25 de dezembro de 2010

Talvez seja o Nada
















Sinto-me a acordar do sonho, do levitar sobre a realidade.
Acordar para ver, que a vida é feita em tons de cinzento e sentir que a solidão é a constante companheira.
Que a vida passa, no dia a dia vazio, apenas repleto de nada ou de muita incerteza
Não não existe calor humano, presença, carinho, palavras, afectos, gestos.
A angústia, tristeza, solidão, o aperto na garganta, a dor no peito, transformaram-se em problemas crónicos.
Tudo é vago, tudo é incerto.
Não se conjuga no presente, o querer, desejar, ansear, sonhar, amar.
A incerteza é uma certeza, aliada do talvez.
Talvez vá...talvez fique....talvez possa... talvez venha, e no fundo o talvez é a certeza do nada.
Apenas assisto ao passar da vida como se fosse um sonho, um filme ou uma miragem.
Não me vejo, sou apenas sombra de mim mesma, o segundo plano, a terceira hipótese, a quarta opção, e na quinta, não existo e o que sinto, não conta para nada.
Sinto que a ingenuidade, a crença o sentimento, o sonho, a entrega e o pensamento, são apenas defeitos.
Os momentos difícieis passo-os acompanhada comigo mesma, e as palavras de conforto, não as escuto no silêncio.
Sinto a degradação do sentimento, dentro de mim.
Sinto que não vivo, apenas sobrevivo, sem sonhos, esperanças objectivos.
O futuro não existe.

 Sou o nada !

Imscv

19.03.2010

5 de dezembro de 2010

Os Ombros Suportam o Mundo .... de Carlos Drumond de Andrade




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drumond de Andrade

3 de dezembro de 2010

O tempo do amor

Quem não procura viver um amor...
Um grande amor?

Busca-se, encontra-se ou conquista-se.

O tempo transmuta o sentimento,

Antes :  amor-paixão, amor-desejo, amor-loucura, amor-plenitude.

Depois: amor-comodismo, amor-sociedade, amor-amizade


Amor Ultra_Passado!

Quando o amor vem, já chega com tempo determinado.


Imsc

26 de novembro de 2010

Não Sei Se Eras Tu....poema de Fernando Cardoso











Não sei se eras tu…
Naquele dia, naquela hora

E naquele sítio

Onde nos encontrávamos outrora.

Mas aquele ser,

Esbelto e esguio,

Olhou-me e sorriu

Com tal emoção

Como se me conhecesse

De outra encarnação.


Não sei se eras tu…

Aquele ser de luz

Que não falou

E se evolou

Entre a multidão,

Lesta e sem fim,

E que teima habitar

Dentro de mim…

FERNANDO CARDOSO

18 de novembro de 2010

Amo-te Muito, Muito! poema de "JOÃO DE DEUS "

















Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De cor-de-rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idem, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro;

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

João de Deus


12 de novembro de 2010

O Dinheiro ... poema de JOÃO DE DEUS


















O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,

Tlim!

Papo.


E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:

Tlim!

Pronta.


Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...


Tlim!


Ora...


Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!

(Tlim!)

Pois não!




João de Deus









1 de novembro de 2010

AMÉRICO SILVA " Amar Como Eu Sei "

Republico este poema por ser sempre actual




AMAR  Como eu sei...

Amar não se inventa, não nasce, não morre,
Faz parte do sangue que corre apressado,
É o fogo suave, que aquece a vida
É o luar de Agosto, é a chuva de Outono.

É a flor que desponta, é a folha que cai,
É um brilho nos olhos, um sorriso nos lábios
É o beijo que deslumbra, é o medo que angustía
É uma chegada desejada, uma partida desolada.

É um caminhar lado a lado, num vulcão adormecido,
É um beijo inesperado, numa viagem sem destino,
É uma paragem inesperada, entre hortênsias e hortelã
É uma caricia fugidia, numa estrada molhada.

É um caminhar à tôa, na noite acolhedora,
À procura do nada, no silêncio da alma,
No escuro protector duma montanha distante.
É a ousadia de sentir, o prazer de encontrar.

É o primeiro olhar, sorriso,  abraço, beijo....
O primeiro pulsar inquieto, a primeira angustia
A primeira dúvida, a primeira incerteza,
Sentir que o vento não se agarra, que a vida não se pára.

É um encontro com um tesouro que não sabemos guardar
É o brilho da luz dum cigarro, numa varanda escura,
Numa noite de vento, de medo..., de Setembro.
Um beijo apressado, num parque iluminado, num adeus repentino.

Amar é um fogo adormecido, escondido nas cinzas,
Que a brisa leve do destino, às vezes põe a descoberto,
Que o vendaval da paixão, ás vezes arrasa sem pensar,
Para se erguer de novo, e acender mais uma vez.

Amar é isso...um fogo adormecido,que sempre se reacende.
Uma chama apagada que se torna uma luz,
Que apaga e se acende ...
Que morre e ressuscita...
Para reviver eternamente na alma de quem sente.


Em Setembro 2003...Outubro 2010, amar será sempre assim.

Américo Silva

18 Set 04

21 de outubro de 2010

" Poema da Vida " de José Maria Lopes de Araújo





















Perguntas-me o que é a vida!
A Vida, meu amor,
É Amor
E ódio e talvez Morte …
E é semente de Bem que germina Ventura …
Vida é isto … E mais do que isto:
É Cristo
Na imagem do nosso semelhante;
É Amor … É Bem! …


O mar, no seu bramir
Constante,
Grita
Vida, vida que vem
Das suas entranhas,
No pão do marinheiro,
No pão do pescador.


Vida é o adeus
Na hora da partida …
É a angústia
De não poder
Estender
A mão,
Quando outras mãos,
Em gesto aflito
Suplicam ajuda …


Vida
É fome em tugúrios …
É esplendor
Em palácios …
Vida
É o grito sufocado
Que o ódio atiça …
O grito atormentado
Dos que clamam, em vão,
Piedade, amor e justiça! …


Vida,
Meu Amor,
É todo este Mundo
De podridão e de beleza,
Onde se confundem,
Em abismo profundo,
O Ódio e o Amor,
A Paz e a Dor,
A Alegria e a Tristeza! …


Vida é o sorriso enganador,
A soberba revoltante,
A mentira da verdade
Que se jura a cada instante …


Vida
É o negrume do cárcere
Onde se mirram,
Impiedosamente,
Os mais são ideais,
Quando se extingue
A luz da Justiça, do Bem


E da Verdade! …


É a dor daqueles pais
Que choram a perda dos filhos
Que, um dia, abalaram
E nunca mais,
Nunca Mais voltaram …


Vida
É a infância abandonada …
É o “ fruto do amor sem casamento “ …
É o grito sem eco …
É esse Nada
Que é Tudo, um Tudo
Todo feito de prazer e de tormento!


Para quê, pois viver,
Fugindo ao sofrimento
E entregue às vãs delícias da ventura,
Se a vida,
Oh! Meu amor,
É isto,
Este confuso misto
De dor e de prazer,
De gozo
E de amargura ! …


Vida é o rubro da forja …
É o canto do malho,
No ferro retorcido …
É o gemido
Do arado com que a corja
Vai rasgando a terra,
Embriagada de suor!

A corja que nos doa, generosamente,
A mais bela lição de Amor e de Verdade!
De Sol a Sol curvada, com sacrifício e humildade …
E sacrifício é sangue
A redimir a própria Humanidade!
Vida é isto …
Esta amálgama constante de sentimentos …
E sei lá que mais …
Perguntas-me o que é a ávida!
Que mais te posso dizer?
… É a chama misteriosa,
Clarão que, em breve, se apaga;
Chama que ilumina e arde …
E, se a tentamos reacender,
É tarde … Sempre tarde! …

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

11 de outubro de 2010

Palavras e Silêncios ....de Fernando Pessoa
















É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo
 
Fernando Pessoa

30 de setembro de 2010

Um Dia....Mário Quintana




















...Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer ...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana

21 de setembro de 2010

O Sexo Comanda a Vida....de Pedro Barroso


Os jogos começam cedo
no descobrir colectivo
no gesto subentendido
no procurar sem saber



Tanta falta, tão escondida
tanta mentira mentida
tanta busca de aprender
e a vontade a mandar,
e os adultos a não querer



e as coisas a acontecer...



Depois, vem o corpo e manda;



vem a sorte e o acaso
mais a vida convivida
que nos ensina sabores
preferências e valores
coisas que vão dar azo
a uma culpa indefinida...



Paixões, ímpetos, calores,
amores breves no recreio
aventuras sem ter freio



- E o sexo comanda a vida



E desculpa-me Gedeão
homem maior, professor,



há momentos em que creio
que mais que o sonho e o valor
mais que o talento ou a dor
mais que a vida acontecida
mais mesmo que o próprio amor
mérito, glória ou louvor.



Tem dias, secretos dias
tem horas, secretas horas
momentos acres, desejos.



Em que nos vem um ardor
uma razão cá de dentro
mais forte que o pensamento



Soprando mais do que o vento
na montanha mais subida.



Nesses momentos sabemos,
neste modo em que vivemos,



que o sexo comanda a vida...



Não que não sonhe a justiça
sonho perfeito de mim;



Não que não busque valores
exegeses superiores.



Mas olhando à minha volta
o desejo que anda à solta
mais a raiva fratricida
não posso deixar de ver.



Na cupidez, nos negócios
nas promoções,
no valor
que faz subir e descer
esta bolsa do viver.

Nem certeza, nem verdade
nem riqueza garantida



Ai amigos! Ai cidade!



- O sexo comanda a vida.



Essa menina bonita
que rebenta de esplendor,



no rolar lento das ancas
no lamber sábio da boca
vai ter muito mais valor.



Que o valor que nada vale
dessa outra,
assustada,
sabedora das matérias
competente e aplicada



Mas borbulhenta, feiosa,
sem graça, quase fanhosa
vinte valores no trabalho
mas negativa no jeito
sem lábios,
quase sem peito...



- Que lugar vai ter?
Que saída?



- Cientista, tradutora?



- Excelente investigadora?



Ai, desculpa-me, Gedeão
que injustiça tão sofrida
não há respeito sequer
é difícil ser mulher!



- Mas o sexo comanda a vida.



Mas cara amiga,
te digo



Se o jovem executivo
que te é apresentado
alto, composto, perfeito
elegante, bem vestido
encadernado a preceito



Apertar a tua mão
de um jeito mais que estudado
e te sorrir num bailado
e te falar no ouvido.



É mais que certo e sabido
perante um cantor de fado
não há norma na medida
nem recato nem respeito
nem olhar bem comportado



- Tu sentes calor no peito!...

- O sexo comanda a vida...

E se pensam que a razão
a busca da tal subida
é a riqueza,
o dinheiro
ter carros, poder, fortuna
e a vida favorecida...



A mim, dá-me a sensação
que o sucesso financeiro
é só uma contribuição.



- Apenas mais um caminho
para servir na corrida
acessória à sedução.



Pois desculpa-me Gedeão
mais que o sonho a que presida,
por desgoverno, paixão
loucura fútil, pressão,
por estupidez animal...



Ditadura visual
ou pecado venial
da tal utopia querida
nada sobrou,
nem moral.

- O sexo comanda a vida!





PEDRO BARROSO

16 de setembro de 2010

A Lágrima....Guerra Junqueiro

















Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.


Sôbre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,


A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.


Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrêla.


Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.


- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.


"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.


"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"


E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.



***


Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.


E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!


"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.


***


Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.


Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.


E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,


Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!


"Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,


"E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.


***


Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:


"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.


"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.


"Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...

"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...


"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...


***


E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,
Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...


GUERRA JUNQUEIRO
25 de Março de 1888.

26 de agosto de 2010

Poema de Pablo Picasso

















Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura.
Deixa o médico preocupar-se com eles.
É para isso que ele é pago.
Frequenta, de preferência, amigos alegres.
Os de "baixo astral" põem-te em baixo.
Continua aprendendo...
Aprende mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixes o teu cérebro desocupado.
Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
E o nome do diabo é Alzheimer.


Aprecia coisas simples.
Ri sempre, muito e alto.
Ri até perder o fôlego.
Lágrimas acontecem.
Aguenta, sofre e segue em frente.
A única pessoa que te acompanha a vida toda és tu mesmo.
Mantém-te vivo, enquanto vives!


Rodeia-te daquilo de que gostas:
Família, animais, lembranças, músicas, plantas, um hobby, o que for.
O teu lar é o teu refúgio.
Aproveita a tua saúde;
Se for boa, preserva-a.
Se está instável, melhora-a.
Se está abaixo desse nível, pede ajuda.
Não faças viagens de remorso.
Viaja para a cidade vizinha, para um país estrangeiro, mas não faças viagens ao passado.
Diz a quem amas, que realmente os amas, em todas as oportunidades.


E lembra-te sempre que:
A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos momentos
Em que perdeste o fôlego:
De tanto rir...
De surpresa...
De êxtase...
De felicidade...


PABLO PICASSO

12 de agosto de 2010

Ausência....VINICIUS DE MORAES


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

30 de julho de 2010

As Escadas de São Bento.... poema de Manuela Bulcão




















Rugas na cara
Cigarro esvoaçante ar cansado
Minissaia apertada de feridas
Corpo de traste
Sorriso desfeito pela pancada e felatio


Mulher objecto
Arranhada pela sede de sexo dos homens
Criança perdida
Lupanário ao ar livre sobre o céu do Porto


Vitima ou criminosa?
Acaso ou simples fome para matar?
Vicio ou escravidão?
Perguntas e mais perguntas…
Vejo aí nas escadarias de São Bento
Passo e olho
Fico presa no hábito mundano de ignorar
E sigo atrasada nos meus afazeres e papeis
Bastava uma palavra para a salvar?


