno, mais humano.
Abra seu coração de dentro para fora.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Exagere na criatividade.
E aproveite para fazer uma viagem longa,
se possível sem destino.
Experimente coisas diferentes, troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você conhecerá coisas melhores e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, a energia, o entusiasmo.

Só o que está morto não muda !


EDSON MARQUES

12 de Fevereiro de 2009

Opinião de um homem sobre o corpo feminino! .....PAULO COELHO






Opinião de um homem sobre o corpo feminino!

Não importa o quanto pesa.
É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher.
Saber seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

Não temos a menor idéia de qual seja seu manequim.
Nossa avaliação é visual, isso quer dizer, se tem forma de guitarra... está bem.
Não nos importa quanto medem em centímetros - é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas....
Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo.
As magrinhas que desfilam nas passarelas, seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays e odeiam as mulheres e com elas competem.
Suas modas são retas e sem formas e agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura.
A elegância e o bom trato, são equivalentes a mil viagras.

A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem.
Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa.
Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas.. Porque razão as cobrem com calças longas?
Para que as confundam conosco?
Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto.
Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu reitero: nós gostamos assim.
Ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde.

Entendam de uma vez!
Tratem de agradar a nós e não a vocês.
Porque, nunca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher.
Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com
sinceridade, que outra mulher é linda.

As jovens são lindas... mas as de 40 para cima, são verdadeiros pratos fortes.
Por tantas delas somos capazes de atravessar o atlântico a nado.
O corpo muda... cresce.
Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18.
Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo.

Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas.
Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em setembro, não antes; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (não se saboteia e não sofre); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza.
São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos 'em formol' nem em spa... viveram!
O corpo da mulher é a prova de que Deus existe.
É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.
Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!

A beleza é tudo isto.



( Paulo Coelho)

9 de Fevereiro de 2009

poema de Velimir Khlébnikov





Tempos-juncos
Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.

Tradução de: Augusto de Campos

8 de Fevereiro de 2009

SONETO DA SEPARAÇÃO de Vinicius de Moraes




De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes


7 de Fevereiro de 2009

CURA DO CANCRO


Recebido por e-mail, achei importante divulgar




Um médico italiano descobriu algo simples que considera a causa do Cancro.

Inicialmente banido da comunidade médica italiana, foi aplaudido de pé na Associação Americana contra o Cancro quando apresentou a sua terapia.

O médico observou que todos os doentes com Cancro têm aftas. Isso já era do conhecimento da comunidade médica, mas sempre foi tratada como uma infecção oportunista por fungos - Candida albicans.
Esse médico achou muito estranho que todos os tipo de Cancro tivessem essa característica, ou seja, vários são os tipos de tumores mas todos têm em comum o aparecimento das famosas aftas no doente.

Então, pode estar ocorrendo o contrário - pensou ele.

A causa do Cancro pode ser o fungo.
E, para tratar esse fungo, usa-se o medicamento mais simples que a humanidade conhece: bicarbonato de sódio.
Assim ele começou a tratar os seus pacientes com bicarbonado de sódio, não apenas ingerível, mas metódicamente controlado sobre os tumores.
Resultados surpreendentes começaram a acontecer.
Tumores de pulmão, próstata e intestinos desapareciam como num passe de mágica, junto com as Aftas!

Desta forma, muitos pacientes de Cancro foram curados e hoje comprovam com os seus exames os resultados altamente positivos do tratamento.

Para quem se interessar mais pelo assunto, siga o link (em inglês): não deixem de ver o video, no link abaixo.
O médico fala em italiano, mas tem legendas em português.----->

http://www.curenaturalicancro.com>
/


Lá estão os métodos utilizados para aplicação do bicarbonado de sódio sobre os tumores.
Quaisquer tumores podem ser curados com este tratamento simples e barato.
Parece brincadeira, não é?
Mas foi notícia nos EUA e nunca chegou cá (para variar).
Bem que o livro de Homeopatia recomenda tratar tumores com Borax, que é o remédio Homeopático para as aftas.
Afinal, uma boa notícia no meio de tantas más.

De novo, a pergunta que não quer calar: por que é que a grande imprensa não dá a menor cobertura a isto?
Nem na TV, nem nas rádios, nem nos jornais de grande tiragem... Absolutamente nada. Quem os proíbe de noticiar?
O médico teve que construir o seu próprio site para poder divulgar o seu trabalho de curar o Cancro (ou, pelo menos, várias das suas formas), usando apenas uma solução de bicarbonato de sódio a 20%.
Imaginem! Bicarbonato de sódio, uma coisa que nós encontramos em qualquer farmácia ou drogaria de esquina.

Neste link está o vídeo, aonde o médico italiano mostra a evolução do tratamento de 4 casos até á sua completa cura:
http://www.cancer-fungus.com/sub-v1pt/sub-pt.html
/



Se quiser ver em português, vá a este site e basta clicar nas bandeirinhas no alto da página e muda para o idioma pretendido:


http://www.cancerfungus.com/simoncini-cancro-fungo.php#



Certamente que os Laboratórios não estão interessados em que esta noticia se espalhe, afinal de contas lá se vão os grandes lucros nos medicamentos que eles fabricam para uma doença tão grave que pode ser curada simplesmente com bicarbonato de sódio a 20% que custa uns simples cêntimos.


DIVULGA NO TEU BLOG




6 de Fevereiro de 2009

* Perguntei a um Sábio * de William Shakespeare

Dedicado ao meu marido, hoje no nosso 33º. Aniversário de casamento.





Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare

2 de Fevereiro de 2009

AS CEM REZÕES DO AMOR
de Carlos Drummond de Andrade





Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

21 de Janeiro de 2009

SONETO CV de ......William Shakespeare





Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.



William Shakespeare

* CHAMADA * poema de Vitor Cintra









CHAMADA


Sinto minha alma afobada
Por trilhas, cheias de nós,
Sem perceber a chamada
Feita, por almas tão sós
Como a minha alma isolada.

Solto as amarras do tempo
E o pensamento, veloz,
Corre ao sabor do momento,
Quando o momento dá voz
Ao meu veloz pensamento.


VITOR CINTRA

Do livro " Murmúrios "

20 de Janeiro de 2009

E DE REPENTE É NOITE poema de Salvatore Quasimodo ( Itália )






E DE REPENTE É NOITE


Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente é noite.


SALVATORE QUASIMODO

18 de Janeiro de 2009

Silêncios poema de ÂNGELO GOMES






Os meus silêncios são cruéis e duros,
Nas trevas dos dias que me ensombram,
Nas noites em branco que me tombam,
Nas lágrimas, nos vales e nos muros

Será que sabes ler-me sem me ler?
Será que no teu peito ainda existo?
Ou fui sublinhado em mero risco
Daqueles sem expressão e sem se ver?

Que raros são os momentos de paixão...
Que emergem de caudais de solidão
E se fecham em silêncios de ternura...

Segue os trilhos dos minutos que viveste
Pergunta a ti própria se cresceste...
Abre as portas aos riachos da censura


Ângelo Gomes


Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
Código do texto: T232092

15 de Janeiro de 2009

" FUMO " poema de Florbela Espanca





Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...



Florbela Espanca

13 de Janeiro de 2009

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDICULAS de Álvaro de Campos








Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

11 de Janeiro de 2009

* AMIGOS * de Paulo Sant'Ana






Neste dia de Aniversário do meu amigo e POETA " VITOR CINTRA ", dos Blogs Um Poema de Vez em Quando e A poesia de VITOR CINTRA, dedico-lhe este texto, com votos de um feliz aniversário.

*****************************************



Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!


Paulo Sant'Ana


PAULO SANT'ANA

9 de Janeiro de 2009

HÁ CERTAS HORAS de William Shakespeare





Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
Não precisamos da paixão desmedida...
Não queremos beijo na boca...
E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama...

Há certas horas, que só queremos a mão no ombro, o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
Sem nada dizer...

Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar, que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a nos fazer sorrir...

Alguém que ria de nossas piadas sem graça...
Que ache nossas tristezas as maiores do mundo...
Que nos teça elogios sem fim...
E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja de uma sinceridade
inquestionável...

Que nos mande calar a boca ou nos evite um gesto impensado...
Alguém que nos possa dizer:

Acho que você está errado, mas estou do seu lado...

Ou alguém que apenas diga:

Sou seu amor! E estou Aqui!


William shakespeare

7 de Janeiro de 2009

" ESTE PERFUME"de Salvador Novo (México)









Este perfume intenso de tua carne
não é nada mais do que o mundo que deslocam e movem os globos azuis dos teus olhos.

E a terra e os rios azuis das veias que aprisionam os teus braços.

Há todas as laranjas redondas em teu beijo de angústia
sacrificado à beira de um horto em que a vida se suspendeu por todos os séculos da minha.

Que distante era o ar infinito que encheu nossos peitos.

Arranquei-te da terra pelas raízes ébrias de tuas mãos
e bebi-te todo, oh fruto perfeito e delicioso!

Já sempre quando o sol apalpe a minha carne
sentirei o rude contacto da tua
nascida na frescura de uma alva inesperada,
nutrida na carícia de teus rios claros e puros como o teu abraço,
volta doce no vento que nas tardes
vem das montanhas para o teu hálito,
madura no sol dos teus dezoito anos,
cálida para mim que a esperava.





Tradução de: José Bento

6 de Janeiro de 2009

* ROMÂNTICOS * de Vander Lee






Românticos são poucos,
Românticos são loucos, desvairados
Que querem ser o outro,
Que pensam que o outro,
É o paraíso.

Românticos são lindos,
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas,
Que amam sem vergonha e sem juízo
São tipos populares, que vivem pelos bares
E mesmo certos vão pedir perdão
E passam a noite em claro
conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão
Romântico é uma espécie em extinção.

31 de Dezembro de 2008

O QUE NÃO SE RECORDA poema de Luis Rosales ( Espanha)





O QUE NÃO SE RECORDA


Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.

Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.

Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.

O silêncio
pôde mais que o esforço.

Anoitecia

para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.



LUIS ROSALES

28 de Dezembro de 2008

* TUDO É FOI * poema de António Gedeão




Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


ANTÓNIO GEDEÃO

22 de Dezembro de 2008

Alma Minha Gentil Que Partiste " LUIS DE CAMÕES "





Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões

18 de Dezembro de 2008

" DESPERTAR " poema de Vitor Cintra







Ânsia de amor, quando assalta,
Faz com que o sonho esquecido
Ganhe, de novo, sentido,
Como a essência, que exalta.

