26 de agosto de 2007

Almada Negreiros " MÃE "



Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede ! Eu prometo saber viajar .

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe!Ata as tuas mãos ás minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.


Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!


Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade !



Almada Negreiros

(1893-1970)


Do Livro " ROSA DO MUNDO "

4 comentários:

  1. Alma de Poeta

    De Almada Negreiros apenas li " Nome de Guerra".

    Continua .....

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  2. Que bom alguém a homenagear o Mestre e as Mestras que são ou foram as nossas mães, tesouros infinitos... para sempre. Obrigado pelo teu generoso comentário no meu blog.

    Beijo

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  3. "a tua mão na minha cabeça"...

    Bem lindo.Agradeço lembrares-te de mim.

    Beijinho doce

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  4. No sublime te li...

    Preso na tua mão amarrotado papel
    Que largas no meio da rua
    Consagrando a certeza, eu e tu,
    Somos a luz que continua

    A lonjura desenha uma cruel ironia
    Cobre o sentimento, no vale da distância
    Deixa gravada no basalto negro
    A tua doce lembrança

    Boa semana

    Profético beijo

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