16 de maio de 2004

* Para Quê? * poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO " Porquê? "

PARA QUÊ?

Saí de mim em busca de ventura,
Daquele bem que em vão idealizei
Minha esperança fez-se mais escura
Quando sem nada, nada, a mim voltei.

De tudo que me inquieta e me tortura
Do quanto eu cegamente acreditei,
Apenas se mantém impune e pura
Esta paixão que sempre te doei!

E pergunto a mim mesmo para quê
Se tenta crer no quanto se não vê,
Se dentro em nós não arde, não aquece,

A labareda ardente de um amor
Capaz de transformar a própria dor
Em alegria que jamais perece?!

Lopes de Araújo " Horas Contadas

11 de maio de 2004

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO poema " FIM "

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro!



Mário de Sá-Carneiro

8 de maio de 2004

ANTÓNIO ALEIXO - " Quadras "

De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.


A comerçar pelo «urso»
De Coimbra, a estudantada,
Só quando se acaba o curso,
Sabe que não sabe nada.


Alheio ao significado,
Diz o povo, e com razão,
Quando ouve um grande aldrabão:
_ Dava um bom advogado.


Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!


Foste beijar o menino,
Quando, afinal eu vi bem
Que beijaste o pequenino
Porque gostavas da mãe.


Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei,
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.


Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.


Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.


António Aleixo