Manuela Bulcão

20 de julho de 2010

Poesia da Felicidade........FERNANDO PESSOA



















Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
 
FERNANDO PESSOA

15 de julho de 2010

Preguiça.... poema de Manuela Bulcão


















Olho para o céu nocturno
A escuridão lembra a tua pele
Chocolate de leite


Vislumbra a camada de nuvens
Os fios de cabelo grisalho
Rasgam o castanho da minha íris


Saboreio o sal do mar
Emersa na escuridão do teu olhar
Coisa estranha e rara


E,
Rendo-me à preguiça da imaginação
Presa na lentidão matinal de esperar pela tua chamada
Continuo assim enrolada,
Nos lençóis…




Manuela Bulcão

9 de julho de 2010

Obessão do Mar Oceano...poema de MÁRIO QUINTANA











Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.




Mário Quintana

30 de junho de 2010

Ilhas Encantadas---- poema de MANUELA BULCÃO
















(Fotografia de Ana Loura)

Açores paisagem única, visão imaculada
Fontes da vida, Águas puras inócuas
Água translúcida, pura fonte da vida
Vegetação única da natureza, intocável terra orvalhada
Arquipélago
Ilhas encantadas, meus olhos brotam lágrimas perpétuas
A saudade, do cheiro a maresia é escrava do meu lamento
Jardins à beira mar plantados, pérolas do oceano.
Açores minhas ilhas meus amores
Sou filha do nada
Filha encantada, filha rejeitada, filha mal amada
Sou tudo, sou nada, serei idolatrada
Amante insular
Um dia serei amada, PRINCESA ENCANTADA




Manuela Bulcão
(Poetisa Açoreana)

24 de junho de 2010

Adeus/Não-Adeus ...poema de MANUELA BULCÃO





















Qual o significado desta pequena palavra?
Entrada na inexistência pura da saudade
Tanto a proferi nesta existência
Somos companheiros do pesar
Amantes furiosos das ondas de uma mera tempestade


Não me queria despedir de ti eternamente
Sinto-me frágil na tua presença distante
Do outro lado do oceano estás
Num quarto sonolento estou prostrada


Nunca te direi ADEUS, meu amor !
Tatuaste-me e acariciaste esta fera
Agora mergulho o meu corpo cansado na escuridão
Sempre a pensar na tua essência que desconheço…
Um NÃO-ADEUS para ti!






Manuela Bulcão

(Poetisa Açoreana)

20 de junho de 2010

Serradura......poema de Mário Sá Carneiro






















(Pintura de Margarida Cepêda )


A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.


E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.


Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.


Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:


Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.



Folhetim da "capital";
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...


O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...


Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...


Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:


O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "viva a alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...


Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.






Mário de Sá-Carneiro

16 de junho de 2010

Lágrimas Ocultas ...Florbela Espanca


















Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

14 de junho de 2010

Modinha...poema de " CECÍLIA MEIRELES "

















Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixeia-as,
Junto com as minhas cantigas,
Desenhadas nas areias.


Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!


O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.






Cecília Meireles

10 de junho de 2010

Horizonte....poema de Fernando Pessoa






















O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha


O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.






Fernando Pessoa

7 de junho de 2010

Reinvenção ....de CECÍLIA MEIRELES




















(Foto de Antonimus)

A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.




Cecília Meireles

3 de junho de 2010

Não Sei Quantas Almas Tenho...... de ...Fernando Pessoa



















Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma
.Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <>
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

30 de maio de 2010

Como Eu Não Possou..... de Mário de Sá Carneiro





















Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.



Mário de Sá-Carneiro

29 de maio de 2010

Noções.....de CECÍLIA MEIRELES



















(Pintura da artista Margarida Cepêda)

...................................


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...



Cecília Meireles

26 de maio de 2010

Existir é Ser Possível Haver Ser....de ÁLVARO DE CAMPOS













(Pintura de MARGARIDA CEPÊDA)


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!


Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!


Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?


Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.


Álvaro de Campos, in "Poemas"


Heterónimo de Fernando Pessoa

24 de maio de 2010

Oração das Mulheres Resolvidas....de JULIO MACHADO VAZ



















Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo, que a fonte nunca seque, e que a nossa sogra nunca se chame Esperança, porque Esperança é a última que morre...

Que os nossos homens nunca morram viúvos, e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos,e os feios se tiver tempo...

Deus...

Eu vos peço sabedoria para entender um homem, amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos, porque Deus, se eu pedir força, eu bato-lhe até matá-lo.

Um brinde...

Aos que temos, aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram, aos trouxas que nos perderam, e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!

Que sempre sobre, que nunca nos falte, e que a gente dê conta de todos!

Amén.


22 de maio de 2010

Como é por Dentro Outra Pessoa de... FERNANDO PESSOA















Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa, 1934

20 de maio de 2010

Epígrafe....poema de Eugénio de Castro
























(Foto de Antonimus)

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som  de água ou de bronze e uma sombra que passa...


EUGÉNIO DE CASTRO

14 de maio de 2010

O Pássaro Cativo...poema de Olavo Bilac



















“Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar!
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...”



Olavo Bilac