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* OFICÍO DO AMOR * de Joan Salvat - Papasseit - Do Livro * ROSA DO MUNDO *

OFÍCIO DE AMOR Se conheces o prazer, não escatimes o beijo Pois o prazer de amar não comporta medida. Deixa-te beijar e beija tu depois, Que nos lábios sempre é onde o amor perdura. Não beijes, não, como o escravo e o crente, Mas como o viandante à fonte oferecida. Deixa-te beijar – ardente sacrifício – Quanto mais queima mais fiel é o beijo. Que terias feito se tu morresses antes, Sem mais fruto do que a aragem no rosto? Deixa-te beijar, e no peito, nas mãos - amante ou amada – a taça muito alta. Quando beijes, bebe, o copo sare o medo: Beija no pescoço, o sítio mais formoso. Deixa-te beijar, E se ainda te apetece Beija de novo, pois a vida é contada. Tradução de : JOSÉ BENTO Catalunha JOAN SALVAT – PAPASSEIT (1894-1924)

POEMAS DE AMOR do Livro " A Rosa do Mundo "

ELE : Quando embriagada pelo doce vinho viu os arranhões de amor que ela mesma me infligira partiu ofuscada pelo ciúme Tomando-a pela franja do seu sari detive-a ... Como esquecê-la quando me disse : “ Deixa-me,deixa-me! ” olhando para trás os olhos cheios de lágrimas os lábios tremendo de despeito O POETA : Os amantes arrastados pela torrente do seu amor e contidos pelo dique das pessoas mais velhas da casa estão ainda juntos mas não podem satisfazer os seus desejos Imóveis como se tivessem sido pintados bebem o néctar da paixão com que os brindam os negros lótus dos seus olhos ELA A UMA AMIGA: Quando o meu amante se deitou a meu lado por si só se desprendeu o meu cinto e mal suspenso da cintura o vestido deslizou-me pelos quadris É a única coisa que sei pois mal senti o contacto do seu corpo de tudo me esqueci: de quem era ele de quem era eu de como foi o nosso prazer ELE : Esmagados contra o meu peito os seus seios estremecem. Entre as suas coxas flui a seiva doce do amor... “ N...

Vinicius de Moraes * SONETO DO AMOR TOTAL *

SONETO DO AMOR TOTAL Amo-te tanto, meu amor... não cante, O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante, Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante, E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade, Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente, De um amor sem mistério e sem virtude, Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim, muito e amiúde, É que um dia em teu corpo de repente, Hei de morrer de amar mais do que pude Vinicius de Moraes

SIDONIO BETTENCOURT " MÚSICA CELESTIAL "

O vento consome-se. Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos. É o ciclone a enraizar invernias cuspido das latitudes as muitas sinfonias. O berço. O arpão no rasgo das rotas caça o maestro dono da ilha. Da casa. Leva o tecto do mar. O bafo das cagarras. O desafino. Levamos nos olhos o transporte. A carícia das mãos no corpo da rocha. A baleeira no canal à deriva. O vento consome-se com. Some-se. Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos. O esqueleto do mar rocha abaixo sem estaleiro. O que vai ser disto? Outra vez o rumo a destriur o leme e o cardume no colo do xaile. Outra vez outra voz a promessa adiada. Sidónio Bettencourt Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

MÃE do poeta JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

A minha Mãe É ela quem me afaga com carinho, Nos felizes momentos de ventura! É ela quem me fala de mansinho, Nas horas de tristeza e de amargura! E, junto dela, quanta vez, sonhando, Na minha infância alegre acalentei Tanta ilusão que o tempo foi gastando… Sonhos de amor que nunca mais sonhei! Ter mãe é ter na vida amparo e crença, E rumo e fé! É ver uma alvorada, Rompendo mansa a treva negra e densa Da noite da nossa alma torturada! … ********************** JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO do Livro " Noite de Alma "

NATÁLIA PAIVA poema " Criança "

Criança ... De encantadora inocência Olhar lindo, Repleto de ternura, Se me olhas assim, Eu choro! Abraça-me! Rodeia-me com teus bracinhos trémulos, Tão fortes na tua candura... Afaga-me! Deixa-me penetrar em teu mundo; Deixa-me aquecer meu coração arrefecido Pequenina, Como és grande para mim! Em meu regaço, Não sou eu que te afago, Que te acarinho, Que te rodeio de amor, Não permitindo que o teu mundo Seja perturbado pelos grandes ! ... Por um minuto, deixa-me pensar Que serás sempre criança ; Que não terás de deixar O teu mundo pequenino Para trilhar O ignoto turbilhão da vida ! ... Pequenina, afaga-me! Porque de nós dois, sou a grande Embora criança também. Aperto-te contra mim, Tão pequenina em meus braços; Tão pequenina, que te embalo E aperto-te muito...muito ! Mas gritas ... Magoei-te ! Vês ? Sou grande ! Sou egoista ! Apertei-te e tu choras-te. Eu choro ainda ... E afinal pequenita, A criança ... sou eu ! De Natália Paiva - Ilha de S. Maria - Açores Do Livro de ADRIANO FERR...

SIDÓNIO BETTENCOURT " Sem Resposta"

Já não quero ser brumaça com tentáculos nas mãos do fogo mas folha renascida brilho prata entre trigo repartido. De que lado moras tu? na presença abandonada dos raios da lua ou na serpente envenenada dos maios da rua ? Eu habito aqui. E tu porque partes se nos beijos do mar há canções algemadas no sonho diluídas? Eu quero ficar. Encher de verdade os gritos e transbordar as mãos caladas de infinitos. Sidónio Bettencourt Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "