8 de novembro de 2014

Como é por dentro outra pessoa.......Fernando Pessoa




Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa

12 de setembro de 2014

Eu Quero, Eu Quero.... Sylvia Plath



De boca aberta, o deus recém-nascido
imenso, calvo, embora com cabeça de criança,
gritou pela teta da mãe.
Os vulcões secos calaram e cuspiram,

a areia esfolou o lábio sem leite.
Gritou então pelo sangue paterno
que agitou a vesta, o tubarão e o lobo
e veio engendrar o bico do ganso.

De olhosa secos, o inveterado patriarca
ergueu seus homens de pele e osso:
farpas sobre a coroa de fio dourado,
espinhos nas hastes sangrentas da rosa.

Silvya Plath ( 1932-1963)
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

Livro "A Rosa do Mundo"

11 de agosto de 2014

Porque o Fim de Um Caminho... José Bento



Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.

Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minhas pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
- e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito da matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.

José Bento- 1932


25 de julho de 2014

Cartas ... Imaria 2014


Pois é, amor...

De nada adianta dizer para mim mesma, que te vou esquecer, se o meu coração continua, teimosamente a pertencer-te.
É complicado querer gerir a cabeça, que vacila entre a lógica e o romance, se as tuas lembranças teimosamente me acompanham.
Uma vez disseste que não me pertencias, porque socialmente não me pertences.
Como sempre, consegues ver as coisas com lógica e realidade. Infelizmente, apaixonei-me por ti, fui irresponsável, eu sei, deveria ter pensado em tudo, principalmente nas consequências de querer viver um amor tardio.
No inicio, pensei que conseguiria manter a situação sob controle, que nada mais entre nós se passaria para além de alguns beijos e troca de doces palavras, afagos para os nossos pardos egos, sedentos de amor e atenção, ausentes nos nossos longos e debilitados casamentos.
Quase um ano depois de nos conhecermos, na altura em que sofreste o AVC, e eu correr pelos hospitais como uma louca a fim de te encontrar, havíamos de viver essa paixão que por nós esperava.
 Nessa altura, apercebi-me ter ultrapassado a barreira do controlável " flirt ", e que despertara em nós, o nobre sentimento do amor.
 Aquando do nosso reencontro, já não restavam dúvidas.
Tudo para mim era claro, amava-te como uma adolescente, a quem tardiamente era dada a oportunidade de viver uma paixão jamais sentida ou imaginada.  A minha adolescência foi uma breve passagem precocemente interrompida aos 17 anos, pelo casamento.
Fico grata à vida pela dádiva do amor aos 47 anos, ao qual me entreguei por completo contigo.
Hoje, não que esperasse que desses notícias,  dei por mim, várias vezes a consultar o visor do telemóvel, como se esperasse por uma  mensagem tua.

Sim, eu sei que te pedi para não nos contactarmos mais, e sei também que o cumprirás, não só porque me respeitas, mas sobretudo, porque sabes que não faço parte da tua vida, e foges com medo de compromissos e de enfrentar as situações.

Talvez por começarem as saudades a apertar, hoje durante todo o dia me acompanhou um aperto na garganta e esta insistente saudade  de ti.

Dorme bem meu amor

25 Jan 2014
Imaria

30 de junho de 2014

Passagem das Horas.... poema de Álvaro de Campos




Trago dentro do meu coração, 
Como num cofre que se não pode fechar de cheio, 
Todos os lugares onde estive, 
Todos os portos a que cheguei, 
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, 
Ou de tombadilhos, sonhando, 
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. 

Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa

21 de maio de 2014

António Aleixo




Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

António Aleixo

13 de abril de 2014

Quando Eu For Pequeno..... José Jorge Letria



Quando Eu For Pequeno
Quando eu for pequeno, mãe, 
quero ouvir de novo a tua voz 
na campânula de som dos meus dias 
inquietos, apressados, fustigados pelo medo. 
Subirás comigo as ruas íngremes 
com a certeza dócil de que só o empedrado 
e o cansaço da subida 
me entregarão ao sossego do sono. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
os teus olhos voltarão a ver 
nem que seja o fio do destino 
desenhado por uma estrela cadente 
no cetim azul das tardes 
sobre a baía dos veleiros imaginados. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
nenhum de nós falará da morte, 
a não ser para confirmarmos 
que ela só vem quando a chamamos 
e que os animais fazem um círculo 
para sabermos de antemão que vai chegar. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
trarei as papoilas e os búzios 
para a tua mesa de tricotar encontros, 
e então ficaremos debaixo de um alpendre 
a ouvir uma banda a tocar 
enquanto o pai ao longe nos acena, 
lenço branco na mão com as iniciais bordadas, 
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno 
e a orfandade até nos olhos deixa marcas. 

31 de janeiro de 2014

Foi um momento .... poema de Fernando Pessoa



Foi um momento 

O em que pousaste 
Sobre o meu braço, 
Num movimento 
Mais de cansaço 
Que pensamento, 
A tua mão 
E a retiraste. 
Senti ou não ? 

Não sei. Mas lembro 
E sinto ainda 
Qualquer memória 
Fixa e corpórea 
Onde pousaste 
A mão que teve 
Qualquer sentido 
Incompreendido. 
Mas tão de leve!... 

Tudo isto é nada, 
Mas numa estrada 
Como é a vida 
Há muita coisa 
Incompreendida... 

Sei eu se quando 
A tua mão 
Senti pousando 
‘Sobre o meu braço, 
E um pouco, um pouco, 
No coração, 
Não houve um ritmo 
Novo no espaço? 

Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses 
Para dizer 
Qualquer mistério, 
Súbito e etéreo, 
Que nem soubesses 
Que tinha ser. 

Assim a brisa 
Nos ramos diz 
Sem o saber 
Uma imprecisa 
Coisa feliz. 


FERNANDO PESSOA

19 de janeiro de 2014

Nova Luz..... Teixeira de Pascoaes


Emana um fumo de alma o crepitar do lume:
O incêndio duma flor dá a cinza do perfume.

O corpo de uma onda é o líquido braseiro,
Que exala, no infinito, o branco nevoeiro.


Teixeira de Pascoaes

6 de janeiro de 2014

Pablo Neruda




Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. 
Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda