13 de dezembro de 2006

NATAL QUE NÃO VOLTA...

Antigamente,
Quando a vida me sorria,
No tempo em que brincava,
E alegremente
Corria
E saltava…
Nesse tempo em que solteiro de ilusões
Acreditava
Nas fadas
E nos Papões…
Enfim,
Antigamente,
A vida para mim
Era bem diferente! …

O Meu Jesus
Trazia-me sempre um presente…
Um lindo brinquedo
Que eu pedia
Muito em segredo! …
… E recebia-o contente ! …



**************

Como outrora,
Eu quisera
Agora –
- Doce quimera –
- De novo encontrar
Não um brinquedo lindo
Que me pudesse encantar…
Mas, um pouco de beleza
E um pouco de alegria
Que viessem aliviar
Esta funda tristeza …
A minha melancolia …

************

E de manhã de manhãzinha,
Devagar, pé-ante-pé,
Eu corri à chaminé! …
E o meu sapato,
Nessa manhã ainda escura,
Nessa manhã de frio
E esmaecida,
Lá estava, nu , vazio,
Como anda vazia a nua
De ventura
A minha vida ! …

**************

E a minha alma sismadora,
E triste,
Triste e sonhadora,
Acalentou essa esperança
Dos meus tempos de criança,
Dos meus tempos de bebé;
Ir encontrar a ventura
Num sapato, à chaminé!!!...



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

2 de dezembro de 2006

Florbela Espanca

Saudades! Sim...talvez...e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!


Esquecer! Para quê?...Ah!como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!


Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!


E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!




Florbela Espanca

28 de novembro de 2006

AMÁLIA RODRIGUES * Quando Se Gosta de Alguém *



Quando se gosta d'alguém
Sente-se por dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente

Quando alguém gosta d'álguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto




Amália Rodrigues

18 de novembro de 2006

PARABÉNS FILHA



PAULA


Ainda ontem eras criança
Bonequinha linda , adorada,
Guardamos ainda na lembrança
O dia da tua chegada.


Primeira filha , quanta alegria,
Sentimos ao ter-te no colo
Os anos passaram por magia,
Hoje és mulher, quem diria,
Vamos festejar, com bolo.


Trinta velas vais contar,
Não são muitas, podes crer,
Muitas mais hás-de apagar
Outras tantas vais contar,
Esperamos estar cá p’ra ver.


Neste teu aniversário
Desejo sejas feliz
Que sigas o teu caminho
Com paz, amor e carinho
Que sejas muito…

Muito FELIZ!!


Muitos parabéns querida filha.


6 de novembro de 2006

ARQUIPÉLAGO Poema de Vitor Cintra



ARQUIPÉLAGO


Ilhas dos Açores,
Terra dos vulcões,
Meigas nos amores,
Loucas nas paixões.


Frei Gonçalo Velho
Fez o que podia,
Com bom senso e relho,
Por Santa Maria.


Se há em S.Miguel,
Pouca simpatia,
Só quem for cruel
Nega ver magia.


Ó ilha Terceira,
Chamam-te recreio,
Deixa! É brincadeira!
Nada tem de feio.


Diz-se do Faial,
Que quaisquer caminhos
Vão sempre, afinal,
Dar aos Capelinhos.


Pico, tão formosa
P'lo queijo e "verdelho",
Sentes-te ciosa
Desse saber velho.


Ilha das fajãs,
São Jorge dos queijos,
Gentes de almas sãs
São as que em ti vejo.


Ilha Graciosa,
Branca de apelido,
Dizes-te vaidosa.
Faz algum sentido.

Pelo bem que cheiras,
Pelas tuas cores,
Ilha das Caldeiras
Dizem que és "das Flores ".

Corvo, tão pequena,
Ergues-te à distância,
Mas neste poema,
Tens muita importância.



Vitor Cintra
"Alegorias "

2 de novembro de 2006

Para Avivar a Memória





PARA AVIVAR A MEMÓRIA

Não esqueças nunca
Este poeta
Pequenino
Que quis somente
Sempre
Dizer tudo
E nunca disse nada!