Ímpeto, de maré alta,
Arte, de leito escondido,
Dom, de sabor proibido,
Fogo, paixão, que ressalta.

Perda, carência, dor, falta,
Sombra, dum tempo perdido,
Chama, prazer reprimido;

Onda de choque, ribalta,
Corpos, vertigem, gemido,
Frémito desinibido.


VITOR CINTRA
do livro " MURMÚRIOS "

16 de Dezembro de 2008

Quando se Gosta de Alguém de
* AMÁLIA RODRIGUES *




Quando se gosta d'alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo que é que se sente

Quando se gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior agente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto.

AMÁLIA RODRIGUES

5 de Dezembro de 2008

ÚLTIMO SONETO poema de Mário de Sá-Carneiro




ÚLTIMO SONETO


Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes - e vieste ...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que mordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste...Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava? ...


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

30 de Novembro de 2008

" UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA " poema de E.M.de Melo e Castro




Uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia.

Um nome não nome o mesmo nome
Um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia.

Uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

Um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em caa chama o nome que se chama
o nome que se chama se incendeia.

E.M de Melo e Castro

26 de Novembro de 2008

* OLHOS TRISTES *poema de Vitor Cintra




Olhos tristes, senhora,
Os vossos. Tristes de mais,
Olhos de dor, de quem chora.
Senhora, porque chorais?


Se essa tristeza, que mora
Nos olhos, nos dá sinais
Da mágoa, que vos devora
E, a medo, mal disfarçais,
Mostrai-nos então, se agora,
Dos olhos, porque me olhais,
Se vai a tristeza embora,
Ou quedam tristes, iguais.

VITOR CINTRA

do livro " MURMÚRIOS "

19 de Novembro de 2008

"Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen





Quando me amei de verdade,
pude compreender
que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo,
na hora certa.
Então pude relaxar.

Quando me amei de verdade,
pude perceber que o
sofrimento emocional é um sinal
de que estou indo contra a minha verdade.

Quando me amei de verdade,
parei de desejar que a minha vida
fosse diferente e comecei a ver
que tudo o que acontece contribui
para o meu crescimento.

Quando me amei de verdade,
comecei a perceber como
é ofensivo tentar forçar alguma coisa
ou alguém que ainda não está preparado
- inclusive eu mesma.

Quando me amei de verdade,
comecei a me livrar de tudo
que não fosse saudável.
Isso quer dizer: pessoas, tarefas,
crenças e - qualquer coisa que
me pusesse pra baixo.
Minha razão chamou isso de egoismo.
Mas hoje eu sei que é amor-próprio.

Quando me amei de verdade,
deixei de temer meu tempo livre
e desisti de fazer planos.
Hoje faço o que acho certo
e no meu próprio ritmo.
Como isso é bom!

Quando me amei de verdade,
desisti de querer ter sempre razão,
e com isso errei muito menos vezes.

Quando me amei de verdade,
desisti de ficar revivendo o passado
e de me preocupar com o futuro.
Isso me mantém no presente,
que é onde a vida acontece.

Quando me amei de verdade,
percebi que a minha mente
pode me atormentar e me decepcionar.
Mas quando eu a coloco
a serviço do meu coração,
ela se torna uma grande e valiosa aliada.



Trechos do livro "Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen

16 de Novembro de 2008

MÃE de Almada Negreiros





Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro,encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


ALMADA NEGREIROS

12 de Novembro de 2008

Espero-te Sem Te Esperar de MARIA JOÃO L.









Sei como pode ser difícil o outro lado da viagem
Onde reinam tuas imensas razões,
E onde habitam as minhas profundas emoções.
Percorremos a Terra, caminhando em labirintos de cores e cheiros diferentes.
Será que a melodia que nos uniu, pode ser poderosa e vencer a tua multidão ?
Mas eu não quero conquistar ninguém...
Mas, também não quero nada que te possa magoar,
Se os ANJOS me revelassem, que nosso abraço nasceu para ser apenas sonhado,
Eu guardava-te para sempre escondido no meu coração.
Sempre deixei que fosses tu a comandar este amor...
Tens uma vida lindamente merecida e esculpida de razões...
Sei compreender
Aprendi tanto de amor a doer
Sei continuar a sonhar...

E neste sentir maior assim espero-te sempre sem te esperar ...




Maria João L.


(Texto que me foi enviado e que achei muito bonito, partilho-o aqui)

10 de Novembro de 2008

ÁRVORE poema de Kóstas Karyotákis ( Grécia)




ÁRVORE


Com rosto indiferente e ar de pouco caso,
saúdo as madrugas, os ocasos.

Árvore, hei-de olhar, com mirada isenta,
o céu azul ou a fúria da tormenta.

A vida, digo, é féretro no qual
dor,
alegria do homem têm o seu final

5 de Novembro de 2008

SOLIDÃO de Afonso Henriques







Saudade é solidão acompanhada,
É quando o amor ainda não foi embora,
Mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
É a dor dos que ficaram para trás,
É o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
Aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
Não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



AFONSO HENRIQUES

31 de Outubro de 2008

" A Dor Que Dói Mais " de MARTHA MEDEIROS





Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.


MARTHA MEDEIROS

MARTHA MEDEIROS

21 de Outubro de 2008

OCIDENTE-ORIENTE poema de Adonis ( 'Ali Ahmad Sa'Id)




Era algo que se estendia no túnel da História,
Algo enfeitado e minado
Levando seu menino de nafta envenenado,
Por venenoso mercador cantado;
Era um Oriente - criança que pede,
Grita " Socorro !"
E o Ocidente, seu senhor nunca errado -
Mudado está agora este mapa;
O Universo em chamas,
Oriente - Ocidente : um só
Túmulo
Em cinza os tem juntado ...

15 de Outubro de 2008

" Já um Pouco de Vento se Demorara " poema de VITORINO NEMÉSIO






Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casa mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove



VITORINO NEMÉSIO

10 de Outubro de 2008

AMIÚDE poema de Raul de Carvalho






AMIÚDE

No vale dos afectos
ninguém está seguro:
Mingua a lembrança,
Esquece-se o rosto,
Retorna-se ao eu,
Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a
presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo -

E apenas as pequenas ilusões
- um café, o cigarro, a limonada -
imitam dois corações unidos ...



Raul de Carvalho

5 de Outubro de 2008

O BANHO DOS POBRES poema de Tonino Guerra ( Itália )




O BANHO DOS POBRES


Os pobres da minha terra
tomam banho no rio
e estão de molho na água
um dia inteiro.
Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
Voltam quando é noite
Encontram outra vez as velhas casas
com as cabeças dos gatos aos janelos
e toda a água nos cântaros represa.

30 de Setembro de 2008

* AMAR * de Florbela Espanca






Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

EU NÃO SEI AO CERTO ... poema de Jaime Sabines ( México )




EU NÃO SEI AO CERTO...


Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficar sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio.
Como a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então que sabem tudo.
Vêem-se nus e sabe, tudo.

( Eu não sei ao certo. Suponho-o )



JAIME SABINES

25 de Setembro de 2008

CANÇÃO poema de ANTÓNIO BOTTO





CANÇÃO


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo : - a luz do dia!
-Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede a e vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo o que possa ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!



ANTÓNIO BOTTO

19 de Setembro de 2008

NÃO GOSTO




Não gosto de meias palavras.

Prefiro o silêncio aos gritos ensurdecedores das pessoas com quem tenho de falar e que não me dizem nada.

Não gosto de engolir palavras que não mereço, nem de desculpas esfarrapadas.

Não gosto de pessoas que só querem o que não têm e quando têm o que querem, não sabem do que gostam.

Não gosto de ouvir, talvez, não sei, sei lá, depois vê-se, tem paciência.

Não gosto que me peçam desculpa.

Não gosto que me prometam e não cumpram, de encontros desmarcados e de esperas infinitas.

Não gosto de gritos, de confusões, de gestos teatrais e dramatismos.

Não gosto de intrigas e de histórias mal contadas, não gosto de meias verdades.

Não gosto de palavras sem sentido e de falar por falar.

Não gosto que falem comigo e não me olhem nos olhos.

Não gosto de palavras arrastadas e de segredos mal guardados.

Não gosto de pessoas que andam de nariz empinado e se acham melhores que os outros.

Que pensam que sabem tudo e que falam com arrogância, que têm um ar de gozo, mas que choram por dentro.

Não gosto de perder tempo, prefiro gastá-lo com o que mais gosto.

Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de sorrisos amarelos.

Não gosto de pessoas que falam mansinho ao chefe e levantam a voz à mulher da limpeza.

Não gosto de pessoas que sabem que não têm razão e ainda assim não o admitem.

Não gosto de não poder acreditar nas outras pessoas nem de voltar atrás na palavra e ainda menos que voltem atrás comigo.

Não gosto de pessoas que não olham a meios para atingir os seus fins.

Não gosto de quem não gosta de um animal.

Não gosto de pessoas que só vêm o seu lado e que esquecem todos os outros.

Não gosto quando não dizem que gostam de mim, quando o sentem na realidade.

Não gosto de ter saudades daquilo que gosto.

Não gosto que se esqueçam dos meus anos, nem de mim, mas principalmente não gosto que quando esquecida, não me guardem num lugar do coração.

( Desconheço o Autor

13 de Setembro de 2008

Filha de Um Amor Proibido - Isabel Valente




Abaixo deixo um texto que escrevi e publiquei em 2004 no meu blog

ALMA DE POETA

Para além do texto, os testmunhos deixados por várias pessoas merecem ser lidos;


http://almadepoeta.blogspot.com/2004/09/filha-de-um-amor-proibido_28.html


Baseou-se num relato da minha própria experiência.

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Terça-feira, Setembro 28, 2004

Filha de Um Amor Proibido




Os jovens de hoje não sabem que, na minha geração, haviam
crianças nascidas fora do casamento, e em cujo registo pessoal
constava o nome da Mãe, tendo por pai, um “ Pai Incógnito”.
Estas crianças, eram estigmatizados como, os filhos do pecado,
da vergonha, os filhos da outra.

Eram os filhos fora do casamento, os bastardos.
É que o registo obrigatório com nome de pai é recente, e eu já
sou "Cota".

Para a nova geração onde todos à nascença são registados com o
nome de mãe e de um pai, verdadeiro ou não, não lhes é fácil
explicar o que é viver com o facto diário de ser filha de” pai
incógnito”.

