27 de janeiro de 2008

Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

12 de janeiro de 2008

* BRUMAS * Poema de Vitor Cintra





Nas brumas dos meus silêncios
Nascem visões encantadas,
Com ninfas, bruxas e fadas,
Sonhos de amor, sempre densos.

Nas brumas dos meus silêncios,
Onde os mistérios são nada,
Surgem paixões exaltadas,
Feitas desejos, imensos.

Nascem lembranças, eivadas
De sensações adiadas
E cheiros breves, intensos,

Sem ilusões ansiadas,
Em desespero, guardadas
Nas brumas dos meus silêncios.


VITOR CINTRA
do livro " MURMÚRIOS "

7 de janeiro de 2008

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"





Montei minhas asas brancas
e corri
para ti
à velocidade do amor
...fugias louca
rubra
informe
mais célebre
mais célebre ainda
mas num amplexo
parido
na furia
do meu desejo
absorvi
teu corpo
espuma ...

Desapareceste
de meus braços
teu cheiro teu som
teu eco se desfez no horizonte
em pó em vento em nada

Derrotado
Inerte



Fernando Monteiro

Do livro " Mar Branco "


Ilha de S.Maria - Açores

2 de janeiro de 2008

" NÓS "
poema de VITOR CINTRA




P'ra todos nós o segredo
Duma vivência serena,
Vem de mão dado co'o medo;
Que torna a vida pequena,
Atroz.

Quantos de nós fomos reis
Duma utopia sem par?
Quantos ditámos as leis
Num reino de imaginar? ...
Sem voz! ...

Quantos de nós fomos pajens
Dalgum senhor que há nos sonhos?
Quantos fizemos viagens
Rasgando mundos medonhos? ...
Mas sós! ...

Quantos de nós, por desejo
De desvendar o mistério,
Fomos perdendo o ensejo
De ver aquilo que é sério,
Em nós? ...




Vitor Cintra


do Livro " Murmúrios "