Não esqueças nunca
Cada texto
Cada verso
Cada palavra
Cada letra!

Não esqueças nunca
Como
Onde
Quando
Por que nasceu
Cada poema
Elogio
Confissão
Desejo
Ânsia
Oração
E grito!

Não esqueças nunca
Que na alma de um poeta
Há sempre uma musa!

Não esqueças nunca
Que nas veias de um poeta
Corre um sangue vermelho!

Não esqueças nunca
Que no coração de um poeta
Pequenino
Inútil
Há sempre um lugar
Para ti!



António (Veleiro)

20 de outubro de 2006

Para uma Mãe. LÚCIA




PEQUENINA

És pequenina e ris… A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa…
Haste de lírio frágil e mimoso!
Cofre de beijos feito sonho e neve…

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente…
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente…

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!



Florbela Espanca - Livro de Mágoas


.........Lindas as filhas que de ti nasceram.
Obrigada pelo amor com que criaste o meu filho.


Isabel

17 de outubro de 2006

Amizade.............. Desconheço o Autor

Que a cada amanhecer do seu dia nasça contigo uma flor.
Que cada sorriso teu, seja as pétalas que torna esta flor mais completa.
Que cada pensamento positivo, seja o caule .. que a sustenta.
Que cada passo para a vitória, seja a terra que alimenta.
Que cada gesto teu, seja o sol que fornece energia, e que o brilho dos teus olhos, seja a beleza e a simplicidade desta flor, que me embriaga com o seu perfume e me encanta com seu carisma.
Esta flor que desabrocha em seus pensamentos e me transforma em você...
Uma flor que vai permanecer intacta às mais diferentes épocas, aos mais inesperados destinos, uma flor que nunca vou permitir morrer.
Sabe porque?
Porque ela é linda como você
e porque todos a chamam de


AMIZADE



(desconheço o autor)

13 de outubro de 2006

VIVER COMO EU SEI - Américo Silva

VIVER COMO EU SEI

Uma manhã de sol, de vento...ruidosa,
Que agita com violência os ramos das árvores,
Vento que o suportam angustiadas , indefesas... passíveis...

Que o sentem e aceitam...que o vivem sem queixume.

São como nós,




Que também não podemos sair do caminho que a vida nos escolheu...
Pleno de angustias,



De medos,
De noites de tormenta,



De pensamentos apavorados.
Á espere que o sol chegue e dissipe a névoa da incerteza.

E viver é isto...




Um momento de angustia... de incerteza,
Um momento de dor... um momento de alegria.
Um momento de esperança... um momento de luz.
Um momento de prazer... um momento de revolta.


Sair da estrada e entrar nela de novo...


É achar o nosso destino e aprender a guarda-lo.
É escolher na corrida vertiginosa da caminhada,
Os momentos que vale a pena guardar.

É sair da estrada e entrar nela de novo...
É achar o nosso destino e aprender a guarda-lo.



É escolher na corrida vertiginosa da caminhada,
Os momentos que vale a pena guardar.

É aprender a coexistir com a tormenta e a calmaria
É sentir a qualquer hora da noite ou do dia,
Que aconteça o que acontecer...





Haja o que houver,



Há sempre alguém que mesmo distante,



Caminha a nosso lado.

Na noite tenebrosa,

No sol radiante,
No frio do medo,
No calor da esperança,
Numa amanhã mais calma e tranquila
Na lagoa das águas serenas,
Na areia da praia deserta,
No encanto do monte verdejante,
No silêncio dum carro parado.

No planalto duma montanha escura, silenciosa... tranquila,

No caminhar pelas ruas desertas, duma cidade plena de vida
De ruas estreitas... linhas de eléctrico reluzentes...
Nas horas mortas da madrugada,
Voando ao encontro da luz.

Viver é isto.

Descobrir,
Encontrar e perder,
Sentir e correr, ao encontro do destino.
De nada...
De tudo!


Américo Silva


Setembro 2003

8 de outubro de 2006

BEIJOS....de Isabel C.




BEIJOS



Boca doce,cereja vermelha , abelha no mel do meu pescoço.