Tendo eu passado por essa experiência, não me é difícil
explicar o que é ser filha de Pai Incógnito.
Hoje na maioria das Repartições Públicas todas achamos uma
grande maçada, ter de preencher formulários, para mim, passou
a ser, uma bênção.

Em alguns desses formulários tinha de mencionar o nome de Mãe
e de Pai, então lá vinha o tormento ---Pai Incógnito --- .Isto
era dito em voz baixa, tentando que ninguém ouvisse, na
maioria dos casos não resultava, por esse mesmo motivo, era
obrigada a repetir mais alto, sendo motivo para que toda a
plateia se virasse para ver quem era a santa alminha que era
fruto de tamanho pecado, e mais, ser confrontada com olhares
de censura indirecta, em alguns casos estampado um leve
sorriso de superioridade, e talvez que, se eu lhes lesse o
pensamento…estaria lá bem patente “ aquela é filha da mãe”.
O mesmo acontecia na escola, sempre que a professora me
perguntava o nome dos meus pais, eu respondia o nome da minha
mãe, ela, pensando que eu não tinha entendido que o pretendido
era nome dos PAIS, lá eu era obrigada, envergonhadamente a
dizer “Pai Incógnito “

Ser filha de Pai Incógnito no meu caso, era doloroso,
porquanto não me conformava em conhecer o meu PAI e ser
reconhecida por ele, e esse facto não ser aceite pela própria
sociedade .

A censura ao mesmo tempo recai , naquele homem que traiu a
esposa, e que nem se envergonha do seu próprio pecado, quando
se proclama pai .

A filha de Pai Incógnito, cuja responsabilidade de estar
vivendo esse “ horror “ era o pecado dos progenitores , O
Pecado de um Amor Proibido……sendo eu portanto a filha de um
amor proibido.

Ser filha de Pai Incógnito, é também sentir nos nossos meios
irmãos esse rancor, porque somos a vergonha que manchou o seio
da sua família, a mágoa com que a mãe deles acorda e adormece.
Outra mesma frente de retracção, se verifica nos outros meios
irmãos, os filhos do novo casamento da mãe, esses sim, filhos
de um pai e de uma mãe, que têm na família um patinho feio,
que lhes lembra não a traição da mãe, mas o pecado dela.
Isso que atrás descrevi é a minha experiência, sentida na pele
de criança.

Hoje a sociedade mudou, existem filhos de pais assumidos que
nunca viram a cara dos seus filhos, nunca pegaram neles ao
colo, nunca lhes deram tão pouco um pouco de carinho…..ou
mesmo, um pedaço de pão.

Meu Pai Homem de bem, homem culto e com uma visão fora da sua
época, nunca precisou de Instituições que o obrigassem a
reconhecer as suas obrigações de Pai , no sentido amplo da
palavra, soube ultrapassar todos os obstáculos, próprios da
época afirmando aos amigos e família sem nenhum tipo de
preconceito ” Esta é a minha filha”.

Felizmente foram ultrapassadas essas Imposições de uma
sociedade fascista, falsa e preconceituosa.
Hoje só quero mesmo é relembrar o homem que adorei, que adoro
e a quem chamei Pai sem que por isso tenha de exibir o BI….a
minha homenagem a ele , meu PAI, .....

A minha homenagem a minha MÂE, que foi marginalizada, apontada
pela sociedade, que viveu esse amor, pagando caro o seu
“pecado” .
Benditos sejam vocês os dois que pecaram, para que eu
existisse e, hoje esteja aqui falando para a nova geração
sobre a minha experiência de ser filha de Pai Incógnito.


O nome dessa grande Mulher, minha MÃE é ELVIRA, nome dado também á minha neta.

O nome do HOMEM, mais PAI e corajoso que alguma vez conheci e do qual me orgulho, é JOÂO.



http://almadepoeta.blogspot.com/2004/09/filha-de-um-amor-proibido_28.html




POSTADO POR : Alma de Poeta ÁS: 02:10

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Um dia possívelmente lerei uma outra história.

" ORFÃ DE PAI VIVO "


Pode-se num dia amar um homem ou uma mulher e deixar de se amar, faz parte do ciclo do amor e da vida.


Amar um filho/a não é só pegar no colo, mostra-la socialmente dizendo que é filha.


Amar um filho/a é viver o momento, o crescimento. Partilhar as dores as alegrias, as febres, o nascer dos dentes, a primeira palavra, o prmeiro sorriso.

É também, perder as noites na doença, nas insónias do filhos, faz parte da nossa etapa de pais, assim tal como os nossos pais, já passaram pelo mesmo.

Faz parte também, trabalhar para além das horas, quando o ordenado é pouco, para que nada falta a um filho, é isso, amor.


Trabalhar para além das horas normais, para viver momentos egoistas de prazer próprio, dar o nome a um filho numa certidão de nascimento e acreditar que essa criança vai viver do ar e de água e que não necessita de amor e carinho, e colo e brincar, Isso é infantilidade, é ser pai quando ainda não se cresceu em mentalidade.

É irresponsabilidade!

Há homens que o serão para todo o sempre, HOMENS até depois da morte.

Há homens que serão apenas, homenzinhos.

Quem não se ama, não pode amar os outros,menos ainda quando o egoismo prevalece acima de todos os outros valores.

Não há seres perfeitos, mas há gente muito mal acabada.

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Isabel Valente

10 de Setembro de 2008

SAUDADE DA PROSA poema de Manuel António Pina







Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.

E se regressava
oelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


MANUEL ANTÓNIO PINA

29 de Julho de 2008

SÓ poema de José Maria Lopes de Araújo








Ai, se eu pudesse evadir-me
De mim mesmo,
Desta prisão
Que me põe grades, no coração ...
Se eu pudesse partir, correr,
Caminhar sem norte,
Correr , a esmo ,
Na floresta dos meus sonhos ,
E colher rosas orvalhadas
E alvas hortênsias
Nas bermas das estradas ...


Mas correr, cantando
Hinos de louvor à vida ,
Pelo odor
Que se emana da natureza
Pelo bem da Humanidade,
Pela pétala caída ...
Pela beleza
Da flor
Que nos enche a alma e o olhar
De alacridade
E cor ! ...


E continuo a viver ,
Encarcerado ,
Mesmo dentro de mim ...
Esmaga-me o silêncio
Das coisas, das pessoas ...
E a labareda da loucura
Continua crescendo, no incêndio
Da floresta dos meus sonhos !


Ai, se eu pudesse evadir-me
Das grades do meu coração ...
Não mais sofreria,
Como sofro ... Não ! Não !


Agora, já tudo é cinza ...
Já tudo é pó ..
E recomeço a sentir-me, no mundo,
Isolado...Só...Muito só...
Cada vez mais só ! ....


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

8 de Julho de 2008

" VAZIO.... " de Isabel Valente





Vida que é vivida, vazia de afectos, palavras, carinhos, não pode ser vida, para ser vivida ,apenas sozinhos.

Se a vida nos dá :

Diálogo dos silêncios.
Solidão de mãos dadas,
É vida vazia, apenas vivida, mesmo acompanhada.

São cacos colados, corações partidos,
Sentimentos castrados,
Sonhos proibidos.
São vidas sem cor,
Sem gestos de amor
Apenas fachada,
É vida de quem, amar pouco sabe, ou apenas nada!

Viver, por viver, apenas num mundo, feito fantasia, mil vezes sofrer, a ter que morrer um pouco cada dia.


Isabel Valente

3 de Julho de 2008

NOSTALGIA


(Foto da autoria de Ricardo Chaves )


O texto abaixo é uma transcrição do publicado no blog do RICARDO CHAVES

aqui:
  • RCHAVES






  • Porque me fez recuar à ilha de S.Maria de outros tempos, e porque felizmente ainda hoje é possivel ás nossas crianças (da ilha), viverem um pouco assim, " em liberdade ",aqui deixo este texto que me deu imenso gosto ler, que tenho e tenho outro tanto em partilhar
    .




    Nascidos antes de 1986;

    De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque:

    -As nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos.

    -Não tínhamos frascos de medicamento com tampas “à prova de crianças”, os fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.

    -Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.

    -Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e “airbags” - viajar à frente era um bónus.

    -Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem.

    -Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora.

    -Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.

    -Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.

    -Saía-mos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.

    -Não tínhamos “Play Station”, “X Box”. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, “home cinema”, telemóveis, computadores, DVD, “Chat” na internet.

    -Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos à rua, jogávamos ao elástico e à barra e à bola até doía, caíamos das árvores, cortava-mo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Haviam lutas com punhos mas sem sermos processados.

    -Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.

    -Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola, não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.

    -Criávamos jogos com paus e bolas.

    -Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, eles estavam do lado da lei.


    Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
    Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.

    Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.

    És um deles? Parabéns!

    Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, “para nosso bem”.

    Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós.

    Isto meus amigos é surpreendentemente medonho… e talvez ponha um sorriso nos vossos lábios:

    A maioria dos estudantes que estão nas universidades hoje nasceram em 1986…chamam-se jovens.

    Nunca ouviram “we are the world” e “uptown girl” conhecem de Westlife e não Billy Joel.

    Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname.

    A SIDA sempre existiu. Os CD’s sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco.

    Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia “Deus da dança”.

    Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie são filmes do ano passado.

    Não conseguem imaginar a vida sem computadores.

    Não acreditam que houve televisão a preto e branco.

    Agora vamos ver se estamos a ficar velhos:

    1. Entendes o que está escrito acima e sorris;
    2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada;
    3. Os teus amigos estão casados ou a casar;
    4. Surpreende-te ver crianças tão à vontade com computadores;
    5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis;
    6. Lembras-te da Gabriela (a primeira vez);
    7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos;


    SIM. ESTÁS A FICAR VELHO, heheheh.
    …mas tivemos uma infância do caraças!!!

    Pois tivemos.




    Desconheço o AUTOR

    ... que certamente é da minha ilha S.Maria-Açores

    22 de Junho de 2008

    ELOGIO AO AMOR de Miguel Esteves Cardoso




    Ou de como eu costumo dizer:

    - O Amor é como o Chocolate, não tem de fazer sentido.

    Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la.
    Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha.

    O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
    Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

    O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
    Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
    Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
    Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
    Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
    Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama.
    Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
    Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

    O amor passou a ser passível de ser combinado.
    Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
    O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
    A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
    O amor tornou-se uma questão prática.
    O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
    Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
    Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.






    Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

    Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

    O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
    Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

    Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.
    Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.

    Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
    É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.

    Tanto faz.
    É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
    A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

    O amor puro é uma condição.
    Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.

    Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma.
    É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
    A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
    A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.

    Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
    O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
    E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

    Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
    sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

    Não se pode ceder. Não se pode resistir.

    A vida é uma coisa, o amor é outra.
    A vida dura a Vida inteira, o amor não.

    Só um minuto de amor pode durar a vida inteira.
    E valê-la também."



    Miguel Esteves Cardoso

    12 de Junho de 2008

    * INTERROGAÇÃO * poema de José Maria Lopes de Araújo





    Não tentes afastar-me do meu rumo,
    Que eu bem sei o que quero e onde vou...
    Não lembres o passado porque é fumo
    Duma chama que, há muito, se apagou !


    Da labareda ardente só ficou
    A cinza da quimera e nada mais ...
    Do meu passado tudo se queimou ...
    E apenas restam meus doridos ais !


    E deixem-me ficar, assim sozinho,
    Com todo o sofrimento, no caminho
    Que me há-de confundir ao Redentor ...


    E pensar, meditar profundamente :
    - Por que motivos alimenta a gente
    Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    do Livro " Outono da Vida "

    5 de Junho de 2008

    O Teu Corpo poema de ÂNGELO GOMES






    Deixa-me acordar, sorrir, esbracejar
    Em cada alvorada de sonos inquietos
    Pensamentos lentos, lista de afectos
    Tua voz sentir, acto de inventar

    Desenho o teu corpo enquanto desperto
    De suave tecido em mãos de ternura
    Que beijo e rebeijo com tanta doçura
    E amo e possuo como se estivesses perto

    Que venham sóis, chuvas ou tormentas
    Que toquem os sinos abordando rebates
    Que caiam ferros, pedras, alicates
    Que as bocas estejam secas e sedentas

    Oh... como adoro o teu corpo de frescura
    Razão das razões... toque de magia
    Que invade o meu, deixando nostalgia
    Saudade intensa, retrospectiva pura

    Corpos colados, invasão das mentes
    Selados em lençóis ou calmas areias
    Torcendo, mexendo, como centopeias
    Acabando molhados, sôfregos, ardentes

    Adoro o teu corpo de sonho e desejo...
    Suporte de um todo que vejo e revejo.



    ÂNGELO GOMES


    Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
    Código do texto: T232095

    25 de Maio de 2008

    TARDE...poema de Espínola Mendonça




    Partiste no explendor da mocidade,
    E esperei que voltasses novamente.
    Escrevias dizendo: _Brevemente..._,
    E esperei uma longa eternidade.

    Anos depois tu voltas, finalmente;
    E a mim mesmo pergunto se é verdade.
    Porque sinto mais viva esta saudade
    Do que no tempo em que estiveste ausente

    Em vez d'essa alegria tão sonhada,
    Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada.
    E cada qual de nós ficou mais triste.

    Adivinhaste... e eu adivinhei:
    Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_
    E eu só te sei dizer: _Porque partiste?


    Espínola de Mendonça
    ( 1891-1944 )

    28 de Abril de 2008

    APETECE-ME poema de Ângelo Gomes






    APETECE-ME, beber na tua boca, o veneno que mata os meus desejos
    Presos nas amarras do pensamento,
    Que nem o vento
    Soube levar a paragens longínquas…

    APETECE-ME. Mordiscar os dedos dos teus cabelos,
    Que nem torturados,
    Confessam pecados……………

    APETECE-ME, atravessar os rios do teu corpo,
    Que nem leito preguiçoso,
    Bebendo gota a gota em descarada timidez,
    o suor da tua nudez……..

    APETECE-ME, arrancar pedaços de ti,
    que nem pétalas de pálidas flores,
    que por amores
    têm apenas a maldade
    de encobrir a falsa virgindade……….

    APETECE-ME, rasgar as tuas entranhas
    E roubar-te o grito do prazer,
    Que nem loucuras tamanhas
    Fizeram orgasmos assim,
    E por fim,

    APETECE-ME, violar o teu abraço,
    Para no meu cansaço
    Saborear o mel
    Que escorre da tua pele,

    Arrepiado….
    Saciado…….
    APETECE-TE????
    Diz…..
    APETECE-ME, sim……
    APETECE-ME SER FELIZ……….




    Ângelo Gomes

    16 de Abril de 2008

    O TEU OLHAR poema de Ângelo Gomes





    Que é feito do olhar que me tirava das trevas?
    Que é feito da doçura que me curava tédios?
    Que é feito dos prédios alicerçados em ti….
    Que é feito de mim… que é feito do sorriso,
    Do cristal, das margens do rio que chora e não ri?

    Que falta me fazem os teus olhos de seda !…
    Que nostalgia, que vácuo, que varanda sem horizontes...
    Que fontes secas, que vida sem forma nem conteúdo !...
    Que Entrudo de máscaras que disfarçam as mágoas….
    Que fráguas, que colinas íngremes, que montes !...

    O teu olhar !... a suavidade cremosa das tuas palavras …
    Que travas … que lavas como quem descobre pepitas de ouro …
    Que colocas a soro na convalescença dos tempos !....
    O teu olhar !... a tua intensa vontade de viver …
    Que é feito da generosidade que te eleva como ser?



    Ângelo Gomes

    3 de Abril de 2008

    DESDE QUE EU O VI... poema da Alemanha , de Albert Von Chamisso






    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar;
    Só a ele vejo,
    Olha pra onde olhar;
    Com a sua imagem
    Sonho em pleno dia,
    Vem das trevas, sobe,
    Clara de harmonia.
    Sem ele tudo é
    Sem luz e sem cor,
    Já não me apetece
    Coas irmãs brincar;
    Agora só quero
    No quarto chorar;
    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar.


    Trad: João Barrento

    30 de Março de 2008

    * Como Eu Te Amo * poema de Elizabeth Barrett Browning






    Amo-te quanto em largo, alto e profundo
    Minh’alma alcança quando, transportada,
    Sente, alongando os olhos deste mundo,
    Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

    Amo-te em cada dia, hora e segundo:
    À luz do sol, na noite sossegada.
    E é tão pura a paixão de que me inundo
    Quanto o pudor dos que não pedem nada.

    Amo-te com o doer da velhas penas;
    Com sorrisos, com lágrimas de prece,
    E a fé da minha infância, ingénua e forte.

    Amo-te até nas coisas mais pequenas.
    Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
    Ainda mais te amarei depois da morte.




    Elizabeth Barrett Browning

    8 de Março de 2008

    * Indelével Saudade * poema de EUCLIDES CAVACO







    Eu choro nos meus versos a saudade
    Que é dos ausentes a eterna companheira
    Como parte do seu ser que sempre há-de
    Ser uma angústia que alimenta a vida inteira.



    Deixei chorar minha caneta de amargura
    Porque sentiu do seu poeta a emoção
    Viu que as palavras nada tinham de loucura
    Eram ditadas dum plangente coração...



    E a caneta vai chorando em cada dia
    Da minha mão sentindo a fragilidade
    Porque ela entende dum ausente a agonia!...



    São os meus versos portadores dessa ansiedade
    Feita palavra...É filha da nostalgia
    À qual nós demos o nome de Saudade !...




    Euclides Cavaco

    * FIVE O'CLOCK TEAR * poema de EMANUEL FÉLIX







    Coisa tão triste aqui esta mulher
    com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
    com seus olhos voando devagar sobre a mesa
    para pousar no talher
    Coisa mais triste o seu vaivém macio
    p'ra não amachucar uma invisível flora
    que cresce na penumbra
    dos velhos corredores desta casa onde mora

    Que triste o seu entrar de novo nesta sala
    que triste a sua chávena
    e o gesto de pegá-la

    E que triste e que triste a cadeira amarela
    de onde se ergue um sossego um sossego infinito
    que é apenas de vê-la
    e por isso esquisito

    E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
    seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
    o álbum a mesinha as manchas dos retratos

    E que infinitamente triste triste
    o selo do silêncio
    do silêncio colado ao papel das paredes
    da sala digo cela
    em que comigo a vedes

    Mas que infinitamente ainda mais triste triste
    a chávena pousada
    e o olhar confortando uma flor já esquecida
    do sol
    do ar
    lá de fora
    (da vida)
    numa jarra parada


    EMANUEL FÉLIX

    (in "A Palavra O Açoite", 1977)

    20 de Fevereiro de 2008

    EM BUSCA DO AMOR de Florbela Espanca




    O meu Destino disse-me a chorar:
    " Pela estrada da Vida vai andando,
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amor, que hás-de encontrar. "

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando...
    E noite e dia, à chuva e ao luar,
    Fui sempre caminhando e perguntando ...

    Mesmo a um velho eu perguntei : " Velhinho,
    Viste o Amor acaso em teu caminho ? "
    E o velho estremeceu...olhou ...e riu...

    Agora pela escada, já cansados,
    Voltam todos pra trás desanimados ...
    E eu paro a murmurar : " Ninguém o viu"! ..."


    FLORBELA ESPANCA

    8 de Fevereiro de 2008

    * SONETO * poema der E.E.Cummings (E.U.A)





    Não será sempre assim... Quando não for,
    Quando teus lábios forem de outro; quando
    No rosto de outro o teu suspiro brando
    Soprar; quando em silêncio, ou no maior

    Delírio de plavras desvairando,
    Ao teu peito o estreitares com fervor;
    Quando, um dia, em frieza e desamor
    Tua afeição por mim se for trocando:

    Se tal acontecer, fala-me. Irei
    Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
    " Goza a ventura que já gozei".

    Depois, desviando os olhos, de improviso,
    Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
    Cantar no meu perdido paraíso.


    Tradução de : Manuel Bandeira

    Livro: Rosa do Mundo

    4 de Fevereiro de 2008

    * Á Cara Metade * poema de ADRIANO FERREIRA





    É na paz do teu olhar, cheio de amor:
    No arroubo da sua luz, que me ilumina:
    No seu fulgor ingénuo de menina,
    Onde embate meu ego, com fragor!

    É nesse mar imenso de ternura;
    No amplexo envolvente da sua calma,
    Onde se espalha a pureza da tua alma
    E onde mergulha a minha e se depura!

    Quando, um dia, decrépito, no fim,
    Já muito perto da última viagem,
    Rezarei para estares junto a mim.

