31 de dezembro de 2008

O QUE NÃO SE RECORDA poema de Luis Rosales ( Espanha)





O QUE NÃO SE RECORDA


Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.

Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.

Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.

O silêncio
pôde mais que o esforço.

Anoitecia

para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.



LUIS ROSALES

28 de dezembro de 2008

* TUDO É FOI * poema de António Gedeão




Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


ANTÓNIO GEDEÃO

22 de dezembro de 2008

Alma Minha Gentil Que Partiste " LUIS DE CAMÕES "





Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões

18 de dezembro de 2008

" DESPERTAR " poema de Vitor Cintra







Ânsia de amor, quando assalta,
Faz com que o sonho esquecido
Ganhe, de novo, sentido,
Como a essência, que exalta.

Ímpeto, de maré alta,
Arte, de leito escondido,
Dom, de sabor proibido,
Fogo, paixão, que ressalta.

Perda, carência, dor, falta,
Sombra, dum tempo perdido,
Chama, prazer reprimido;

Onda de choque, ribalta,
Corpos, vertigem, gemido,
Frémito desinibido.


VITOR CINTRA
do livro " MURMÚRIOS "

16 de dezembro de 2008

Quando se Gosta de Alguém de
* AMÁLIA RODRIGUES *




Quando se gosta d'alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo que é que se sente

Quando se gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior agente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto.

AMÁLIA RODRIGUES

5 de dezembro de 2008

ÚLTIMO SONETO poema de Mário de Sá-Carneiro




ÚLTIMO SONETO


Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes - e vieste ...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que mordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste...Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava? ...


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

30 de novembro de 2008

" UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA " poema de E.M.de Melo e Castro




Uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia.

Um nome não nome o mesmo nome
Um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia.

Uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

Um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em caa chama o nome que se chama
o nome que se chama se incendeia.

E.M de Melo e Castro

26 de novembro de 2008

* OLHOS TRISTES *poema de Vitor Cintra




Olhos tristes, senhora,
Os vossos. Tristes de mais,
Olhos de dor, de quem chora.
Senhora, porque chorais?


Se essa tristeza, que mora
Nos olhos, nos dá sinais
Da mágoa, que vos devora
E, a medo, mal disfarçais,
Mostrai-nos então, se agora,
Dos olhos, porque me olhais,
Se vai a tristeza embora,
Ou quedam tristes, iguais.

VITOR CINTRA

do livro " MURMÚRIOS "

19 de novembro de 2008

"Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen





Quando me amei de verdade,
pude compreender
que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo,
na hora certa.
Então pude relaxar.

Quando me amei de verdade,
pude perceber que o
sofrimento emocional é um sinal
de que estou indo contra a minha verdade.

Quando me amei de verdade,
parei de desejar que a minha vida
fosse diferente e comecei a ver
que tudo o que acontece contribui
para o meu crescimento.

Quando me amei de verdade,
comecei a perceber como
é ofensivo tentar forçar alguma coisa
ou alguém que ainda não está preparado
- inclusive eu mesma.

Quando me amei de verdade,
comecei a me livrar de tudo
que não fosse saudável.
Isso quer dizer: pessoas, tarefas,
crenças e - qualquer coisa que
me pusesse pra baixo.
Minha razão chamou isso de egoismo.
Mas hoje eu sei que é amor-próprio.

Quando me amei de verdade,
deixei de temer meu tempo livre
e desisti de fazer planos.
Hoje faço o que acho certo
e no meu próprio ritmo.
Como isso é bom!

Quando me amei de verdade,
desisti de querer ter sempre razão,
e com isso errei muito menos vezes.

Quando me amei de verdade,
desisti de ficar revivendo o passado
e de me preocupar com o futuro.
Isso me mantém no presente,
que é onde a vida acontece.

Quando me amei de verdade,
percebi que a minha mente
pode me atormentar e me decepcionar.
Mas quando eu a coloco
a serviço do meu coração,
ela se torna uma grande e valiosa aliada.



Trechos do livro "Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen

16 de novembro de 2008

MÃE de Almada Negreiros





Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro,encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


ALMADA NEGREIROS

12 de novembro de 2008

Espero-te Sem Te Esperar de MARIA JOÃO L.









