13 de Setembro de 2008

Filha de Um Amor Proibido - Isabel Valente




Os jovens de hoje não sabem que, na minha geração, haviam
crianças nascidas fora do casamento, e em cujo registo pessoal
constava o nome da Mãe, tendo por pai, um “ Pai Incógnito”.
Estas crianças, eram estigmatizados como, os filhos do pecado,
da vergonha, os filhos da outra.

Eram os filhos fora do casamento, os bastardos.
É que o registo obrigatório com nome de pai é recente, e eu já
sou "Cota".

Para a nova geração onde todos à nascença são registados com o
nome de mãe e de um pai, verdadeiro ou não, não lhes é fácil
entender o que é viver com o facto diário de ser filha de” pai
incógnito”.

Tendo eu passado por essa experiência, não me é difícil
explicar o que é ser filha de Pai Incógnito.
Hoje na maioria das Repartições Públicas todas achamos uma
grande maçada, ter de preencher formulários, para mim, passou
a ser, uma bênção.

Em alguns desses formulários tinha de mencionar o nome de Mãe
e de Pai, então lá vinha o tormento ---Pai Incógnito --- .
Isto era dito em voz baixa, tentando que ninguém ouvisse, na
maioria dos casos não resultava, por esse mesmo motivo, era
obrigada a repetir mais alto, sendo motivo para que toda a
plateia se virasse para ver quem era a santa alminha que era
fruto de tamanho pecado, e mais, ser confrontada com olhares
de censura indirecta, em alguns casos estampado um leve
sorriso de superioridade, e talvez que, se eu lhes lesse o
pensamento…estaria lá bem patente “ aquela é filha da mãe”.
O mesmo acontecia na escola, sempre que a professora me
perguntava o nome dos meus pais, eu respondia o nome da minha
mãe, ela, pensando que eu não tinha entendido que o pretendido
era nome dos PAIS, lá eu era obrigada, envergonhadamente a
dizer “Pai Incógnito “

Ser filha de Pai Incógnito no meu caso, era doloroso,
porquanto não me conformava em conhecer o meu PAI e ser
reconhecida por ele, e esse facto não ser aceite pela própria
sociedade .

A censura ao mesmo tempo recai , naquele homem que traiu a
esposa, e que nem se envergonha do seu próprio pecado, quando
se proclama pai .

A filha de Pai Incógnito, cuja responsabilidade de estar
vivendo esse “ horror “ era o pecado dos progenitores , o
Pecado de um Amor Proibido……sendo eu portanto, a filha de um
amor proibido.

Ser filha de Pai Incógnito, é também sentir nos nossos meios
irmãos esse rancor, porque somos a vergonha que manchou o seio
da sua família, a mágoa com que a mãe deles acorda e adormece.

Outra mesma frente de retracção, se verifica nos outros meios
irmãos, os filhos do novo casamento da mãe, esses sim, filhos
de um pai e de uma mãe, que têm na família um patinho feio,
que lhes lembra não a traição da mãe, mas o pecado dela.
Isso que atrás descrevi é a minha experiência, sentida na pele
de criança.

Hoje a sociedade mudou, existem filhos de pais assumidos que
nunca viram a cara dos seus filhos, nunca pegaram neles ao
colo, nunca lhes deram tão pouco, um pouco de carinho…..ou
mesmo, um pedaço de pão.

Meu Pai, Homem de bem, homem culto e com uma visão fora da sua
época, nunca precisou de Instituições que o obrigassem a
reconhecer as suas obrigações de Pai , no sentido amplo da
palavra, soube ultrapassar todos os obstáculos, próprios da
época afirmando aos amigos e família sem nenhum tipo de
preconceito: ” Esta é a minha filha”.

Felizmente foram ultrapassadas essas Imposições de uma
sociedade fascista, falsa e preconceituosa.
Hoje só quero mesmo é relembrar o homem que adorei, que adoro
e a quem chamei Pai, sem que por isso tenha de exibir o BI….a
minha homenagem a ele , meu PAI.

A minha homenagem à minha MÃE, que foi marginalizada, apontada
pela sociedade, que viveu esse amor, pagando caro o seu
“pecado” .

Benditos sejam os dois, que pecaram para que eu
existisse, e hoje esteja aqui falando para a nova geração
sobre a minha experiência de ser filha de Pai Incógnito.


O nome dessa grande Mulher, minha MÃE é ELVIRA, nome dado também á minha neta.

O nome do HOMEM, mais PAI e corajoso que alguma vez conheci e do qual me orgulho é
JOÃO.