    E no meu leito de morte, moribundo,
    Gravarei, nas pupilas, tua imagem
    -Meu doce guia, lá no outro mundo.



    ADRIANO FERREIRA

    Poeta da ilha de S.Maria - Açores

    27 de Janeiro de 2008

    Fernando Pessoa




    Tenho tanto sentimento
    Que é frequente persuadir-me
    De que sou sentimental,
    Mas reconheço, ao medir-me,
    Que tudo isso é pensamento,
    Que não senti afinal.

    Temos, todos que vivemos,
    Uma vida que é vivida
    E outra vida que é pensada,
    E a única vida que temos
    É essa que é dividida
    Entre a verdadeira e a errada.

    Qual porém é verdadeira
    E qual errada, ninguém
    Nos saberá explicar;
    E vivemos de maneira
    Que a vida que a gente tem
    É a que tem que pensar.

    12 de Janeiro de 2008

    * BRUMAS * Poema de Vitor Cintra





    Nas brumas dos meus silêncios
    Nascem visões encantadas,
    Com ninfas, bruxas e fadas,
    Sonhos de amor, sempre densos.

    Nas brumas dos meus silêncios,
    Onde os mistérios são nada,
    Surgem paixões exaltadas,
    Feitas desejos, imensos.

    Nascem lembranças, eivadas
    De sensações adiadas
    E cheiros breves, intensos,

    Sem ilusões ansiadas,
    Em desespero, guardadas
    Nas brumas dos meus silêncios.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    7 de Janeiro de 2008

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"





    Montei minhas asas brancas
    e corri
    para ti
    à velocidade do amor
    ...fugias louca
    rubra
    informe
    mais célebre
    mais célebre ainda
    mas num amplexo
    parido
    na furia
    do meu desejo
    absorvi
    teu corpo
    espuma ...

    Desapareceste
    de meus braços
    teu cheiro teu som
    teu eco se desfez no horizonte
    em pó em vento em nada

    Derrotado
    Inerte



    Fernando Monteiro

    Do livro " Mar Branco "


    Ilha de S.Maria - Açores

    2 de Janeiro de 2008

    " NÓS "
    poema de VITOR CINTRA




    P'ra todos nós o segredo
    Duma vivência serena,
    Vem de mão dado co'o medo;
    Que torna a vida pequena,
    Atroz.

    Quantos de nós fomos reis
    Duma utopia sem par?
    Quantos ditámos as leis
    Num reino de imaginar? ...
    Sem voz! ...

    Quantos de nós fomos pajens
    Dalgum senhor que há nos sonhos?
    Quantos fizemos viagens
    Rasgando mundos medonhos? ...
    Mas sós! ...

    Quantos de nós, por desejo
    De desvendar o mistério,
    Fomos perdendo o ensejo
    De ver aquilo que é sério,
    Em nós? ...




    Vitor Cintra


    do Livro " Murmúrios "

    20 de Dezembro de 2007

    ** RESPEITO **poema de VITOR CINTRA









    Pelas beiras dos caminhos
    Sabe Deus quantos velhinhos
    Andarão neste Natal,
    Sem que o mundo à sua frente
    Lhes prometa que o presente
    Não será sempre o normal.

    Quando o hoje é semelhante
    Ao passado, já distante,
    Como o ontem foi igual,
    O futuro não existe
    Num presente, que é tão triste,
    Sem prever melhor final.

    O saber de muitos povos
    Determina que os mais novos
    Reconheçam no idoso,
    Na velhice, ter direito
    A viver com mais respeito
    E uns anos de repouso.

    Mas serão tão atrasados
    Esses povos, apontados
    Como gente mais selvagem?...
    Ou será que o ocidente,
    Se tornou tão indif'rente,
    Que resusa aprendizagem? ...


    VITOR CINTRA
    " Relances "

    16 de Dezembro de 2007

    " SANTA MARIA "
    poema de * BEATRIZ BRAGA *

    Ilha de S.Maria - Açores





    Santa Maria,
    barco meu,
    que no oceano flutua.
    E nós, eu e tu
    à deriva, sem destino
    vamos como que
    a dar sentido,
    à minha sina... à tua ...
    És tudo p'ra mim,
    és a flor,
    és estrela,
    és jardim ...
    És sol, és lua,
    És meu lar,
    minha terra, meu mundo,
    minha vida, minha rua.
    Mas tu barco meu
    continuarás tua viagem,
    enquanto eu
    em breve te deixarei,
    pois sou uma simples tripulante,
    que por cá está de passagem.
    Mas o que importa, eu grito,
    grito-o com alegria:
    Sou filha tua,
    filha de Santa Maria,
    desse barco que flutua ! ...



    Autoria de : BEATRIZ BRAGA
    do Livro:
    " Musas da Minha Terra " de Adriano Ferreira

    12 de Dezembro de 2007

    * TEUS LÁBIOS * poema de VITOR CINTRA





    Teus lábios carnudos,
    Macios, veludo,
    Poemas de cor,
    Ainda que mudos
    Revelam, em tudo,
    Desejos, ardor;

    Em tempos tristonhos,
    Por falta, suponho,
    Das juras de amor,
    Teus lábios risonhos,
    Despertam o sonho,
    São beijos de flor.




    VITOR CINTRA

    do livro " Murmúrios "

    11 de Dezembro de 2007

    " DIZEM "
    Poema de Israel do poeta Hathan Zakh ( n.1930)




    Aquele que tropeçou, tropeçou
    dizem
    que aquele que traiu traiu
    dizem
    que aquele que está só está só
    dizem
    que aquele que esqueceu esqueceu
    dizem
    que aquele que não está contigo
    dizem que se foi embora
    dizem que esqueceu



    Tradução de : CECÍLIA MEIRELES

    10 de Dezembro de 2007

    SIDÓNIO BETTENCOURT poema " RESIGNAÇÃO "






    O tédio esta manhã, a ilha descoberta trazendo o mesmo cheiro amargo.
    a atmosfera sem pintura.o navio.o mar ao largo. o voo da gaivota sem ternura

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    O vulcão em banho de broa. o amor apertado na lança. cantarei contigo sempre à toa do lado azul da esperança.

    Lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    raiz em envelope fechado. sagrado, feito emoção. isto não tem fim, não... no meio o mar, o grito. a balada. a força da razão

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor,

    tudo aceite.


    Sidónio Bettencourt

    Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

    8 de Dezembro de 2007

    HORAS RUBRAS poema de Florbela Espanca








    Horas profundas, lentas e caladas,

    Feitas de beijos sensuais e ardentes,

    De noites de volúpia, noites quentes

    Onde há risos de virgens desmaiadas ...


    Ouço as olaias rindo desgrenhadas...

    Tombam astros em fogo, astros dementes.

    E do luar os beijos languescentes

    São pedaços de prata pelas estradas ...


    Os meus lábios são brancos como lagos...

    Os meus braços são leves como afagos,

    Vestiu-os o luar de sedas puras ...


    Sou chama e neve branca e misteriosa...

    E sou, talvez, na noite voluptuosa,

    Ó meu Poeta, o beijo que procuras !



    Florbela Espanca

    4 de Dezembro de 2007

    CEGUEIRA DA AMOR de Meleagro (sec.II-I a.C)





    Um caso singular
    mas sempre verdadeiro:
    se poiso em ti o olhar
    -abranjo o mundo inteiro ! ...

    Porém, ó fado torvo e prepotente,
    porém, ó sorte perra e negredada,
    se tu não vens, e passa toda a gente,
    Cego de repente
    - Já não vejo nada! ...



    Trad:Augusto Gil

    30 de Novembro de 2007

    O BEIJO poema da Grécia- Poeta anónimo

    Um rapaz beijou-me ontem à tarde
    E o seu beijo era um vinho perfumado
    Tão longamente bebi nesses lábios o vinho do amor
    que ainda agora me sinto embriagado.


    Trad: Jorge Sousa Braga

    24 de Novembro de 2007

    Daniel Gonçalves do livro
    * O AFECTO DAS PALAVRAS *

    Se precisares de mim estou sob o teu ventre
    trazendo da terra a água para o teu coração

    quero que respires como a nossa ameixieira
    e como ela te ergas sobre o rosto da manhã

    quero que ouças o meu sangue dentro de ti
    como um relógio marcando o pulso da sede

    e que nesse sopro de música saibas o amor
    e nem uma palavra te atravesse a respiração



    DANIEL GONÇALVES
    ilha de S. Maria - Açores

    22 de Novembro de 2007

    Coisas de Chat

    Recebido por e-mail



    Oi, quer teclar?
    Podemos tentar...
    De onde você é? Quantos anos? O que faz? Do que gosta?
    Nossa... quanta pergunta!
    Tudo bem, eu exagerei, acho que lhe assustei.
    Aí eu conversei com ele... um dia, dois dias... um ano...
    Um verão... um outono...
    Era pela manhã no começo... depois viramos tudo pro avesso
    Era de tarde... de noite... de madrugada,
    Não tinha mais hora marcada.
    Eu corria pro computador e quando não o encontrava...
    Ai que dor!
    Eu gostava das suas palavras...
    Até daquela risada que eu não podia ouvir,
    Mas que o meu coração podia sentir.
    Oieeeeee... tava te esperando!!!
    Oi amor... eu tava trabalhando
    Escrevi uma coisinha pra você, quer ver?
    Claro, pode mandar, eu sei que vou gostar.
    " Quando amanhece o dia e você não vem,
    O meu sol não brilha e eu choro pela falta da sua companhia."
    Ah... que lindo... tô aqui lhe sentindo!
    Como o amor virtual... não tem igual
    A gente diz tudo que pensa, tudo que precisa,
    Tudo que é permitido e até o que é proibido.
    Ele é bonito, ela é maravilhosa,
    Ele é sensual, ela é gostosa.
    Ele é inteligente, ela tem um jeitinho carente
    Ele é alegre, ela é ciumenta, ele anima, ela movimenta.
    Amor... eu tô com saudade
    Eu também, tô até com vontade...
    Hum...então vamu lá... tô pronta pra começar!
    Era sexo virtual toda hora
    E era gostoso... virava uma história.
    Era fantasia misturada com alegria
    Mas também rolava amor...
    E quando acabava, restava um gostinho de dor.
    É que não tinha em seguida o aconchego
    Nem o cigarro...
    Clicava-se num botão
    E apagava-se a emoção.
    Mas amanhecia o dia... e de novo,
    Nos fazíamos companhia.
    É, esse danado de amor virtual viciiiiia!
    A gente fica dependente daquele carinho
    Daquele ninho
    Daquele amor eletrônico
    Daquele carinho astronômico.
    Oi Amor!
    Oi meu bem...
    Hummmm...
    O que você tem? Tô sentindo uma tristezazinha...
    É ... tô na minha
    Vontade de lhe tocar... de lhe ver e de lhe beijar
    ...E nessa hora era uma chateação.
    Porque eu o tinha, mas ele não era meu,
    Eu era dele, mas ele não me tinha...
    Ô coisa complicadinha.
    Era um amor virtual, mas era real...
    Todo dia de manhã o meu sorriso se iluminava
    Antes de tomar café eu já conectava
    E quando puxava meus mails
    Nem queria saber de quem veio
    Ia direto na listinha do correio
    Procurando o seu e-mail...
    Até que saltava aos meus olhos
    *sempreseu@hotmail.com*
    Meu amor, hoje vou demorar a aparecer,
    Tô com trabalho até morrer...
    Mas prometo... não vou lhe esquecer.
    Daquelas palavras eu me alimentava
    Eu as comia, eu as bebia, eu as sonhava.
    Escrevia um, dois, três... dez mails por dia
    Era uma agonia.
    O assunto não terminava
    Mas se eu quisesse dava pra resumir
    E em bem poucas palavras...
    Eu o amava!
    A gente tinha uma afinidade
    Uma sintonia, um amor tão grande.
    Uma eterna energia...
    Fazíamos planos... vivíamos de sonhos.
    Tinha hora que parecia
    Que tudo ia ser verdade... que bobagem.
    Um dia ele me falou:
    Lindinha, tenho tanto medo de perder o seu amor
    De você se afastar
    De me fazer perceber que tudo acabou...
    Eu respondi:
    Benzinho, não tem mais solução
    Sem você não vivo mais,
    Portanto pode ficar em paz, não vou me afastar... com isso pode contar.
    Era tão bom saber que ele tinha essa preocupação,
    Porque eu todo dia pensava:Ai meu Deus, e se ele arruma uma namorada?
    Minha vida estaria acabada!
    Bonequinha, esse fim de semana vou viajar, uns amigos vou encontrar
    Ah, eu queria estar lá...
    Adoraria lhe levar!
    Aí nesse fim de semana eu ficava amargurada
    Até chorava...Uma saudade, uma solidão
    Um medo... uma insatisfação...
    Navegava em sites de poesias
    Fazia umas rimas e sofria.
    Entrava em sites de horóscopos
    Mapa astral, anjos e o escambal
    Tudo pra ver se aquela nossa relação era normal.
    E quando finalmente chegava segunda-feira
    Eu esquecia toda aquela besteira.
    Amorzinhoooooooooooo!!!!!
    Que saudade... nem valeu a pena a viagem,
    Longe de você é desse jeito...
    Nada fica perfeito.
    Aí nesse dia comecei a pensar...
    Que coisa estranha...
    Onde nessa história é o meu lugar?
    Pois se vivemos sempre longe
    Se nem nos conhecemos...
    Por quê tanto sofremos?
    Acho que ele pensou igual,
    Começamos a nos afastar
    Sem nada dizer
    Sem nada reclamar
    sempre seu...
    Acabou sendo uma ilusão que morreu...
    Mas ainda hoje eu me lembro dele
    Com saudade... com carinho e com amizade.
    É , foi assim... ele passou por mim
    E eu fui atrás... e foi bom demais.
    E você? Já viveu isso? Ou não?
    Fala a verdade... abre seu coração!



    Recebido por E-mail

    20 de Novembro de 2007

    ENTRE SER E PERECER poema de * Ahmad Chamlu* do Livro Rosa do Mundo




    Entre ser e perecer recitávamos uma fábula,
    Tão leve ao vento como uma pluma-parábola;
    No seu sentido jazia todo o nosso viver.
    Voaram com ele a pluma e a fábula.


    Trad: Kurt Scharf

    14 de Novembro de 2007

    SELO DE AMOR poema de GUEVARA ( séc.XV)




    Aquelas noites penosas
    meditando em bem amar-vos,
    com palavras dolorosas
    eu jurei nunca deixar-vos:
    estando neste dulçor
    de agradável pensamento,
    eu não tendo mal de amor
    selei este vencimento.
    Eu selei em vós vencer-me,
    não me vencer por errores,
    e selei, selei perder-me
    por vossos lindos amores:
    e selei obras iguais
    ao meu viver,
    e selei que nunca mais,
    nem dos males, me arrepender.
    E selei sempre seguir-vos,
    pelo não, não ser queixoso,
    e selei, meu bem, servir-vos,
    de bom grado, o mais gracioso:
    e selei a morte e a vida
    sendo contente e loução,
    selei que a minha ferida
    merecesse a vossa mão.
    E selei suplícios faltos
    do peso que não venceu,
    e selei suspiros altos
    para o vosso servo eu:
    e selei triste tormento,
    tormento que me atormenta
    e selei viver contento
    se de tudo sois contenta.


    Tradução de José Bento

    7 de Novembro de 2007

    LÁGRIMA DE PRETA poema de António Gedeão






    Encontrei uma preta
    que estava a chorar,
    pedi-lhe uma lágrima para a analisar.


    Recolhi a lágrima
    com todo o cuidado
    num tubo de ensaio
    bem esterilizado.

    Olhei-a de um lado,
    do outro e de frente:
    tinha um ar de gota
    muito transparente.


    Mandei vir os ácidos,
    as bases e os sais,
    as drogas usadas
    em casos que tais.

    Ensaiei a frio,
    experimentei ao lume,
    de todas as vezes
    deu-me o que é costume:
    nem sinais de negro,
    nem vestígios de ódio.

    Água (quase tudo)
    e cloreto de sódio.




    António Gedeão

    3 de Novembro de 2007

    SUPREMO ENLEIO poema de Florbela Espanca





    Quanta mulher no teu passado, quanta!
    Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
    Se delas veio o sonho que conforta,
    A sua vinda foi três vezes santa!


    Erva do chão que a mão de Deus levanta,
    Folhas murchas de rojo à tua porta...
    Quando eu for uma pobre coisa morta,
    Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!


    Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
    Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
    Masmo na boca da que for mais linda!


    E quando a derradeira, enfim, vier,
    Nesse corpo vibrante de mulher
    Será o meu que hás-de encontrar ainda ...



    FLORBELA ESPANCA

    27 de Outubro de 2007

    A RECUSA DAS IMAGENS EVIDENTES poema de NATÁLIA CORREIA


    Há noites que são feitas dos meus braços
    E um silêncio comum às violetas.
    E há sete luas que são sete traços
    De sete noites que nunca foram feitas.

    Há noites que levamos à cintura
    Como um cinto de grandes borboletas.
    E um risco a sangue na nossa carne escura
    Duma espada à bainha dum cometa.

    Há noites que nos deixam para trás
    Enrolados no nosso desencanto
    E cisnes brancos que só são iguais
    À mais longínqua onda do seu canto.

    Há noites que nos levam para onde
    O fantasma de nós fica mais perto;
    E é sempre a nossa voz que nos responde
    E só o nosso nome estava certo.

    Há noites que são lirios e são feras
    E a nossa exactidão de rosa vil
    Reconcilia no frio das esferas
    Os astros que se olham de perfil.


    Natália Correia

    23 de Outubro de 2007

    ÀS MÃES poema de Vitor Cintra

    ÀS MÃES


    A mãe é, p'ra cada um,
    O maior ser de excepção,
    Com lugar no coração,
    Mais sagrado que nenhum.

    A mãe, é por mil razões,
    O padrão do Universo,
    Mesmo quando controverso
    Seu saber e decisões.

    São angústias que supera,
    Desencantos, até vícios,
    P'lo carinho que nos tem.

    Desde o ventre, que nos gera,
    Não se poupa a sacrifícios,
    Porque mãe, é sempre Mãe.


    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    AMOR FILIAL de José Maria Lopes de Araújo


    AMOR FILIAL




    É sempre ditosa e feliz
    Toda a mãe que um filho tem
    E que viver a vida quis
    Só para amar sua mãe...


    Ainda que, um dia, a parca
    O arranque do seu lar;
    Na alma da mãe fica a marca
    Dum amor que não tem par!


    Mãe, se é grande a tua dor
    Que se envolve em negro véu ...
    É bem maior o amor
    Das filhas que tens no Céu !


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
    do livro " Labaredas "

    18 de Outubro de 2007

    Arrábida poema de LG





    Ao vê-lo fico solto...
    Envolto por não sei o quê.
    O seu odor misturado com o da Serra,
    Encerra em mim algo de estranho;
    Sensação sem tamanho que estranho,
    Já que venho de uma terra onde nem as coisas pequenas se sentem

    Não mentem,
    Os ruídos provocados pelas suas ondas,
    Que lá longe se elevam sumptuosas.
    Contrastam, quais pombas, com as vidas nervosas...
    Com o cheiro das rosas... Com as vidas ocultas...
    Com as culpas e as desculpas fúteis e inúteis.

    Apenas namoram com o piar das aves;
    E este com a vigília das árvores,
    numa carinhosa orgia Natural.

    Por isso ali vou; por isso ali sonho...
    Sei que lá sou quem sou e no meu espaço me ponho.
    Por isso ali sinto; por isso ali volto...
    Sinto que não minto, porque ao vê-lo fico solto.



    LG


    2002-07-01

    5 de Outubro de 2007

    TU ? ... Poema de José Maria Lopes de Araújo





    Tu,
    E a outra,
    E mais a outra,
    E quantas conheci,
    São todas iguais:
    - Mulheres …. Só mulheres,
    Simples, vulgares, banais,
    E nada, nada mais ! …


    Só por amar-te,
    Tanto e tanto,
    É que eu quisera dar-te
    - Louco sonhador –
    Um lar de encanto
    E arte,
    E poesia,
    E amor! …



    Mas, tu,
    Que nunca sofreste,
    Que nunca amaste,
    Que nunca sentiste a dor,
    E não choraste,
    E não conheceste o amor …


    Quem sabe, se és aquela que passou
    Há pouco, de mim perto, e que me olhou
    Como quem compreende o que padeço?


    - Sei lá! Sei lá ! – Que me importa, lá saber!
    Apenas sei que há tanto ando a sofrer,
    Por ti, mulher que adoro e não conheço !...


