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O Afecto das Palavras de DANIEL GONÇALVES

Se precisares de mim estou sob o teu ventre trazendo da terra a água para o teu coração quero que respires como a nossa ameixieira e como ela te ergas sobre o rosto da manhã quero que ouças o meu sangue dentro de ti como um relógio marcando o pulso da sede e que nesse sopro de música saibas o amor e nem uma palavra te atravesse a respiração. DANIEL GONÇALVES do livro " O Afecto das Palavras "

Aqueles Que Me Têm Muito Amor....FLORBELA ESPANCA

Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou... Não sabem que passou, um dia, a Dor À minha porta e, nesse dia, entrou. E é desde então que eu sinto este pavor, Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e onde vou! Sinto os passos de Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar! E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar! Florbela Espanca

" A VIDA " poema de JOÃO DE DEUS

A vida é o dia de hoje, A vida é ai que mal soa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que voa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvai: A vida dura num momento, Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cai! A vida é flor na corrente, A vida é sopro suave, A vida é estrela cadente, Voa mais leve que a ave: Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares, Uma após outra lançou, A vida – pena caída Da asa da ave ferida De vale em vale impelida A vida o vento levou! JOÃO DE DEUS

"AO SAL" poema de Fernando Campanella

Nega-me tua alma – Esta minha alma mesma Que me furtas - E é o degredo irremediável que, em troca, me concedes. Nega – me tua chama Que tremula no delírio dos deuses, Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos, Nega-me, nega-me tua espuma Que regurgita no sonho das aves (eu sou o teu infante pássaro) E é sem minhas fontes que me deixas, Sem meu ar extasiado. Nega-me teu mar, tua tempestade, O sonho e a fantasia, E me deixas a seco ,ao sal amargo De cada dia. Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo Que a felicidade, embora utopia das sombras, É também certa luz incidente Que só de teu olhar meus olhos como bênção recebem. Fernando Campanella

Leio o amor no livro.... NUNO JÚDICE

Leio o amor no livro da tua pele;demoro-me em cada sílaba,no sulco macio das vogais,num breve obstáculo de consoantes,em que os meus dedos penetram,até chegarem ao fundo dos sentidos.Desfolho as páginas que o teu desejo me abre, ouvindo o murmúrio de um roçar de palavras que se juntam,como corpos,no abraço de cada frase.E chego ao fim para voltar ao princípio,decorando o que já sei,e é sempre novo quando o leio na tua pele. Nuno Júdice

"O Amor tem Asas de Ouro" poema de NATÁLIA CORREIA

Creio nos anjos que andam pelo mundo, Creio na deusa com olhos de diamantes, Creio em amores lunares com piano ao fundo, Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, Creio num engenho que falta mais fecundo De harmonizar as partes dissonantes, Creio que tudo é eterno num segundo, Creio num céu futuro que houve dantes, Creio nos deuses de um astral mais puro, Na flor humilde que se encosta ao muro, Creio na carne que enfeitiça o além, Creio no incrível, nas coisas assombrosas, Na ocupação do mundo pelas rosas, Creio que o amor tem asas de ouro. Amén. Natália Correia

Nos olhos de Isa....poema de JOAQUIM PESSOA

Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite Acende fogueiras. Os meus olhos param. Nos olhos de Isa. Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde. Nos olhos de Isa. Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas, Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra. Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel Onde as abelhas constroem a tarde Desesperadamente. Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão. JOAQUIM PESSOA