21 de outubro de 2017






















Mas,porém,todavia,contudo
com populismo e demagogia
muita mentira,verdade parece
mas em liberdade e «democracia»
o Povo tem o Governo que merece
e contenta-se com Fátima,Futebol e Entrudo.
A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta
empurrou-me p'rà emigração
e maldita seja a Governação
que Portugal p'rà miséria arrasta.

José Gonçalves Cravinho

17 de outubro de 2017

Minha Namorada...... Vinicius de Moraes


























 Se você quer ser minha namorada
 Ah, que linda namorada Você poderia ser Se quiser ser somente minha Exactamente essa coisinha Essa coisa toda minha Que ninguém mais pode ser Você tem que me fazer um juramento De só ter um pensamento Ser só minha até morrer E também de não perder esse jeitinho De falar devagarinho Essas histórias de você E de repente me fazer muito carinho E chorar bem de mansinho Sem ninguém saber por quê Porém, se mais do que minha namorada Você quer ser minha amada Minha amada, mas amada pra valer Aquela amada pelo amor predestinada Sem a qual a vida é nada Sem a qual se quer morrer Você tem que vir comigo em meu caminho E talvez o meu caminho seja triste pra você Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos Os seus braços o meu ninho No silêncio de depois E você tem que ser a estrela derradeira Minha amiga e companheira No infinito de nós dois 



2 de outubro de 2017

Semi Tudo



Na noite  clara e calma...
Numa varanda distante, 
Passeava-se ...
Um corpo, 
Semi- nu, 
Semi -homem, 
Semi -anjo...

Do alto, a lua  o beijava...

Ao longe....
Na varanda de um jardim,
Por entre o escuro das folhas, 
Outro vulto observava, 
Com o olhar  afagava
Aquele corpo
Semi nu, 
Semi anjo, 
Semi seu 


Imaria

1 Out 2017

8 de junho de 2017

Lua Adversa...Cecília Meireles



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 


Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 



E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 



Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 



Cecília Meireles

27 de maio de 2017

A Dança ...Pablo Neruda



Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Pablo Neruda

23 de março de 2017

Um dia....poema de LG




Um avião descola e sempre dá
Coração que fica e outro que voa,
Corações que geram vida á toa,
Repousando na lembrança dum sofá

Um que parte, outro que fica, então,

Saboreando "amiga  colorida",
Bebendo um gole da gerada vida,
Lembrando o toque doce da sua  mão.

Possibilidade do impossível?

Fruto da imaginação invencível?
Junco castanho que jamais florirá?

Ou apenas são vidas encontradas

No desencontro de caixas fechadas?
Um avião descola, outro virá!

... Um dia !


L.G







15 de fevereiro de 2017

A Vida poema de Florbela Espanca



A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés d'alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 

Todos somos no mundo "Pedro Sem", 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, 
Sabe-se lá um beijo donde vem! 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida... 

Amar-te a vida inteira eu não podia... 
A gente esquece sempre o bem dum dia. 
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... 

12 de fevereiro de 2017

Eu não existo sem você....Vinicius de Moraes




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você


12 de dezembro de 2016

As minhocas ..... poema de Mário Fragoso


(Pintura de Margarida Cepeda)


As Minhocas

Pensa as cicatrizes 
Como elas chegam e restam
Moventes e imutáveis 

Grãozinhos de areia na água das tuas vertentes
E de sal no teu olhar

Verás que não só existem fendas
Para espalhar o infinito
entre uma parede e outra
Nas ruinas
Sem nunca deixar alastrar
Nem a cor da cal branca
Nem as pedras das janelas 
Seladas

O bicho não pode escapar…
Eles disseram-te
Sem pensar
Que só há humanidade em ti
Apertada na sua extravagância
E que as serpentes não são mais nada
Que minhocas venenosas

Mas…
Tu sentes-lhes os dentes
Vês
A suas peles e as suas escamas deslizarem
Perfumando-te o corpo
Com vestígios de criança que não soube fugir
Devorada pela mulher que nunca deu à luz

As minhocas predicaram-te um futuro luminoso
No nevoeiro das lembranças
E no torpor da saudade
Mas tu, guardas escondido debaixo da língua 
A intimidade da ferida
Como um mergulho 
Fora da água 
Onde elas te querem afogar

E essa cal, esse branco venceu-te
Uma vez
Sendo mais que o suficiente
Para o peso dos teus passos cavar no chão
O sulco absurdo onde tremem ossos sem carne

Agora, as ruínas pesam sobre o amanhã
E as sombras que engoliste
Borboletam nas beiras dum trilho demasiado largo
Brincando aos fantasmas
Perante a palidez da tez
Dos espelhos

As minhocas e a cabeça….
Duo improvável
Como sem querer
Deixam atrás de ti o rasto dos espectros
Esfarrapados
Que pintam de negro as tuas vertigens

Não esqueças que as grades
Onde elas te fecham
Se cortam 
Unhas voltadas para dentro

Pensa as cicatrizes
Porque eu não soube ….
Pensá-las.