    José Maria Lopes de Araújo

    1 de Outubro de 2007

    BEIJO poema de Manuel Altolaguirre "Espanha"




    BEIJO




    Que só estavas por dentro !



    Quando surgi em teus lábios,

    um rubro túnel de sangue

    triste e escuro mergulhava

    até ao fim da tua alma.


    Quando penetrou meu beijo,

    seu calor, sua luz davam

    sobressaltos e tremores

    à tua carne surpreendida.


    Desde esse instante os caminhos

    que levam à tua alma

    mão queres que estejam desertos.


    Quantas flechas, peixes, pássaros

    Quantas carícias e beijos !



    Tradução de : José Bento




    25 de Setembro de 2007

    Poemas oriundos da INDIA do Livro * Rosa do Mundo *







    Esta mesma lua ilumina a minha amada
    O vento acariciou já o seu rosto
    A lua impregnou-se da sua beleza
    e o vento do seu perfume.

    Quem ama de verdade pouco lhe basta
    para suportar a separação...
    Que ela e eu respiremos o mesmo ar
    E que os nossos pés pisem o mesmo chão.




    Tradução de Jorge Sousa Braga

    20 de Setembro de 2007

    GOSTO DE GENTE ASSIM autoria de Arthur de Tavola






    Gosto de gente com a cabeça no lugar,
    de conteúdo interno,
    idealismo nos olhos e
    dois pés no chão da realidade



    Gosto de gente que ri
    chora,
    se emociona com uma simples carta,
    um telefonema,
    uma canção suave,
    um bom filme,
    um bom livro,
    um gesto de carinho,
    um abraço,
    um afago.


    Gente que ama e curte saudades,
    gosta de amigos,
    cultiva flores,
    ama os animais,
    admira paisagens,
    poesia e escuta.


    Gente que tem tempo
    para sorrir bondade,
    semear perdão,
    repartir ternuras,
    compartilhar vivências
    e dar espaço
    para as emoções dentro de si,
    emoções que fluem
    naturalmente de dentro
    do seu ser!


    Gente que gosta de
    fazer coisas que gosta,
    sem fugir de compromissos
    difíceis e inadiáveis,
    por mais desgastantes que sejam.


    Gente que colhe
    orienta,
    se entende,
    aconselha,
    busca a verdade
    e quer sempre aprender,
    mesmo que seja de uma criança,
    de um pobre,
    de um analfabeto.




    Gente de coração desarmado,
    sem ódio e preconceitos baratos,
    com muito amor dentro de si.




    Gente que erra e reconhece,
    cai e se levanta,
    apanha e assimila os golpes,
    tirando lições dos erros
    e fazendo redentora
    suas lágrimas e sofrimentos.




    Gosto muito de gente assim...
    E desconfio que é deste
    tipo de gente que
    Deus também gosta!


    Arthur de Tavola

    19 de Setembro de 2007

    " Encanto de Amor " de Atharva-Veda

    Encanto de Amor

    Como a liana enlaça a árvore, enlaça-me também, sê a minha amante e não te afastes de mim!

    Como a águia ao levantar voo bate no chão com as asas, bato no teu coração: sê a minha amante e não te afastes de mim!

    Como o sol cinge no mesmo dia o céu e a terra, cinjo o teu coração: sê a minha amante e não te afastes de mim !



    Tradução de: Maria Jorge Vilar de Figueiredo

    15 de Setembro de 2007

    VONTADE DE UM ABRAÇO poema da autoria de Macedo Junior TROVADOR.PR





    Dá um abraço?
    Macedo Junior (TrovadorPR)





    De repente deu vontade de um abraço...
    Uma vontade de entrelaço, de proximidade...
    de amizade... sei lá...


    Talvez um aconchego amigo e meigo,
    que enfatize a vida e amenize as dores...
    Que fale sobre os amores,
    seja afetuoso e ao mesmo tempo forte.


    Deu vontade, de poder ter saudade de um abraço.
    Um abraço que eternize o tempo
    e preencha todo espaço...
    Mas que faça lembrar do carinho,
    que surge, devagarinho,
    da magia da união dos corpos,

    das auras... sei lá.


    Lembrar do calor das mãos,
    acariciando as costas a dizer:
    - Estou aqui!


    Lembrar do enlaçar dos braços,
    envolventes e seguros,

    afirmando: - Estou com você!.


    Lembrar da transfusão de forças,
    ou até da suavidade do momento... sei lá...


    Então,pensei em como chamar esse abraço:
    abraço poesia, abraço força,abraço união,

    abraço suavidade,abraço consolo e compreensão,
    abraço segurança e justiça, abraço verdade,
    abraço cumplicidade?


    Mas o que importa é a magia deste abraço!
    A fusão de energias, que harmoniza,
    integra o todo e se traduz no cosmos,
    no tempo e no espaço...


    Só sei que agora deu vontade desse abraço.
    Um abraço que desate os nós,
    transformando-os em envolventes laços.


    Que sirva de colo, afastando toda e qualquer angústia.
    Que desperte a lágrima de alegria,
    e acalme o coração...


    Um abraço que traduza a amizade,
    o amor e a emoção....


    E para um abraço assim ,
    Só consegui pensar em você!

    Nessa sua energia,
    nessa sua sensibilidade,
    que sabe entender o por quê,
    dessa minha vontade.


    Pois então:


    Dá logo este abraço!

    Poema da autoria do Poeta MACEDO JUNIOR ( TrovadorPR)


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    Este Poema foi publicado neste blog em 2005.
    Alguns dos comentários, vêm desde essa altura.

    Relembro o meu querido amigo Fernando do Blog " FRATERNIDADE " que já não se encontra entre nós.

    Nessa altura, publiquei o poema desconhecendo a sua autoria.
    Após o alerta , volto a republica-lo, e a dar o devido mérito ao seu autor
    MACEDO JUNIOR (TrovadorPR)




    8 de Setembro de 2007

    Não Posso Adiar o Amor poema de" António Ramos Rosa "



    Não posso adiar o amor para outro século
    não posso
    Ainda que o grito sufoque na garganta
    ainda que o ódio estale e crepite e arda
    sob montanhas cinzentas

    Não posso adiar este abraço
    que é uma arma de dois gumes
    amor e ódio

    Não posso adiar
    ainda que a noite pese séculos sobre as costas
    e a aurora imprecisa demore
    não posso adiar para outro século a minha vida
    nem o meu amor
    nem o meu grito de libertação

    Não posso adiar o coração.


    ANTÓNIO RAMOS ROSA
    do Livro " Rosa do Mundo *

    4 de Setembro de 2007

    do Livro * Rosa do Mundo *

    Amor, não sei quem diria
    amarga a tua doçura:
    o teu sabor delicia
    como o da fruta madura.
    Casa onde a alegria habita,
    fora mil vezes bendita,
    contigo, exulto!
    Quero-te assim, qual tu és:
    meu coração, a teus pés,
    rende-te culto.


    Tradução de Luiz Cardim

    Reino Unido -(Poeta Anónimo )

    Séc. XVI

    29 de Agosto de 2007

    O MEU DESEJO poema de Florbela Espanca




    Vejo-te só a ti no azul dos céus,
    Olhando a nuvem de oiro que flutua...
    Ó minha perfeição que criou Deus
    E que num dia lindo me fez sua!

    Nos vultos que diviso pela rua,
    Que cruzam os seus passos com os meus...
    Minha boca tem fome só da tua!
    Meus olhos têm sede só dos teus!

    Sombra da tua sombra, doce e calma,
    Sou a grande quimera da tua alma
    E, sem viver, ando a viver contigo...

    Deixa-me andar assim no teu caminho
    Por toda a vida, Amor, devagarinho,
    Até a Morte me levar consigo ...



    Florbela Espanca

    26 de Agosto de 2007

    Almada Negreiros " MÃE "



    Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


    Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede ! Eu prometo saber viajar .

    Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

    Mãe!Ata as tuas mãos ás minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.


    Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


    Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade !



    Almada Negreiros

    (1893-1970)


    Do Livro " ROSA DO MUNDO "

    23 de Agosto de 2007

    CANTO DE AMOR DE UM JOVEM do livro * A ROSA DO MUNDO *

    Cada vez que como, como a dor do teu amor.
    Cada vez que tenho sono, sonho com o teu amor.
    Cada vez que estou em casa deitado de costas,
    estou deitado sobre a dor do teu amor.
    Cada vez que ando, ponho o pé sobre a dor do teu amor.




    Poema da América do Norte, Kwakiudes

    Versão : Herberto Helder

    14 de Agosto de 2007

    BEL poema de " Luís Veiga Leitão "








    Hálito de terra depois da chuva:

    cálida ternura

    aflorando

    do lábio


    Teu corpo

    leveza que pesa

    um sabor sábio

    secreto

    da Natureza


    Por isso os bichos te amam

    em suas falas naturais:

    os felinos

    os caprinos

    e os poetas - bichos marginais





    Luís Veiga Leitão

    " Biografia "Poema de PEDRO HOMEM DE MELO











    Com lírios nas mãos de neve,


    Subi ao último andar,


    A haver farda, era tão leve


    Que fui subindo a cantar!


    E fui subindo, subindo...


    Só parei no patamar,


    Abri as portas e janelas


    Para poder respirar.


    Tudo o que se via delas


    Tinha a cor do meu olhar.


    Da varanda me inclinei,


    Para medir-lhe o tamanho.


    Ai! dos vassalos de El-Rei


    Aos quais El-Rei fica estranho!


    Lá do alto, cá em baixo, o rio


    Transformara-se em regato.


    Reparei que, debruçadas,


    Sobre o seu leito vazio,


    Faias, apontando espadas,


    Lhe exigiam um retrato.


    Soprou, de súbito, o vento!


    Varreu a noite a direito,


    Rindo... Que risada fria!


    Entanto o solar, ao vento,


    Erecto fazendo peito,


    Resistia, resistia...


    Mas, das brechas do telhado,


    Água, sôfrega, escorrera.


    E o torreão do solar


    - Ameias de pedra ou cera?


    Era um pássaro assustado


    Sem asas para voar.











    Pedro Homem de Mello


    (1904-1984)

    6 de Agosto de 2007

    Poema " CONDENADO " autorida de LG



    CONDENADO



    Acordei,
    de manhã,
    sulcando estranha sensação.
    Desconforto,
    meio morto,
    sem visão.
    Desconcertado,
    anestesiado,
    mal-encontrado,
    enferrujado
    um condenado.