Sei como pode ser difícil o outro lado da viagem
Onde reinam tuas imensas razões,
E onde habitam as minhas profundas emoções.
Percorremos a Terra, caminhando em labirintos de cores e cheiros diferentes.
Será que a melodia que nos uniu, pode ser poderosa e vencer a tua multidão ?
Mas eu não quero conquistar ninguém...
Mas, também não quero nada que te possa magoar,
Se os ANJOS me revelassem, que nosso abraço nasceu para ser apenas sonhado,
Eu guardava-te para sempre escondido no meu coração.
Sempre deixei que fosses tu a comandar este amor...
Tens uma vida lindamente merecida e esculpida de razões...
Sei compreender
Aprendi tanto de amor a doer
Sei continuar a sonhar...

E neste sentir maior assim espero-te sempre sem te esperar ...




Maria João L.


(Texto que me foi enviado e que achei muito bonito, partilho-o aqui)

10 de novembro de 2008

ÁRVORE poema de Kóstas Karyotákis ( Grécia)

ÁRVORE


Com rosto indiferente e ar de pouco caso,
saúdo as madrugas, os ocasos.

Árvore, hei-de olhar, com mirada isenta,
o céu azul ou a fúria da tormenta.

A vida, digo, é féretro no qual
dor,
alegria do homem têm o seu final

5 de novembro de 2008

SOLIDÃO de Afonso Henriques







Saudade é solidão acompanhada,
É quando o amor ainda não foi embora,
Mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
É a dor dos que ficaram para trás,
É o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
Aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
Não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



AFONSO HENRIQUES

31 de outubro de 2008

" A Dor Que Dói Mais " de MARTHA MEDEIROS





Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.


MARTHA MEDEIROS

MARTHA MEDEIROS

30 de outubro de 2008

Não Sei Nada...... poema de LG















Pergunto a mim próprio se existo,

ou se apenas resisto às mais doces tempestades;
poço de mentiras e verdades
em que teimosamente insisto.

Pergunto a mim mesmo se valho,
ou se apenas resvalo em delícias planas;
simples desflorador de camas,
ou singela gota de orvalho..


Pergunto a mim próprio se penso,
ou se só lanço a confusão;
se é líquida resignação,
ou os meus próprios medos venço..


Pergunto a mim mesmo se lido,
ou mergulho na preguiça;
se lidero a justiça,
ou se por ela fui vencido..


Pergunto a mim próprio se vivo
tal como a vida se imagina,
se antevê ou se alucina,
ou sou dela apenas cativo..


Pergunto, por fim, a mim próprio,
se perguntar a mim mesmo sei,
ou se, pelo contrário, herdei
o dom de ser um ser impróprio.


.


Poema de Luis Gabriel

21 de outubro de 2008

OCIDENTE-ORIENTE poema de Adonis ( 'Ali Ahmad Sa'Id)

Era algo que se estendia no túnel da História,
Algo enfeitado e minado
Levando seu menino de nafta envenenado,
Por venenoso mercador cantado;
Era um Oriente - criança que pede,
Grita " Socorro !"
E o Ocidente, seu senhor nunca errado -
Mudado está agora este mapa;
O Universo em chamas,
Oriente - Ocidente : um só
Túmulo
Em cinza os tem juntado ...

15 de outubro de 2008

" Já um Pouco de Vento se Demorara " poema de VITORINO NEMÉSIO






Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casa mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove



VITORINO NEMÉSIO

10 de outubro de 2008

AMIÚDE poema de Raul de Carvalho






AMIÚDE

No vale dos afectos
ninguém está seguro:
Mingua a lembrança,
Esquece-se o rosto,
Retorna-se ao eu,
Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a
presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo -

E apenas as pequenas ilusões
- um café, o cigarro, a limonada -
imitam dois corações unidos ...



Raul de Carvalho

5 de outubro de 2008

O BANHO DOS POBRES poema de Tonino Guerra ( Itália )




O BANHO DOS POBRES


Os pobres da minha terra
tomam banho no rio
e estão de molho na água
um dia inteiro.
Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
Voltam quando é noite
Encontram outra vez as velhas casas
com as cabeças dos gatos aos janelos
e toda a água nos cântaros represa.

30 de setembro de 2008

EU NÃO SEI AO CERTO ... poema de Jaime Sabines ( México )




EU NÃO SEI AO CERTO...


Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficar sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio.
Como a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então que sabem tudo.
Vêem-se nus e sabe, tudo.

( Eu não sei ao certo. Suponho-o )



JAIME SABINES

25 de setembro de 2008

CANÇÃO poema de ANTÓNIO BOTTO

CANÇÃO


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo : - a luz do dia!
-Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede a e vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo o que possa ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!



ANTÓNIO BOTTO

19 de setembro de 2008

NÃO GOSTO




Não gosto de meias palavras.

Prefiro o silêncio aos gritos ensurdecedores das pessoas com quem tenho de falar e que não me dizem nada.

Não gosto de engolir palavras que não mereço, nem de desculpas esfarrapadas.

Não gosto de pessoas que só querem o que não têm e quando têm o que querem, não sabem do que gostam.

Não gosto de ouvir, talvez, não sei, sei lá, depois vê-se, tem paciência.

Não gosto que me peçam desculpa.

Não gosto que me prometam e não cumpram, de encontros desmarcados e de esperas infinitas.

Não gosto de gritos, de confusões, de gestos teatrais e dramatismos.

Não gosto de intrigas e de histórias mal contadas, não gosto de meias verdades.

Não gosto de palavras sem sentido e de falar por falar.

Não gosto que falem comigo e não me olhem nos olhos.

Não gosto de palavras arrastadas e de segredos mal guardados.

Não gosto de pessoas que andam de nariz empinado e se acham melhores que os outros.

Que pensam que sabem tudo e que falam com arrogância, que têm um ar de gozo, mas que choram por dentro.

Não gosto de perder tempo, prefiro gastá-lo com o que mais gosto.

Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de sorrisos amarelos.

Não gosto de pessoas que falam mansinho ao chefe e levantam a voz à mulher da limpeza.

Não gosto de pessoas que sabem que não têm razão e ainda assim não o admitem.

Não gosto de não poder acreditar nas outras pessoas nem de voltar atrás na palavra e ainda menos que voltem atrás comigo.

Não gosto de pessoas que não olham a meios para atingir os seus fins.

Não gosto de quem não gosta de um animal.

Não gosto de pessoas que só vêm o seu lado e que esquecem todos os outros.

Não gosto quando não dizem que gostam de mim, quando o sentem na realidade.

Não gosto de ter saudades daquilo que gosto.

Não gosto que se esqueçam dos meus anos, nem de mim, mas principalmente não gosto que quando esquecida, não me guardem num lugar do coração.

( Desconheço o Autor

13 de setembro de 2008

Filha de Um Amor Proibido - Isabel Valente




Os jovens de hoje não sabem que, na minha geração, haviam
crianças nascidas fora do casamento, e em cujo registo pessoal
constava o nome da Mãe, tendo por pai, um “ Pai Incógnito”.
Estas crianças, eram estigmatizados como, os filhos do pecado,
da vergonha, os filhos da outra.

Eram os filhos fora do casamento, os bastardos.
É que o registo obrigatório com nome de pai é recente, e eu já
sou "Cota".

Para a nova geração onde todos à nascença são registados com o
nome de mãe e de um pai, verdadeiro ou não, não lhes é fácil
entender o que é viver com o facto diário de ser filha de” pai
incógnito”.

Tendo eu passado por essa experiência, não me é difícil
explicar o que é ser filha de Pai Incógnito.
Hoje na maioria das Repartições Públicas todas achamos uma
grande maçada, ter de preencher formulários, para mim, passou
a ser, uma bênção.

Em alguns desses formulários tinha de mencionar o nome de Mãe
e de Pai, então lá vinha o tormento ---Pai Incógnito --- .
Isto era dito em voz baixa, tentando que ninguém ouvisse, na
maioria dos casos não resultava, por esse mesmo motivo, era
obrigada a repetir mais alto, sendo motivo para que toda a
plateia se virasse para ver quem era a santa alminha que era
fruto de tamanho pecado, e mais, ser confrontada com olhares
de censura indirecta, em alguns casos estampado um leve
sorriso de superioridade, e talvez que, se eu lhes lesse o
pensamento…estaria lá bem patente “ aquela é filha da mãe”.
O mesmo acontecia na escola, sempre que a professora me
perguntava o nome dos meus pais, eu respondia o nome da minha
mãe, ela, pensando que eu não tinha entendido que o pretendido
era nome dos PAIS, lá eu era obrigada, envergonhadamente a
dizer “Pai Incógnito “

Ser filha de Pai Incógnito no meu caso, era doloroso,
porquanto não me conformava em conhecer o meu PAI e ser
reconhecida por ele, e esse facto não ser aceite pela própria
sociedade .