Mário Fragoso

31 de outubro de 2016

Poema em Linha Recta .... Fernando Pessoa







Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de HOTEL,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa

25 de outubro de 2016

TU TENS UM MEDO de Cecília Meireles





Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.



Cecília Meireles


19 de outubro de 2016

Sonho. Não sei quem sou....Fernando Pessoa






Sonho. Não Sei quem Sou

Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
             Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
             Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contêm. 
Dorme inconsciente de alheios corações, 
             Coração de ninguém. 


Fernando Pessoa

30 de janeiro de 2016



O grande poeta VICTOR CINTRA deixou-nos.
Fica o seu legado de poemas que permanecerão através dos tempos.
Partiu o amigo. Até um dia




Sinto crescer a vontade
De perceber se o que dizes,
Entre risadas felizes,
É ou não é a verdade,
Ou só disfarça deslizes.

Sinto crescer o desejo
De te cingir nos meus braços,
P'ra te prender com abraços,
E arrancar-te num beijo
Todos os teus embaraços.

Sinto crescer a ideia
De que, bem mais do que mostras,
São bem reais as propostas
Duma visão que incendeia
Esse viver, de que gostas.





VITOR CINTRA

18 de outubro de 2015


Deixo a brisa de leste banhar-me a face
A primavera resplandece de norte a sul
Com dez mil tons de vermelho
e dez mil tons de azul.

Chu Hsi (B China  Sé. IX)

4 de julho de 2015

Doce Tormento




Se eu fosse colibri, voando de flor em flor
deixaria na tua boca, o néctar do meu amor.

Sei que cheiro a jasmim e danço como uma flor
quando o vento me embala, nos braços do teu amor

Tenho na boca o riso, da papoila rubra em flor
Que te murmuro ao ouvido, sonetos do meu amor

Imaria



22 de abril de 2015

Dança do Vento de Afonso Lopes Vieira








O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia. 
Baila, baila e rodopia 
E tudo baila em redor. 
E diz às flores, bailando: 
- Bailai comigo, bailai! 
E elas, curvadas, arfando, 
Começam, débeis, bailando. 
E suas folhas, tombando, 
Uma se esfolha, outra cai. 
E o vento as deixa, abalando, 
- E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor. 
E diz às altas ramadas: 
Bailai comigo, bailai! 
E elas sentem-se agarradas 
Bailam no ar desgrenhadas, 
Bailam com ele assustadas, 
Já cansadas, suspirando; 
E o vento as deixa, abalando, 
E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 
E diz às folhas caídas: 
Bailai comigo, bailai! 
No quieto chão remexidas, 
As folhas, por ele erguidas, 
Pobres velhas ressequidas 
E pendidas como um ai, 
Bailam, doidas e chorando, 
E o vento as deixa abalando 
- E lá vai! 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 
E diz às ondas que rolam: 
- Bailai comigo, bailai! 
e as ondas no ar se empolam, 
Em seus braços nus o enrolam, 
E batalham, 
E seus cabelos se espalham 
Nas mãos do vento, flutuando 
E o vento as deixa, abalando, 
E lá vai!... 
O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia, 
Baila, baila e rodopia, 
E tudo baila em redor! 

9 de março de 2015

Dorme Enquanto Eu Velo...

Dorme enquanto eu velo... 
Deixa-me sonhar... 
Nada em mim é risonho. 
Quero-te para sonho, 
Não para te amar. 

A tua carne calma 
É fria em meu querer. 
Os meus desejos são cansaços. 
Nem quero ter nos braços 
Meu sonho do teu ser. 

Dorme, dorme, dorme, 
Vaga em teu sorrir... 
Sonho-te tão atento 
Que o sonho é encantamento 
E eu sonho sem sentir. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

8 de novembro de 2014

Como é por dentro outra pessoa.......Fernando Pessoa




Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa

12 de setembro de 2014

Eu Quero, Eu Quero.... Sylvia Plath



De boca aberta, o deus recém-nascido
imenso, calvo, embora com cabeça de criança,
gritou pela teta da mãe.
Os vulcões secos calaram e cuspiram,

a areia esfolou o lábio sem leite.
Gritou então pelo sangue paterno
que agitou a vesta, o tubarão e o lobo
e veio engendrar o bico do ganso.

De olhosa secos, o inveterado patriarca
ergueu seus homens de pele e osso:
farpas sobre a coroa de fio dourado,
espinhos nas hastes sangrentas da rosa.

Silvya Plath ( 1932-1963)
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

Livro "A Rosa do Mundo"

11 de agosto de 2014

Porque o Fim de Um Caminho... José Bento



Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.

Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minhas pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
- e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito da matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.

José Bento- 1932


25 de julho de 2014

Cartas ... Imaria 2014


Pois é, amor...

