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Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar.

* BRUMAS * Poema de Vitor Cintra

Nas brumas dos meus silêncios Nascem visões encantadas, Com ninfas, bruxas e fadas, Sonhos de amor, sempre densos. Nas brumas dos meus silêncios, Onde os mistérios são nada, Surgem paixões exaltadas, Feitas desejos, imensos. Nascem lembranças, eivadas De sensações adiadas E cheiros breves, intensos, Sem ilusões ansiadas, Em desespero, guardadas Nas brumas dos meus silêncios. VITOR CINTRA do livro " MURMÚRIOS "

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"

Montei minhas asas brancas e corri para ti à velocidade do amor ...fugias louca rubra informe mais célebre mais célebre ainda mas num amplexo parido na furia do meu desejo absorvi teu corpo espuma ... Desapareceste de meus braços teu cheiro teu som teu eco se desfez no horizonte em pó em vento em nada Derrotado Inerte Fernando Monteiro Do livro " Mar Branco " Ilha de S.Maria - Açores

" NÓS "
poema de VITOR CINTRA

P'ra todos nós o segredo Duma vivência serena, Vem de mão dado co'o medo; Que torna a vida pequena, Atroz. Quantos de nós fomos reis Duma utopia sem par? Quantos ditámos as leis Num reino de imaginar? ... Sem voz! ... Quantos de nós fomos pajens Dalgum senhor que há nos sonhos? Quantos fizemos viagens Rasgando mundos medonhos? ... Mas sós! ... Quantos de nós, por desejo De desvendar o mistério, Fomos perdendo o ensejo De ver aquilo que é sério, Em nós? ... Vitor Cintra do Livro " Murmúrios "

** RESPEITO **poema de VITOR CINTRA

Pelas beiras dos caminhos Sabe Deus quantos velhinhos Andarão neste Natal, Sem que o mundo à sua frente Lhes prometa que o presente Não será sempre o normal. Quando o hoje é semelhante Ao passado, já distante, Como o ontem foi igual, O futuro não existe Num presente, que é tão triste, Sem prever melhor final. O saber de muitos povos Determina que os mais novos Reconheçam no idoso, Na velhice, ter direito A viver com mais respeito E uns anos de repouso. Mas serão tão atrasados Esses povos, apontados Como gente mais selvagem?... Ou será que o ocidente, Se tornou tão indif'rente, Que resusa aprendizagem? ... VITOR CINTRA " Relances "

* TEUS LÁBIOS * poema de VITOR CINTRA

Teus lábios carnudos, Macios, veludo, Poemas de cor, Ainda que mudos Revelam, em tudo, Desejos, ardor; Em tempos tristonhos, Por falta, suponho, Das juras de amor, Teus lábios risonhos, Despertam o sonho, São beijos de flor. VITOR CINTRA do livro " Murmúrios "