8 de junho de 2017

Lua Adversa...Cecília Meireles



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 


Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 



E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 



Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 



Cecília Meireles

27 de maio de 2017

A Dança ...Pablo Neruda



Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Pablo Neruda

16 de maio de 2017

Ilha de Santa Maria




ILHA DE SANTA MARIA



No presente momento , Isis poderia afirmar sem nenhuma dúvida que gostava muito daquele pequeno rochedo ilhéu, banhado pelo mar Atlântico aquela que é sua ilha.
Santa Maria, a terra onde nasceu e a primeira ilha açoriana a ser descoberta, no arquipélago das nove ilhas dos Açores.

A ilha de  Santa Maria, é uma ilha feiticeira. Quem  de lá sai, fica dela cativa para sempre.
É rodeada pelas suas lindas baías e praias de areia branca todas dignas de um bilhete postal.
O Barreiro da Faneca é um característico e pequeno deserto de terra árida vermelha, único por aquelas paragens.

A singularidade da sua culinária típica, onde o sabor das carnes tenras e suculentas é mais evidenciado nos animais que pastoreiam livres  à solta.

O peixe fresco das mais variadas qualidades, que vai à mesa  ainda cheirando a mar.
É a ilha dos nabos da terra, únicos no mundo. Possivelmente uma variedade de nabo bravo que foi sendo cultivado pelos nativos da ilha e que se manteve até à actualidade na sua forma primitiva, cuja especialidade culinária delicia todos os que conhecem o seu característico e único sabor e aroma.

Com noventa e sete quilómetros quadrados de ilha amarela pintalgada pelas giestas que vão desaparecendo sem que lhes notem a falta, pelo hábito adquirido de tanto as ver sem contemplar.

Imaginar neste preciso instante aquela ilha é vê-la envolta na  visão nostálgica e saudosa de quem a trás dentro de si, cujo formato nos faz lembrar um pano oval, feito de renda amarela como as suas giestas, cuja bordadura, um fino linho branco, tão branco como a espuma das ondas que a beijam.

Todas as suas características particulares fazem da ilha um torrão de doçura que flutua no azul das águas límpidas do oceano, única e preciosa como uma pérola rara, guardada no melhor de cada filho da terra; nos seus corações - onde aí permanece até que as saudades se renovem, no dia que lá voltam, como se recolhessem aos braços da amada mãe, sempre abertos para os acolher.

Apesar das suas belezas naturais, para quem  lá vive, transforma-se numa ilha monótona e triste durante a maior parte do ano, quando os jovens saem de casa para irem estudar noutras paragens. Nessa altura, fica mais acentuada a sua desertificação e a falta de actividades culturais que envolvam e cativem os  residentes.

O semblante carregado e cansado da maioria dos seus pouco mais de cinco mil habitantes, é uma característica comum a quem anseia libertar o espírito em si mesmo enclausurado.
Todos, salvo raras excepções, anseiam por uma oportunidade de sair daquele presídio ilhéu, de se libertarem das amarras invisíveis que os prendem à ilha, como se fossem muralhas intransponíveis.

Existe o cansaço natural, depois de tantas vezes repetido o mesmo percurso, os mesmos trilhos, os mesmos sítios.

É uma ilha pequena, cujo percurso inevitavelmente termina no mar, seja qual for o ponto cardeal que se opte seguir.

Mas de novo quando de lá saem, esgotados de tanto isolamento, da rotina em câmara lenta que lhes aumenta a ansiedade e o tédio, anseiam  rumar para outras paragens onde possam viver a vida num palpitar pungente dos outros lugares.

Depois de lavadas as vistas num banho de outros mundos e outras paragens, onde a vida gira em velocidade cruzeiro, depois de respirados outros ares, percorridos outros lugares, chega inevitavelmente o dia em que novamente bate a saudade e a nostalgia na ânsia de  regressar  aos braços daquela terra amada.

Aquela pequena ilha em forma de ovo, onde Cristóvão Colombo, pisou terra firme no seu regresso da descoberta da América, pulsa forte no peito dos seus filhos, nos seus nostálgicos corações.
A saudade o contrai e é essa mesma saudade que os leva a fechar os olhos e relembrar todos os seus recantos exuberantes e silenciosos, tal como terá sido  o silêncio sentido no Jardim do Éden.

Da janela aberta da sua casa em Lisboa, Isis transforma na sua mente o som do movimento do intenso trânsito, no marulhar das ondas que no seu vaivém vão rebentando nas praias  ou nas rochas da sua saudosa ilha distante.

Quando os filhos da terra a ela regressam , revisitam os lugares que antes olhavam sem ver, e neles redescobrem outros novos encantos, novos prazeres e cheiros até ali esquecidos.

Até dos passeios repetitivos e das mesmas caras que por vezes conhecem sem lhes saber o nome, sentem saudades.

E de novo lá estão elas, nos mesmos sítios, à mesma hora e nos mesmos locais, tal como dantes.

Ultrapassada a saudade, absorvidos pelo cansaço da  rotina, como antes sempre igual, que  se cola à  pele, como o cotão negro da poluição dos grandes meios, invadindo-lhes  a pele e a alma, dão por si a imaginar uma ponte que possa ligar todas as ilhas açorianas entre si e o Continente, para que de lá possam fugir e de novo regressar sempre que a saudade apertar.

Assim é o pulsar da gentes daquela ilha encantada, no seu doce presídio ilhéu.

IsaC

2017 

3 de maio de 2017

Só.... sempre só....IsaC
















Quando ela saiu da estação do metro, no Oriente, em Lisboa, chovia torrencialmente.

Por azar tinha-se esquecido de levar o chapéu de chuva, e por isso levantou o casaco comprido até  lhe cobrir a cabeça, no intuito de não molhar o cabelo. Deveria estar minimamente apresentável quando entrasse na sala de audiências do tribunal.

O relógio marcava as nove horas da manhã, a temperatura estava baixa e corria um  vento frio. Ao mesmo tempo, tinha  as mãos geladas, entorpecidas.

Percorreu aquele quilómetro de distância a pé, com a água da chuva a bater-lhe no rosto.
Mal via as pessoas ou os carros que passavam ao seu lado.

Sentia-se ausente de si mesma, como se  levitasse e do alto  via-se vivendo aquele momento, atormentada, percorrendo aquela estrada que a levaria até ao fim de um percurso de quarenta anos de luta de muito trabalho e sobretudo de muitas desilusões.

Pela sua memória, passavam dispares frames de um filme, aquele que tinha sido a sua  vida, em especial nos últimos dez anos, quando optou por viver em Lisboa e quando pôs fim a um longo casamento nem sempre feliz e nem sempre infeliz.

Uma vida de altos e baixos cujo desfecho ia ser decidido naquela manhã no Tribunal, cujo desfecho final seria entregar o fruto do trabalho de décadas daquele que tinha sido o seu projecto de vida.

Estas lembranças e outras,  atropelavam-se dentro de si.
Essa era a causa porque naquele dia percorria um caminho gélido e solitário que lhe causava  angústia e aquele  aperto que lhe subia do peito à garganta.
Sentia o desgosto e a desilusão de ver destruídos os sonhos de uma vida de sacrifícios a que deliberadamente se tinha dedicado, para futuro dos seus  filhos.

Os pingos da chuva misturavam-se com as lágrimas que  caiam  em torrente pelo seu rosto cansado, de modo a ninguém perceber o seu desgosto.

Pensou que o tempo, Deus, ou São Pedro, estariam solidários com ela naquele dia tão cinzento, como a cor da sua alma.

E ela só... sempre só, numa solidão poucas vezes acompanhada.

IsaC

29 de março de 2017

Carta de aniversario

Como posso esquecer o dia 29 de Março?


