31 de dezembro de 2009

Insinceridade....pema de Vasco Graça Moura

















Quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco



Nem o cheiro a maresia
 rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

A vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

Sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada



Por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.




Vasco Graça Moura
 
 "Antologia dos Sessenta Anos"

18 de dezembro de 2009

Natal...... poema de.... José Maria Lopes de Araújo



















NATAL


III



Volta Menino, volta …
Volta ao meu coração ,
Com a Paz, com a Alegria
Que em meu peito havia então !


É que eles esqueceram
Que vieste a este Mundo,
Sofrer torturas e dores,
Não pela riqueza dos nobres,
Mas pela miséria dos pobres
E pelos mais pecadores!


Volta Menino, volta,
Volta ao meu coração,
Com a chama de alegria,
Com a paz do Teu Perdão!


JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

12 de dezembro de 2009

Sem Deus, Sem Vós e Sem Mim.... de Jorge Manrique ( Espanha 1440-1479)





















Sou quem livre me senti,
eu quem pudera olvidar-vos,
eu sou o que por amar-vos
estou, desde que vos vi,
sem Deus, sem vós e sem mim.

Sem Deus porque a vós adoro,
sem vós, pois não me quereis;
sem mim, pois se diz em coro
que me tendes e tereis.
Por isso triste, nasci,
pois poderia olvidar-vos
eu sou o que por amar-vos
estou, desde que vos vi,
sem Deus, sem vós e sem mim.



Tradução de : José Bento

do Livro " A Rosa dos Ventos "

4 de dezembro de 2009

A Essência da Mulher.... poema de.... Ciro di Verbena



















Toda mulher esconde dentro da alma,
Um lago azul, tranqüilo e transparente
E sob as águas de aparente calma
Guarda um vulcão de lava incandescente!...

Às vezes, uma luz se nos acalma
Nascendo-lhe do olhar, triste e carente,
E ao transformar-se em dor, nos causa trauma
Qual lava de um vulcão queimando a gente!

Toda mulher é a essência da beleza,
Tem a voracidade da tigresa
No fogo da paixão quando na cama!


É desse lago de águas cristalinas
Que a essência da mulher, luz que fascina,
Vem saciar a sede de quem ama!


CIRO DI VERBENA

23 de novembro de 2009

Inconstância..... poema de ....Florbela Espanca


















Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!


Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!


Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...


E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...






Florbela Espanca

22 de novembro de 2009

Chico Xavier




Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO, mesmo eu sabendo que as rosas não falam.

Que eu não perca o OPTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre.

Que eu não perca a vontade de VIVER, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa...

Que eu não perca a vontade de ter grandes AMIGOS, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas...

Que eu não perca a vontade de AJUDAR as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda.

Que eu não perca o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia.

Que eu não perca a VONTADE de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento por mim...

Que eu não perca a LUZ e o BRILHO no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo, escurecerão meus olhos...

Que eu não perca a GARRA, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos.

Que eu não perca a RAZÃO, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas.

Que eu não perca o sentimento de JUSTIÇA, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu.

Que eu não perca o meu forte ABRAÇO, mesmo sabendo que um dia meus braços estarão fracos...

Que eu não perca a BELEZA e a ALEGRIA de ver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...

Que eu não perca o AMOR por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia.

Que eu não perca a vontade de doar este enorme AMOR que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado.

Que eu não perca a vontade de ser GRANDE, mesmo sabendo que o mundo é pequeno... E acima de tudo...

Que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente, que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois.... a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor!







CHICO XAVIER

19 de novembro de 2009

Soneto da Fidelidade....de Vinicius de Moraes





















De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


VINICIUS DE MORAES

13 de novembro de 2009

ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA....poema de ....FERNANDO PESSOA
















Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há



 
Fernando Pessoa
 in "Cancioneiro"

9 de novembro de 2009

HINO DA PRIMEIRA CARTA AOS CORINTIOS.......... São Paulo ( Século I)














Se eu falasse as línguas dos homens e até as dos anjos, mas não  tivesse amor
seria bronze que soa  ou címbalo que tine.

Se tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e todos os saberes, se a minha fé fosse a ponto de mover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria.

Se  repartisse pelos pobres tudo quanto tenho, e meu corpo entregasse ás labaredas mas não tivesse amor, nada ganharia.

O amor paciente, repleto de bondade, o amor que desconhece inveja e não ostenta orgulho,  o amor sem vaidade, que descura o próprio interesse, e não se irrita e não suspeita mal, o amor que não colhe alegria da injustiça, mas se alegra com  a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais acabará:

há um tempo em que vacilam as profecias, as línguas emudecem e o saber desaparece 
porque só em parte conhecemos e só em parte profetizamos, mas quando chega a perfeição
os limites apagam-se.

Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, pensava como criança:
quando me tornei homem abandonei as coisas de criança.

Agora vemos para um espelho, e de maneira obscura, o que depois veremos face a face.

Agora conheço apenas uma parte, mas então conhecerei conforme também sou conhecido.

Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos.

Agora o maior de todos é o amor.



*****

 Tradução de : José Tolentino Mendonça
do livro * Rosa do Mundo *

5 de novembro de 2009

* Tive Um Coração, Perdi-o *....poema de AMÁLIA RODRIGUES

Tive um coração, perdi-o
Ai quem mo dera encontrar,
Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar.

Quem me dera ir embora,
Ir embora sem voltar,
A morte que me namora
Já me pode vir buscar.

Tive um coração, perdi-o
Ainda o vou encontrar,
Preso no lodo do rio,
Ou afogado no mar.


AMÁLIA RODRIGUES
do livro " Amália, Fados, Poemas e Flores "

1 de novembro de 2009

A Folha de Salgueiro...... poema de António Feijó















Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
- Amo-a porque uma folha melindrosa
deixou cair nas águas, distraída.


Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao  meu batel, no lago de cristal.


E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova Primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
E esse nome...era o meu!




António Feijó


do Livro * ROSA DO MUNDO *


27 de outubro de 2009

AÇORES..... poema de VITOR CINTRA
















Nove ilhas de beleza deslumbrante,
Surgidas do profundo mar imenso,
Que o mundo conheceu porque o Infante
Tornou o nevoeiro menos denso.

Encostas de mosaicos verdejantes
Elevam-se, rumando ao infinito.
Hortênsias, feitas sebes, são constantes,
Tornando o colorido mais bonito.

Ali, onde gigantes residiram,
Os cumes das montanhas que explodiram,
Tornados em lagoas de beleza,

Relembram, aos herdeiros dos atlantes,
Que até já os primeiros navegantes
Sabiam respeitar a natureza.


VITOR CINTRA

do livro " Entre o Longe e o Distante "

25 de outubro de 2009

NO MEIO DO MAR poema de " JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO "
















Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!

Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.

…………………………….

Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

24 de outubro de 2009

Sim, Sei Bem ....poema de FERNANDO PESSOA




















Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


FERNANDO PESSOA

22 de outubro de 2009

O Sonho...poema de....SEBASTIÃO DA GAMA

















Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

SEBASTIÃO DA GAMA

20 de outubro de 2009

URGENTEMENTE.....poema de....EUGÉNIO DE ANDRADE




É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

EUGENIO DE ANDRADE

16 de outubro de 2009

No Meio o Mundo....poema de ...VITORINO NEMÉSIO














Com medo de o perder nomeio o mundo
Seus quantos e qualidades, seus objectos
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos


Nomeei as coisas e fiquei contente
Prendi a frase ao texto do universo
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso. 



VITORINO NEMÉSIO

12 de outubro de 2009

Um Poema.....de MIGUEL TORGA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

MIGUEL TORGA

11 de outubro de 2009

Amélia dos Olhos Doces...poema de ...JOAQUIM PESSOA




Amélia dos Olhos Doces
quem é que te trouxe
grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca.
Na pele e na roupa
perfumes de França.

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Amélia dos Olhos Doces
quem dera que fosses
apenas mulher.
Amélia dos Olhos Doces
se ao menos tivesses
direito a viver!

Amélia gaivota
amante ou poeta.
Rosa de café.
Amélia gaiata
do Bairro da Lata.
Do Cais do Sodré.

Tens um nome de navio.
Teu corpo é um rio
onde a sede corre.
Olhos Doces. Quem diria
que o amor nascia
onde Amélia morre?

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Joaquim Pessoa

10 de outubro de 2009

HOJE----------- Lançamento do Novo Livro do Poeta VITOR CINTRA " ENTRE O LONGE E O DISTANTE "



Apresentação em simultâneo
a ideia ganhou força e vai mesmo acontecer.
Porque não é possível convidar pessoalmente todos os amigos do poeta VITOR CINTRA, deixo-vos aqui o convite.


ENTRE O LONGE E O DISTANTE





****************

LOUCOS ......poema de VITOR CINTRA





Não são muitos, nem são poucos,
Os poetas, bem seguros,
Encerrados entre muros
Sob o rótulo de loucos.

São apenas os bastantes
P'ra provar que a poesia
É temida, e não devia,
Tanto ou mais do que era dantes.

Porque abordam quaisquer temas,
Nas estrofes dos poemas,
Incomodam co'as verdades.

É por isso que os poetas
São, por formas indirectas,
Reprimidos entre grades.


VITOR CINTRA

do livro " RELANCES "

9 de outubro de 2009

A SOLIDÃO DE UM HOMEM NA SUA CASA ...poema de Alexandre Dale






Aquele homem estava em sua casa,
a comer bolachas com manteiga
e a beber leite frio.
A certo momento,
deu-lhe para reparar em todas as coisas
que o rodeavam.
Havia meias de mulher
numa corda esticada por cima da sua
cabeça, loiça suja sobre a
mesa, fruta de verão a
apodrecer
— e até, algures, um
gato.

Havia muitas coisas, sem dúvida,
mas aquelas três ou quatro bastavam-lhe
para que se sentisse um estranho
naquele lugar — ou ele mesmo,
mas noutro lugar. Era como
se estivesse ali pela primeira vez.
e daí sentiu
que podia estar a ser
como se fosse um homem
de qualquer parte do mundo:
um homem com as suas
questões habituais,
os seus problemas típicos,
as suas esperanças,
os seus receios.
Um homem sozinho — porque
membro de toda e qualquer família,
pai de todos os filhos, amante ou
companheiro de todas as mulheres,
sangue,
avô,
amizade,
semelhante.

E então aquele homem pensou:
agora
vou-me deitar ao lado da minha
mulher, que dorme hoje na
falta de mim — eu, talvez perdido
na obscura noite das minhas obsessões
— e, no entanto,
parece-me que tudo isto
está cada vez mais estranho.
Quer dizer: não sei que mulher é essa.
Não a conheço.
Pensando bem, nem sequer das suas feições
me consigo lembrar.
todavia, sei que está lá.
Desejo-a.
Através dela, cavalheiros,
aprendi que todas as mulheres desejam sentir,
cada vez que fazem amor,
o incómodo ou dúbio prazer
de estarem a ser violadas.

E então o homem escreve,
e sente-se só, na sua casa,
e não sabe o que há-de fazer.

Fuma.

Escreve mais um pouco.
Talvez escreva isto.
Talvez escreva:
"sei muito bem do que estou a falar".

Mas a verdade é que é muito difícil
falar-se da solidão de um homem
na sua própria casa.
Sei muito bem
do que estou a falar.


ALEXANDRE DALE

3 de outubro de 2009

Não Posso Adiar.... A.RAMOS ROSA





Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

A.RAMOS ROSA

1 de outubro de 2009

Amor Combate ....poema de JOAQUIM PESSOA


Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.


JOAQUIM PESSOA

30 de setembro de 2009

Eu sei, Não te conheço Mas existes....poema de JOAQUIM PESSOA





Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
.

JOAQUIM PESSOA

Viver Sempre Também Cansa....poema de JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA




Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!


Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis
meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.


"E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA

29 de setembro de 2009

Poente ...VITOR CINTRA



A tarde finda,
Num pôr-de-sol
Que brilha ainda.
A alma,
Onde a saudade impera,
Desespera.
Presente,
Um rol
De marcas e sinais,
Dos quais
A nostalgia
Se evidencia,
Se sente.
Na tarde calma,
Enquanto o sol se perde
Num mar, que ferve,
Avermelhando o céu,
Aumenta a dor
Do amor,
Que se perdeu.


Vitor Cintra

25 de setembro de 2009

ESPERO poema de Sophia de Mello Breyner Andersen




Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.



Sophia de Mello Breyner

21 de setembro de 2009

Conforto.... Poema de LG



Os arrependimentos fizeram-se para se sentirem,
as dívidas para se contraírem,
os gostos para se gozarem,
as penas e os desgostos para se cumprirem.

Os pecados fizeram-se para se cometerem,
a vergonha para se passar,
os frutos para se colher
e o amor para se amar.

A loucura para se fazer,
a ternura para se dar
e a paixão para se sentir.