Lingua/Sonho, em valsa lenta.

Lingua bailarina, em pista de dança.

Lingua que brinca e explora...

Cobra esfomeada que me persegue ágil, sou presa, conquistada.

Lingua atrevida, quente e doce, lânguida...,



Irrequieta e molhada ,


Despedurada e louca.

Boca que me faz prisioneira.

Escutam-se sons , gemidos,


Louca perseguição de desejos e paixão,

Ecoam cânticos celestiais.

São anjos? !

És anjo!

Doces os lábios que me beijam, e eu beijo.



Isabel C*

5 de outubro de 2006

Embala o teu Sonho....de ...António Veleiro

EMBALA O TEU SONHO...

Embala teu sonho nas mãos
E oferece-o no cálice de néctar
Tragado cada manhã
Cristalino globo do universo
Trespassado de todas as cores.


Vês o sol que te aquece se ele brilha
Lavas-te na água fecunda da chuva
Vês teu rosto nas nuvens se escurece
E esfregas a pele macia da manhã.


Sentes o vento que te corta o rosto
Perfumas o aroma da tua sensação
Vestes o frio do nevoeiro cerrado
E estás pronta para a vida que te habita.
Sais a correr cada segundo
Porque um segundo depois já é outro
Alimentando a fome de energia vital.


Cumprimentas este que conheces
Beijas aquela que te iguala
Na humanidade dentro de todos.


Chegas farta
Cansada
Aborrecida
Tramada
Encolhida
Furiosa
Endiabrada
Abatida
Calada
Desiludida


Não há tempo para sonhar!


Mas de novo
Embala teu sonho nas mãos...


... Até que nas mãos frias
Teu sonho não se possa embalar.








António (Veleiro)

2 de outubro de 2006

Procuro-Te ... de Isabel C.


De que cor,vou pintar o sabor dos teus lábios, sabor esse. que sei de cor...

***

Na imaginação procurei,
pintar-te.
Na busca de mais cores,
tentei...
Em vão!

Procurei encontrar-te,
no traço,
então traçado.

Cerne do teu ser,
Essência , feita, ausência,
Presença, Omnipresente.

No teu todo, busquei-te.

Existes na minha mente,
Cosmos onde te encontro,
Onde te pinto,
Te invento e reencontro
Num momento infinito...
Perdido no tempo,
Onde pertenço,

Porque sei que,
é lá,
Que te sei de cor.


Então:

- Fecho os olhos,

Revejo a tua boca, que me fascina.
Teus olhos, da cor dos meus.
Encontro-me nos contornos do teu rosto,
E novamente sei,
Que, sei-te de cor.


Isabel C*

21 de setembro de 2006

Carta ao meu Marido ..... de Isabel C.

Por coincidência ou destino, este texto foi publicado em 21 de Setembro de 2006.
No dia 21 de Setembro de 2009, foi decretado o nosso divórcio.

A vida tem destas coisas.

Isabel C.


.......................................................

















Esperavas-me deitado quase adormecido.

Quando me deitei, abriste os olhos e olhaste-me dizendo:
- Gosto tanto desse teu cheirinho a bebé.

Essa tua capacidade de ainda notar o meu cheiro, e dizeres o quanto te agrada, deixa-me feliz.

Chamares-me pelo meu diminuitivo nos momentos de entrega, reafirmando os teus sentimentos de amor para comigo, é fazeres-me recuar no tempo, esse tempo ido, que tento insistentemente encontrar, como se alguma vez o tivesse perdido.

Amor, não vive sem sexo, mas sexo vive sem amor.
É cada vez mais comum encontrar alguém disposto a curtir, a viver o momento.
Dificil é, encontrar alguém que continue querendo continuar a preservar aquele que foi o seu primeiro amor.

Fico a analisar, todas as provações que temos passado juntos, e a capacidade que fomos encontrando também, de as contornar com mais ou menos feridas, que acabam cicatrizando com o tempo.

Então, se após todos esses momentos bons ou maus, continuamos como rocha firme nos mesmos intentos, uma certeza existe :

És, e continuo eu sendo, a pessoa com quem queremos continuar partilhando os melhores e piores momentos,pois que aquilo que nos une, continua falando mais forte, do que aquilo que nos separa.

Não sei se o amor se foi,se ainda se acabará indo, sei que por vezes só damos o real valor, áquilo que perdemos.

Sei também, que é muito bom adormecer enrolada no teu corpo,sentir as tuas pernas dentro das minhas ou o contrário, adormecer de mãos dadas com o teu beijo de boa noite, e acordar com o teu primeiro beijo matinal.

Ainda continuamos passeando de mão dada, ainda nos beijamos pela rua, ainda me chamas de tua menina , e sobretudo, ainda continuas dizendo o quanto me amas e me adoras.

Conseguirei eu transmitir-te do mesmo modo, toda essa segurança, esse amor que recebo, e nem sei se dou.

Ás vezes ausento-me de mim, e vejo que me segues com o olhar, com medo que me perca.

Tenho consciencia de que as nossas arestas estão limadas.
De que nos conhecemos, sabendo que cada um de nós é ao mesmo tempo um ser livre.

De que ainda, e principalmente , somos um do outro.

Tudo isso continua sendo muito importante para continuarmos nesta caminhada, aquela que um dia escolhemos.

Não seremos porventura as mais belas flores dum jardim, mas somos ainda as mesmas que um dia o sentimento amor colheu e uniu.







Isabel C.

7 de setembro de 2006

Inscrição na Areia.... Cecília Meireles



O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.



Cecília Meireles

26 de agosto de 2006

O MUNDO QUE EU CRIEI de José Maria Lopes de Araújo





















Deram-me a vida,
Lançaram-me ao mundo,
Um mundo de quimera,
Um mundo que não me pertence,
Onde o cinismo impera
E a mentira vence ! …

Por isso, criei
Um mundo diferente
Deste outro mundo em que vivo:
Sem ódios, sem maldade,
Sem grilhetas de sofrimento
E sem o vento
Da impiedade !


Tenho caminhos
Floridos, perfumados
De amores, de carinhos,
De venturas e saudades …


E mais claro o sol que me alumia,
Sol que irradia
A luz do amor …
São curtos os meus horizontes …
Naufragou a minha dor …


Tenho noites de luar…
E canta o mar,
E cantam as fontes,
Quando me ouvem cantar !


…………………………….


No mundo que eu criei,
Para viver sonhando,
Há belezas irreais…
Ilusões e esperança …
… E eu só quero e vivo amando
Velhos e crianças,
Flores e animais ! …
…………………………..

O mundo que eu criei
É um mundo diferente :
Sem ódios, sem maldade,
Sem grilhetas de sofrimento,
Sem a noite de tormento,
E sem o vento
Da impiedade ! …


José Maria Lopes de Araújo

do livro # CINZAS QUENTES #

21 de agosto de 2006

Cecilia Meireles " JARDIM COM FLORES "


Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão!)



[Cecília Meireles in Leilão de Jardim]

15 de março de 2006

" Dá um Abraço? " Autoria de Macedo Junior ( TrovadorPR )





De repente deu vontade de um abraço...
Uma vontade de entrelaço, de proximidade...
de amizade... sei lá...


Talvez um aconchego amigo e meigo,
que enfatize a vida e amenize as dores...
Que fale sobre os amores,
seja afetuoso e ao mesmo tempo forte.


Deu vontade, de poder ter saudade de um abraço.
Um abraço que eternize o tempo
e preencha todo espaço...
Mas que faça lembrar do carinho,
que surge, devagarinho,
da magia da união dos corpos,
das auras... sei lá.


Lembrar do calor das mãos,
acariciando as costas a dizer:
- Estou aqui!

Lembrar do enlaçar dos braços,
envolventes e seguros,
afirmando: - Estou com você!.


Lembrar da transfusão de forças,
ou até da suavidade do momento... sei lá...

Então,pensei em como chamar esse abraço:
abraço poesia, abraço força,abraço união,
abraço suavidade,abraço consolo e compreensão,
abraço segurança e justiça, abraço verdade,
abraço cumplicidade?


