20 de julho de 2004

VICTORINO NEMÉSIO - Poemas

A Concha

A minha casa é concha.Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés,a sonhos e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda,vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro,e escadarias
Frágeis,cobertas de hera,on bronze falso!
Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva,aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

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O recorte de um cão,na areia,ao luar,
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso,o fio da noite!
-E amar,esperar desta maneira!

Numa cidade deserta
(Talvez outra,ou Nínive)
Encontrei um anel,uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi em vão,
E até nem sei se esse osso tivem




VICTORINO NEMÉSIO

4 comentários:

  1. não é muito comum encontrar Vitorino Nemésio na blogolândia. Agradecida pelo prazer que me facultaste a esta hora. Tem uma boa noite.

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  2. Um dos grandes vultos do século XX.
    Nunca perdia o seu programa televisivo.
    Sabes que já estive para te o sugerir?
    Temi que te zangasses comigo.
    Fico muito contente por o encontrar..
    Beijitos Isabel.
    E desculpas por não ter vindo mais cedo, mas como poderás confirmar pouco tenho colocado no blog. Atingi o ponto máximo de exaustão.

    Beijos minha amiga

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  3. reli Nemésio. Naturalmente!
    deixo um abraço.
    http://amoergosum.blogs.sapo.pt

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  4. Excelente escolha. Aliás, todas as tuas escolhas são soberbas e levam-me por memórias passadas. :) Bjitos e boa semana

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