Mas de todas as verdades a que maior verdade encerra
brota do fundo da terra e tem a ver com a vida
e essa não se renega;

Fez-se mesmo para ser vivida.



Autoria de LG

20 de setembro de 2009

COMO UMA ILHA,SOZINHA de Pedro Abrunhosa




Tu és todos os livros,
Todos os mares,
Todos os rios,
Todos os lugares.
Todos os dias,
Todo o pensamento,
Todas as horas
O teu corpo no vento.

Tu és todos os sábados,
Todas as manhãs,
Toda a palavra
Ancorada nas mãos.
Tu és todos os lábios,
Todas as certezas,
Todos os beijos
Desejos, princesa.

Como uma ilha,
Sozinha...

Prende-me em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra
Como fogo na mão,
Como vou esquecer-te,
Como vou eu perder-te,
Se me prendes em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra,
Como fogo na mão,
Como vou eu lembrar-te
Se a metade que parte
É a metade que tens.

Tu és todas as noites
Em todos os quartos,
Todos os ventos
Em todos os barcos.
Todos os dias
Em toda a cidade,
Ruas que choram
Mulheres de verdade.
Tu és só o começo
De todos os fins,
Por isso eu te peço
Fica perto de mim.
Tu és todos os sons
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.

Como uma ilha,


Sozinha...


PEDRO ABRUNHOSA

18 de setembro de 2009

SOU UM EVADIDO poema de Fernando Pessoa



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.



FERNANDO PESSOA

15 de setembro de 2009

Se Tanto Me Dói que as Coisas Passem.....poema de Sophia de Mello Breyner Andersem





Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen

5 de setembro de 2009

OS AMIGOS poema de Eugénio de Andrade

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


EUGÉNIO DE ANDRADE
"Coração do Dia"

31 de agosto de 2009

INTIMIDADE poema de VITOR CINTRA





Teu corpo, poema ardente.

Frenética rima de ais,

Aurora, pedindo mais,

Com louco vigor, fremente.
Teu rosto, sorriso aberto,

Promessa, sonho, desejo,

Tornando-se a cada beijo

Tão quente, quanto tão certo.
E o dia feito uma hora,

Por entre os ais e os gemidos,

Festim, sem par, dos sentidos.
Mas, quando te vais embora,

Só fica o teu cheiro, intenso,

Enchendo o vazio imenso


VITOR CINTRA
Do novo livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "

À venda nas livrarias, consulte:
  • Editora Temas Originais
  • 22 de agosto de 2009

    POEMA de Sophia de Mello Breyner Anderson



    A minha vida é o mar o Abril a rua
    O meu interior é uma atenção voltada para fora
    O meu viver escuta
    A frase que de coisa em coisa silabada
    Grava no espaço e no tempo a sua escrita
    Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
    Sabendo que o real o mostrará
    Não tenho explicações
    Olho e confronto
    E por método é nu meu pensamento
    A terra o sol o vento o mar
    São a minha biografia e são meu rosto
    Por isso não me peçam cartão de identidade
    Pois nenhum outro senão o mundo tenho
    Não me peçam opiniões nem entrevistas
    Não me perguntem datas nem moradas
    De tudo quanto vejo me acrescento
    E a hora da minha morte aflora lentamente
    Cada dia preparada



    Sophia de Mello Breyner Andresen

    19 de agosto de 2009

    JEITO DE SER poema de Gracinda Medeiros


    JEITO DE SER

    Abraço o mundo

    com olhos
    de sentir
    e de tocar
    enquanto
    as mãos
    ficam livres
    para o fazer
    e para o distribuir.

    Vejo a vida
    com braços
    de acolher
    e de libertar
    enquanto
    os pés
    seguem trilhas
    de perder
    e de encontrar.

    E assim,
    abraçando tudo que vejo,
    posso sentir tudo que faço,
    acolher tudo que encontro
    e libertar tudo que perco


    Gracinda Medeiros

    14 de agosto de 2009

    AMOR e SONO poema de Algernon Charles Swinburne





    Deitado a dormir entre os afagos da noite
    Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito,
    Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
    De pele macia e escura,
    o pescoço nu para ser mordido,
    *
    Transparente de mais para corar,
    tão quente para ser branca,
    Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
    E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram -
    Nem sei bem o quê, excepto uma palavra -Deleite.
    *
    E a face dela era toda mel na minha boca,
    E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
    Os braços longos e lentos,
    as mãos quentes de fogo,
    *
    As ancas frementes,
    o cabelo a cheirar a Sul,
    os pés leves luzentes,
    as coxas esplêndidas e dóceis
    E as pálpebras fulgentes
    com o desejo da minha alma.


    Charles SwinburneLondres, 1837


    Trad. Helena Barras
    do livro * Rosa dos Ventos *

    13 de agosto de 2009

    Aperta-me Junto de Ti....poema de Rui Ressurreição




    Aperta-me junto de ti,
    Quero o teu calor, o teu amor.
    Este sentimento de pertença,
    Este divino laço de ternura,
    Que nos ligará, para toda a eternidade.

    Continuarei a ser quem sou, eu mesmo,
    Aberto à vida, aberto ao mundo,
    Transparente ao meu destino,
    Com a música dentro do meu ser,
    A me fazer viver, no mais alto dos céus.

    Olha-me nos olhos
    Que vês dentro de mim?
    Gostas de mim? Do meu ser?

    Sinto que queres a minha companhia,
    Para junto vivermos em alegria,
    Descobrir o oceano do amor,
    Mesmo dentro da nossa dor,
    Percorrendo esse caminho, menos percorrido,
    Nas esferas do nosso destino.

    Quero pular e saltar,
    Amar sem limites...
    Sem fronteiras ou barreiras,
    Acreditar no teu amor,
    No teu calor...
    Que evapora os meus desejos,
    Condensando num ponto de eternidade,

    Um grito de alma,
    Que chama por socorro,
    Dentro dos seus mistérios...
    Dentro de seu labirinto...
    De vida, da sua alma querida !



    RUI RESSURREIÇÃO

    11 de agosto de 2009

    AMARRAS...poema de Rui Ressurreição




    Já não sei o que sou,
    Já não sei para onde vou.
    Estas amarras que me prendem,
    a um destino sem amor...
    Em que me roubam o meu interior,
    Em que me afagam o ego,
    E matam o meu ser.
    Eu deixo,
    E eu sinto;
    Carências...
    Existências, por viver...
    Tristeza,
    Solidão,
    Ingratidão.
    Aqui estou eu a chorar,
    Sem amar,
    Sem viver,
    Mas com vontade de morrer!