De nada adianta dizer para mim mesma, que te vou esquecer, se o meu coração continua, teimosamente a pertencer-te.
É complicado querer gerir a cabeça, que vacila entre a lógica e o romance, se as tuas lembranças teimosamente me acompanham.
Uma vez disseste que não me pertencias, porque socialmente não me pertences.
Como sempre, consegues ver as coisas com lógica e realidade. Infelizmente, apaixonei-me por ti, fui irresponsável, eu sei, deveria ter pensado em tudo, principalmente nas consequências de querer viver um amor tardio.
No inicio, pensei que conseguiria manter a situação sob controle, que nada mais entre nós se passaria para além de alguns beijos e troca de doces palavras, afagos para os nossos pardos egos, sedentos de amor e atenção, ausentes nos nossos longos e debilitados casamentos.
Quase um ano depois de nos conhecermos, na altura em que sofreste o AVC, e eu correr pelos hospitais como uma louca a fim de te encontrar, havíamos de viver essa paixão que por nós esperava.
 Nessa altura, apercebi-me ter ultrapassado a barreira do controlável " flirt ", e que despertara em nós, o nobre sentimento do amor.
 Aquando do nosso reencontro, já não restavam dúvidas.
Tudo para mim era claro, amava-te como uma adolescente, a quem tardiamente era dada a oportunidade de viver uma paixão jamais sentida ou imaginada.  A minha adolescência foi uma breve passagem precocemente interrompida aos 17 anos, pelo casamento.
Fico grata à vida pela dádiva do amor aos 47 anos, ao qual me entreguei por completo contigo.
Hoje, não que esperasse que desses notícias,  dei por mim, várias vezes a consultar o visor do telemóvel, como se esperasse por uma  mensagem tua.

Sim, eu sei que te pedi para não nos contactarmos mais, e sei também que o cumprirás, não só porque me respeitas, mas sobretudo, porque sabes que não faço parte da tua vida, e foges com medo de compromissos e de enfrentar as situações.

Talvez por começarem as saudades a apertar, hoje durante todo o dia me acompanhou um aperto na garganta e esta insistente saudade  de ti.

Dorme bem meu amor

25 Jan 2014
Imaria

30 de junho de 2014

Passagem das Horas.... poema de Álvaro de Campos




Trago dentro do meu coração, 
Como num cofre que se não pode fechar de cheio, 
Todos os lugares onde estive, 
Todos os portos a que cheguei, 
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, 
Ou de tombadilhos, sonhando, 
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. 

Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa

21 de maio de 2014

António Aleixo




Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

António Aleixo

13 de abril de 2014

Quando Eu For Pequeno..... José Jorge Letria



Quando Eu For Pequeno
Quando eu for pequeno, mãe, 
quero ouvir de novo a tua voz 
na campânula de som dos meus dias 
inquietos, apressados, fustigados pelo medo. 
Subirás comigo as ruas íngremes 
com a certeza dócil de que só o empedrado 
e o cansaço da subida 
me entregarão ao sossego do sono. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
os teus olhos voltarão a ver 
nem que seja o fio do destino 
desenhado por uma estrela cadente 
no cetim azul das tardes 
sobre a baía dos veleiros imaginados. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
nenhum de nós falará da morte, 
a não ser para confirmarmos 
que ela só vem quando a chamamos 
e que os animais fazem um círculo 
para sabermos de antemão que vai chegar. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
trarei as papoilas e os búzios 
para a tua mesa de tricotar encontros, 
e então ficaremos debaixo de um alpendre 
a ouvir uma banda a tocar 
enquanto o pai ao longe nos acena, 
lenço branco na mão com as iniciais bordadas, 
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno 
e a orfandade até nos olhos deixa marcas. 

31 de janeiro de 2014

Foi um momento .... poema de Fernando Pessoa



Foi um momento 

O em que pousaste 
Sobre o meu braço, 
Num movimento 
Mais de cansaço 
Que pensamento, 
A tua mão 
E a retiraste. 
Senti ou não ? 

Não sei. Mas lembro 
E sinto ainda 
Qualquer memória 
Fixa e corpórea 
Onde pousaste 
A mão que teve 
Qualquer sentido 
Incompreendido. 
Mas tão de leve!... 

Tudo isto é nada, 
Mas numa estrada 
Como é a vida 
Há muita coisa 
Incompreendida... 

Sei eu se quando 
A tua mão 
Senti pousando 
‘Sobre o meu braço, 
E um pouco, um pouco, 
No coração, 
Não houve um ritmo 
Novo no espaço? 

Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses 
Para dizer 
Qualquer mistério, 
Súbito e etéreo, 
Que nem soubesses 
Que tinha ser. 

Assim a brisa 
Nos ramos diz 
Sem o saber 
Uma imprecisa 
Coisa feliz. 


FERNANDO PESSOA