A censura ao mesmo tempo recai , naquele homem que traiu a
esposa, e que nem se envergonha do seu próprio pecado, quando
se proclama pai .

A filha de Pai Incógnito, cuja responsabilidade de estar
vivendo esse “ horror “ era o pecado dos progenitores , o
Pecado de um Amor Proibido……sendo eu portanto, a filha de um
amor proibido.

Ser filha de Pai Incógnito, é também sentir nos nossos meios
irmãos esse rancor, porque somos a vergonha que manchou o seio
da sua família, a mágoa com que a mãe deles acorda e adormece.

Outra mesma frente de retracção, se verifica nos outros meios
irmãos, os filhos do novo casamento da mãe, esses sim, filhos
de um pai e de uma mãe, que têm na família um patinho feio,
que lhes lembra não a traição da mãe, mas o pecado dela.
Isso que atrás descrevi é a minha experiência, sentida na pele
de criança.

Hoje a sociedade mudou, existem filhos de pais assumidos que
nunca viram a cara dos seus filhos, nunca pegaram neles ao
colo, nunca lhes deram tão pouco, um pouco de carinho…..ou
mesmo, um pedaço de pão.

Meu Pai, Homem de bem, homem culto e com uma visão fora da sua
época, nunca precisou de Instituições que o obrigassem a
reconhecer as suas obrigações de Pai , no sentido amplo da
palavra, soube ultrapassar todos os obstáculos, próprios da
época afirmando aos amigos e família sem nenhum tipo de
preconceito: ” Esta é a minha filha”.

Felizmente foram ultrapassadas essas Imposições de uma
sociedade fascista, falsa e preconceituosa.
Hoje só quero mesmo é relembrar o homem que adorei, que adoro
e a quem chamei Pai, sem que por isso tenha de exibir o BI….a
minha homenagem a ele , meu PAI.

A minha homenagem à minha MÃE, que foi marginalizada, apontada
pela sociedade, que viveu esse amor, pagando caro o seu
“pecado” .

Benditos sejam os dois, que pecaram para que eu
existisse, e hoje esteja aqui falando para a nova geração
sobre a minha experiência de ser filha de Pai Incógnito.


O nome dessa grande Mulher, minha MÃE é ELVIRA, nome dado também á minha neta.

O nome do HOMEM, mais PAI e corajoso que alguma vez conheci e do qual me orgulho é
JOÃO.


10 de setembro de 2008

SAUDADE DA PROSA poema de Manuel António Pina







Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.

E se regressava
oelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


MANUEL ANTÓNIO PINA

29 de julho de 2008

SÓ poema de José Maria Lopes de Araújo








Ai, se eu pudesse evadir-me
De mim mesmo,
Desta prisão
Que me põe grades, no coração ...
Se eu pudesse partir, correr,
Caminhar sem norte,
Correr , a esmo ,
Na floresta dos meus sonhos ,
E colher rosas orvalhadas
E alvas hortênsias
Nas bermas das estradas ...


Mas correr, cantando
Hinos de louvor à vida ,
Pelo odor
Que se emana da natureza
Pelo bem da Humanidade,
Pela pétala caída ...
Pela beleza
Da flor
Que nos enche a alma e o olhar
De alacridade
E cor ! ...


E continuo a viver ,
Encarcerado ,
Mesmo dentro de mim ...
Esmaga-me o silêncio
Das coisas, das pessoas ...
E a labareda da loucura
Continua crescendo, no incêndio
Da floresta dos meus sonhos !


Ai, se eu pudesse evadir-me
Das grades do meu coração ...
Não mais sofreria,
Como sofro ... Não ! Não !


Agora, já tudo é cinza ...
Já tudo é pó ..
E recomeço a sentir-me, no mundo,
Isolado...Só...Muito só...
Cada vez mais só ! ....


