21 de março de 2012

Crepuscular..... Camilo Pessanha





















Há no ambiente um murmúrio de queixume, 
De desejos de amor, d'ais comprimidos... 
Uma ternura esparsa de balidos, 
Sente-se esmorecer como um perfume. 
As madressilvas murcham nos silvados 
E o aroma que exalam pelo espaço, 
Tem delíquios de gozo e de cansaço, 
Nervosos, femininos, delicados, 
Sentem-se espasmos, agonias d'ave, 
Inapreensíveis, mínimas, serenas... 
_ Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas, 
O meu olhar no teu olhar suave. 
As tuas mãos tão brancas d'anemia... 
Os teus olhos tão meigos de tristeza... 
_ É este enlanguescer da natureza, 
Este vago sofrer do fim do dia. 


CAMILO PESSANHA













19 de março de 2012

Dia do Pai...



Querido Pai,

Apesar de eu ter crescido e tu partido, continuo no íntimo a ser aquela criança, que guarda o velho relógio despertador, que um dia trouxeste para casa, para que a mãe acordasse de 3 em 3 horas para alimentar a tua menina.
Hoje é o teu dia, mas, ambos sabemos que todos os dias me lembro de ti e, tenho-te presente no meu coração.
Sinto tantas saudades tuas.
Sente um beijo meu. 


Imaria

8 de março de 2012

Palavras para a minha Mãe...José Luis Peixoto


























Mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses 
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. 
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. 

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão

1 de março de 2012

Ode ao Gato - José Jorge Letria


Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
JOSÉ JORGE LETRIA