20 comentários:

  1. Comentários- Filha de Um Amor Proibido

    Name: Jose Mota
    Email Address: j.mota@mail.pt

    Oi pessoal
    Este artigo que a autora do blog postou é de uma profundidade de muito nivel.Ele traça uma panorâmica de uma situação que , infelizmente ,acontecia com alguma frequência em tempos bem recentes .É sempre bom que alguem relembre o passado o que a autora faz com muito brilho.Beijinhos para ela

    ResponderEliminar
  2. Name: João
    Email Address: joaovitor4@msn.com

    São sempre as crianças quem sofre as consequências dos actos dos adultos. A vergonha, o ostracismo, as dolorosas marcas que, na meninice, as atitudes de quem parece querer culpar a criança por situações de que não é responsável e para as quais não contribuiu, são, pela pena da autora, superiormente evidenciadas.
    São testemunhos como este teu que nos obrigam a reflactir.
    Um abraço, Mulher_Mariense.
    João

    ResponderEliminar
  3. Name: Maria
    Email Address: blogela@hotmail.com
    URL: http:blogela.blogspot.com



    Muito bonito, muito sentido!
    Um abraço
    Maria

    ResponderEliminar
  4. Name: Sniper
    Email Address:

    Muito bonito, um beijo!

    ResponderEliminar
  5. Name: PParece
    Email Address: pauloparece@sapo.pt
    URL: http://www.botafaladura.blogspot.com


    Excelente "posta". Com sentimento e realismo próprio de quem já viveu essa angustia. Felizmente os tempos mudaram, e prova disso mesmo é o facto de falarmos sem tabús nem medos.
    Adorei. Beijinhos

    ResponderEliminar
  6. Name: Amaranta Úrsula
    Email Address:




    Um pequena curiosidade histórica, creio mesmo caso único: Eça de Queirós era filho de mãe incógnita (e pai identificado).

    ResponderEliminar
  7. Name: António João Correia
    Email Address: antoniojoao@yahoo.com
    URL: http://www.resistir.blogspot.com



    Texto notável, do melhor que li. Deveria ser obrigatório para os políticos que temos, para os moralistas de serviço. No entanto, não acho que a sociedade açoriana tenha mudado muito

    ResponderEliminar
  8. Sim, uma realidade que era tão comum. Eu sou mâe de um filho que foi de pai incógnito durante 10 anos, mesmo já depois da nova lei e por incapacidade dos serviços judiciais Portugueses. Esse embaraço também me assaltou durante toda a primária dele, quando nas inscrições era preciso dizer o nome, e ele tadinho deve o ter sentido como tu. O pai apareceu quando ele tinha 10, nunca se tinham visto, como um heroi, só que o miudo recusou ficar com o apelido dele no nome. O homem deu-lhe nome no registo mas amoou e nunca mais voltou a aparecer. O meu filho preferere o embaraço de ser incógnito do que ter o nome ligado a alguém que ele considera "um palhaço". O meu filho tem 18 anos.
    Só pelo facto de teres um pai amoroso "Alma de Poeta" és uma pessoa cheínha de sorte, e que toda a dor que a sociedade te impôs, seja obliterada pelo amor do teu pai. Bem hajas, tu que produzes tanta beleza :)*

    ResponderEliminar
  9. Esta tua historia tocou-me profundamente. Fez-me lembrar uma outra historia de uma mulher que muito amo, e que viveu um amor quase impossivel, que lutou com todas as suas forças por aquele que sabia ser o homem da sua vida, contra uma sociedade que nunca olhou com bons olhos esse amor, que o apontou, que o criticou, enfim... Desse amor nasceram 5 filhas, as primeiras também foram registadas como sendo filhas de pai incognito, não lhes importou esse facto, a elas ou a essa mãe. Ele era um pai o mais dedicado possivel, um bom pai. Mas, quando a sua filha mais nova tinha 3 anos, ele morreu vitima de um acidente de viação. Ela ficou com 5 filhas todas pequeninas, sozinha já que a familia nunca aceitou essa união. Numa altura em que tudo era tão dificil, mas ela persistente voltou a lutar contra tudo e contra todos, e sim, saiu vencedora! Essa mulher foi minha avó! A admiração que lhe tenho é imensa! Obrigada por trazeres aqui esta tua historia, deixo-te um beijo enorme! Tem um dia feliz!

    ResponderEliminar
  10. { ... tocou-me profundamente o que escreves… nunca tinha pensado no caso… chegando a (mesma) conclusão: benditos sejam os que pecaram, para que tu
    existisses ... }{ beijos* }

    ResponderEliminar
  11. Gostei muito de ler o teu testemunho de uma realidade que era sentida por muitas crianças há uns bons anitos atrás. A situação mudou um pouco em termos legais, não sei é se isso se reflecte no dia a dia das crianças nessas situações. Obrigada por partilhares connosco a tua experiência. Beijinhos

    ResponderEliminar
  12. Querida Amiga,

    Começo por saudar a tua coragem, de num magnifico texto, partilhares com connosco o que te ia na Alma.

