31 de dezembro de 2009

Insinceridade....pema de Vasco Graça Moura

















Quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco



Nem o cheiro a maresia
 rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

A vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

Sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada



Por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.




Vasco Graça Moura
 
 "Antologia dos Sessenta Anos"

3 comentários:

  1. sem saber bem o que busco.
    ----------
    A indefinição da existência!...
    -----------
    Felicidades.
    Manuel

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  2. A palavra é nova> insinceridade, mas coube bem nestes versos. Muito bonito!
    beijo, ótimo domingo

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