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

8 de julho de 2008

" VAZIO.... " de Isabel Valente





Vida que é vivida, vazia de afectos, palavras, carinhos, não pode ser vida, para ser vivida ,apenas sozinhos.

Se a vida nos dá :

Diálogo dos silêncios.
Solidão de mãos dadas,
É vida vazia, apenas vivida, mesmo acompanhada.

São cacos colados, corações partidos,
Sentimentos castrados,
Sonhos proibidos.
São vidas sem cor,
Sem gestos de amor
Apenas fachada,
É vida de quem, amar pouco sabe, ou apenas nada!

Viver, por viver, apenas num mundo, feito fantasia, mil vezes sofrer, a ter que morrer um pouco cada dia.


Isabel Valente

3 de julho de 2008

NOSTALGIA


(Foto da autoria de Ricardo Chaves )


O texto abaixo é uma transcrição do publicado no blog do RICARDO CHAVES

aqui:
  • RCHAVES






  • Porque me fez recuar à ilha de S.Maria de outros tempos, e porque felizmente ainda hoje é possivel ás nossas crianças (da ilha), viverem um pouco assim, " em liberdade ",aqui deixo este texto que me deu imenso gosto ler, que tenho e tenho outro tanto em partilhar
    .




    Nascidos antes de 1986;

    De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque:

    -As nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos.

    -Não tínhamos frascos de medicamento com tampas “à prova de crianças”, os fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.

    -Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.

    -Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e “airbags” - viajar à frente era um bónus.

    -Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem.

    -Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora.

    -Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.

    -Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.

    -Saía-mos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.

    -Não tínhamos “Play Station”, “X Box”. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, “home cinema”, telemóveis, computadores, DVD, “Chat” na internet.

    -Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos à rua, jogávamos ao elástico e à barra e à bola até doía, caíamos das árvores, cortava-mo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Haviam lutas com punhos mas sem sermos processados.

    -Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.

    -Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola, não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.

    -Criávamos jogos com paus e bolas.

    -Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, eles estavam do lado da lei.


    Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
    Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.

    Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.

    És um deles? Parabéns!

    Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, “para nosso bem”.

    Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós.

    Isto meus amigos é surpreendentemente medonho… e talvez ponha um sorriso nos vossos lábios:

    A maioria dos estudantes que estão nas universidades hoje nasceram em 1986…chamam-se jovens.

    Nunca ouviram “we are the world” e “uptown girl” conhecem de Westlife e não Billy Joel.

    Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname.

    A SIDA sempre existiu. Os CD’s sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco.

    Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia “Deus da dança”.

    Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie são filmes do ano passado.

    Não conseguem imaginar a vida sem computadores.

    Não acreditam que houve televisão a preto e branco.

    Agora vamos ver se estamos a ficar velhos:

    1. Entendes o que está escrito acima e sorris;
    2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada;
    3. Os teus amigos estão casados ou a casar;
    4. Surpreende-te ver crianças tão à vontade com computadores;
    5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis;
    6. Lembras-te da Gabriela (a primeira vez);
    7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos;


    SIM. ESTÁS A FICAR VELHO, heheheh.
    …mas tivemos uma infância do caraças!!!

    Pois tivemos.




    Desconheço o AUTOR

    ... que certamente é da minha ilha S.Maria-Açores

    22 de junho de 2008

    ELOGIO AO AMOR de Miguel Esteves Cardoso




    Ou de como eu costumo dizer:

    - O Amor é como o Chocolate, não tem de fazer sentido.

    Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la.
    Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha.

    O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
    Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

    O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
    Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
    Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
    Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
    Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
    Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama.
    Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
    Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

    O amor passou a ser passível de ser combinado.
    Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
    O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
    A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
    O amor tornou-se uma questão prática.
    O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
    Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
    Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.






    Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

    Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

    O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
    Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

    Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.
    Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.

    Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
    É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.

    Tanto faz.
    É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
    A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

    O amor puro é uma condição.
    Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.

    Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma.
    É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
    A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
    A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.

    Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
    O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
    E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

    Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
    sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

    Não se pode ceder. Não se pode resistir.

    A vida é uma coisa, o amor é outra.
    A vida dura a Vida inteira, o amor não.

    Só um minuto de amor pode durar a vida inteira.
    E valê-la também."