    O casamento institucional é uma praxe para sossego da maioria de muitas cabecinhas. Porque no seu entender, é o socialmente correcto. Não havendo a preocupação por parte dessas cabecinhas, de chamados racionais, para a descoberta, constatação e aprofundamento do Amor.

    De pequeninos incutiam-nos no nosso espirito que somos "filhos do pecado", independentemente da união entre dois Seres ter sido legitimada pelos "sagrados sacramentos do matrimónio" ou fora dele.

    Tem sido sempre essa a postura criminosa, de castração de consciências e de mentira, da maioria da hierarquia da designada Igreja Católica.

    Procura no meu Blog, o meu Poema "O Dito Senhor". Foi dedicado ao meu avô materno. Sacerdote católico. Um dia, talvez ainda escreva um texto sobre o estigma que acompanhou a minha Mãe até à sua morte.

    Doces e Fraternos Beijos para uma Pérola no Atlântico,

    ResponderEliminar
  13. Benditos sejam os dois que pecaram, para que tu
    existisses e, hoje estejas aqui falando para a nova geração sobre a tua experiência de ser filha de Pai Incógnito. Peguei o teu texto com a intenção de elogiar os teus pais e a ti. Mereces tudo de bom. Há ainda outras situações: o homem pai, que não sendo incógnito, reage como tal, portanto pai reconhecido, filhos incógnitos... São "dores" que marcam gerações e há sempre o olhar atento da sociedade ao que quer que seja.
    Espero que tenhas recebido uma carta minha há uns dias.
    Um abraço e parabéns por seres como és: Filha de um Amor!
    Azoriana

    ResponderEliminar
  14. Infelizmente Isabel as coisas ainda não são assim tão lineares.
    Conheço um caso em que a mãe se recusa a dizer o nome do pai e a miúda continua a ser filha de pai incógnito.
    Não entendo esse procedimento pq a mãe é tb ela filha de pai incógnito. Será uma espécie de vingança?
    Foi um excelente testemunho.
    Não me admira, vindo de ti, pessoa muito sensível.
    Um beijo minha amiga

    ResponderEliminar
  15. Belo texto, bela homenagem à tua Mãe e ao teu pai. Parabéns pela pessoa em que te transformaste.

    ResponderEliminar
  16. Porque é que ler este desabafo me tocou tanto?... Não sei!
    Porque é que relê-lo me toca ainda mais?... Que importa!
    Bem hajas pela devoção que demonstras ter por quem te gerou por amor.
    Beijos.
    João

    ResponderEliminar
  17. Eu faço parte da nova geração essa q n apresenta "Pai Incógnito" no BI, no entanto apesar d saber o nome do meu pai ele nunca participou na minha vida, nunca esteve presente em nenhuma situação boa ou má...
    No entanto foram muitas as vezes q os meus colegas me atacaram com frases como: 'cala-te! tu nem sequer sabes se o teu pai existe ou n...' ou então estava estanpado na cara das pessoas, tal como é referido no post, acharem q eu era uma 'filha da mãe'.
    Agora pouco me importa o q as pessoas dizem a esse reipeito ou n... mas o q me disseram em criança doeu mto!

    bjos pra tds

    ResponderEliminar
  18. Come Visit Santa at his blog and tell him what you want for Christmas,

    ResponderEliminar
  19. Adorei o post. Talvez porque também fui registado como filho de pai incógnito. Fui perfilhado pelo actual marido da minha mãe quando tinha 8 anos.

    Sempre quis saber quem era o meu pai mas sempre me deparei com um enorme muro de silêncio. Felizmente tive uma óptima professora de Moral que me ajudou a encontrá-lo. Falei duas vezes com ele mas sempre negou ser o meu pai, e negou fazer um teste de ADN... Sei que tenho mais irmãos em Lisboa e arredores, gostava de os encontrar...

    Não me esquecerei que nunca me consegui sentir em casa, tive sempre a impressão de estar "a mais" e hoje com quase 41 anos, estou com uma depressão, no ano passado fiquei 6 meses de baixa e lá me vou reconpondo. Por ordem do Psiquiatra tenho de evitar o contacto com a família. Na 2a feira ao ver o Praça da Alegria vi uma moça em que os pais tudo fizeram para a ver licencia-se. Os meus nem sequer vieram, o que interessava eram os resultados da escola. Os meus problemas nunca interessavam, como uma vez me disseram, "deves ter od teus problemas mas não nos chateies com isso, não temos nada a ver com eles".

    Posso dar aos meus 3 filhos uma vida normal, sem segredos e sem tabús. São felizes, e ajudam-me muito. Mas há certas coisas que nunca serão preenchidas, apenas quem passou por elas as compreende!

    ResponderEliminar