24 de março de 2010

O Afecto das Palavras de DANIEL GONÇALVES















Se precisares de mim estou sob o teu ventre
trazendo da terra a água para o teu coração

quero que respires como a nossa ameixieira
e como ela te ergas sobre o rosto da manhã

quero que ouças o meu sangue dentro de ti
como um relógio marcando o pulso da sede

e que nesse sopro de música saibas o amor
e nem uma palavra te atravesse a respiração.


DANIEL GONÇALVES
do livro " O Afecto das Palavras "

18 de março de 2010

Aqueles Que Me Têm Muito Amor....FLORBELA ESPANCA
















Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.


E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!






Florbela Espanca

17 de março de 2010

" A VIDA " poema de JOÃO DE DEUS















A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;


A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!


A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:


Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

JOÃO DE DEUS

6 de março de 2010

"AO SAL" poema de Fernando Campanella

















Nega-me tua alma –
Esta minha alma mesma
Que me furtas -
E é o degredo irremediável
que, em troca, me concedes.
Nega – me tua chama
Que tremula no delírio dos deuses,
Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos,
Nega-me, nega-me tua espuma
Que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)
E é sem minhas fontes que me deixas,
Sem meu ar extasiado.
Nega-me teu mar, tua tempestade,
O sonho e a fantasia,
E me deixas a seco ,ao sal amargo
De cada dia.
Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo
Que a felicidade, embora utopia das sombras,
É também certa luz incidente
Que só de teu olhar
meus olhos como bênção recebem.




Fernando Campanella

1 de março de 2010

Leio o amor no livro.... NUNO JÚDICE














Leio o amor no livro

da tua pele;demoro-me em cada
sílaba,no sulco macio
das vogais,num breve obstáculo
de consoantes,em que os meus dedos
penetram,até chegarem
ao fundo dos sentidos.Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam,como corpos,no abraço
de cada frase.E chego ao fim
para voltar ao princípio,decorando
o que já sei,e é sempre novo
quando o leio na tua pele.






Nuno Júdice