    Miguel Esteves Cardoso

    12 de junho de 2008

    * INTERROGAÇÃO * poema de José Maria Lopes de Araújo





    Não tentes afastar-me do meu rumo,
    Que eu bem sei o que quero e onde vou...
    Não lembres o passado porque é fumo
    Duma chama que, há muito, se apagou !


    Da labareda ardente só ficou
    A cinza da quimera e nada mais ...
    Do meu passado tudo se queimou ...
    E apenas restam meus doridos ais !


    E deixem-me ficar, assim sozinho,
    Com todo o sofrimento, no caminho
    Que me há-de confundir ao Redentor ...


    E pensar, meditar profundamente :
    - Por que motivos alimenta a gente
    Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    do Livro " Outono da Vida "

    5 de junho de 2008

    O Teu Corpo poema de ÂNGELO GOMES






    Deixa-me acordar, sorrir, esbracejar
    Em cada alvorada de sonos inquietos
    Pensamentos lentos, lista de afectos
    Tua voz sentir, acto de inventar

    Desenho o teu corpo enquanto desperto
    De suave tecido em mãos de ternura
    Que beijo e rebeijo com tanta doçura
    E amo e possuo como se estivesses perto

    Que venham sóis, chuvas ou tormentas
    Que toquem os sinos abordando rebates
    Que caiam ferros, pedras, alicates
    Que as bocas estejam secas e sedentas

    Oh... como adoro o teu corpo de frescura
    Razão das razões... toque de magia
    Que invade o meu, deixando nostalgia
    Saudade intensa, retrospectiva pura

    Corpos colados, invasão das mentes
    Selados em lençóis ou calmas areias
    Torcendo, mexendo, como centopeias
    Acabando molhados, sôfregos, ardentes

    Adoro o teu corpo de sonho e desejo...
    Suporte de um todo que vejo e revejo.



    ÂNGELO GOMES


    Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
    Código do texto: T232095

    25 de maio de 2008

    TARDE...poema de Espínola Mendonça




    Partiste no explendor da mocidade,
    E esperei que voltasses novamente.
    Escrevias dizendo: _Brevemente..._,
    E esperei uma longa eternidade.

    Anos depois tu voltas, finalmente;
    E a mim mesmo pergunto se é verdade.
    Porque sinto mais viva esta saudade
    Do que no tempo em que estiveste ausente

    Em vez d'essa alegria tão sonhada,
    Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada.
    E cada qual de nós ficou mais triste.

    Adivinhaste... e eu adivinhei:
    Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_
    E eu só te sei dizer: _Porque partiste?


    Espínola de Mendonça
    ( 1891-1944 )

    28 de abril de 2008

    APETECE-ME poema de Ângelo Gomes






    APETECE-ME, beber na tua boca, o veneno que mata os meus desejos
    Presos nas amarras do pensamento,
    Que nem o vento
    Soube levar a paragens longínquas…

    APETECE-ME. Mordiscar os dedos dos teus cabelos,
    Que nem torturados,
    Confessam pecados……………

    APETECE-ME, atravessar os rios do teu corpo,
    Que nem leito preguiçoso,
    Bebendo gota a gota em descarada timidez,
    o suor da tua nudez……..

    APETECE-ME, arrancar pedaços de ti,
    que nem pétalas de pálidas flores,
    que por amores
    têm apenas a maldade
    de encobrir a falsa virgindade……….

    APETECE-ME, rasgar as tuas entranhas
    E roubar-te o grito do prazer,
    Que nem loucuras tamanhas
    Fizeram orgasmos assim,
    E por fim,

    APETECE-ME, violar o teu abraço,
    Para no meu cansaço
    Saborear o mel
    Que escorre da tua pele,

    Arrepiado….
    Saciado…….
    APETECE-TE????
    Diz…..
    APETECE-ME, sim……
    APETECE-ME SER FELIZ……….




    Ângelo Gomes

    16 de abril de 2008

    O TEU OLHAR poema de Ângelo Gomes





    Que é feito do olhar que me tirava das trevas?
    Que é feito da doçura que me curava tédios?
    Que é feito dos prédios alicerçados em ti….
    Que é feito de mim… que é feito do sorriso,
    Do cristal, das margens do rio que chora e não ri?

    Que falta me fazem os teus olhos de seda !…
    Que nostalgia, que vácuo, que varanda sem horizontes...
    Que fontes secas, que vida sem forma nem conteúdo !...
    Que Entrudo de máscaras que disfarçam as mágoas….
    Que fráguas, que colinas íngremes, que montes !...