    RUI RESSURREIÇÃO

    9 de agosto de 2009

    QUEM ÉS?... poema de Ângelo Gomes




    És o sonho que se vislumbra ao longe
    O mosteiro secreto onde habita o monge
    A árida planície que é dura... que é mole,
    Conforme as chuvas te fustiguem ou não...
    És o som das palavras que me dão vida
    O trautear da canção de urânio enriquecida...
    Quem és tu? Serás a lua? Serás o sol?
    Ou serás um enclave no meu coração?



    Ângelo Gomes

    5 de agosto de 2009

    O CASAMENTO poema de Willem Elsschot ( Bélgica)



    Quando ele descobriu como a névoa do tempo
    nos olhos da mulher faúlhas apagara,
    as faces submergira, a testa lhe sulcara,
    afastou o olhar, tomado de tormento.

    Maldisse em furor e a barba arrancaria,
    co'os olhos a mediu, mas nada pra excitar,
    e essa infância ele viu em danação mudar,
    enquanto o olhava ela, cavalo que morria.

    Mas morrer não morreu, e bem ele tentou
    sugar o imo à ossada que firme a sustentava.
    Não mais ela falou, queixar-se não ousava,
    tremia que era um dó, mas curada ficou.
    Pensou: dou cabo dela e puxo fogo à casa.
    Arranco o estrado fungo que os pés me entorpeceu.
    E como quem por vaus e por fogo correu
    alhures acharei o amor que tanto abrasa.

    Mas matar não matou, porque entre sonho e agir
    atravessam-se leis e mais triviais questões,
    e até melancolia, pra a qual faltam razões,
    e que à noite acomete, quando se vai dormir.

    Os miúdos cresceram, com os anos a correr,
    e viram que o sujeito a quem chamavam pai
    quieto ao pé do lume e sem dizer um ai
    punha um ar tenebroso e horrendo de se ver.
    Willem Elsschot


    3 de agosto de 2009

    " Desejo " poema de Sérgio Jockimann





    Desejo primeiro que você ame,
    E que amando, também seja amado.
    E que se não for, seja breve em esquecer.
    E que esquecendo, não guarde mágoa.
    Desejo, pois, que não seja assim,
    Mas se for, saiba ser sem desesperar.

    Desejo também que tenha amigos,
    Que mesmo maus e inconseqüentes,
    Sejam corajosos e fiéis,
    E que pelo menos num deles
    Você possa confiar sem duvidar.
    E porque a vida é assim,
    Desejo ainda que você tenha inimigos.
    Nem muitos, nem poucos,
    Mas na medida exata para que, algumas vezes,
    Você se interpele a respeito
    De suas próprias certezas.
    E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
    Para que você não se sinta demasiado seguro.

    Desejo depois que você seja útil,
    Mas não insubstituível.
    E que nos maus momentos,
    Quando não restar mais nada,
    Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

    Desejo ainda que você seja tolerante,
    Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
    Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
    E que fazendo bom uso dessa tolerância,
    Você sirva de exemplo aos outros.

    Desejo que você, sendo jovem,
    Não amadureça depressa demais,
    E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
    E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
    Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
    É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

    Desejo por sinal que você seja triste,
    Não o ano todo, mas apenas um dia.
    Mas que nesse dia descubra
    Que o riso diário é bom,
    O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

    Desejo que você descubra ,
    Com o máximo de urgência,
    Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
    Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

    Desejo ainda que você afague um gato,
    Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
    Erguer triunfante o seu canto matinal
    Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

    Desejo também que você plante uma semente,
    Por mais minúscula que seja,
    E acompanhe o seu crescimento,
    Para que você saiba de quantas
    Muitas vidas é feita uma árvore.

    Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
    Porque é preciso ser prático.
    E que pelo menos uma vez por ano
    Coloque um pouco dele
    Na sua frente e diga "Isso é meu",
    Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

    Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
    Por ele e por você,
    Mas que se morrer, você possa chorar
    Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

    Desejo por fim que você sendo homem,
    Tenha uma boa mulher,
    E que sendo mulher,
    Tenha um bom homem
    E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
    E quando estiverem exaustos e sorridentes,
    Ainda haja amor para recomeçar.
    E se tudo isso acontecer,
    Não tenho mais nada a te desejar ".


    Sérgio Jockymann

    1 de agosto de 2009

    Memória poema de Cecília Meireles

    Dedico á minha MÃE, onde quer que esteja, hoje dia do seu aniversário.
    COM SAUDADES




    Tão longe, a minha família!
    Tão dividida em pedaços!
    Um pedaço em cada parte...
    Pelas esquinas do tempo,
    brincam meus irmãos antigos:
    uns anjos, outros palhaços...
    Seus vultos de labareda
    rompem-se como retratos
    feitos em papel de seda.
    Vejo lábios, vejo braços
    - por um momento persigo-os;
    de repente, os mais exatos
    perdem sua exatidão.
    Se falo, nada responde.
    Depois, tudo vira vento
    e nem o meu pensamento
    pode compreender por onde
    passaram nem onde estão.



    CECÍLIA MEIRELES

    28 de julho de 2009

    A BOCA poema de Umberto Saba ( Itália )




    A boca
    que primeiro levou
    aos meus lábios a cor da aurora
    ainda
    em belos pensamentos desconto o aroma.

    Ó pueril boca, amada boca,
    que dizias o que ousavas e tão doce
    eras a beijar.


    Tradução de Eugénio de Andrade

    24 de julho de 2009

    Eu Não Sou de Ninguém.... poema de FLORBELA ESPANCA




    Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
    Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
    Nos olhos de água clara há-de trazer
    As fúlgidas pupilas dos videntes!

    Há-de ser seiva no botão repleto,
    Voz no murmúrio do pequeno insecto,
    Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...

    Há-de ser Outro e Outro num momento!
    Força viva, brutal, em movimento,
    Astro arrastando catadupas de astros!



    Florbela Espanca

    22 de julho de 2009

    Poema de Ângelo de Lima





    Pára-me de repente o pensamento
    Como que de repente refreado
    Na doida correria em que levado
    Ia em busca da paz do esquecimento.

    Pára surpreso, escrutador, atento,
    Como pára um cavalo alucinado
    Ante um abismo súbito rasgado,
    Pára e fica, e demora-se um momento.


    Pára e fica, na doida correria.
    Pára à beira do abismo, e se demora.
    E mergulha na noite escura e fria

    Um olhar de aço, que essa noite explora.
    Mas a espora da dor seu flanco estria,
    E ele galga e prossegue sob a espora...



    Ângelo de Lima

    13 de julho de 2009

    A Mulher Que Passa poema de Vinicius de Moraes




    A mulher que passa


    Meu Deus, eu quero a mulher que passa
    Seu dorso frio é um campo de lírios
    Tem sete cores nos seus cabelos
    Sete esperanças na boca fresca!
    Oh! como és linda, mulher que passas
    Que me sacias e suplicias
    Dentro das noites, dentro dos dias!



    Teus sentimentos são poesia
    Teus sofrimentos, melancolia.
    Teus pelos leves são relva boa
    Fresca e macia.
    Teus belos braços são cisnes mansos
    Longe das vozes da ventania.



    Meu Deus, eu quero a mulher que passa!



    Como te adoro, mulher que passas
    Que vens e passas, que me sacias
    Dentro das noites, dentro dos dias!
    Por que me faltas, se te procuro?
    Por que me odeias quando te juro
    Que te perdia se me encontravas
    E me concontrava se te perdias?



    Por que não voltas, mulher que passas?
    Por que não enches a minha vida?
    Por que não voltas, mulher querida
    Sempre perdida, nunca encontrada?
    Por que não voltas à minha vida
    Para o que sofro não ser desgraça?



    Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
    Eu quero-a agora, sem mais demora
    A minha amada mulher que passa!



    Que fica e passa, que pacífica
    Que é tanto pura como devassa
    Que bóia leve como a cortiça
    E tem raízes como a fumaça.


    Vinícius de Moraes

    11 de julho de 2009

    O poema da " MENTE " desconheço o autor




    O POEMA DA 'MENTE'

    Há um primeiro-ministro que mente.
    Mente de corpo e alma, completamente.
    E mente de maneira tão pungente
    Que a gente acha que ele mente sinceramente.
    Mas que mente, sobretudo, impunemente...
    Indecentemente... mente.
    E mente tão racionalmente,
    Que acha que mentindo vida fora,
    Nos vai enganar eternamente.


    Desconheço o autor , mas achei bastante divertido, e por isso, partilho aqui a brincadeira.

    9 de julho de 2009

    * ALMA MINHA GENTIL QUE PARTISTE * Luis Vaz de Camões

    Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida, descontente,
    Repousa lá no Céu eternamente
    E viva eu cá na terra sempre triste.

    Se lá no assento etéreo, onde subiste,
    Memória desta vida se consente,
    Não te esqueças daquele amor ardente
    Que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    Alguma cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.


    Luis Camões

    1 de julho de 2009

    Que noite serena !.....Àlvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa

    Que noite serena!
    Que lindo luar!
    Que linda barquinha
    Bailando no mar!


    Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
    O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
    Sossego de várias espécies,
    A infância sem futuro pensado,
    O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
    E tudo bom e a horas,
    De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.


    Meu Deus, que fiz eu da vida?


    Que noite serena, etc.


    Quem é que cantava isso?
    Isso estava lá.
    Lembro-me mas esqueço.
    E dói, dói, dói...


    Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.




    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    29 de junho de 2009

    Entrar em Ti...
    de RUI RESSURREIÇÃO

    Por vezes é difícil entender a tua maneira de ser
    conhecer o teu interior
    a tua dor
    o que te move por amor.
    Que fazes tu no monte das ilusões
    essas sensações de sair fora de ti
    para longínquos universos
    para outras paragens
    em busca de novas miragens
    em que te iludes com os conceitos da mente
    que te engana
    que te chama para um território escorregadio
    frio e lamacento
    em que nas suas conexões
    receberás encontrões
    e perderás o rumo da tua vida
    afundando-te nos lagos cerebrais
    e sentindo falta de todos os teus ais
    duma alma desencontrada
    com a tua mais alta morada
    a do amor.


    Rui Ressurreição

    26 de junho de 2009

    Cântico VI de Cecília Meireles





    Tu tens um medo:
    Acabar.
    Não vês que acaba todo o dia.
    Que morres no amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que te renovas todo o dia.
    No amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que és sempre outro.
    Que és sempre o mesmo.
    Que morrerás por idades imensas.
    Até não teres medo de morrer.

    E então serás eterno.



    Cecília Meireles

    21 de junho de 2009

    Em Silêncio de VERA SOUSA SILVA




    Deixa-me amar-te assim... em silêncio...

    Não me peças palavras que não sei pronunciar, nem gestos que nunca fiz. Não sei tanto do que queria e quero tanto do que não sei.
    Olhas-me e perco o norte. Fico muda e desvio o olhar. Não é por não te amar, mas sim por esse amor ser grande demais. Mas em silêncio...
    Seria tão fácil dizer que te amo e perder-te. Seria tão simples dançar ao som da ilusão e entregar-me completa, plácida, serena, e acrescentar apenas as letras que faltam quando não digo “Amo-te”!
    Não me peças para ser o que não sou, nem para me transformar subitamente em mulher, porque sou apenas menina.
    Queria crescer nos teus braços fortes e esconder-me atrás do teu tronco másculo. Mas abraço-te... em silêncio.
    Desejo o suave toque acetinado dos teus lábios nos meus e imagino como será um beijo de verdade. Anseio por ele e sonho-o.. em silêncio.
    Aproveito-me do que tenho de melhor e sonho... Nos meus sonhos eu sou tua e tu... Tu, meu amor, pertences-me! Todos os dias nos amamos intensamente e somos apenas um do outro! Todos os segundos das minhas noites são aproveitados ao máximo e vividos energicamente, ardentemente, gloriosamente... Chega a manhã e a realidade!
    Não me peças palavras que não sei dizer e deixa-me! Deixa-me amar-te assim... em silêncio...


    Vera Sousa Silva

    9 de junho de 2009

    Tempo..... poema de Isabel C.



    Eu quero agarrar o tempo,
    Que corre veloz e não cansa.
    Mas o tempo, tem todo o tempo,
    Corre, corre, atrás do vento,
    Numa corrida sem esperança.

    Queria contar os grãos de areia,
    Que tenho na palma da mão.
    E neste querer impossível,
    Espalha o vento invisível,
    O tempo que me resta, pelo chão.

    Assim, é para cada um, a sorte...
    Que se trás no destino, ao nascer,
    Por muito que tente, lute e se esforce,
    Ore e implore, para que a sorte volte,
    Esta não muda, só por se querer.



    2009.06.08
    Isabel C.

    8 de junho de 2009

    CANÇÃO...poema de Eugenio Florit ( Cuba)

    Eco de um sonho que na noite busco
    torcendo o frio gris do pensamento.
    É tarde já para olhar estrelas
    e tenho frio.

    Talvez não saiba quando irei olhar-te.
    preso à alma de tua grata lembrança
    que está a gritar-me lá do sonho
    um nome tépido.


    Um nome que há-de ser como são as rosas,
    doce e fragrante prémio para os lábios;
    mais sereno que minha amargura
    sem esperança.

    Assim verei, na orla destes mares,
    para alegrar minhas altas gaivotas,
    umas letras unidas ao reflexo
    do seu olhar.


    Trad: José Bento.


    do Livro " Rosa do Mundo "

    6 de junho de 2009

    Esperança..... poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    Se eu conseguisse viver este dia,
    O dia que hoje passa,
    Como se fosse o último da minha vida...
    Esmagando ressentimentos,
    Aleijando-me de toda a podridão
    Que me aniquila a Graça,
    Que me enegrece a alma
    E enluta o coração...


    Ai, se eu pudesse suster
    Os passos incertos,
    No caminho errado,
    Do meu viver !
    E ao passado não voltar,
    E saber esquecer,
    Esquecer e perdoar ! ...


    Se conseguisse reter
    A lágrima que teima,
    Dolorida,
    Soltar-se dos olhos vidrados,
    E que teima
    Os rostos enrugados
    Dos vencidos da vida ...


    Se eu pudesse evadir-me
    Deste negro cárcere,
    Desta dura e fria prisão
    Onde, há muito, vivo
    Abandonado,
    Cativo,
    Nos braços da solidão...


    Se eu conseguisse viver
    Só dentro de ti,
    E tu, bem dentro de mim,
    Mas sem ninguém entender
    O nosso viver assim ...


    Isolado, neste mundo,
    Onde a amargura se esconde,
    Alimentando uma esperança
    Que virá, não sei bem donde ...
    - Do horizonte ? Do céu? Do mar?
    ... Na chama do amor vivendo,
    O coração não se cansa,
    Não se cansa de esperar! ...



    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

    do livro " Outono da Vida "

    1 de junho de 2009

    MENINO DE ROSTO SUJO....poema de José Maria Lopes de Araújo

    A ti, menino de ninguém


    Sem norte era teu caminho,
    Jornada de mágoa e dor ...
    Tinhas sede de carinho ...
    Trazias fome de amor !


    De rosto sujo, menino ...
    Como é negro o teu destino !


    A lágrima que rolava
    No teu rosto macerado,
    Amargamente falava
    De um tormentoso passado ...


    Um passado curto ainda
    Tão tristemente marcado ...
    A este mundo, tua vinda
    Foi o fruto do pecado !


    Dum pecado que persiste
    A marcar a tua vida ...
    Uma esperança tão triste
    Feita de esperança perdida !


    Como é negro o teu destino !
    De olhos molhados, menino ...


    É que não ter o calor
    De mãe, de pai ou de alguém,
    É viver-se sem amor ,
    Sem carinho de ninguém !


    No rosto sujo teus olhos
    Que trazem tanta amargura,
    Mostram bem teu mar de escolhos,
    Menino órfão de ventura !


    De olhos molhados, menino ...
    Como é triste o teu destino !






    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO


    do livro " Outono da Vida "

    29 de maio de 2009

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA - do livro " MAR BRANCO "

    NO TEU CORPO QUENTE


    Regressei ao horizonte
    no teu corpo quente

    Penetrei o meu ser
    no teu ser ansioso

    És o tudo…sou o tudo…
    És o nada, também

    Toquei no teto-universo…
    e encontrei-me em ti

    Já posso partir
    para o horizonte

    Para o meu gene perdido
    Que sou eu

    Tive o tudo
    tenho o nada
    Sou só …. o regressado

    Vivo suspenso do teu corpo quente
    Vivo suspenso no teu corpo quente
    Vivo suspenso no teu corpo quente.



    Fernando Monteiro da Câmara Pereira - Dez.1980

    (Um açoriano nascido Mariense )

    27 de maio de 2009

    * Quero Acabar Entre Rosas ... * poema de Álvaro de Campos

    Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
    Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
    Falem pouco, devagar.
    Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
    O que quis? Tenho as mãos vazias,
    Crispadas febrilmente sobre a colcha longínqua.
    O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
    O que vivi? Era tão bom dormir!



    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    26 de maio de 2009

    * Femina * de Soares Feitosa

    Não lavei os seios
    pois tinham o calor
    da tua mão.

    Não lavei as mãos
    pois tinham os sons
    do teu corpo.


    Não lavei o corpo
    pois tinha os rastos
    dos teus gestos;
    tinha também, o meu corpo,
    a sagrada profanação
    do teu olhar
    que não lavei.


    Nem aqueles lençóis,
    não os lavei,
    nem os espelhos,
    que continuam
    onde sempre estiveram:
    porque eles nos viram
    cúmplices, e a paixão,
    no paraíso,
    parece que era.


    Lavei, sim,
    lavei e perfumei
    a alma, em jasmim,
    que é tua, só tua,
    para te esperar
    como se nunca tivesses ido
    a nenhum lugar:
    donde apaguei
    todas as ausências
    que apaguei
    ao teu olhar.



    SOARES FEITOSA

    25 de maio de 2009

    Desperta, Amor....poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

    DESPERTA, AMOR


    São teus meus versos, versos que escrevi,
    À luz da Lua, em noites estivais,
    A reviver as horas que vivi …
    Sonhos de amor que não voltaram mais.

    Rolaram meses, anos, na voragem
    Do tempo que já tudo destroçou …
    Somente, emoldurada, a tua imagem,
    Dentro em minha alma, estática, ficou!

    Por que não vens, mulher, por que não vens
    Dizer-me que me queres tanto, enfim,
    Como então me querias, se ainda tens
    O coração a palpitar por mim?

    Por que motivo tentas esconder,
    No olhar furtivo, o amor que te atormenta?
    Não turves a alegria de viver,
    Que, assim, da própria vida se afugenta?

    E dá-me as tuas mãos, as mãos que, um dia,
    Afagaram meu rosto, ternamente …
    Desperta, amor, que a vida é agonia
    Dos céleres minutos do presente! …




    José Maria Lopes de Araújo

    do livro

    REMOS PARTIDOS

    21 de maio de 2009

    CADA COISA ....poema de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

    Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
    Não florescem no inverno os arvoredos,
    Nem pela primavera
    Têm branco frio os campos.

    Á noite, que entra, não pertence, Lídia,
    O mesmo ardor que o dia nos pedia.
    Com mais sossego amemos
    A nossa incerta vida.

    À lareira, cansados não da obra
    Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
    Não puxemos a voz
    Acima de um segredo,

    E casuais, interrompidas, sejam
    Nossas palavras de reminiscência
    (Não para mais nos serve
    A negra ida do Sol) —

    Pouco a pouco o passado recordemos
    E as histórias contadas no passado
    Agora duas vezes
    Histórias, que nos falem

    Das flores que na nossa infância ida
    Com outra consciência nós colhíamos
    E sob uma outra espécie
    De olhar lançado ao mundo.

    E assim, Lídia, à lareira, como estando,
    Deuses lares, ali na eternidade,
    Como quem compõe roupas
    O outrora compúnhamos

    Nesse desassossego que o descanso
    Nos traz às vidas quando só pensamos
    Naquilo que já fomos,
    E há só noite lá fora.


    Ricardo Reis ( Fernando Pessoa )

    19 de maio de 2009

    SINTO poema de Vitor Cintra

    Sinto crescer a vontade
    De perceber se o que dizes,
    Entre risadas felizes,
    É ou não é a verdade,
    Ou só disfarça deslizes.

    Sinto crescer o desejo
    De te cingir nos meus braços,
    P'ra te prender com abraços,
    E arrancar-te num beijo
    Todos os teus embraraços.

    Sinto crescer a ideia
    De que, bem mais do que mostras,
    São bem reais as propostas
    Duma visão que incendeia
    Esse viver, de que gostas.





    VITOR CINTRA

    Do Livro " Pedaços do Meu Sentir"

    Á venda nas livrarias

    18 de maio de 2009

    AMOR QUE MORRE poema de FLORBELA ESPANCA

    O nosso amor morreu... Quem o diria?
    Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
    Ceguinha de te ver, sem ver a conta
    Do tempo que passava, que fugia!

    Bem estava a sentir que ele morria...
    E outro clarão, ao longe, já desponta!
    Um engano que morre... e logo aponta
    A luz doutra miragem fugidia...

    Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
    São precisos amores, pra morrer,
    E são precisos sonhos pra partir.

    E bem sei, meu Amor, que era preciso
    Fazer do amor que parte o claro riso
    De que outro amor impossível que há-de vir!

    FLORBELA ESPANCA

    A RUA DOS CATAVENTOS de Mário Quintana

    Da vez primeira em que me assassinaram,
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
    Depois, a cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha.

    Hoje, dos meu cadáveres eu sou
    O mais desnudo, o que não tem mais nada.
    Arde um toco de Vela amarelada,
    Como único bem que me ficou.

    Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
    Pois dessa mão avaramente adunca
    Não haverão de arracar a luz sagrada!

    Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
    Que a luz trêmula e triste como um ai,
    A luz de um morto não se apaga nunca!



    Mario Quintana

    17 de maio de 2009

    O AMOR poema de FERNANDO PESSOA

    O Amor

    O amor, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p'ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de *dizer.
    Fala: parece que mente
    Cala: parece esquecer

    Ah, mas se ela adivinhasse,
    Se pudesse ouvir o olhar,
    E se um olhar lhe bastasse
    Pr'a saber que a estão a amar!

    Mas quem sente muito, cala;
    Quem quer dizer quanto sente
    Fica sem alma nem fala,
    Fica só, inteiramente!

    Mas se isto puder contar-lhe
    O que não lhe ouso contar,
    Já não terei que falar-lhe
    Porque lhe estou a falar..


    Fernando Pessoa

    15 de maio de 2009

    " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "
    lançamento do livro de
    VITOR CINTRA



    No próximo dia 16 de Maio, às 19,00 horas, no Auditório - Campo Grande nº 56, em Lisboa - será a apresentação deste novo livro de poemas, publicado sob a chancela da editora «Temas Originais, Lda».
    O livro, em cuja capa se reproduz uma tela da pintora Alvani Borges, tem Prefácio do poeta António Paiva e será apresentado pelo poeta Xavier Zarco.

    14 de maio de 2009

    O QUE HÁ ...de Álvaro de Campos

    O que há

    O que há em mim é sobretudo cansaço —
    Não disto nem daquilo,
    Nem sequer de tudo ou de nada:
    Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
    Cansaço.

    A subtileza das sensações inúteis,
    As paixões violentas por coisa nenhuma,
    Os amores intensos por o suposto em alguém,
    Essas coisas todas —
    Essas e o que falta nelas eternamente —;
    Tudo isso faz um cansaço,
    Este cansaço,
    Cansaço.

    Há sem dúvida quem ame o infinito,
    Há sem dúvida quem deseje o impossível,
    Há sem dúvida quem não queira nada —
    Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
    Porque eu amo infinitamente o finito,
    Porque eu desejo impossivelmente o possível,
    Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
    Ou até se não puder ser...

    E o resultado?
    Para eles a vida vivida ou sonhada,
    Para eles o sonho sonhado ou vivido,
    Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
    Para mim só um grande, um profundo,
    E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
    Um supremíssimo cansaço,
    Íssimo, íssimo, íssimo,
    Cansaço...




    Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

    12 de maio de 2009

    DOR DA SOLIDÃO de Antonio Manoel Abreu Sardenberg

    Não existe dor maior
    Que a dor da solidão...
    É dor cruel e perversa
    Que não aceita conversa
    E nem mesmo explicação!
    É dor do só, do sozinho,
    É carência de carinho,
    Seu sintoma é a paixão.

    E essa dor tão doída
    Que tanto maltrata a gente
    Chega assim tão de repente
    Sem sequer bater na porta.
    Para ela pouco importa
    Se está matando o doente,
    Se a "Inês é quase morta".

    É uma dor que aniquila,
    Que castiga, que maltrata,
    É mais forte que a tequila
    Mais ardente que a cachaça.
    É pior que a dor que tomba,
    Mais cruel que a dor que mata.



    Antonio Manoel Abreu Sardenberg

    11 de maio de 2009

    SIMULTANEIDADE de Mário Quintana

    - Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar!

    Eu quero viver!
    - Você é louco?
    - Não, sou poeta.




