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Mensagens

Eu Quero, Eu Quero.... Sylvia Plath

De boca aberta, o deus recém-nascido imenso, calvo, embora com cabeça de criança, gritou pela teta da mãe. Os vulcões secos calaram e cuspiram, a areia esfolou o lábio sem leite. Gritou então pelo sangue paterno que agitou a vesta, o tubarão e o lobo e veio engendrar o bico do ganso. De olhosa secos, o inveterado patriarca ergueu seus homens de pele e osso: farpas sobre a coroa de fio dourado, espinhos nas hastes sangrentas da rosa. Silvya Plath ( 1932-1963) Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Livro "A Rosa do Mundo"

Porque o Fim de Um Caminho... José Bento

Porque o fim de um caminho sempre me entregou o limiar de outro caminho, o verde de um campo ou de um corpo adolescente, espero que regresse à minha voz a luz que no primeiro dia a fecundou e a terra que é o contorno dessa luz. Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra e de minhas mãos a água necessária à minha sede, ergo de mim a noite residual do que vivi e canto, canto provocando a madrugada. Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão minhas pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas, deixo essa glória aos outros - e exalto o meu nascimento e cada dia em que renasço e procuro a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios. Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água, eu sou o fogo e a água: por mim os cadáveres e quanto é feito da matéria dos cadáveres libertar-se-ão em chamas, serão claridade e chegarão a pão pela dádiva das cinzas, a última dádiva, a total. José Bento- 1932

Cartas ... Imaria 2014

Pois é, amor... De nada adianta dizer para mim mesma, que te vou esquecer, se o meu coração continua, teimosamente a pertencer-te. É complicado querer gerir a cabeça, que vacila entre a lógica e o romance, se as tuas lembranças teimosamente me acompanham. Uma vez disseste que não me pertencias, porque socialmente não me pertences. Como sempre, consegues ver as coisas com lógica e realidade. Infelizmente, apaixonei-me por ti, fui irresponsável, eu sei, deveria ter pensado em tudo, principalmente nas consequências de querer viver um amor tardio. No inicio, pensei que conseguiria manter a situação sob controle, que nada mais entre nós se passaria para além de alguns beijos e troca de doces palavras, afagos para os nossos pardos egos, sedentos de amor e atenção, ausentes nos nossos longos e debilitados casamentos. Quase um ano depois de nos conhecermos, na altura em que sofreste o AVC, e eu correr pelos hospitais como uma louca a fim de te encontrar, havíamos de viver essa paixã...

Passagem das Horas.... poema de Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração,   Como num cofre que se não pode fechar de cheio,  Todos os lugares onde estive,  Todos os portos a que cheguei,  Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,  Ou de tombadilhos, sonhando,  E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.  Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa

António Aleixo

Não me dêem mais desgostos porque sei raciocinar... Só os burros estão dispostos a sofrer sem protestar! António Aleixo

Quando Eu For Pequeno..... José Jorge Letria

Quando Eu For Pequeno Quando eu for pequeno, mãe,   quero ouvir de novo a tua voz  na campânula de som dos meus dias  inquietos, apressados, fustigados pelo medo.  Subirás comigo as ruas íngremes  com a certeza dócil de que só o empedrado  e o cansaço da subida  me entregarão ao sossego do sono.  Quando eu for pequeno, mãe,  os teus olhos voltarão a ver  nem que seja o fio do destino  desenhado por uma estrela cadente  no cetim azul das tardes  sobre a baía dos veleiros imaginados.  Quando eu for pequeno, mãe,  nenhum de nós falará da morte,  a não ser para confirmarmos  que ela só vem quando a chamamos  e que os animais fazem um círculo  para sabermos de antemão que vai chegar.  Quando eu for pequeno, mãe,  trarei as papoilas e os búzios  para a tua mesa de tricotar encontros,  e então ficaremos debaixo de um alpend...

Foi um momento .... poema de Fernando Pessoa

Foi um momento  O em que pousaste  Sobre o meu braço,  Num movimento  Mais de cansaço  Que pensamento,  A tua mão  E a retiraste.  Senti ou não ?  Não sei. Mas lembro  E sinto ainda  Qualquer memória  Fixa e corpórea  Onde pousaste  A mão que teve  Qualquer sentido  Incompreendido.  Mas tão de leve!...  Tudo isto é nada,  Mas numa estrada  Como é a vida  Há muita coisa  Incompreendida...  Sei eu se quando  A tua mão  Senti pousando  ‘Sobre o meu braço,  E um pouco, um pouco,  No coração,  Não houve um ritmo  Novo no espaço?  Como se tu,  Sem o querer,  Em mim tocasses  Para dizer  Qualquer mistério,  Súbito e etéreo,  Que nem soubesses  Que tinha ser.  Assim a brisa  Nos ramos diz  Sem o ...