    O teu olhar !... a suavidade cremosa das tuas palavras …
    Que travas … que lavas como quem descobre pepitas de ouro …
    Que colocas a soro na convalescença dos tempos !....
    O teu olhar !... a tua intensa vontade de viver …
    Que é feito da generosidade que te eleva como ser?



    Ângelo Gomes

    3 de abril de 2008

    DESDE QUE EU O VI... poema da Alemanha , de Albert Von Chamisso

    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar;
    Só a ele vejo,
    Olha pra onde olhar;
    Com a sua imagem
    Sonho em pleno dia,
    Vem das trevas, sobe,
    Clara de harmonia.
    Sem ele tudo é
    Sem luz e sem cor,
    Já não me apetece
    Coas irmãs brincar;
    Agora só quero
    No quarto chorar;
    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar.




    Trad: João Barrento

    30 de março de 2008

    * Como Eu Te Amo * poema de Elizabeth Barrett Browning

    Amo-te quanto em largo, alto e profundo
    Minh’alma alcança quando, transportada,
    Sente, alongando os olhos deste mundo,
    Os fins do Ser, a Graça entressonhada.


    Amo-te em cada dia, hora e segundo:
    À luz do sol, na noite sossegada.
    E é tão pura a paixão de que me inundo
    Quanto o pudor dos que não pedem nada.

    Amo-te com o doer da velhas penas;
    Com sorrisos, com lágrimas de prece,
    E a fé da minha infância, ingénua e forte.

    Amo-te até nas coisas mais pequenas.
    Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
    Ainda mais te amarei depois da morte.




    Elizabeth Barrett Browning

    8 de março de 2008

    * Indelével Saudade * poema de EUCLIDES CAVACO







    Eu choro nos meus versos a saudade
    Que é dos ausentes a eterna companheira
    Como parte do seu ser que sempre há-de
    Ser uma angústia que alimenta a vida inteira.



    Deixei chorar minha caneta de amargura
    Porque sentiu do seu poeta a emoção
    Viu que as palavras nada tinham de loucura
    Eram ditadas dum plangente coração...



    E a caneta vai chorando em cada dia
    Da minha mão sentindo a fragilidade
    Porque ela entende dum ausente a agonia!...



    São os meus versos portadores dessa ansiedade
    Feita palavra...É filha da nostalgia
    À qual nós demos o nome de Saudade !...




    Euclides Cavaco

    * FIVE O'CLOCK TEAR * poema de EMANUEL FÉLIX







    Coisa tão triste aqui esta mulher
    com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
    com seus olhos voando devagar sobre a mesa
    para pousar no talher
    Coisa mais triste o seu vaivém macio
    p'ra não amachucar uma invisível flora
    que cresce na penumbra
    dos velhos corredores desta casa onde mora

    Que triste o seu entrar de novo nesta sala
    que triste a sua chávena
    e o gesto de pegá-la

    E que triste e que triste a cadeira amarela
    de onde se ergue um sossego um sossego infinito
    que é apenas de vê-la
    e por isso esquisito

    E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
    seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
    o álbum a mesinha as manchas dos retratos

    E que infinitamente triste triste
    o selo do silêncio
    do silêncio colado ao papel das paredes
    da sala digo cela
    em que comigo a vedes

    Mas que infinitamente ainda mais triste triste
    a chávena pousada
    e o olhar confortando uma flor já esquecida
    do sol
    do ar
    lá de fora
    (da vida)
    numa jarra parada


    EMANUEL FÉLIX

    (in "A Palavra O Açoite", 1977)

    20 de fevereiro de 2008

    EM BUSCA DO AMOR de Florbela Espanca




    O meu Destino disse-me a chorar:
    " Pela estrada da Vida vai andando,
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amor, que hás-de encontrar. "

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando...
    E noite e dia, à chuva e ao luar,
    Fui sempre caminhando e perguntando ...

    Mesmo a um velho eu perguntei : " Velhinho,
    Viste o Amor acaso em teu caminho ? "
    E o velho estremeceu...olhou ...e riu...

    Agora pela escada, já cansados,
    Voltam todos pra trás desanimados ...
    E eu paro a murmurar : " Ninguém o viu"! ..."