Foi nesse dia que o meu corpo te pertenceu pela primeira vez. Já passaram dez anos, mas tenho-o tão presente como se tivesse acontecido ainda à pouco.

Não sei se já te esqueceste, depois de mim já tiveste outras histórias, outras mulheres.
A nossa história passou a ser isso mesmo, parte da tua história.

Nesse dia foste ter comigo como vinha sendo habitual, ainda mais naqueles últimos dois meses em que tínhamos descoberto que nos amávamos.

Eu fui protelando o momento em que me entregaria a ti, sabia que ao fazê-lo, irias fazer parte da minha vida para sempre.

Estavas deitado nu em cima da minha cama.
A visão do teu corpo sempre me atraiu como o imã atrai o ferro.
Até ao presente, apenas tu conseguiste sortir esse efeito em mim. Parece feitiço, uma coisa que não consigo me desligar, talvez porque nem queira tentar. Talvez queira eternizar aquele momento para todo o sempre.

É da minha natureza. As pessoas que entram no meu coração, ficam nele cativas.
Apesar  do desgaste do tempo,  das situações que vivemos boas ou más, as recordações insistem em permanecer em mim.
Talvez deixassem de manter um brilho tão intenso, talvez o tempo tenha deixado marcas. Tudo isso faz parte da vida e do comportamento humano e afinal, nenhum de nós é anjo, apesar de termos vivido momentos para mim, tornados celestiais.

Deitado parecias dizer: Sou teu,..

Tantas vezes repetiste e eu sentia este -    "Sou teu ".
Naquelas alturas, sei que eras de facto meu, de corpo e alma. Via-o em ti e sentia-o.
Todo tu comunicavas comigo de todas as formas,  de corpo, alma e pensamento.
Houve alturas que que nossas almas acoplavam  em cadenciada sintonia,. Nossas mensagens se entre-cruzavam na mesma simbiose,  que sentíamos vibrar no toque das suas chegadas.

Beijava o teu corpo nu e entregavas-te ás sensações que eu em ti provocava.

Dois seres vivendo a magia do momento sem idade, tal como são os anjos, e tu eras o meu Anjo.
Protegias-me, amavas-me e davas-me amor como nunca antes tinha recebido e retribuído. Por isso, foste tão especial para mim, porque te amei sem reservas.

No dia seguinte partiríamos. Eu regressaria à minha terra. Tu partirias de férias para Andorra.
Naquele mesmo dia que anos antes festejavas outra união, naquele dia, sem que o soubesse antes, selaríamos o início da nossa troca de carícias e de delicias plenas.

Fizemos amor

Quando atingiste o auge do climax, senti pela primeira vez a explosão do teu  prazer. E como essa explosão,  me fazia sentir desejada e querida. Tinha-me tornado tua mulher de corpo e alma.

Quando amamos e vivemos esse amor na sua plenitude, de forma intensa e numa entrega total,  esse sentimento então vivido, acompanha-nos vida fora. Esse sentimento vive comigo. Todos os anos nesta mesma data o  recordarei.

Hoje é o aniversário de  um dos dias  especiais, aquele que modificou a minha vida para sempre. Parabéns para nós.

Quando foi que nos perdemos? 

Encontro-te sempre no mesmo lugar :  -  Dentro de mim, como se continuasses a ser a minha segunda pele  -  .

Se um dia te perderes, olha as  estrelas e de entre todas elas, serei a mais cintilante  num céu com muitas outras estrelas,  e serei aquela estrela especial que escolheste apontar até os dedos cravejar.
Te acompanharei mesmo de longe, e de qualquer ponto de onde olhes para o céu, estarei lá olhando por ti.

Sê feliz.