Mas o que importa é a magia deste abraço!
A fusão de energias, que harmoniza,
integra o todo e se traduz no cosmos,
no tempo e no espaço...


Só sei que agora deu vontade desse abraço.
Um abraço que desate os nós,
transformando-os em envolventes laços.


Que sirva de colo, afastando toda e qualquer angústia.
Que desperte a lágrima de alegria,
e acalme o coração...


Um abraço que traduza a amizade,
o amor e a emoção....

E para um abraço assim ,
Só consegui pensar em você!
Nessa sua energia,
nessa sua sensibilidade,
que sabe entender o por quê,
dessa minha vontade.

Pois então:


Dá logo este abraço!


Poema da autoria do Poeta MACEDO JUNIOR ( TrovadorPR)

11 de março de 2006

Vinicius de Moraes " Para Viver um Grande Amor "

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.


Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.


Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.


Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.


Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.


Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.


Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.


É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...


Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?


Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.


É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.


Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.

20 de fevereiro de 2006

Sophia de Mello Breyner Andreson " Pudesse Eu "

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes



Sophia de Mello Breyner Andreson

15 de fevereiro de 2006

ÁLVARO DE CAMPOS « O Que Há em Mim é Sobretudo Cansaço »»

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.


Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...



Álvaro de Campos

7 de fevereiro de 2006

Ninita



PICASSO DE UMA VIDA


Pó, vento, sol e água de África, assim sou eu uma mistura, fui e nele me tornarei, Vento que balbucia incoerências, Sol que brilha para quem amo, Água de lágrimas que purificam.

Dessa paisagem marcante e gritante, delineada a fogo na minha alma, ficaram em mim marcas indestrutíveis, e tal como na guerreira africana, vive em mim, a coragem, a perseverança e o amor.

A coragem para continuar a lutar quando tudo desmorona ao meu redor, quando nada parece dar certo, quando a luz enfraquece, quando o calor desaparece, quando o carinho se transforma em frieza, quando a esperança dá lugar a um vazio.

A perseverança para mesmo em altura de desgaste e de decepções, de lutas desiguais , de injustiças, escolher não desistir.

O amor, pela terra, pela família, pelos amigos, por tudo o que me rodeia, sentimento forte em mim, muitas vezes escondido debaixo de uma aparente serenidade e controle. Amo sem artifícios, sem calculismo, sem temer sofrer de cada vez que perco nessa guerra de sentimentos.

Num bater descompassado este coração ilumina-se ainda ao imaginar o enlace com outro igual, emociona-se ainda num toque fortuito, numa troca de olhares, numa cumplicidade silenciosa, e quantas vezes ferido de morte por ter acreditado naquilo que não passou de ilusão, reacende-se e dessas cinzas surge novo amor que vem trazer novas sensações e um novo alento até à próxima queda.

Emoções tão diversas sacodem este corpo e esta mente, do riso vou às lágrimas sem conseguir separá-los, sem perceber onde um começa e o outro acaba, da alegria parto para a tristeza numa fronteira aberta entre as duas, dum mundo pintado em aguarela ou óleo, passo para um sketch a carvão, naquilo a que chamo o picasso da minha vida.

Quero ser a musa dos meus poemas, a inspiração dos meus quadros, a personagem dos meus livros, a actriz dos meus filmes, a fonte dos meus devaneios, mas principalmente quero ser Eu.

Ninita 24/06/05

25 de janeiro de 2006

Desejo de Você poema de Isabel C.