    FLORBELA ESPANCA

    8 de fevereiro de 2008

    * SONETO * poema der E.E.Cummings (E.U.A)





    Não será sempre assim... Quando não for,
    Quando teus lábios forem de outro; quando
    No rosto de outro o teu suspiro brando
    Soprar; quando em silêncio, ou no maior

    Delírio de plavras desvairando,
    Ao teu peito o estreitares com fervor;
    Quando, um dia, em frieza e desamor
    Tua afeição por mim se for trocando:

    Se tal acontecer, fala-me. Irei
    Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
    " Goza a ventura que já gozei".

    Depois, desviando os olhos, de improviso,
    Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
    Cantar no meu perdido paraíso.


    Tradução de : Manuel Bandeira

    Livro: Rosa do Mundo

    4 de fevereiro de 2008

    * Á Cara Metade * poema de ADRIANO FERREIRA





    É na paz do teu olhar, cheio de amor:
    No arroubo da sua luz, que me ilumina:
    No seu fulgor ingénuo de menina,
    Onde embate meu ego, com fragor!

    É nesse mar imenso de ternura;
    No amplexo envolvente da sua calma,
    Onde se espalha a pureza da tua alma
    E onde mergulha a minha e se depura!

    Quando, um dia, decrépito, no fim,
    Já muito perto da última viagem,
    Rezarei para estares junto a mim.

    E no meu leito de morte, moribundo,
    Gravarei, nas pupilas, tua imagem
    -Meu doce guia, lá no outro mundo.



    ADRIANO FERREIRA

    Poeta da ilha de S.Maria - Açores

    27 de janeiro de 2008

    Fernando Pessoa

    Tenho tanto sentimento
    Que é frequente persuadir-me
    De que sou sentimental,
    Mas reconheço, ao medir-me,
    Que tudo isso é pensamento,
    Que não senti afinal.

    Temos, todos que vivemos,
    Uma vida que é vivida
    E outra vida que é pensada,
    E a única vida que temos
    É essa que é dividida
    Entre a verdadeira e a errada.

    Qual porém é verdadeira
    E qual errada, ninguém
    Nos saberá explicar;
    E vivemos de maneira
    Que a vida que a gente tem
    É a que tem que pensar.

    12 de janeiro de 2008

    * BRUMAS * Poema de Vitor Cintra





    Nas brumas dos meus silêncios
    Nascem visões encantadas,
    Com ninfas, bruxas e fadas,
    Sonhos de amor, sempre densos.

    Nas brumas dos meus silêncios,
    Onde os mistérios são nada,
    Surgem paixões exaltadas,
    Feitas desejos, imensos.

    Nascem lembranças, eivadas
    De sensações adiadas
    E cheiros breves, intensos,

    Sem ilusões ansiadas,
    Em desespero, guardadas
    Nas brumas dos meus silêncios.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    7 de janeiro de 2008

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"





    Montei minhas asas brancas
    e corri
    para ti
    à velocidade do amor
    ...fugias louca
    rubra
    informe
    mais célebre
    mais célebre ainda
    mas num amplexo
    parido
    na furia
    do meu desejo
    absorvi
    teu corpo
    espuma ...

    Desapareceste
    de meus braços
    teu cheiro teu som
    teu eco se desfez no horizonte
    em pó em vento em nada

    Derrotado
    Inerte



    Fernando Monteiro

    Do livro " Mar Branco "


    Ilha de S.Maria - Açores

    2 de janeiro de 2008

    " NÓS "
    poema de VITOR CINTRA




    P'ra todos nós o segredo
    Duma vivência serena,
    Vem de mão dado co'o medo;
    Que torna a vida pequena,
    Atroz.

    Quantos de nós fomos reis
    Duma utopia sem par?
    Quantos ditámos as leis
    Num reino de imaginar? ...
    Sem voz! ...

    Quantos de nós fomos pajens
    Dalgum senhor que há nos sonhos?
    Quantos fizemos viagens
    Rasgando mundos medonhos? ...
    Mas sós! ...

    Quantos de nós, por desejo
    De desvendar o mistério,
    Fomos perdendo o ensejo
    De ver aquilo que é sério,
    Em nós? ...




    Vitor Cintra


    do Livro " Murmúrios "