    Quando enfim
    Despertei,
    vi em mim o que não gostei.
    Um artista
    de cinema e de ficção
    que predestina,
    que imagina
    e alucina
    o inatingível,
    o impossível,
    nada de crível.

    Acordado
    de verdade
    sentindo o frio e a cidade,
    sinto ainda que dormito.
    Almofada
    transformada
    em mesa de sonhos,
    horrores medonhos
    predestinados,
    imaginados,
    alucinados.



    autoria de LG

    2 de Agosto de 2007

    CANÇÃO poema de Madagascar do Livro * Rosa do Mundo *








    És uma fruta dourada, uma banana madura.
    Se uma borboleta te roça, eu não me afasto de ti.
    - Todo aquele que morre por amor de sua amada
    é um pequeno caimão que a própria mãe devora,
    e que regressa ao ventre de que tem toda a ciência.



    Versão : Herberto Helder






    26 de Julho de 2007

    Tarde de Mais... FLORBELA ESPANCA






    Quando chegaste enfim, para te ver
    Abriu-se a noite em mágico luar;
    E para o som de teus passos conhecer
    Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...



    Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
    Viu-se nessa hora o que não pode ser:
    Em plena noite, a noite iluminar
    E as pedras do caminho florescer!



    Beijando a areia de oiro dos desertos
    Procurara-te em vão! Braços abertos,
    Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!



    E há cem anos que eu era nova e linda!...
    E a minha boca morta grita ainda:
    Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...



    Florbela Espanca

    22 de Julho de 2007

    JOSÉ ANDRADE " Uma Ilha é Um Barco "









    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Que estremece ardentemente
    Nas tempestades da vida.

    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Na espera desesperante
    De um destino esquecido.

    Uma ilha é um barco
    Ancorado
    Onde o Mundo Moderno
    Descansa, fatigado.

    Uma ilha é um barco
    Somente
    Mas um barco celeste
    Que com o mundo equilibra
    O sentido da vida
    E a vida sentida.

    Uma ilha é um barco
    Uma ilha é um mundo.





    Jun/83

    José Andrade

    P. Delgada - Ilha de S.Miguel - Açores

    Do livro " Semente "

    14 de Julho de 2007

    A NOSSA CASA poema de Florbela Espanca






    A nossa casa, Amor, a nossa casa!
    Onde está ela, Amor, que não a vejo?
    Na minha doida fantasia em brasa
    Constrói-a, num instante, o meu desejo!


    Onde está ela, Amor, a nossa casa,
    O bem que neste mundo mais invejo?
    O brando ninho aonde o nosso beijo
    Será mais puro e doce que uma asa?

    Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
    Andamos de mãos dadas, nos caminhos
    Duma terra de rosas, num jardim,


    Num país de ilusão que nunca vi...
    E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
    E tu, ó meu Amor, dentro de mim...



    Florbela Espanca

    8 de Julho de 2007

    LAMENTO AMOROSO Poema oriundo da Amazónia do Livro * Rosa do Mundo *






    Não quero mulher que tenha
    muito delgadas as pernas,
    como venenosas serpes,
    de medo que elas me apertem.

    Não quero mulher que tenha
    muito comprido o cabelo,
    um molho de ervas espesso
    onde acaso eu me perca.

    Quando sem vida me veres,
    sobre o meu corpo não choraes;
    deixa que a águia ao ver-me
    seja a única que me chore.

    Quando sem vida me veres,
    deita-me á floresta negra:
    o tatu há-de vir ver
    a cova onde meter-me


    Versão : Herberto Helder

    4 de Julho de 2007

    AS PUTAS DA AVENIDA poema de Fernando Assis Pacheco





    Eu vi gelar as putas da Avenida
    ao griso de Janeiro e tive pena
    do que elas chamam em jargão a vida
    com um requebro triste de açucena.


    Vi-as às duas e às três falando
    como se fala antes de entrar em cena
    o gesto já compondo à voz de mando
    do director fatal que lhes ordena.


    Essa pose de flor recém- cortada
    que para as mais batidas não é nada
    senão fingirem lírios de Lorena


    Mas a todas o griso ia aturdindo
    e eu que do trabalho vinha vindo
    calçando as luvas senti pena.



    Do Livro * Rosa do Mundo *



    27 de Junho de 2007

    AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS do livro * Rosa do Mundo *




    AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS



    Guarda para ti esse beijo
    Menina virgem dos dentes brancos!
    Nesse teu beijo eu gosto não acho
    Longe de mim guarda teus lábios.


    Mais doce que o mel um beijo eu tive
    Do mulher casada que o deu por amor.
    Até que se acabem o mundo e os dias
    Beijo de gosto só esse terei; esse não outro.


    Até que a veja tal como é em sua pessoa
    Por obra e por graça do filho de Deus
    Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
    Pois que o seu beijo é como é, foi e será.



    Poema Cultura celta ( irlandês)

    Séc. XVI/XVI

    Poeta ANÓNIMO



    Tradução de José Domingos Morais

    26 de Junho de 2007

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " D.IV"






    Se sou
    o poeta
    perdido
    no nada
    poderei parar
    o tempo perdido
    e o tempo
    que vem
    como se pára
    o vento
    como se pára
    o universo-deus

    Porque o poeta
    é o infinito
    onde a gota de água... calada
    assume a dimensão
    dum universo

    Se sou
    o poeta do nada
    poderei sonharãté ao intangivel
    e ver
    o universo
    aos pés do Nada

    Se sou
    o poeta que sofre
    então meterei
    o universo
    na gota de água ...
    da manhã da esperança




    Março 1981


    Fernando Monteiro

    do Livro " Mar Branco "

    24 de Junho de 2007

    *A DOR DA SEPARAÇÂO * Poema de Maruyama Kaoru - Japão





    Pousada numa âncora, uma gaivota pia,
    De súbito, sem uma palavra, a âncora desliza,
    Surpreendida, a gaivota levanta voo,

    Em breve, a âncora empalidece na água, afundando-se.
    E o que a gaivota sente torna-se um grito bravio, triste,

    Perdido no vento.



    Tradução de:

    José Alberto Oliveira

    Do Livro * ROSA DO MUNDO *

    20 de Junho de 2007

    * RECINTO * poema de Carlos Pellicer - México



    Onde porei o ouvido que não escute
    minha voz a chamar-te?
    E onde não escutar este silêncio
    que te afasta lentamente triste?

    Eu caminho as horas presenciadas
    em nós por nós os dois.
    Sei desse fruto maduro das vozes
    em campos de Setembro.

    Sei da noite esbelta e já tão nua
    em que os nossos corpos eram um.
    Sei do silêncio perante a gente obscura,
    de calar este amor que é de outro modo.

    Enquanto chove a ausência liberto
    a escravidão de carne e a alma só
    no ar suspende sua águia amorosa
    que as nuvens pacíficas igualam.


    Tradução de : José Bento


    do Livro * ROSA DO MUNDO *


    16 de Junho de 2007

    * NÃO CHORO... * poema de José Gomes Ferreira do Livro " ROSA DO MUNDO "



    A dor não me pertence.


    Vive fora de mim, na natureza,
    livre como a electricidade.

    Carrega os céus de sombra,
    entra nas plantas,

    desfaz as flores...

    Corre nas veias do ar,
    atrai nos abismos,

    curva os pinheiros...


    E em certos momentos de penumbra

    iguala-me à paisagem,

    surge nos meus olhos

    presa a um pássaro a morrer

    no céu indiferente.


    Mas não choro. Não vale a pena!
    A dor não é humana.



    José Gomes Ferreira

    13 de Junho de 2007

    António Botto " CANÇÃO " do Livro * ROSA DO MUNDO *





    CANÇÃO



    Se fosses luz serias a mais bela
    De quantas há no mundo : - a luz do dia !
    - Bendito seja o teu sorriso
    Que desata a inspiração
    Da minha fantasia !

    Se fosses flor serias o perfume
    Concentrado e divino que perturba
    O sentir de quem nasce para amar !
    - Se desejo o teu corpo é porque tenho
    Dentro de mim
    A sede e a vibração de te beijar!
    Se fosses água - música da terra,
    Serias água pura e sempre calma!
    - Mas de tudo o que possas ser na vida,
    Só quero, meu amor, que sejas alma !



    ANTÓNIO BOTTO
    (1897-1959)

    10 de Junho de 2007

    HORAS RUBRAS de Florbela Espanca - do Livro * ROSA DO MUNDO *




    HORAS RUBRAS


    Horas profundas, lentas e caladas,
    Feitas de beijos, sensuais e ardentes,
    De noites de volúpia, noites quentes
    Onde há risos de virgens desmaiadas…

    Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
    Tombam astros em fogo, astros dementes.
    E do luar os beijos languescentes
    São pedaços de prata pelas estradas…

    Os meus lábios são brancos como lagos…
    Os meus braços são leves como afagos,
    Vestiu-os o luar de sedas puras …

    Sou chama e neve branca e misteriosa…
    E sou, talvez na noite voluptuosa,
    Ó meu Poeta, o beijo que procuras !


    Florbela Espanca
    (1894-1930)

    6 de Junho de 2007

    * A PALAVRA IMPOSSÍVEL * poema de Adolfo Casais Monteiro






    Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim

    A vida que não se troca por palavras.

    Deram-mo para eu guardar dentro de mim

    As vozes que só em mim são verdadeiras.

    Deram-mo para eu guardar dentro de mim

    A impossível palavra verdade.


    Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,

    Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,

    Para eu guardar dentro de mim,

    Para eu ignorar dentro de mim

    A única palavra sem disfarce -

    A palavra que nunca se profere.




    ADOLFO CASAIS MONTEIRO




    do Livro * Rosa do Mundo *


    2001 Poemas para o Futuro

    4 de Junho de 2007

    A MINHA AMANTE TEM AS VIRTUDES DA ÁGUA do Poeta Francês * VICTOR SEGALEN * - Do Livro " ROSA DO MUNDO " 2001 poemas





    A MINHA AMANTE TEM

    AS VIRTUDES DA ÁGUA




    A minha amante tem as virtudes da água : um sorriso claro, os gestos fluentes, uma voz pura que canta gota a gota. - E por vezes, - sem querer – um fogo passa pelo meu olhar, sabe como ateá-lo estremecendo : água tirada sobre as brasas .

    Minha água viva, ei-la derramada, toda, sobre a terr