23 de março de 2017

Um dia....poema de LG




Um avião descola e sempre dá
Coração que fica e outro que voa,
Corações que geram vida á toa,
Repousando na lembrança dum sofá

Um que parte, outro que fica, então,

Saboreando "amiga  colorida",
Bebendo um gole da gerada vida,
Lembrando o toque doce da sua  mão.

Possibilidade do impossível?

Fruto da imaginação invencível?
Junco Castanho que jamais florirá?

Ou apenas são vidas encontradas

No desencontro de caixas fechadas?
Um avião descola, outro virá!

... Um dia !


L.G







Carta a um grande amor 24-01-2014




Quantas vezes te disse, amor, que gostaria de pintar numa tela, o recorte da tua boca?!


Recordo o nosso ultimo encontro, aquele que marcou o fim do nosso caminho.

Naquele sábado,  enquanto eu tomava um banho quente entraste, usando a chave que te dei.
Já te esperava. Sabia que vinhas, e queria estar relaxada para ti.

Foste entrando para o nosso quarto. Tiras-te a roupa e, com o teu corpo nu e perfumado que me inebria os sentidos, esperavas por mim deitado.

Saí do banho  rapidamente, envolvendo-me numa toalha,  deixando no soalho as marcas dos pés molhados, corri para ti.

Fingias que dormias e parecias um anjo.

Ri-me, achando graça à tua brincadeira, e entre beijos e pingos de água, entrei na cama e enrosquei-me nos teus braços e no teu corpo quente que me acolheu com um abraço.
Naquele momento, e nos que se seguiram, foste apenas meu.

 O mundo estava dentro do nosso quarto, naquelas quatro paredes onde eras senhor de mim e, do nosso desprendido amor.

Agora, que a noite voa alta, estou aqui pensando em ti.

Tu que  dormes noutra cama, ao lado de um  ex-amor, que jaz moribundo lado a lado, teimosamente cativos, numa guerra não declarada, numa luta invisível, em que um é dominado e outro dominador.
Penso,  no quanto custa sentir, esta  dor de não te ver.
No quanto me custa sentir, a tua presença na ausência.
Não ver os teus olhos da cor dos meus.
Não tomar as tuas mãos entre as minhas e afagar os meus dedos por entre os caracóis do teu cabelo de fios prateados.
O quanto me custa, não ler as tuas mensagens carinhosas que durante anos me acordavam com um bom dia, tornando presente a tua forçada ausência  na minha vida.
Sinto, a simples falta, de olhar esse teu peculiar sinal, na face esquerda do teu rosto, que me apetece  sempre cobrir de beijos.
Sinto saudades,  do toque  suave dos meus dedos, percorrendo a tua pele macia e ver o arrepio que em ti provoca.
Sinto saudades, do calor que em mim provocas e  da tua boca, meu amor, sempre a tua boca que me fascina.
Sinto saudades daquele beijo, onde nossas línguas brincando se reconheciam naqueles  " Beijos dos Nossos", que sabíamos serem únicos.

Não quero guardar do passado, do nosso passado, mágoas ou tristeza. Apenas quero guardar de ti o amor que contigo descobri, esquecer o que não vale a pena recordar.

Quero recordar apenas,  todos os nossos momentos, aqueles que passámos como se fossemos os  últimos amantes apaixonados desta Lisboa que amo, desta cidade feiticeira, que me tomou sua, tal como tua, sempre fui meu amor.

Que bem me saberia o gosto de um beijo na cara, na testa, na bochecha, na mão, apenas um beijo teu, era o que eu mais queria agora.

É difícil esquecer quando se viveu um grande amor.


Dorme bem meu anjo

24 Jan 2014

15 de fevereiro de 2017

A Vida poema de Florbela Espanca



A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés d'alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 

Todos somos no mundo "Pedro Sem", 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo donde vem! 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida... 

Amar-te a vida inteira eu não podia... 
A gente esquece sempre o bem dum dia. 
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... 

12 de fevereiro de 2017

Eu não existo sem você....Vinicius de Moraes




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você