12 de dezembro de 2016

As minhocas ..... poema de Mário Fragoso


(Pintura de Margarida Cepeda)


As Minhocas

Pensa as cicatrizes 
Como elas chegam e restam
Moventes e imutáveis 

Grãozinhos de areia na água das tuas vertentes
E de sal no teu olhar

Verás que não só existem fendas
Para espalhar o infinito
entre uma parede e outra
Nas ruinas
Sem nunca deixar alastrar
Nem a cor da cal branca
Nem as pedras das janelas 
Seladas

O bicho não pode escapar…
Eles disseram-te
Sem pensar
Que só há humanidade em ti
Apertada na sua extravagância
E que as serpentes não são mais nada
Que minhocas venenosas

Mas…
Tu sentes-lhes os dentes
Vês
A suas peles e as suas escamas deslizarem
Perfumando-te o corpo
Com vestígios de criança que não soube fugir
Devorada pela mulher que nunca deu à luz

As minhocas predicaram-te um futuro luminoso
No nevoeiro das lembranças
E no torpor da saudade
Mas tu, guardas escondido debaixo da língua 
A intimidade da ferida
Como um mergulho 
Fora da água 
Onde elas te querem afogar

E essa cal, esse branco venceu-te
Uma vez
Sendo mais que o suficiente
Para o peso dos teus passos cavar no chão
O sulco absurdo onde tremem ossos sem carne

Agora, as ruínas pesam sobre o amanhã
E as sombras que engoliste
Borboletam nas beiras dum trilho demasiado largo
Brincando aos fantasmas
Perante a palidez da tez
Dos espelhos

As minhocas e a cabeça….
Duo improvável
Como sem querer
Deixam atrás de ti o rasto dos espectros
Esfarrapados
Que pintam de negro as tuas vertigens

Não esqueças que as grades
Onde elas te fecham
Se cortam 
Unhas voltadas para dentro

Pensa as cicatrizes
Porque eu não soube ….
Pensá-las.

Mário Fragoso

31 de outubro de 2016

Poema em Linha Recta .... Fernando Pessoa







Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de HOTEL,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa

25 de outubro de 2016

TU TENS UM MEDO de Cecília Meireles





Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.



Cecília Meireles


19 de outubro de 2016

Sonho. Não sei quem sou....Fernando Pessoa






Sonho. Não Sei quem Sou

Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
             Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
             Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contêm. 
Dorme inconsciente de alheios corações, 
             Coração de ninguém. 


Fernando Pessoa

30 de janeiro de 2016



O grande poeta VICTOR CINTRA deixou-nos.
Fica o seu legado de poemas que permanecerão através dos tempos.
Partiu o amigo. Até um dia




Sinto crescer a vontade
De perceber se o que dizes,
Entre risadas felizes,
É ou não é a verdade,
Ou só disfarça deslizes.

Sinto crescer o desejo
De te cingir nos meus braços,
P'ra te prender com abraços,
E arrancar-te num beijo
Todos os teus embaraços.

Sinto crescer a ideia
De que, bem mais do que mostras,
São bem reais as propostas
Duma visão que incendeia
Esse viver, de que gostas.





VITOR CINTRA