    Mario Quintana

    7 de maio de 2009

    Ai de Quem Ama ....poema de Vinicius de Moraes

    Quanta tristeza
    Há nesta vida
    Só incerteza
    Só despedida

    Amar é triste
    O que é que existe?
    O amor

    Ama, canta
    Sofre tanta
    Tanta saudade
    Do seu carinho
    Quanta saudade

    Amar sozinho
    Ai de quem ama
    Vive dizendo
    Adeus, adeus

    Vinícius de Moraes

    29 de abril de 2009

    O Encanto de Teus Olhos... de poema de CIRO DI VERBENA

    O encanto de teus olhos verdes, claros,
    Brilhantes astros sempre reluzentes,
    É tudo o que há de mais valioso e caro
    Que eu posso vislumbrar à minha frente!

    E encanta-me esse brilho intenso e raro,
    Invadindo minha alma, mansamente,
    Toda vez que ao acaso me deparo,
    Com esse teu olhar triste e carente!

    Teu olhar tem a essência do carinho;
    Convida os corações aventureiros
    A sorver desse encanto o puro vinho...

    E esse olhar é um abismo traiçoeiro;
    Cada vez que te encontro em meu caminho
    Nesse olhar eu mergulho, corpo inteiro!...


    Ciro Di Verbena

    26 de abril de 2009

    ALMA PERDIDA de Florbela Espanca

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguém que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dor, suavemente...
    Talvez sejas a alma, a alma doente
    Dalguém que quis amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste... e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguém é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa à noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!...


    Florbela Espanca

    24 de abril de 2009

    Arrependimento....poema de Josias da Silva

    Se uma angústia voraz me desespera
    E me perco nos caminhos onde ando,
    Imploro teu carinho sempre e quando
    O amor faz em meu corpo primavera!

    E grito de paixão, mesmo calando,
    Pois meu silêncio é a forma mais sincera
    Com que posso mostrar quanto eu quisera
    Viver de amor... Sem mais penar cantando!

    Sinto esvair em mim a juventude;
    E tudo o que eu desejo na velhice
    É moldar meus defeitos na virtude,

    Sem mais arrepender-me da tolice
    Pelos amores todos que não pude
    Viver... (Ou que, por timidez, não disse!)




    JOSIAS DA SILVA

    22 de abril de 2009

    SOLITÁRIO NUM CAMINHO ESCURO de " Rui Ressurreição "

    Solitário num caminho escuro
    perguntei ao vento
    por que a minha vida era frágil e leve
    e por que eu estava na corda bamba
    dançando ao sabor das marés
    ...
    avistei o mar
    e gritei no firmamento
    por que sofria angústias e temores
    dores e remorsos de não ter feito
    sabendo que tinha tudo dentro de mim
    ...
    quem sou eu neste mundo?
    neste oceano profundo que me engole
    e me devora as entranhas
    num festival de sensações de afogamento
    em mágoas e choros
    de encontro à luz duma vida sem carinho
    nem esperança
    nem vislumbre de dias melhores
    dentro do meu ser
    dentro do meu viver
    ...
    eu bato a todas as portas
    eu abro a minha mente e a minha alma
    eu procuro
    eu negoceio com o destino
    por entre cartas jogadas por baixo da mesa
    com rasteiras implacáveis
    dos vendilhões dos templos modernos
    desta loucura de correrias e devaneios
    pelas avenidas da falsidade
    mas...
    mas eu quero resistir a este devorador de ideias
    e acariciador de almas desoladas
    em poços de amargura
    que já não têm salvação
    a não ser com a gratidão interior
    ao criador do nosso mundo
    em tudo o que há de mais profundo...


    poema original de

    RUI RESSURREIÇÃO
    DIA 27.07.2008,ÀS 4:38.

    20 de abril de 2009

    Porque Escondes a Noite no teu Ventre? de JOAQUIM PESSOA


    Porque escondes a noite no teu ventre?
    Nesse país de sombra onde se calam as palavras.
    Aí, no escuro lago onde estremece a flor da amendoeira
    E onde vão morrer todos os cisnes.

    Eu desvendo a tua dor, o teu mistério
    De caminhares assim calada e triste,
    Quando viajo em ti com as mãos nuas e o coração louco
    No mais fundo de ti, onde só tu existes.

    Oh, eu percorro as tuas coxas devagar
    Dobrando-as lentamente contra o peito
    E penetro em delírio a tua noite
    Esporeando éguas no teu sangue.
    De onde me chegam estas palavras?


    Joaquim Pessoa

    17 de abril de 2009

    RAIOS DE LUZ poema de Rui Ressurreição

    Rios de luz...

    uma cruz que vou deixar para trás

    um cabaz de soluções,

    para os corações, frios e duros

    que vão ficar puros e limpos de traumas

    e assim caminhar pela vida de cabeça erguida,

    na procura da felicidade



    poema original de RUI RESSURREIÇÃO

    DIA 25.09.2008,ÀS 15:21

    15 de abril de 2009

    POEMA de Rui Ressurreição


    Água...

    Mar...

    Pôr-do-sol.

    Duas almas

    ao encontro

    de si mesmas,

    numa pureza

    de embalar emoções...

    rios de sensações

    que correm pelos

    subterrâneos da mente,

    que contente,

    avança sem medo,

    apenas em segredo,

    ondula na suavidade do

    teu coração,

    que com gratidão,

    amanhece todos os dias,

    com alegria

    e energia,

    para se renovar

    na sua forma de amar.



    POEMA ORIGINAL DE RUI RESSURREIÇÃO

    7 DE FEVEREIRO 2009,1:35

    14 de abril de 2009

    DA DISCRIÇÃO de Mário Quintana

    Não te abras com teu amigo
    Que ele um outro amigo tem.
    E o amigo do teu amigo
    Possui amigos também...

    Mario Quintana

    12 de abril de 2009

    Gozo IX de Maria Teresa Horta

    GOZO IX


    Ondula mansamente a tua lingua
    de saliva tirando
    toda a roupa...

    já breves vêm os dias
    dentro de noites já
    poucas.


    Que resta do nosso
    gozo
    se parares de me beijar?

    Oh meu amor...
    devagar...
    até que eu fique louca!

    Depois... não vejas o mar
    afogado em minha
    boca!




    Maria Teresa Horta

    11 de abril de 2009

    A SECRETA VIAGEM de David Mourão_Ferreira

    No barco sem ninguém, anónimo e vazio,

    ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...

    Como podem só os dois governar um navio?

    Melhor é desistir e não fazermos nada!

    Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

    tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...

    Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...

    Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...

    Aparentes senhores de um barco abandonado,

    nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...

    Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,

    se justifica, enflora, a secreta viagem!

    Agora sei que és tu quem me fora indicada.

    O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.

    -Desfeitos num rochedo ou salvos na ensseada,

    a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!



    David Mourão_Ferreira