Quero ver de novo,
No brilho de seus olhos,
Toda a intensidade do desejo
Que seu olhar contém.
Quero sentir,
Num toque de seda,
Suas quentes e doces mãos
Em busca do meu ser, trazendo a sede
Que saciará
A fome desse amor.
Quero seus dedos percorrendo meu corpo .
Quero meus seios colados em você.
Quero sentir seu corpo tremendo de desejo,
Quero sentir de novo seu beijo,
Sua boca molhada, fremente colada
Quero ter você junto a mim.
Quero sua língua brincando na minha,
Num beijo melado e molhado
Que me faz desejar e sonhar com você.
Quero urgência, aqui e agora,
Nesta noite fria,
Com você se enroscando
Em meu corpo ardente, sedento de suas mãos,
Sua língua percorrendo meu corpo nu
Desejoso de receber a seiva desse amor.
Te desejo como nunca,
Vem...
Vamo-nos amar.
Como o sol, ama a lua,
Como a areia ama o mar,
Como a noite ama o brilho das estrelas,
E eu....amo você.
Num amor que é eterno,
O meu amor,
O teu amor
O nosso amor.

Eu quero você....

Amor!


Isabel C.

Mário de Sá Carneiro " Quase"

QUASE

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
............................................................
............................................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



Mário de Sá Carneiro



////////////////

Não sendo habitual, vou fazer uma excepção , com este poema e esta música, para dedicar ás pessoas que me são muito especiais, e cujas datas próximas, as fazem estar ainda mais presentes no meu pensamento.

////////////////

25 Janeiro - A alguém que já não se encontra entre nós,sendo este o dia do seu aniversário . O POETA " José Maria Lopes de Araújo " poeta que viveu na minha ilha e que admiro a obra deixada.


  • JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO
  • 21 de janeiro de 2006

    AMÉRICO * Terás de Vir à Minha Cabana *


    Se queres ouvir a fogueira a arder
    o vento a soprar na rua
    a chuva a bater no telhado

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA


    Se queres ouvir uma canção no ouvido
    sentir um beijo na nuca
    uma carícia nos seios erectos

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    Se queres ver o vento a mexer as folhas
    o silencio no escuro profundo da noite
    sentir a voz do tempo que passou

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    Se queres acordar com o sol no olhar
    olhar pela janela o orvalho da lua
    nas pétalas molhadas das flores abertas

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    Se queres libertar a alma e deixa-la voar
    libertar o corpo e deixa-lo sentir
    soltar a mente e deixa-la sonhar

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    Se queres sentir o universo num momento
    o vulcão que acorda, a lava que corre
    na cama que te espera...

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    Se queres ouvir cada palavra que te escrevo
    em cada gota de agua que te molha
    em cada sorriso quente que soltas

    ...TERÁS DE VIR À MINHA CABANA



    AMÉRICO

    16 de janeiro de 2006

    Camilo Castelo Branco " OS AMIGOS "

    Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
    Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
    Supus que sobre a terra não havia
    Mais ditoso mortal entre os mortais!

    Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
    Tão zelosos das leis da cortesia
    Que, já farto de os ver, me escapulia
    Às suas curvaturas vertebrais.

    Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
    Dos cento e dez houve um somente
    Que não desfez os laços quasi rotos.

    Que vamos nós (diziam) lá fazer?
    Se ele está cego não nos pode ver.
    - Que cento e nove impávidos marotos!



    Camilo Castelo Branco

    13 de janeiro de 2006

    António de Medeiros Pereira

    Ser pobre é possuir
    Riquezas e não as dar!
    É ter peito e não sentir
    Um coração a palpitar!

    É ter boca e não sorrir;
    Ter olhos e não olhar.
    É ter força e não agir;
    É ter mando e não mandar ...

    É ter fome e não comer;
    É ter sede e não beber,
    Na ânsia de não gastar ...

    É ter vida e não viver;
    É ter seiva e fenecer;
    É ter alma e não amar! ...



    António de Medeiros PereiraStª. Maria - Açores


    3 de janeiro de 2006

    Florbela Espanca " Poetas "

    Ai as almas dos poetas
    Não as entende ninguém;
    São almas de violetas
    Que são poetas também.

    Andam perdidas na vida,
    Como as estrelas no ar;
    Sentem o vento gemer
    Ouvem as rosas chorar!

    Só quem embala no peito
    Dores amargas e secretas
    É que em noites de luar
    Pode entender os poetas

    E eu que arrasto amarguras
    Que nunca arrastou ninguém
    Tenho alma pra sentir
    A dos poetas também!



    Florbela Espanca

    - in Trocando Olhares