5 de dezembro de 2010

Os Ombros Suportam o Mundo .... de Carlos Drumond de Andrade




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drumond de Andrade

2 comentários:

  1. Naquele tempo
    eu acreditava no amor
    Deus era a própria natureza
    o colibri a flor
    tinha namorada
    e lhe mandava uma margarida
    e um poema de pura paixão
    comia chocolates de amêndoas
    nas tardes quentes de P.V
    assistia o balé das andorinhas
    tomando tacacá com murupi
    caminhava feliz
    mesmo com toda a ditadura
    tinha cabelos compridos
    desenhava cogumelos coloridos
    com lápis de cera
    e borboletas com hidrocores
    depois libertava-as na minha
    imaginação

    fumava meu cigarro industrial livremente
    comia meu cachorro-quente alienado
    com refrigerante artificial açucarado
    andava pela estrada de ferro madeira-mamoré
    curtia o pôr do sol no madeira
    dançava com os botos encantados
    encarnados pela água amarela

    hoje não tenho mais namorada
    apenas um mal me quer despetalado
    afogado espetado no vaso
    decaído pro lado da sombra
    as andorinhas e os botos foram extintos
    o Deus natureza foi morto na universidade
    a democracia restringiu quase tudo
    a madeira-mamoré e o pôr do sol no cai n água
    foram apagados pelas hidrelétricas
    e o amor se tornou um conceito inútil.

    Luiz Alfredo - poeta

    ResponderEliminar